Autor: ruthreis

  • Música, Livro, Filme

    Música, Livro, Filme

  • O Brasil é feito de samba 

    O Brasil é feito de samba 

    Conheça um pouco da história do ritmo que se consagrou como símbolo de resistência e conquistou o carnaval para o povo. 

    O Brasil iniciou o mês de março com mais uma demonstração do vigor de uma das suas mais expressivas riquezas culturais: o carnaval, movido a samba, alegria, e uma longa história de resistência. O samba é um ritmo musical genuinamente brasileiro. Nascido na Bahia, ele tem suas raízes nos escravizados africanos trazidos ao Brasil no século XVII. Embora sua composição contenha diversos ritmos africanos, o samba se manifesta de forma única no país. “Massemba é um ritmo africano de Angola, que é o pai do semba e do samba.

    O ritmo que nasce no Recôncavo Baiano é o samba de roda, que vem através da batida cabula. Essa batida é muito usada nos cantos dos terreiros da Nação Angola de candomblé (…) E é essa batida que origina o samba no Brasil”, explica o sambista Tunico da Vila. Desse modo, pode-se dizer que a forma mais ancestral do samba é o samba de roda baiano. No entanto, o ritmo ganhou novos contornos ao ser levado para o Rio de Janeiro, onde se espalhou pelas favelas e originou vertentes como o maxixe e o partido-alto.

    Com o passar do tempo, o samba continuou evoluindo. Nos anos 1990, surgiram os primeiros grupos de pagode. A palavra “pagode”, em sua definição original, significa uma reunião de sambistas. Embora muitos considerem o pagode, o samba de breque, o partido-alto e o samba-enredo como estilos distintos, todos pertencem à grande família do samba, diferenciando-se apenas pelas suas características específicas. O samba consolidou-se como um dos ritmos mais diversos do mundo e, em reconhecimento à sua importância cultural, foi declarado patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco.

    As escolas de samba e o carnaval 

    Dois anos após a Lei Áurea entrar em vigor no Brasil, a legislação criminalizou a chamada “vadiagem”. Segundo a nova lei, qualquer cidadão que fosse abordado na rua e não comprovasse estar trabalhando poderia ser preso. O samba também foi enquadrado como crime, refletindo não apenas uma questão “legal”, mas o preconceito de uma sociedade extremamente racista, recém-saída de um regime escravocrata. Bastava estar de posse de um instrumento de percussão, ter calos nos dedos ou participar de rodas de capoeira para ser punido.

    Foi apenas a partir da década de 1930, durante o governo nacionalista de Getúlio Vargas, que o samba passou a ser reconhecido como símbolo nacional. A primeira escola de samba surgiu em 1928, no Rio de Janeiro, com o nome “Deixa Falar”. As escolas de samba nasceram como associações populares e representaram o início da legalização do ritmo, além de possibilitarem a participação das camadas mais pobres no carnaval.

    Antes delas, o carnaval era uma festa exclusiva da elite, que promovia bailes de máscaras, corsos e ranchos carnavalescos, com desfiles luxuosos e trajes sofisticados. A entrada das escolas de samba no cenário carnavalesco mudou essa dinâmica, apesar da resistência e perseguição inicial. Dessa forma, participar do carnaval se tornou um ato de afirmação cultural e social, permitindo que diferentes grupos expressassem suas ideias, valores e tradições por meio da festa popular.


    Dos passeios carnavalescos aos desfiles das escolas de samba

    O carnaval capixaba acontece desde antes de 1880, começando no Centro de Vitória, mas era uma festa completamente diferente da que conhecemos hoje. Em seus primórdios, o carnaval surgiu pela apropriação de elementos da Igreja Católica, e os desfiles eram, na verdade, procissões religiosas adaptadas para questões mundanas.

    O primeiro trajeto registrado, em 1885, não era chamado de desfile, mas sim de passeio. Nessa época, os foliões já usavam fantasias e percorriam as principais ruas do Centro de Vitória. No final do século XIX, surgiu a proposta de combater o carnaval elitista dos clubes e levar a festa para as ruas. Assim, em 1910, o Parque Moscoso tornou-se o palco principal do carnaval na cidade. No entanto, os desfiles só começaram a tomar a forma que conhecemos hoje com a popularização dos automóveis.

    Na década de 1920, a população passou a se organizar em grupos, descendo dos morros para as ruas centrais, como a Rua Sete de Setembro e a Gama Rosa. Nesse período, os desfiles começaram a ganhar força, com foliões usando fantasias e carros como alegorias simples para, de fato, popularizar o carnaval. Ainda não havia uma comissão julgadora, mas a classe trabalhadora foi essencial nesse processo, reunindo o maior número possível de participantes para aplaudir os desfiles e eleger os vencedores.

    Nos bairros de Santo Antônio, Vila Rubim, Cruzamento e Praia de Santa Lúcia, o carnaval já tinha tomado corpo, e foi nesses locais que surgiram as primeiras carrocerias de caminhões alegóricos — os precursores dos carros alegóricos atuais. Por fim, foi estabelecido que as festas realizadas no Clube Álvares Cabral, na Avenida Beira-Mar, terminassem nas ruas e na Praça Costa Pereira, consolidando o Centro de Vitória, como o epicentro da folia.

    A virada do século XIX para o XX trouxe novas tecnologias, como gramofones, discos e rádios, que mudaram a forma de celebrar o carnaval. Nas ruas capixabas, já se ouviam maxixes, lundus e sambas, evidenciando a forte influência afro-brasileira na festa.

    A historiadora Dione Ferolla descreve as escolas de samba como a festa dos pobres no carnaval. Esse espírito popular se fortaleceu em 1955, quando a Unidos da Piedade, seguida por uma multidão, desceu o Morro da Fonte Grande e desfilou sobre a passarela montada pela Prefeitura de Vitória em frente ao Palácio Anchieta. Esse momento marcou o início de uma nova era para o carnaval capixaba.

    Ao som de “A estrela d’alva no céu desponta e a lua anda tonta, com tamanho esplendor”, a Unidos da Piedade levou para as ruas a paz e a tradição do seu morro. Com o tempo, suas batucadas deram origem a novas escolas de samba, expandindo ainda mais a cultura carnavalesca no Espírito Santo. Nos anos 1990, o estado chegou a contar com 19 escolas de samba, além dos blocos que desfilavam pela avenida, consolidando o carnaval capixaba como uma expressão vibrante da identidade e resistência popular.

    Piedade, A primeira escola de samba

    A escola de samba mais antiga do Espírito Santo é a Unidos da Piedade. Os morros do Centro de Vitória são territórios negros, berço do samba capixaba. Do alto da Piedade e da Fonte Grande, surgiu, em 1955, a primeira escola de samba do estado: a Unidos da Piedade. 

    Há 70 anos, a escola se mantém como um espaço de resistência, luta e força. Embora o samba tenha vindo de outras regiões para o Espírito Santo, ele conquistou seu espaço no coração da capital. A tradição se mantém viva nas escolas de samba, nos bares como o icônico Bar da Zilda, e nas rodas de samba raiz — manifestações culturais profundamente ligadas à herança afrobrasileira.

    O historiador, produtor cultural, vereador e atual presidente da Unidos da Piedade, Jocelino Junior, relembra sua trajetória no samba. “O samba entrou na minha vida por meio do meu pai, um apaixonado pelo carnaval, que me levou para o mesmo caminho. O samba tem o poder de atravessar gerações. Hoje, meus filhos participam de tudo comigo na comunidade, e vejo que isso acontece com outras famílias também. É um elemento de integração muito forte, que, apesar de se desenvolver em um contexto de pobreza, é a diversão de muitos. Tenho um papel ainda mais fundamental sendo um homem negro. Acredito que é necessário fazer justiça pelos meus, lutar pela valorização da cultura do meu povo. Antes, não era permitido fazer samba, mas a gente resistiu e continua resistindo”, afirmou.

    Desde sua origem, o samba sempre foi uma manifestação política — e, muitas vezes, incômoda para o poder. A gestão do atual prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, tornou-se conhecida por adotar medidas que dificultam o carnaval de rua, como a demora na regulamentação dos blocos, efetivada em 2024, apenas 13 dias antes da festa. Em 2023, os desfiles dos blocos que encerram o carnaval no Centro de Vitória foram impedidos de acontecer após a prefeitura suspender os alvarás das festividades, acatando uma recomendação do Ministério Público do Espírito Santo (MPES). O argumento utilizado foi o excesso de ruído e o acúmulo de lixo. No entanto, mesmo sem apoio e recursos, essas manifestações culturais seguem resistindo e ocupando as ruas, reafirmando o samba como símbolo de luta e identidade popular.

