Autor: ruthreis

  • Teatro do Centro de Artes: Até quando?

    Teatro do Centro de Artes: Até quando?

    Iniciadas há mais de 10 anos, as obras permanecem sem previsão de conclusão


    Mélany Pacheco Nogueira

    Iniciado em 2014, o teatro do Centro de Artes foi concebido para atender às demandas acadêmicas e culturais dos cursos de artes. Ao longo dos anos, a construção passou por sucessivas paralisações, licitações frustradas e revisões de projeto, tornando-se símbolo de promessas não cumpridas. Embora a estrutura básica esteja erguida, o prédio nunca chegou a ser utilizado e segue fechado à comunidade universitária e ao público externo. 

    A direção do Centro de Artes considera que, mesmo com todas as incertezas, este é o momento mais promissor em anos, e informa que após uma longa trajetória de tentativas fracassadas para conclusão da obra, a empresa licitada para tal, está finalizando ajustes para iniciar a obra.

    “Será um espaço para ensaios e apresentações com qualidade acústica, além de valorizar a imagem do Centro de Artes. Mayra Aguiar, vice diretra do CAr

    Para a vice-diretora do Centro de Artes, Maira Aguiar, o teatro representa muito mais do que um prédio inacabado: será um espaço de formação cultural e artística.“Tem uma importância muito grande para nós, não só simbólica, mas prática. Será o espaço para ensaios e apresentações com qualidade de som e acústica, além de valorizar a imagem do Centro de Artes, diz a vice-diretora.

    Além disso, ela acredita que o teatro poderia gerar receita própria para ajudar a manter o Centro. “Nós poderíamos alugar para eventos e apresentações, e essa captação ajudaria a enfrentar a falta de recursos que a universidade vive há anos.”, afirma Aguiar.

    Obra marcada por problemas

    O histórico da construção é longo e conturbado. Desde o início, sucessivas licitações acabaram fracassando: empresas abandonavam a obra por problemas financeiros, falta de capacidade técnica ou questões estruturais descobertas tardiamente. Segundo a vice-diretora, nove empresas já foram licitadas ao longo dos anos.

    Em vários casos, após a contratação, as construtoras não conseguiam comprovar que tinham condições de dar andamento ao projeto. Em outros momentos, foram identificadas falhas estruturais na edificação, o que exigiu revisões de engenharia e novos processos licitatórios.

    Em 2024, a obra finalmente foi contemplada pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, com recursos estimados entre R$ 5,45  milhões. Apesar da esperança, permanece a dúvida se o valor será suficiente. 

    Embora a estrutura básica esteja construída, ainda faltam acabamento, instalação de equipamentos acústicos, mobiliário e sistemas de som, que têm custo elevado. Segundo a Superintendência de Infraestrutura da Ufes foi procurada para informar quando as obras recomeçam, mas não respondeu até o fechamento desta edição. A promessa inicial era começar ainda em 2025, com entrega prevista em 2026, mas essas datas podem se estender dependendo de revisões estruturais e novas licitações.

    Impactos na formação acadêmica 

    A obra inacabada do teatro tem impacto na formação dos estudantes. Cursos como música e artes visuais convivem com limitações estruturais que prejudicam apresentações e a vivência artística. Thalia Barbosa Ribeiro entende como isso afeta as aulas práticas. 

    “Temos aulas práticas sobre movimento corporal, e eu acredito que seria uma coisa muito útil o teatro do CAr, porque as salas não têm estrutura para a pessoa fazerem esses movimentos. O funcionamento do teatro do Centro de Artes proporcionaria aos alunos mais acesso à exposição das suas formas de expressão, mais autonomia e espaço para aulas”. Além da parte pedagógica, a ausência do teatro impede a criação de novos projetos de extensão e pesquisa. 

