Nas eleições de 2024, os partidos de direita e extrema-direita avançaram no domínio das cidades brasileiras, incluindo do Espírito Santo. Veja análises de especialistas.
Nos últimos anos, a onda conservadora tem crescido no Brasil e no mundo, impulsionada pela extrema-direita. No Espírito Santo, essa tendência se reflete no fortalecimento de pautas tradicionalistas, como a proteção do modelo padrão e cristão de família, e no avanço da direita nas eleições. Com as eleições de 2026 se aproximando, o cenário político capixaba e o nacional indicam novos desdobramentos para a escolha dos próximos deputados, senadores, governadores e presidente da república. Mas o que explica esse crescimento e o que esperar no futuro? A Primeira Mão conversou com especialistas no cenário político atual para entender.
As eleições municipais de 2024 no Brasil confirmaram a tendência de fortalecimento da direita e centro-direita no cenário político nacional. Partidos de direita, como Republicanos, PL, Novo, etc., conquistaram 2.673 prefeituras, incluindo 11 das 26 capitais estaduais, representando um avanço de 5% em relação a 2020, quando obteve 2.539 prefeituras. Esse é o melhor desempenho desde as eleições municipais de 2000. O centro, com o MDB, PSD, PSDB, etc., manteve-se estável, elegendo prefeitos em 2.144 cidades, comparado a 2.166 em 2020.
Em contraste, a esquerda, do PSOL, PT, entre outros, segue em declínio, iniciando uma trajetória decrescente, desde 2016. Em 2024, os partidos de esquerda juntos conseguiram 752 prefeituras, uma redução de 13% em relação a 2020, quando conquistaram 863 prefeituras, e obtiveram vitória em apenas uma capital estadual: Fortaleza (CE). Mesmo com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na presidência, não houve avanço significativo para a esquerda nas disputas municipais.
Mapas mostram a ascensão da direita e a manutenção do centro nas eleições de 2024
Arte e levantamento: Poder 360
O avanço da direita e da extrema-direita não se restringe às eleições municipais. Dados recentes indicam que, desde 2010, os partidos de direita vêm ampliando sua representação no Congresso Nacional, atingindo um pico em 2018. Nesse ano, os partidos conservadores passaram a ocupar quase 60% das cadeiras na Câmara dos Deputados, impulsionados principalmente pelo crescimento do PSL, partido de Jair Bolsonaro, como observa o doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Mariano.
Para o estudioso, o declínio do “Centrão” e a ascensão de pautas ultraconservadoras consolidaram essa guinada à direita, refletindo o descontentamento popular com a política tradicional, modelo em que políticos experientes e partidos consolidados lideram as decisões, seguindo regras conhecidas, como eleições e hierarquias definidas. Um dos eventos mais recentes e impactantes foi a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.
Em menos de três meses, Trump (re)instaurou uma série de retrocessos, incluindo a intensificação das políticas anti-imigração, a separação de famílias na fronteira e a desarticulação de políticas para minorias, como a comunidade LGBTQIA+, cujos direitos foram alvo de constantes ataques por meio de restrições em saúde, educação e acesso a espaços públicos.
Além disso, o apoio de bilionários do setor de tecnologia a políticos da extrema-direita e a exclusão progressiva de políticas de diversidade dentro dessas empresas reforçam a disseminação desse discurso. As big techs, ao controlarem plataformas de mídia social, também desempenham um papel crucial na amplificação dessas narrativas, permitindo que sua ideologia atinja um público maior e de maneira mais rápida.
No Brasil, a ascensão da extrema-direita ao poder ocorreu em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, que concentrou a representação da extrema-direita a ponto de um conceito baseado em seu sobrenome: o bolsonarismo.
Para o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e doutor em Ciências Políticas, Ueber de Oliveira, apesar das diferenças culturais entre o Brasil e os Estados Unidos, a ascensão do conservadorismo em ambos os países tem como pano de fundo alguns fatores comuns, entre eles: a crise, que sempre acaba servindo de trampolim para figuras “messiânicas”.
Oliveira observa que enquanto os EUA ainda se recuperam da crise econômica de 2008 e lidam com o crescimento da imigração no país, o Brasil teve sua crise política e institucional intensificada pela Operação Lava Jato.Para o especialista, a operação minou a confiança da população na política e, em vez de fortalecer a democracia, acabou criando um vácuo de poder preenchido por lideranças populistas de direita, com o discurso de “anti-política”.
“A Lava Jato desqualifica a política como espaço de resolução de conflitos, criando terreno fértil para o crescimento da extrema-direita. Ou seja, se o objetivo era ‘limpar’ a política, acabamos trocando um problema por outro”, observa Ueber de Oliveira.
Entretanto, as crises não são novidades na história. O diferencial desta vez é a tecnologia, que se manifesta, entre muitas formas, na concentração de capital e na precarização do trabalho, com plataformas como Uber e a automação eliminando postos de trabalho. Esse cenário de incerteza favorece discursos conservadores como resposta à crise. Com isso, as redes sociais se tornaram o principal palco da extrema-direita, permitindo que seu discurso de “salvação” chegasse mais rápido e mais longe.
Além disso, grandes empresas de tecnologia, cujos donos frequentemente mantêm relações estreitas com políticos da extrema-direita, também exercem influência sobre o cenário político global. Um exemplo notável é o bilionário Elon Musk, que exerce um cargo de alto prestígio no governo dos EUA no recém-criado Departamento de Eficiência Governamental. Sua presença nesse órgão reflete a influência das big techs na formulação de políticas públicas e na agenda econômica.
Eleições no ES e as previsões para a política em 2026
Ao contrário do que alguns esperavam, o petismo e bolsonarismo não foram as forças motoras das eleições municipais, especialmente no Espírito Santo. Enquanto o PT não elegeu nenhum prefeito no estado, o PL, partido de Bolsonaro, lançou 50 candidatos e elegeu apenas 5. O grande vencedor foi o PSB, com 22 dos 37 candidatos eleitos a prefeitos.
Partidos que lançaram candidatos às prefeituras capixabas nas eleições de 2024
Gráfico: A Gazeta. Fonte: TSE
Dessa forma, os municípios capixabas foram conquistados pela centro-direita, que, apesar de se “distanciar” do bolsonarismo em alguns momentos, ainda flerta com sua popularidade para conquistar o eleitorado conservador, seja ele tradicional ou radical.
A extrema-direita teve mais sucesso nas regiões serrana e sul do Espírito Santo, locais historicamente marcados pelo coronelismo e pelo integralismo, ideologias que, para a surpresa de poucos, ainda encontram respaldo em parte do eleitorado.
O professor Ueber de Oliveira ressalta que as eleições municipais, longe de serem um mero reflexo da política nacional, são a base do sistema político brasileiro, que tem um forte viés municipalista.
Diante disso, o cenário para 2026 permanece incerto. Na perspectiva do especialista em ciências políticas, Lula tem um bom potencial de reeleição, especialmente devido à falta de um candidato forte na oposição. No entanto, Oliveira destaca que a comunicação do governo e a habilidade de Lula de manter alianças no Congresso serão cruciais para determinar os rumos da disputa.
O Brasil segue polarizado, mas os resultados das eleições municipais mostram que a política nacional não pode ser analisada apenas sob a ótica do embate entre petismo e bolsonarismo. A centro-direita, por sua vez, surge como aquela figura que jura ser diferente, mas no fundo só está esperando o momento certo para escolher um lado.