    O presidente da Unidos da Piedade acredita que o samba não consegue escapar das lógicas do capitalismo, mas que ele deve continuar sendo um espaço de enfrentamento político e social. “Todo espaço da população em situação de vulnerabilidade é impactado pelo capitalismo. O samba tem grandes patrocinadores, grandes empresas que investem, porque os desfiles das escolas de samba precisam de muita verba. Mas a gente tem que voltar à essência do samba, da simplicidade, do coletivo. Não dá para gerir uma escola ou um grupo de samba e se deixar levar pelo dinheiro. Samba sem povo não é samba. Tem que ter comunidade, amor, raízes, afeto e felicidade. O samba precisa continuar sendo um ato de transformação social, uma forma de garantir direitos ao nosso povo. A nossa cidade é melhor quando tem samba. Nosso povo é mais feliz.”


    Carnaval de rua Se fortalece 

    O carnaval de rua do Espírito Santo tem origem na tradição popular e na resistência cultural das comunidades. A popularização do carnaval de rua ocorreu no início do século XX, com a chegada dos cordões e ranchos que mobilizavam a população. 

    Com a consolidação das escolas de samba na década de 1950, o carnaval capixaba passou a ter dois grandes eixos: os desfiles das escolas e o carnaval de rua. Nos bairros, surgiram blocos tradicionais que resistiram ao tempo e permanecem até os dias atuais, como os blocos de Santo Antônio, Vila Rubim e Centro de Vitória. Esses grupos mantêm viva a tradição do samba de rua e garantem que a festa permaneça acessível a todos.

    Nos últimos anos, o carnaval de rua de Vitória e do Espírito Santo ganhou ainda mais força, com um número crescente de blocos independentes que arrastam milhares de foliões pelas ruas da capital e demais cidades do estado. Blocos como “Regional da Nair” e “Kustelão” reúnem foliões de todas as idades e classes sociais, reafirmando o carnaval de rua como um espaço democrático de celebração e resistência cultural. Apesar das dificuldades, como falta de incentivo público, restrições impostas pelo poder municipal e até tentativas de redução do horário de circulação dos blocos, a luta e a resistência continuam, mostrando a força do povo e garantindo a alegria dos foliões. O carnaval de rua do Espírito Santo, assim como em outras partes do Brasil, segue sendo um espaço de diversidade, criatividade e, sobretudo, pertencimento popular.

  • Teatros da Grande Vitória: cortinas abertas ou não?

    Teatros da Grande Vitória: cortinas abertas ou não?

    O drama das peças teatrais ganha forma na vida real e atravessa a conservação dos equipamentos culturais.

    Merda! Muita merda a todos os teatros! E, calma que “merda” significa boa sorte no mundo das artes cênicas. Acontece que nos primeiros teatros, o público costumava chegar de carroça, charrete ou cavalo. Assim, significava que quanto mais sujas as ruas ficavam com fezes dos animais, maior o público e o sucesso da apresentação — daí o “merda”. Mas, ao que tudo indica, as ruas de Vitória andam bem limpinhas, figurativamente falando, é claro. O Theatro Carlos Gomes, no Centro de Vitória, está fechado desde 2017 para reformas. As obras, no entanto, foram paralisadas durante a pandemia por questões sanitárias e retomadas em 2023. O projeto, agora, tem previsão de entrega para dezembro de 2025, de acordo com o secretário de cultura Fabrício Noronha em entrevista para a jornalista Renata Rasseli. A reforma é promovida pelo Governo do Estado, com um investimento de R$ 20 milhões, provenientes dos parceiros EDP e BNDES, captados por meio da Lei Rouanet. O Instituto Modus Vivendi também é parceiro do projeto.

    Algo semelhante aconteceu com o Centro Cultural Carmélia, que também passou por paradas e retomadas nas obras. Além disso, a gestão do espaço foi transferida da Prefeitura de Vitória para a União e, posteriormente, para o Governo do Estado. Agora, o Carmelão está em reforma, com previsão de funcionamento para março de 2026. Ainda em Vitória, outro espaço vem chamando a atenção pelo longo tempo parado: o Teatro do Centro de Artes (ou Auditório do Centro de Artes), na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). 

    As obras deste local sequer foram concluídas, e estima-se que o projeto esteja paralisado há mais de uma década. O principal motivo do abandono são os processos licitatórios fracassados, já que as empresas contratadas não conseguem atender aos critérios da universidade ou desistem da obra, uma situação que se arrasta por anos. Larissa Zanin, coordenadora do Centro de Artes, explicou que entrou na Universidade em 2010 e que a obra já enfrentava problemas. 

    Segundo ela, o processo começou com uma empresa que havia sido selecionada por licitação, que abandonou o projeto devido a dificuldades, o que resultou em uma ação judicial. Em seguida, outra empresa assumiu a obra, mas também desistiu, e o processo foi novamente judicializado. Contudo, assim como nos outros casos, há esperança. 

    Uma nova licitação foi feita com o apoio do Programa de Aceleração do Crescimento das Universidades (PAC das Universidades), que garante um orçamento de R$5.452.793,71. Até o momento da apuração desta reportagem, o processo licitatório continuava em andamento e, segundo fontes da universidade, a contratação de uma nova empresa para executar a obra está próxima de ser concluída.

     Resistência e novas perspectivas 

    Pelo menos na capital, ainda há espaços teatrais em funcionamento. Um dos destaques é o Teatro Universitário da UFES, que, atualmente, é o maior e o mais bem  equipado do Estado, com capacidade para 600 pessoas. O teatro recebe diversas apresentações, principalmente de grupos nacionais, além de concursos de dança, premiações e cerimônias de colação de grau.

    A reivindicação por um novo espaço, como o Teatro do Centro de Artes, também surge de um apelo da comunidade interna da universidade, que poderia centralizar suas demandas no teatro menor, no caso, o do Centro de Artes.“Se tivéssemos esse espaço, poderíamos estar, por exemplo, fomentando mostras culturais, já que não precisaríamos nos preocupar com a estrutura. Teríamos outro espaço para promover festivais de teatro, mostras culturais, oficinas de formação e até para os grupos de teatro ensaiarem”, defende Letícia de Sá, estudante universitária, atriz e militante do movimento estudantil.

    Outros espaços também resistem, como o Teatro do Sesc Glória e o Palácio Sônia Cabral, ambos localizados no centro de Vitória. Embora ainda tenham uma programação modesta e voltada para nichos específicos, são hoje algumas das opções mais acessíveis, com apresentações gratuitas ou a preços justos. Além disso, o Teatro Sesi e o Teatro Campaneli se consolidaram como boas alternativas para quem deseja consumir teatro na Grande Vitória, com programações também mais específicas e voltadas para públicos distintos — no caso do Campaneli, para o público infantil. No geral, o cenário é, positivo. Dos oito teatros mencionados, cinco estão em funcionamento (Teatro Universitário, Teatro do Sesc Glória, Palácio Sônia Cabral, Teatro Sesi e Teatro Campaneli), dois estão em reformas (Teatro Carlos Gomes e Centro Cultural Carmélia), e um está em processo licitatório (Teatro do Centro de Artes). Agora, resta torcer para que as cortinas se abram cada vez mais e para um público cada vez maior.

  • A importância de não esquecer

    A importância de não esquecer


    O impacto de “Ainda Estou Aqui” destaca a necessidade de preservar a memória e buscar justiça em meio às tentativas de reescrever a história.

    O  sucesso do filme “Ainda estou aqui” transcende o cinema. É um reflexo de algo muito maior: a busca por reconhecimento, por identidade e por justiça histórica. Mesmo após quatro meses de seu lançamento, o impacto desse filme ainda está presente e marcante na memória dos brasileiros. No Brasil, o longa já arrecadou mais de R$ 25 milhões, e no exterior, atingiu US$ 8 milhões, o que demonstra a ressonância que sua mensagem teve em diferentes públicos. Não há indicação a Oscar que tenha mais valor do que o sentimento despertado ao assistir essa obra. Ela é sobre memória, cidadania e o dever de lembrar. E, mais do que isso, é sobre o direito de contar a nossa própria história, do nosso jeito.

    Nos últimos anos, o revisionismo histórico — processo em que eventos do passado são reinterpretados, muitas vezes com o objetivo de modificar a percepção coletiva sobre eles — tem ganhado força no país. Algumas lideranças políticas, por exemplo, passaram a defender a ditadura militar como um período de ordem e progresso, ignorando ou relativizando casos documentados de censura, tortura e perseguição a opositores. Discursos que exaltam o regime como uma “revolução” necessária ou que negam a existência de crimes cometidos pelo Estado ilustram essa tentativa de ressignificação da história. 