    Imagens do Teatro do Centro de Artes pela HZ A Gazeta

  • Hiperconexão ameaça o bem-estar no trabalho

    Hiperconexão ameaça o bem-estar no trabalho

    Além dos baixos salários, queda na credibilidade da profissão e redução de oportunidades no mercado de trabalho, profissionais da informação enfrentam a “sobrecarga informacional”

    Cansaço mental, fadiga física, irritabilidade, alterações de humor, distúrbios de memória e dificuldade de concentração são alguns dos sintomas frequentemente observados em quem lida diariamente com volumes massivos de informação. Uma pesquisa do psiquiatra e pesquisador Anthony Feinstein da Universidade de Toronto, no Canadá, sobre a saúde de jornalistas que cobrem eventos climáticos apresentou resultados preliminares alarmantes durante um seminário da Oxford Climate Journalism Network no Reuters Institute, programa de apoio à comunidade global de repórteres e editores de diversas áreas e plataformas. Segundo o estudo, quase metade dos jornalistas que participaram da pesquisa relatou sintomas moderados a graves de ansiedade (48%) e depressão (42%). 

    Os sintomas podem ser sentidos em qualquer indivíduo que tenha contato direto com grandes volumes de informação. Isso inclui uma vasta gama de profissionais da informação, como jornalistas, que processam e disseminam notícias; pesquisadores, que analisam dados em busca de novos conhecimentos; analistas de dados, que interpretam informações para embasar decisões estratégicas; cientistas da computação, que desenvolvem sistemas para gerenciar e extrair valor de dados complexos; e até mesmo estudantes e educadores, que estão constantemente expostos a um fluxo contínuo de conteúdo.

    A sobrecarga informacional surge a partir do contato constante entre o profissional e grandes quantidades de informações, geralmente compartilhadas instantaneamente por intermédio das redes sociais. Tal fenômeno começa a afetar o bem estar no trabalho quando prejudica a capacidade de criação, julgamento crítico e inovação. 

    3% relatam que a saúde mental não é levada a sério em suas redações;55% não têm acesso a recursos para apoiar sua saúde mental e física;
    16% das pessoas fizeram uma pausa no trabalho por motivos de saúde mental;As respostas emocionais ao trabalho com mudanças climáticas (em ordem de gravidade e frequência) são: desespero, raiva, culpa, nojo e vergonha. Estes são sintomas de dano moral.
    Priscilla de Oliveira Martins
    Fonte: Reprodução AGazeta

    Professora da Ufes Priscilla de Oliveira Martins, doutora em Psicologia e especialista em pesquisas e consultorias voltadas para o mundo do trabalho, afirma que além dos sintomas comuns à sobrecarga de informação, os indivíduos podem apresentar distúrbios de sono e insatisfação com o trabalho. “Muitas vezes o trabalho que era considerado algo prazeroso e que trazia sentimentos positivos, passa a trazer sentimentos negativos, tais como ansiedade e irritação.” destaca. 

    A especialista ressalta que além da redução do volume de trabalho, as pessoas que lidam com dificuldades pelo excesso informativo devem estabelecer estratégias de manejo e prevenção para proteção da saúde mental. Dentre ações descritas pela psicóloga, estabelecer limites entre o tempo de trabalho e o tempo fora é essencial. 

    O avanço tecnológico e informacional proporcionado pela internet garante conectividade constante aos profissionais, que consequentemente se veem presos no papel de “vigilantes da informação” 24 horas por dia. Neste sentido, a disponibilidade constante permite que o tempo de trabalho invada os demais tempos da pessoa como o tempo em família, o de lazer e o destinado ao autocuidado. 

    “A prática do autocuidado é fundamental para o bem-estar integral, abrangendo a saúde mental e física. É essencial engajar-se em atividades físicas, dedicar tempo a momentos de lazer e fortalecer os laços sociais com amigos e familiares, pois essas ações promovem uma vida mais equilibrada e plena. Priorizar o autocuidado é investir em qualidade de vida.” pondera Priscilla. 

    Um grande obstáculo destacado pela especialista diz respeito à dinâmica das plataformas digitais, que propagam de maneira instantânea milhares de informações sobre os mais variados assuntos, e a pressão por velocidade característica tanto deste espaço virtual quanto pela valorização do “furo jornalístico”. 