    Selton Melo e Fernanda Torres interpretaram o casal Rubens Paiva e Eunice. O filme recebeu vários premios, inclusive um Oscar de melhor filme internacional. Fernanda ganhou um Globo de Ouro como melhor atriz e foi indicada ao Oscar também na categoria melhor atriz.

    Assim que a obra estreou, redes sociais foram tomadas por reflexões, relatos e memórias da época. No TikTok, uma trend viralizou: filhos e netos de vítimas da ditadura compartilharam fotos, cartas e histórias de seus familiares que foram torturados e perseguidos. É como se o filme tivesse reacendido o debate sobre um passado que, apesar de não totalmente esquecido, vinha sendo pouco discutido.

    Outro reflexo inesperado foi a presença massiva de pessoas mais velhas nas salas de cinema. Com o crescimento das plataformas de streaming, muitos filmes nacionais enfrentam dificuldades para atrair o público às telonas, o que torna essa mobilização ainda mais significativa. Mas faz sentido. Para essa geração, a ditadura não é apenas um capítulo nos livros de história — é uma memória vivida. O filme se tornou um espaço de reencontro com o passado, uma forma de ressignificar experiências e reafirmar que aquilo que viveram, de fato, aconteceu. No fundo, Ainda Estou Aqui é um grito coletivo de um Brasil que se recusa a ser esquecido.

    Mais do que um evento isolado, essa movimentação sugere que há uma sede por histórias reais, por narrativas que não apenas entretenham, mas provoquem reflexões. A forma do cinema brasileiro, muitas vezes subestimado dentro do próprio país, se manifesta com potência quando histórias como essa encontram um público disposto a ouvir. O sucesso da obra nos lembra que o cinema nacional tem uma função que vai além do entretenimento: ele documenta, questiona e, acima de tudo, resiste.

    A comoção causada por Ainda Estou Aqui lembra o que aconteceu com Marighella, de Wagner Moura. Assim como o filme sobre o guerrilheiro sofreu boicotes e ataques antes mesmo de sua estreia, Ainda Estou Aqui também enfrentou críticas de figuras políticas que tentam reescrever a história. Assim como no passado houve tentativas de distorcer ou justificar os crimes cometidos durante a Ditadura, hoje esse revisionismo histórico se repete, mas, como no caso de Marighella, a reação do público tem sido uma poderosa forma de resistência.

    O que essas obras têm em comum, além do tema histórico, é a capacidade de transformar a experiência cinematográfica em um ato político. Não no sentido partidário, mas no sentido mais essencial da política: o direito à memória, à justiça e à verdade.   

    O apagamento da história 

    Se há algo que o sucesso desse filme escancara, é a dificuldade da sociedade brasileira de confrontar seu próprio passado. Quando uma nação não se esforça para compreender sua história, ela se torna mais suscetível a distorções, manipulações e até retrocessos. Mesmo após iniciativas como a Comissão da Verdade, sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2011, o debate sobre a Ditadura Militar segue fragmentado, e, nas redes sociais, é possível ver que muitos ainda preferem ignorar as marcas que esse período deixou.

    Eunice exibe o atestado de óbito de Rubens Paiva, obtido em 1996, 25 anos depois de Ruben Paiva ser assassinado pelos órgãos de repressão da ditadura militar.

    Essa falta de reconhecimento do passado se reflete não apenas na educação, mas também no cotidiano da sociedade brasileira, onde muitas vezes a memória da Ditadura Militar é apagada ou distorcida. Quando figuras públicas minimizam ou rejeitam filmes e produções que abordam esse período, como foi o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro, (que disse: “Nem vou perder meu tempo, tenho o que fazer. Conheço a história melhor do que eles”, elas) contribuem para manter essa negação.

    Além disso, o ex-ministro da Cultura do governo Bolsonaro, Mario Frias , também seguiu a mesma linha, classificando a obra como “manipulação comunista”. Esse tipo de discurso não é novo. Durante anos, figuras políticas alinhadas à extrema direita tentam transformar a Ditadura em um período “ordeiro”, em que “não houve corrupção” e “não se matou ninguém”. Mas “Ainda estou aqui” não precisa de ideologias para ter impacto. A vwwerdade, por si só, já é forte o suficiente.

    O revisionismo histórico, além de ofensivo às vítimas e seus familiares, tem um impacto real na sociedade. Quando um governo relativiza crimes do passado, ele abre caminho para que novas violações aconteçam no presente. Se o Estado não reconhece os erros cometidos contra seu próprio povo, como garantir que eles não se repitam? O caso de Rubens Paiva, embora sem esclarecimentos completos, tem mostrado avanços. A abertura de arquivos secretos e o reconhecimento de torturas e mortes são passos importantes, embora ainda insuficientes. Esses avanços, embora lentos, são essenciais para confrontar o passado e garantir que a justiça seja feita.

    A memória histórica não pode ser apagada por decreto, por discurso ou por revisionismo. Se há algo que esse filme prova, é que a história do Brasil não pode ser ignorada. E se ainda há quem tente fazer isso, o cinema, a arte e a cultura continuarão encontrando maneiras de trazê-la à tona.

    O Brasil precisa continuar contando suas histórias. E, principalmente, precisa continuar lembrando. Porque, de uma forma ou de outra, ainda estamos aqui. 


    A história da Família Paiva

    Ainda Estou Aqui (2024), dirigido por Walter Salles, é baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva. O filme aborda a história da família do escritor pela trajetória de Eunice Paiva, viúva do ex-deputado, cassado em 1964 e morto em 1971 pelo regime militar. Eunice também foi presa e interrogada em 71, bem como a filha Eliane. Ambas foram soltas depois de algumas semanas. 

    Nascida em 1929, Eunice era paulista e formada em Letras. Casou-se com Rubens Paiva em 1952 e viveu com ele até 20 de janeiro de 1971, quando foi levado de sua casa, no Rio de Janeiro, por agentes da repressão. Ela então decidiu buscar explicações e os culpados para a morte do marido. Voltou para São Paulo com os filhos e, em 1973, aos 44 anos, ingressou na Faculdade de Direito, passando a atuar em defesa dos direitos humanos. 

    Depois de formada, passou a defender famílias de desaparecidos políticos e os direitos dos povos indígenas, e a atuar em campanhas por justiça e memória. Somente em 1996 ela conseguiu obter o atestado de óbito de Rubens Paiva. A primeira prova documental do assassinato dele, porém, só veio em 2012, com a Comissão da Verddade, quando uma ficha do DOI-Codi confirmou a entrada dele no centro de tortura. A certidão de óbito foi corrigida em 2025, depois da indicação do filme para o Oscar, passando a constar no documento: “morte  não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política do regime ditatorial instaurado em 1964”.


    Legendas

    O ex-deputado Rubens Paiva e Eunice Paiva quando ele cumpria seu mandato de deputado federal; Eunice Paiva, em 1990, quando obteve o atestado de óbito do marido.

  • Movimento antivacina: ameaça à saúde coletiva

    Movimento antivacina: ameaça à saúde coletiva


    Com 21% dos brasileiros temendo reações adversas, especialistas apontam a influência da pandemia de covid-19 no movimento antivacina

    A vacinação é reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma das ferramentas mais eficazes para a proteção da saúde pública, capaz de prevenir doenças, reduzir a mortalidade e erradicar enfermidades endêmicas. No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973, consolidou o país como referência em campanhas de vacinação, alcançando altas taxas de cobertura vacinal e contribuindo para o controle de doenças como o sarampo, rubéola e a coqueluche. No entanto, nos últimos anos, discursos que expressam a desconfiança e insegurança em relação às vacinas têm ganhado força.

    Em nível nacional, segundo uma pesquisa do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), divulgada em junho de 2024, 27% dos entrevistados afirmam já ter sentido medo de se vacinar ou de levar uma criança ou adolescente  para se vacinar, enquanto 21% avaliam como alto o risco de reações adversas às vacinas. Esse fenômeno tem acompanhado uma queda significativa na cobertura vacinal no Brasil, que, após atingir 97% em 2015, caiu para 75% em 2020, segundo dados do Instituto Butantan. 

    A queda na cobertura vacinal ocorre por diversos fatores, desde a dificuldade de usar os serviços  de saúde, até o escasso acesso à informação. Contudo, especialmente após a pandemia de covid-19, cresce a tendência de descredibilização das vacinas e das autoridades sanitárias, antes tidas como essenciais. O anúncio da saída dos Estados Unidos e da Argentina da OMS é um exemplo disso.

    Constituída em 1948, a Organização Mundial de Saúde é reconhecida como um importante agente que atua na coordenação de ações de saúde em escala global. Contudo, sua gestão tem sido questionada, essencialmente por grupos antivacina que desaprovaram suas orientações durante a pandemia de covid-19. No período pandêmico, o governo de Donald Trump se opôs a algumas decisões tomadas pela organização, o que motivou, em parte, o afastamento dos EUA da organização. “A decisão de retirada responde à pressão de grupos internos americanos que acreditam que as ações da OMS foram negativas”, apontou a especialista em relações internacionais Denilde Holzhacker em uma entrevista à CNN.

    Tendo em vista a posição do país como um dos principais investidores na OMS, a saída  reforça a narrativa que descredibiliza a organização e impacta diretamente sua capacidade de atuação. Segundo a Agência Brasil, Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, destacou que a decisão torna o cenário sanitário ainda mais crítico e já anunciou redução de gastos para preservar programas da entidade.

    Estudos como o relatório Pandemic Profiteers, do Center of Countering Digital Hate (CCDH), revelam uma tendência de descredibilização das autoridades sanitárias, bem como da politização do debate sobre saúde. O relatório de 2021 investigou o mercado por trás do movimento antivacina nos Estados Unidos e em países europeus. Com destaque para a articulação entre a indústria farmacêutica e médicos negacionistas que atacam as vacinas para, em seguida, oferecer tratamentos alternativos, como medicamentos ou vitaminas. O relatório estima que esses grupos movimentam cerca de 36 milhões de dólares ao ano com a prescrição de produtos, venda de palestras, livros e associação com grupos políticos.

    Motivos que influenciam a desconfiança e a hesitação vacinal

    Para além de questões culturais e políticas, a falta de percepção de risco é um dos principais motivos para a desconfiança nas vacinas. Com o sucesso do Plano Nacional de Imunizações, doenças como o sarampo, a coqueluche e a rubéola foram praticamente erradicadas no Brasil, fazendo com que as novas gerações subestimassem o risco que elas representam. O professor e pesquisador de comunicação em saúde do Programa de Pós Graduação em Comunicação e Territorialidades, Fábio Goveia, explica: “A eficiência do plano fez com que as gerações mais novas nem conhecessem essas doenças, o que leva a uma queda na crença de que elas são realmente perigosas”.

    Outro ponto que corrobora a hesitação vacinal é a preocupação com possíveis efeitos colaterais das vacinas. Para pesquisadora e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, o medo associado ao não entendimento do risco de certas doenças, contribui para uma percepção de que as vacinas são dispensáveis. Esses dois fatores estão diretamente ligados ao conhecimento da população sobre a eficácia da vacinação e sua importância para a saúde coletiva.

    Ela destaca o desafio de estimular a vacinação entre crianças e adolescentes que não vêem motivos suficientes para se vacinar. De acordo com Ballalai, as vacinas contra o HPV (papilomavírus humano) e a covid-19 direcionada a crianças e adolescentes são as principais impactadas pela hesitação vacinal hoje, por serem  focos do movimento antivacina. Dados apontam a queda na cobertura vacinal do HPV no Brasil e a desconfiança dos jovens em relação à vacinação (veja o gráfico).

    Panorama do HPV no Brasil de 2014 a 2025. Fontes: Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde; Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG; Painel do Ministério da Saúde – Coortes Vacinais – Papilomavírus Humano (HPV) Criação: Isadora Eleutério 

    Charge inglesa antivacina do século 19 mostra pessoas desenvolvendo características de bovinos após a vacinação contra a varíola. Fonte: James Gillray/Anti-Vaccine Society Print (Agência Senado)

    A história da resistência às vacinas

    A desconfiança em relação às vacinas não é um fenômeno novo. Desde a invenção do primeiro imunizante, criado por Edward Jenner, na Inglaterra do século XVIII, houve resistência por parte da população à aplicação das vacinas. Na época, ainda sem diretrizes de ética médica, Jenner descobriu um método de imunizar pessoas contra a varíola a partir do pus de indivíduos que tiveram contato com vacas contaminadas pela doença. A prática foi considerada repulsiva por muitos. Alguns grupos acreditavam que a doença era uma punição divina e não deveria ser tratada ou prevenida, outros, sugeriam que a vacina poderia causar características de bovinos nos seres humanos.

    Para a pesquisadora Isabella Ballalai, o principal motivo de desconfiança em relação às vacinas, desde aquela época, é o fato de ser um produto preventivo. “A vacina é um produto que aplico em você sem que você esteja doente, isso já assusta”, explica. Apesar da oposição, a descoberta de Jenner foi crucial para a saúde pública inglesa, que observou uma queda de 57.4% nas mortes por varíola em pouco mais de 20 anos de imunização.

    No Brasil, a vacina chegou alguns anos depois e, em 1904, foi tornada obrigatória por meio de um projeto de lei proposto por Oswaldo Cruz, então diretor de saúde do país. A decisão foi motivada por um surto de varíola que atingiu o Rio de Janeiro no inverno daquele ano, resultando em 3.500 mortes, segundo o Butantan. A obrigatoriedade da vacina e o descontentamento com o governo da época

    A charge mostra a reação da população com a obrigatoriedade da vacina e o descontentamento com a figura de Oswaldo Cruz. Fonte: Revista “O Malho”.

    levaram à Revolta das Vacinas, um movimento liderado pela Liga Contra Vacina Obrigatória,  que se tornou um marco na história do movimento antivacina no Brasil. Anos após a Revolta, com a diminuição dos casos da doença devido à vacinação, a desconfiança diminuiu e a população passou a procurar voluntariamente os postos de vacinação.

    Movimento antivacina moderno e infodemia

    Com a desconfiança nas vacinas já presente na esfera pública, discursos negacionistas nas redes sociais ampliam esse fenômeno. O professor Fábio Goveia e a pesquisadora Isabella Ballalai apontam a pandemia de Covid-19 e a infodemia como os principais motivos para o crescimento de grupos antivacina nos últimos anos. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) define infodemia como a circulação excessiva de informações, precisas ou não.

    Segundo a organização, o excesso de informações causa ruído na comunicação pública e dificulta o acesso à informações qualificadas. Isso, aliado ao medo e à vulnerabilidade provocados pela covid-19, fez com que a sociedade se agarrasse a quem oferecia respostas rápidas, mesmo sem base científica. A ciência ainda não tinha respostas assertivas para lidar com o coronavírus, o que favoreceu grupos que promoviam tratamentos sem comprovação e minou a confiança da população na ciência.

    Goveia destaca uma mudança no perfil do movimento antivacinal. Se antes o movimento tinha como principal argumento o desejo de viver sem a necessidade de determinados fármacos, hoje, ele opera a partir da contestação das vacinas, oferecendo supostos tratamentos alternativos, que muitas vezes são menos invasivos. O argumento do professor é confirmado por estudos como o do Center of Countering Digital Hate (CCDH).

    Infográficos sobre os padrões da desinformação vacinal no Telegram Fonte: Fábio Goveia e Anais do 9° Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, Vol.2, 2023. Criação: Isadora Eleutério

    A organização estratégica dos grupos antivacina talvez seja a principal característica do negacionismo moderno. Esses grupos se aproveitam da desordem informacional e dos medos da população para impulsionar o negacionismo científico. A comunicação pública, ou seja, a forma pela qual as instituições conversam com a população, se torna então uma questão central. As autoridades devem ser capazes de evidenciar para a sociedade a importância da vacinação para a saúde coletiva e fomentar a coesão social.

    Para a pesquisadora Isabella Ballalai, o principal desafio da comunicação pública em saúde hoje é comunicar de forma empática. Como  as mensagens governamentais tendem a ser técnicas e impessoais, torna-se mais difícil engajar a sociedade. É necessário que a comunicação dialogue com os cidadãos, apresentando uma linguagem clara com informações diretas e que impactem a população.

    Goveia destaca também a necessidade de uma efetiva comunicação pensando no futuro. Segundo ele, devido ao fato de a vacina ser um produto preventivo a ser aplicado em pessoas saudáveis, é essencial que a comunicação consiga transmitir a confiança de que a imunização vai agir em prol de um benefício futuro. É possível observar a efetividade desse tipo de comunicação no mercado econômico. Quando se aplica no mercado financeiro, não há a certeza de rendimento ou de perda de investimento, mas o conhecimento do cenário econômico e a confiança em estudos e estimativas levam à confiança de que uma decisão será benéfica no futuro. “A comunicação econômica é muito eficaz em vender esse cenário de futuro, a comunicação em saúde ainda tem dificuldade de fazer isso”, conclui Goveia.

    Aliado a essas medidas, a ideia de saúde coletiva e de coesão social, por se tratarem de fatores associados à formação política e cultural, deve ser estimulada desde a infância para que seja possível a articulação de ações colaborativas favoráveis à saúde global. Para Ballalai, a solução é incluir o debate sobre saúde no dia-a-dia das crianças, em especial no contexto escolar: “Quando falamos de vacinação nas escolas, não é apenas ir e aplicar as vacinas. O que temos que fazer é levar a educação sobre saúde para as crianças, isso que vai fazer o futuro da vacinação”.

    A charge retrata a falácia sobre adquirir características de jacaré após a aplicação de vacinas contra a Covid-19, o que se assemelha ao medo da população de adquirir características de bovinos após a utilização do imunizante contra a varíola. Fonte: Cazo

  • Polarização política marca nova Câmara de Vitória

    Polarização política marca nova Câmara de Vitória

    Partidos de direita e esquerda ampliam representação e embates ideológicos prometem marcar os próximos quatro anos

    A nova legislatura da Câmara Municipal de Vitória começou sob forte polarização política. Com o aumento de 15 para 21 cadeiras, a diversidade ideológica cresceu, tornando o plenário um reflexo da divisão nacional entre direita e esquerda. Enquanto conservadores ganham espaço e reforçam pautas alinhadas ao bolsonarismo, setores progressistas ampliam sua atuação, prometendo embates intensos ao longo dos próximos quatro anos.

    A nova configuração do Legislativo municipal levanta questionamentos sobre como será a relação com o Executivo e se a polarização ideológica permitirá avanços em políticas públicas. Entre os desafios dos mandatos, está a necessidade de equilibrar debates ideológicos com as demandas concretas da população.

    Novas cadeiras mudam o cenário político

    A ampliação do número de vereadores trouxe novos atores à cena política de Vitória. Com um quadro mais diverso, a Casa agora possui maior representatividade de grupos que antes tinham pouca ou nenhuma voz no Legislativo. Entre os partidos com maior número de cadeiras, estão Republicanos, PSB e PP, cada um com três representantes. O Republicanos, legenda do prefeito reeleito Lorenzo Pazolini, fortalece sua base aliada e pode garantir governabilidade ao Executivo. Já o PSB e o PP reúnem nomes que transitam entre o centro e a esquerda, mas que devem atuar de forma independente em determinadas pautas.

    A polarização, no entanto, não se dá apenas entre siglas, mas entre perfis políticos bem definidos: de um lado, há um fortalecimento do bloco conservador, alinhado a pautas como armamento civil, combate a agendas progressistas (como a pauta LGBTI+) e defesa de valores cristãos. Do outro, grupos de esquerda mantêm sua força, com foco na defesa de direitos humanos, políticas de inclusão social e combate à desigualdade.

    Direita consolida bancada

    Os setores mais alinhados à direita cresceram nesta legislatura e agora contam com uma bancada que promete barrar propostas progressistas. Entre os nomes que simbolizam esse avanço, está Davi Esmael (Republicanos), vereador reeleito que, com grande intervenção nas redes sociais, se consolidou como um dos principais defensores das pautas conservadoras na cidade.

    A chegada de vereadores do Partido Liberal, representando o “bolsonarismo raiz” na Câmara, também fortalece esse campo. Entre eles, Dárcio Bracarense (PL) e Armandinho Fontoura (PL) entram na Câmara com um discurso pautado na defesa da família tradicional e no combate ao que chamam de “ideologia de esquerda” nas políticas públicas.

    Com esse crescimento, a extrema direita passa a ter mais força para pautar discussões e tensionar com a Prefeitura em temas como segurança pública e redução de políticas sociais.

    Esquerda promete resistência

    Do outro lado do espectro político, a esquerda mantém sua relevância e amplia seu espaço na Câmara. A bancada de esquerda é formada por vereadores do PT, PSOL e PSB, que tem se destacado por articular uma agenda focada em políticas públicas de inclusão, juventude e justiça social. 

    Do PT, Karla Coser se reelegeu como vereadora mais votada. Professor Jocelino trouxe mais um nome para a bancada na última eleição. Pelo Psol, Ana Paula Rocha,também eleita em 2024, se soma aos dois petistas para formar a bancada da esquerda.

    Os três têm defendido medidas para ampliar o acesso a serviços essenciais nas comunidades e utilizado sua representação no espaço legislativo para promover debates sobre direitos civis e minorias .Vereadores do PSOL e do PT já sinalizaram que atuarão fortemente contra retrocessos em direitos sociais e que continuarão a denunciar casos de violência política, especialmente contra mulheres e minorias. A expectativa é que temas como igualdade racial, direitos LGBTQIA+ e políticas de inclusão e cultura retornem ao centro dos debates, ainda que enfrentem maior resistência.

    A atuação progressista na Casa nos últimos anos da  Vereadora Karla Coser (PT) já havia enfrentado desafios, com episódios de violência política, por meio de discursos agressivos e tentativas de silenciamento. Agora, com uma Câmara com mais representantes desse espectro político, os embates devem ser ainda mais intensos, exigindo do bloco de esquerda estratégias para garantir a defesa de suas pautas.

     No PSB, Bruno Malias e Pedro Trés reforçam pautas relacionadas à saúde, educação e transparência na gestão, posicionando a bancada, apelidada de “Bloco Democrático” em referência ao contraponto a iniciativas conservadoras.

    O tom da nova legislatura

    Se havia dúvidas sobre como seria o tom da nova legislatura, elas foram dissipadas logo nas primeiras sessões ocorridas a partir de 1º de fevereiro,quando começou a nova legislatura. Discussões sobre homenagens a figuras políticas, projetos relacionados à segurança pública e mudanças em políticas sociais já deixaram claro que a polarização será uma marca constante nos próximos quatro anos. Uma das primeiras disputas ocorreu quando vereadores da direita sugeriram a concessão de uma honraria a uma personalidade ligada ao bolsonarismo, gerando protestos da oposição. Em outro momento, um projeto para ampliar a presença da Guarda Municipal em escolas de ensino fundamental dividiu opiniões, com conservadores defendendo a medida como forma de segurança, e progressistas alertando para o risco de militarização do ambiente escolar.

    Além disso, já é possível notar as provocações nas redes sociais, como no embate entre o vereador Davi Esmael e o vereador Professor Jocelino no Instagram, em vídeo de cortes de uma das sessões da casa. A discussão ocorreu após o petista utilizar o termo “escurecer” em vez de “esclarecer” – uma adaptação linguística que é utilizada pelo movimento negro.

    Os desafios da nova Câmara

    O grande desafio desta legislatura será encontrar um equilíbrio entre a polarização política e a necessidade de governabilidade. Se, por um lado, o Executivo conta com uma base mais robusta para aprovar projetos, por outro, o embate ideológico pode gerar dificuldades na construção de consensos. O presidente da Câmara, Anderson Goggi (PP), terá o principal papel na condução dos trabalhos e na mediação de conflitos. Com trânsito entre diferentes grupos, ele pode ser um fator moderador ou, caso opte por alinhar-se a um dos blocos, pode aprofundar ainda mais a divisão. Para a população, resta a expectativa de que, apesar das divergências políticas, os vereadores mantenham o compromisso com o interesse público e garantam que as discussões no Legislativo resultem em melhorias concretas para a cidade.

  • Via de Mão Dupla

    Via de Mão Dupla

    Entenda um pouco mais sobre a estrutura administrativa brasileira, que possui 11,35 milhões de pessoas atuando em cargos públicos, segundo pesquisa da PNADc.

    O ano de 2025 traz consigo um novo período de mandato político em âmbito municipal. Após o processo de mudanças dos mandatos, começa outra etapa tradicional da política nacional: a distribuição de cargos comissionados. É de conhecimento geral que vagas nessa categoria de emprego público são pretexto para barganhas políticas, por isso não é surpreendente saber que a Prefeitura de Anchieta, litoral sul capixaba, anunciou aumento de mais 135 cargos comissionados numa instituição que já conta com 1927 cargos comissionados ativos, segundo a última atualização do Portal da Transparência em 26 de fevereiro de 2025, às 14 horas, 46 minutos e 46 segundos.

    Portal da Transparência da Prefeitura de Anchieta registra 1927 cargos comissionados ativos.

    A Prefeitura de Viana também fez expansões. Neste ano foi sancionada uma lei que criou mais 193 cargos. Deste total 110 são de comissão e 83 de funções gratificadas. Com essas alterações surgem 70 novas cadeiras que desempenham papéis de influência na administração do município. Apesar das lideranças apontarem a necessidade de melhorar a gestão municipal, o cenário dos cargos comissionados é permeado por decisões que não levam em consideração a capacitação ao escolher alguém para uma vaga, mas sim a possibilidade de ofertar cargos como moeda de troca.

    No Brasil, cargos comissionados são livre nomeação, o que significa que parte diretamente das autoridades públicas, sem a necessidade de um processo seletivo, por ser embasado em um vínculo de confiança. Geralmente, os comissionados ocupam posições de chefia, assessoramento e gestão, mas podem também ocupar cargos técnicos, substituindo assim, em muitos casos, servidores concursados. Para assumir tal cadeira a pessoa pode ter vínculo, ou não, com a instituição que a contrata e deve seguir uma série de critérios específicos para o cargo em questão, como apresentar ficha criminal limpa e plenas condições técnicas, o que torna necessário o estabelecimento de um certo nível educacional para determinados cargos. 

     A indicação deve obedecer princípios da Administração Pública, como a impessoalidade e a moralidade, para evitar nepotismo e casos de corrupção. Mas sabe-se que nem tudo são flores no âmbito político brasileiro. São recorrentes as denúncias ligadas a funcionários fantasmas. O caso mais famoso, foi televisionado pela TV Anhanguera, afiliada à Rede Globo, em 2015, mostrando uma servidora batendo o ponto e saindo em disparada quando questionada pela jornalista,. 

     No município da Serra, o prefeito, Weverson Meireles (PDT), causou polêmica logo no início do mandato  quando nomeou a própria namorada para o cargo comissionado de assistente técnica na Secretaria Municipal de Fazenda. A escolha do prefeito não é ilegal, visto que não há vínculo jurídico e de parentesco entre eles, mas também não deixa de ser uma escolha que levanta polêmica.  

    Quem ocupa um cargo comissionado é servidor público, mas em um modelo especial, que não corresponde a um cargo efetivo. A pessoa contratada terá direitos como férias e 13º salário, a exemplo de  qualquer trabalhador deste país, mas não recebe Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), concedido a quem trabalha de carteira assinada ou outras modalidades, como trabalhadores rurais e atletas.  

    A instabilidade é uma característica que deve ser levada em consideração diante da possibilidade de ocupar um cargo comissionado. Sendo cargos são de livre nomeação e exoneração, significa que a autoridade que nomeia também pode dispensar o ocupante a qualquer momento. É um risco, certamente, mas que pode proporcionar experiência profissional, caso o nomeado desempenhe a contento as funções para as quais foi contratado. 

    É o caso de Norma Laurentino da Silva, que assumiu um cargo comissionado público estadual, no dia 03/01/2023, na função de assessor sênior. Mesmo com tempo completo para a aposentadoria, ela ainda estava na ativa no quadro de funcionários do serviço público federal quando surgiu a oportunidade. Norma atuava em um cargo de coordenadora de cerimonial em função gratificada – que é uma retribuição paga a servidores públicos do quadro da instituição que exercem funções de chefia – quando foi convidada a exercer a mesma função num órgão estadual, mediante nomeação em cargo comissionado.“O convite surgiu assim que conheci um candidato ao cargo parlamentar, por meio do meu marido – coordenador de campanha”.

    Para a servidora, cargos comissionados não deveriam ser vistos como cabide de emprego político. “Porque cumpro 40 horas de jornada de trabalho com muita responsabilidade, registro minha frequência  – entrada/manhã e saída/tarde – e sou cobrada se não o fizer, digo, se esquecer do registro” explica.

    “Na verdade, tem sido uma experiência fantástica (…). Enfim, como tenho uma pós em gestão pública e contábil, e depois de nove meses, fui convidada pelo setor de recursos humanos a mudar para a área contábil”, afirma Laurentino.

    Há aqueles que enxergam esse tema com outros olhos, como a advogada Martha Rezende Costa. Para ela, o cargo comissionado não deveria ter livre indicação. A justificativa está na percepção de que o sistema vigente funciona como uma via de mão dupla entre as partes: receber apoio e em troca ofertar  um cargo. “É algo que eu faço para um candidato, que caso ele ganhe, ele vai me dar um cargo, independente da minha profissão. Se eu sei ou não, se eu entendo ou não daquele serviço público, eu vou estar investida naquele cargo. Entendo que sim, é uma compra de voto de certa forma; não é paga em dinheiro, mas sim com uma oferta de trabalho.  Qual o interesse nisso? Para mim, todos deveriam fazer concurso público e passar para estar trabalhando”, declara a advogada.

    Ainda sobre assegurar os princípios morais e impessoais que regem a indicação de pessoas para cargos comissionados, há a necessidade de tornar o sistema transparente e de fácil acesso à informação. A Secretaria de Estado de Controle e Transparência do Espírito Santo (Secont) declara que a divulgação das informações no Portal da Transparência do Estado ou dos municípios fortalece a democracia ao garantir que os cidadãos capixabas tenham acesso direto aos dados completos sobre a utilização dos recursos da administração pública estadual”. 

    “Isso permite o exercício efetivo da participação ativa do cidadão e, consequentemente, do controle social, permitindo que a população fiscalize e acompanhe de perto a aplicação dos recursos públicos. Dessa forma, além de auxiliar no combate à corrupção, a transparência promove uma maior confiança da sociedade nas instituições governamentais,  assegurando que os processos sejam conduzidos de maneira ética, justa e responsável”, explica o secretário da Secont  e presidente do Conselho Nacional de Controle Interno (Conaci), Edmar Camata.

  • Onda conservadora: o que esperar para 2026?

    Onda conservadora: o que esperar para 2026?

    Nas eleições de 2024, os partidos de direita e extrema-direita avançaram no domínio das cidades brasileiras, incluindo do Espírito Santo. Veja análises de especialistas.

    Nos últimos anos, a onda conservadora tem crescido no Brasil e no mundo, impulsionada pela extrema-direita. No Espírito Santo, essa tendência se reflete no fortalecimento de pautas tradicionalistas, como a proteção do modelo padrão e cristão de família, e no avanço da direita nas eleições. Com as eleições de 2026 se aproximando, o cenário político capixaba e o nacional indicam novos desdobramentos para a escolha dos próximos deputados, senadores, governadores e presidente da república. Mas o que explica esse crescimento e o que esperar no futuro? A Primeira Mão conversou com especialistas no cenário político atual para entender.

    As eleições municipais de 2024 no Brasil confirmaram a tendência de fortalecimento da direita e centro-direita no cenário político nacional. Partidos de direita, como Republicanos, PL, Novo, etc., conquistaram 2.673 prefeituras, incluindo 11 das 26 capitais estaduais, representando um avanço de 5% em relação a 2020, quando obteve 2.539 prefeituras. Esse é o melhor desempenho desde as eleições municipais de 2000. O centro, com o MDB, PSD, PSDB, etc., manteve-se estável, elegendo prefeitos em 2.144 cidades, comparado a 2.166 em 2020.

    Em contraste, a esquerda, do PSOL, PT, entre outros, segue em declínio, iniciando uma trajetória decrescente, desde 2016. Em 2024, os partidos de esquerda juntos conseguiram 752 prefeituras, uma redução de 13% em relação a 2020, quando conquistaram 863 prefeituras, e obtiveram vitória em apenas uma capital estadual: Fortaleza (CE). Mesmo com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na presidência, não houve avanço significativo para a esquerda nas disputas municipais.

    Mapas mostram a ascensão da direita e a manutenção do centro nas eleições de 2024

    Arte e levantamento: Poder 360

    O avanço da direita e da extrema-direita não se restringe às eleições municipais. Dados recentes indicam que, desde 2010, os partidos de direita vêm ampliando sua representação no Congresso Nacional, atingindo um pico em 2018. Nesse ano, os partidos conservadores passaram a ocupar quase 60% das cadeiras na Câmara dos Deputados, impulsionados principalmente pelo crescimento do PSL, partido de Jair Bolsonaro, como observa o doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Mariano.

    Para o estudioso, o declínio do “Centrão” e a ascensão de pautas ultraconservadoras consolidaram essa guinada à direita, refletindo o descontentamento popular com a política tradicional, modelo em que políticos experientes e partidos consolidados lideram as decisões, seguindo regras conhecidas, como eleições e hierarquias definidas. Um dos eventos mais recentes e impactantes foi a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

    Em menos de três meses, Trump (re)instaurou uma série de retrocessos, incluindo a intensificação das políticas anti-imigração, a separação de famílias na fronteira e a desarticulação de políticas para minorias, como a comunidade LGBTQIA+, cujos direitos foram alvo de constantes ataques por meio de restrições em saúde, educação e acesso a espaços públicos.

    Além disso, o apoio de bilionários do setor de tecnologia a políticos da extrema-direita e a exclusão progressiva de políticas de diversidade dentro dessas empresas reforçam a disseminação desse discurso. As big techs, ao controlarem plataformas de mídia social, também desempenham um papel crucial na amplificação dessas narrativas, permitindo que sua ideologia atinja um público maior e de maneira mais rápida.

    No Brasil, a ascensão da extrema-direita ao poder ocorreu em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, que concentrou a representação da extrema-direita a ponto de um conceito baseado em seu sobrenome: o bolsonarismo.

    Para o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e doutor em Ciências Políticas, Ueber de Oliveira, apesar das diferenças culturais entre o Brasil e os Estados Unidos, a ascensão do conservadorismo em ambos os países tem como pano de fundo alguns fatores comuns, entre eles: a crise, que sempre acaba servindo de trampolim para figuras “messiânicas”.

    Oliveira observa que enquanto os EUA ainda se recuperam da crise econômica de 2008 e lidam com o crescimento da imigração no país, o Brasil teve sua crise política e institucional intensificada pela Operação Lava Jato.Para o especialista, a operação minou a confiança da população na política e, em vez de fortalecer a democracia, acabou criando um vácuo de poder preenchido por lideranças populistas de direita, com o discurso de “anti-política”.

    “A Lava Jato desqualifica a política como espaço de resolução de conflitos, criando terreno fértil para o crescimento da extrema-direita. Ou seja, se o objetivo era ‘limpar’ a política, acabamos trocando um problema por outro”, observa Ueber de Oliveira.

    Entretanto, as crises não são novidades na história. O diferencial desta vez é a tecnologia, que se manifesta, entre muitas formas, na concentração de capital e na precarização do trabalho, com plataformas como Uber e a automação eliminando postos de trabalho. Esse cenário de incerteza favorece discursos conservadores como resposta à crise. Com isso, as redes sociais se tornaram o principal palco da extrema-direita, permitindo que seu discurso de “salvação” chegasse mais rápido e mais longe. 

    Além disso, grandes empresas de tecnologia, cujos donos frequentemente mantêm relações estreitas com políticos da extrema-direita, também exercem influência sobre o cenário político global. Um exemplo notável é o bilionário Elon Musk, que exerce um cargo de alto prestígio no governo dos EUA no recém-criado Departamento de Eficiência Governamental. Sua presença nesse órgão reflete a influência das big techs na formulação de políticas públicas e na agenda econômica. 

    Eleições no ES e as previsões para a política em 2026

    Ao contrário do que alguns esperavam, o petismo e bolsonarismo não foram as forças motoras das eleições municipais, especialmente no Espírito Santo. Enquanto o PT não elegeu nenhum prefeito no estado, o PL, partido de Bolsonaro, lançou 50 candidatos e elegeu apenas 5. O grande vencedor foi o PSB, com 22 dos 37 candidatos eleitos a prefeitos.

    Partidos que lançaram candidatos às prefeituras capixabas nas eleições de 2024
    Gráfico: A Gazeta. Fonte: TSE

    Dessa forma, os municípios capixabas foram conquistados pela centro-direita, que, apesar de se “distanciar” do bolsonarismo em alguns momentos, ainda flerta com sua popularidade para conquistar o eleitorado conservador, seja ele tradicional ou radical.

    A extrema-direita teve mais sucesso nas regiões serrana e sul do Espírito Santo, locais historicamente marcados pelo coronelismo e pelo integralismo, ideologias que, para a surpresa de poucos, ainda encontram respaldo em parte do eleitorado.

    O professor Ueber de Oliveira ressalta que as eleições municipais, longe de serem um mero reflexo da política nacional, são a base do sistema político brasileiro, que tem um forte viés municipalista.

    Diante disso, o cenário para 2026 permanece incerto. Na perspectiva do especialista em ciências políticas, Lula tem um bom potencial de reeleição, especialmente devido à falta de um candidato forte na oposição. No entanto, Oliveira destaca que a comunicação do governo e a habilidade de Lula de manter alianças no Congresso serão cruciais para determinar os rumos da disputa.

    O Brasil segue polarizado, mas os resultados das eleições municipais mostram que a política nacional não pode ser analisada apenas sob a ótica do embate entre petismo e bolsonarismo. A centro-direita, por sua vez, surge como aquela figura que jura ser diferente,  mas no fundo só está esperando o momento certo para escolher um lado.

  • De servente a professora: A história de Tia Beth e sua jornada de amor pela educação

    De servente a professora: A história de Tia Beth e sua jornada de amor pela educação

    Uma mulher que transformou desafios em conquistas, saindo da cozinha para a sala de aula, e provando que a educação pode mudar realidades.

    A vida é tecida por encontros e oportunidades. Os sonhos não nascem prontos, são despertados no meio do caminho, moldados por desejos que aparecem nos acasos. A história de Elizabeth, carinhosamente conhecida como Tia Beth, é um exemplo disso: uma mulher que encontrou sua vocação na educação ao longo de sua jornada na Cooperativa Educacional de São Gabriel da Palha (Coopesg).

    Antes de se tornar professora, Tia Beth levava uma vida simples no pequeno patrimônio de São Sebastião da Barra Seca, em São Gabriel da Palha. Criada em uma família humilde, ela sempre acreditou na importância da educação, incentivada por sua mãe, que, mesmo sem ter tido oportunidades de estudo, fazia questão de ensinar aos filhos o valor do conhecimento.

    Em 2003, surgiu a oportunidade de trabalhar como servente na Coopesg. Seu papel era manter as salas limpas e auxiliar na cantina, mas foi no contato com as crianças que algo especial começou a florescer. “Fui tendo aquele carinho, aquela recepção tão gostosa das crianças… e aquilo foi me tocando”, relembra.

    “Tia Beth” com seus alunos em uma atividade em sala de aula. Foto: Arquivo Pessoal.

    O destino mostrou seu caminho quando uma professora da educação infantil precisou se afastar por motivos de saúde, e Tia Beth, que já acumulava cinco anos de dedicação à cooperativa, foi chamada para atuar como auxiliar. Inicialmente, a mudança parecia temporária, mas os dias foram se estendendo, até que, um ano depois, ela se viu definitivamente inserida no universo da educação infantil.

    Foi nesse momento, já perto dos 30 anos, casada e com um filho ainda criança, que ela percebeu que não poderia parar ali. Com o incentivo de Carmen Rigo, coordenadora pedagógica, decidiu retomar os estudos. “Quando ela me disse que eu precisava estudar, eu disse ‘misericórdia’, porque tinha um filho pequeno e não via como conseguiria. Mas ela me matriculou, trouxe a papelada e eu fui”, conta emocionada.

    A jornada foi difícil. Para concluir o ensino médio, Tia Beth enfrentava longos trajetos até a escola, muitas vezes levando o filho junto. Eram quatro quilômetros de distância entre sua casa e a escola, e, em alguns dias, ela conseguia pegar carona com o ônibus que trazia alunos da roça. Quando não conseguia, ia a pé, enfrentando o caminho com a criança ao seu lado. 

    Após concluir o ensino médio, ela deu o próximo passo e ingressou no curso de pedagogia. A faculdade era semipresencial, em Nova Venécia, a cerca de 45 quilômetros de sua casa. Nos finais de semana, ela viajava para a cidade, pegando carona com amigas para dividir os custos de gasolina. Foram três anos e meio de dedicação, noites mal dormidas e muito esforço. Mas o sonho se tornou realidade: em 2014, já no quarto período da faculdade, ela assumiu uma sala como professora regente.

    A emoção da família ao ver sua conquista foi indescritível. “Minha mãe chorou, gritou para a vizinhança que a filha dela ia ser professora. Era um sonho não só meu, mas dela também. Para ela, ser professora era uma das profissões mais respeitadas, e ver essa conquista na família foi algo muito especial”, relata.

    Hoje, 22 anos depois de ingressar na Coopesg e 11 anos como professora, Tia Beth leciona para a turma do maternal. Sua rotina é dividida entre os cuidados com a netinha e o trabalho na escola, onde dedica suas tardes às crianças de dois a três anos. “Agora a responsabilidade é muito maior. Temos plano de aula, precisamos estar sempre atualizados, nos dedicamos em dobro para garantir o melhor aprendizado para os pequenos”, explica.

    Ser professora para ela é mais do que uma profissão: é uma missão. “Quando vejo o brilho nos olhos das crianças, quando percebo que posso fazer diferença na vida delas, tudo vale a pena. Sinto que estou exatamente onde devia estar.”

    Educação além da “idade ideal”

    A trajetória de Tia Beth reflete uma realidade presente no Brasil: o ingresso no ensino superior em idades além da considerada “ideal”. De acordo com o Censo da Educação Superior de 2023, houve mais de 4,9 milhões de ingressantes em cursos de graduação, dos quais  88,6%  rumaram para a rede privada. Além disso, a modalidade de Educação a Distância (EaD) representou 66,4% das novas matrículas, indicando que essa alternativa tem permitido a adultos conciliarem estudos com outras responsabilidades.

    Esses dados evidenciam que, apesar dos desafios, há uma crescente busca pela educação superior por parte de adultos que não seguiram o percurso acadêmico tradicional. 

    Um exemplo de superação e inspiração

    Tia Beth é um testemunho de resiliência e paixão. De servente a professora, sua história prova que o amor pela educação pode transformar vidas. Seu caminho é um incentivo para tantos outros que sonham, mas não sabem por onde começar.

    “Realizei dois sonhos: ser enfermeira e ser professora. Trabalhei na saúde por sete anos e, agora, estou na educação, onde me encontrei. Tudo isso aconteceu porque agarrei as oportunidades e não desisti. Se eu posso deixar uma mensagem para quem está na dúvida sobre seguir um sonho, é essa: não tenha medo. Tudo vale a pena quando se faz com amor”, afirma.

    Por trás de cada escola, de cada sala de aula, existem muitas outras “Tias Beths”, mulheres que, com coragem e determinação, transformam seus caminhos e impactam a vida de inúmeras pessoas. Elas são inspiração para tantos que acreditam no poder da educação, provando que nunca é tarde para recomeçar e que os sonhos, quando cultivados e incentivados, podem se tornar realidade.

    Cooperativa Educacional de São Gabriel da Palha (Coopesg)

    Fundada em 1993, a Coopesg surgiu para melhorar a educação em São Gabriel da Palha. Com uma proposta cooperativa e sem fins lucrativos, a escola oferece cursos completos e técnicos, atendendo da educação infantil até o 9º ano do ensino fundamental. A administração é feita pelas mensalidades dos alunos, que participam de assembleias para decidir os rumos da instituição.

  • Como o ES se prepara para o maior evento sobre o clima

    Como o ES se prepara para o maior evento sobre o clima

    Conferência acontece na Amazônia e ES inicia preparativos para participar

    O Espírito Santo começa a se preparar para participar da  Conferência das Partes (COP), um encontro mundial em que líderes de vários países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) se reúnem para discutir os problemas climáticos e buscar soluções para reduzir os danos ao meio ambiente. Este ano, a trigésima COP (COP30) se realiza, em novembro, em Belém,  Pará. Para pensar essas iniciativas, foi criada a Comissão Técnica para a COP-30 com a participação de todos os setores políticos estaduais. A delegação que vai à COP-30 será oficialmente definida no Fórum Capixaba de Mudanças Climáticas (FCMC). Além da delegação, está em desenvolvimento a Carta do Espírito Santo, que reúne propostas sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas por meio de soluções voltadas à resiliência das cidades, segurança hídrica, reflorestamento e descarbonização da economia. 

    O documento será finalizado  em junho, no evento Sustentabilidade Brasil 2025, que acontece na Praça do Papa, em Vitória. A ideia busca evidenciar aos líderes presentes, os dilemas Espírito Santo  em relação ao meio ambiente, em especial com os efeitos climáticos sofridos nos últimos anos. Em seguida, as ideias serão apresentadas no Congresso Sustentável 2025, que acontecerá em Belém do Pará, em julho e, por fim, na COP-30, em novembro. 

    Regionalmente, a conferência é importante para estabelecer programas que tragam soluções para o clima capixaba. O Espírito Santo tem enfrentado problemas de desertificação devido às alterações no regime de chuvas, o que influencia o ciclo hidrológico e gera problemas ambientais ligados aos recursos hídricos. Esse cenário impacta a realidade de todos os setores da sociedade, por exemplo, provocando perdas consideráveis na produção agrícola, devido a inundações ou secas. 

    Estratégias do Governo 

    Mesmo assim, o Espírito Santo considera-se  protagonista quando o assunto é meio ambiente. Uma das iniciativas apontadas pelas autoridades estaduais para evidenciar isso é o Programa Capixaba de Mudanças Climáticas (PCMC). O projeto estrutura mais de 70 ações voltadas para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas e segundo a secretaria de Meio Ambiente (Sema), até 2026, o projeto deve receber um investimento superior a R$3 bilhões. 

    Outro exemplo de protagonismo apontado é que o ES preside o Consórcio Brasil Verde, aliança que reúne 21 estados brasileiros para incentivar ações que contornam as mudanças climáticas. Segundo o secretário Felipe Rigoni, o estado tem uma participação ativa, “coordenando esforços para garantir que os estados brasileiros avancem em suas metas climáticas e na transição para uma economia de baixo carbono”.

    O papel do estado na presidência do Consórcio é articular os demais aliados  para a formulação de políticas climáticas, desenvolvendo estratégias para captação de recursos nacionais e internacionais a fim de remediar os impactos ambientais nocivos da atividade humana. “As soluções debatidas na Conferência Nacional Sustentabilidade terão impactos diretos no Espírito Santo, fortalecendo o estado como referência em sustentabilidade e garantindo que as propostas levadas para a COP-30 representem um compromisso sólido com o desenvolvimento sustentável e resiliência climática”, afirma o secretário. 

    Como presidente do Consórcio Brasil Verde, o governo do estado visa articular os demais aliados  para a formulação de políticas climáticas, desenvolvendo estratégias para captação de recursos nacionais e internacionais a fim de remediar os impactos ambientais nocivos da atividade humana. “As soluções debatidas na Conferência Nacional Sustentabilidade terão impactos diretos no Espírito Santo, fortalecendo o estado como referência em sustentabilidade e garantindo que as propostas levadas para a COP-30 representem um compromisso sólido com o desenvolvimento sustentável e resiliência climática”, afirma o secretário de Meio Ambiente, Felipe Rigoni. 

    O clima do Espírito Santo

    As Conferências são essenciais para os avanços e mudança de posturas dos países quanto à exploração e conservação da biodiversidade. Além disso,  o evento mostra às nações os seus direitos conforme seus respectivos patrimônios genéticos. Estes congregam a formação e a origem genética das espécies vegetais, animais e microrganismos existentes nos territórios nacionais, bem como os  Conhecimentos Tradicionais Associados que se relacionam com os povos originários, como indígenas ou comunidades com valor ligado ao patrimônio genético.

    Regionalmente, a conferência é importante para estabelecer programas que tragam soluções para o clima capixaba. No qual, tem enfrentado sérios problemas de desertificação devido às alterações no regime de chuvas, o que influencia o ciclo hidrológico e gera problemas ambientais ligados aos recursos hídricos. Esse cenário impacta a realidade de todos os setores da sociedade, por exemplo, provocando perdas consideráveis na produção agrícola, devido a inundações ou secas. 

    Diante disso, o Programa Capixaba de Mudanças Climáticas analisou a bacia hidrográfica do Rio Doce no cenário de altas emissões de gases de efeito estufa. Os resultados da análise indicaram redução das precipitações médias anuais e sazonais ao longo do século XXI, levando a graves problemas na sua bacia do rio Doce, como a tendência à diminuição das vazões.

    A relevância da realização da COP30 na Amazônia

    A Conferência das Partes é essencial para os avanços e mudanças de posturas dos países quanto à exploração e conservação da biodiversidade. Além disso, o evento mostra às nações os seus direitos conforme seus respectivos patrimônios genéticos. Estes que se tratam da formação e a origem genéticas das espécies vegetais, animais e microrganismos existentes nos territórios nacionais, bem como, os  Conhecimentos Tradicionais Associados, que se relacionam com os povos originários, no qual se trata do saber a respeito  dos povos indígenas ou comunidades individuais com valor ligado ao patrimônio genético.

    A COP-30 acontece no Pará, com o objetivo fundamental de conduzir líderes mundiais a discutirem a respeito do clima na Amazônia brasileira. A amazônia sofre anualmente com o desmatamento, e a  perda dessa biomassa implica no aumento do gás carbônico atmosférico, o CO2, que é um dos principais gases de efeito estufa. A floresta, também  produz grandes “rios voadores”, caracterizados pela umidade produzida pela Amazônia e que se dispersa por todo o continente sul-americano. O que consequentemente também coopera para a manutenção das condições da temperatura local. E por fim, afeta o clima mundial, como explica o doutor em Ecologia e Recursos Naturais, Marcelo Teixeira, da Universidade Federal do Espírito Santo.

    “As florestas tropicais mantêm a maior parte da diversidade de seres vivos do planeta. A sua conservação implica na manutenção e existência dessa biodiversidade, e consequentemente na manutenção das interações entre todas as espécies. Essas interações é que alteraram e produziram essas florestas como elas são, com toda a biomassa e ações nos ciclos da água, do CO2 e outros ciclos biogeoquímicos. Assim, elas não só alteram as condições de chuvas e a temperatura para a América do Sul, mas para a terra como um todo”.


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