    Há uma certa pressão para que além da rapidez, as notícias sejam entregues de forma correta e bem apurada. Tais condições favorecem a exaustão mental e física do profissional de comunicação para além dos sintomas já citados. Priscila destaca que, dentro do ambiente de trabalho, o papel da gestão das empresas é de extrema relevância. Piorar a condição mental ou favorecer o desenvolvimento adequado do trabalho do profissional sem comprometer a saúde mental ou física depende da ação das organizações.

    “Para que a comunicação interna seja eficaz e ética, é crucial ter uma cultura e liderança que priorizem a ética na divulgação da informação e a qualidade dos dados. Isso significa valorizar a análise cuidadosa de toda informação antes de sua disseminação. Além disso, um ambiente de trabalho colaborativo entre os profissionais é fundamental para um bom clima organizacional, servindo como uma salvaguarda para essas exigências.” recomenda. 

    Yasmin Ribeiro Gatto
    Fonte: Divulgação

    Yasmin Ribeiro Gatto, professora, mestre e doutora em Comunicação, compartilha que os profissionais da informação são diariamente pressionados pela velocidade das notícias, especialmente em redações jornalísticas cujo tempo de produção é quase sempre curto. Quem lida com informação é forçado a acompanhar as notícias em tempo real e a estar conectado a todo momento caso haja necessidade de cobertura demandada pelo veículo de comunicação. Essa pressão vem tanto de dentro do ambiente de trabalho quanto da sociedade, que exige uma velocidade noticiosa dos fatos entendendo o papel informativo do jornalismo sob os acontecimentos do cotidiano. 

    A professora destaca que o não acompanhamento do ritmo de produção de notícias, é garantia de exclusão do mercado de trabalho. “Se você trabalha com informação precisa estar bem informado”, afirma. No entanto, enquanto antes da internet bastava ter conhecimento de determinados assuntos para realização da cobertura, hoje nota-se que o profissional da informação deve ser multitarefa e multiplataforma. Isso significa que deve saber falar de variados assuntos em diferentes configurações adequando-se ao veículo, rede ou público pretendido. 

    “Hoje, você precisa saber de uma infinidade de acontecimentos que, segundo estudos, nem um ser humano está preparado para ter esse nível de acúmulo de informação. E isso impacta de forma muito negativa na saúde mental. Primeiro porque é uma exaustão no trabalho e segundo porque se você não consegue acompanhar, você se sente insuficiente. Então, você está sempre sendo compelido a entrar num ritmo de trabalho assustador, entrar em processos de ansiedade”, destaca. 

    Embora sejam muitos os obstáculos para realização do trabalho informativo, Yasmin afirma que o jornalista tem um papel essencial nesse cenário de “infoxicação” (intoxicação de informação). Considerando a capacidade dos espaços virtuais para a propagação de fake news e pós-verdades (fenômeno onde a verdade factual é menos influente na formação da opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais), é necessário que o jornalista trabalhe com um compromisso ético. Dessa forma, a partir do rigor jornalístico e excelente apuração será possível a redução de perdas informacionais e circulação de desinformações na esfera digital. “Por várias questões e principalmente por essa alta velocidade de informações, é que a pessoa acaba filtrando muito pouco e não conseguindo discernir o que é verdade e que é mentira.” analisa a professora. 

    Ao direcionarmos o debate para quem lida com outro tipo de informação como o pesquisador do Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic) Gabriel Herkenhoff, é possível observar que na análise de dados o big data (conjuntos de dados extremamente grandes e complexos, que são difíceis de processar com ferramentas tradicionais de gerenciamento de dados) impõe desafios significativos.

    Gabriel Herkenhoff
    Fonte: Divulgação

    Segundo ele, por mais capacitado que o profissional seja para organização dos dados no desenvolvimento das tarefas, a impressão que fica é a existência de um excesso. O trabalho exercido em meio a informações fragmentadas e com características distintas dificulta a constância da atenção e de um pensamento bem estruturado, o que torna o trabalho de análise ainda mais complexo. “No caso do analista, se o excesso de dados que é parte do seu trabalho já tem um potencial de gerar ansiedade, há ainda essa pressão externa que é a do empregador. Nesse sentido, o trabalho com a análise fica em meio a uma dupla exposição a fatores de ansiedade.” revela o pesquisador.   

    Além disso, Gabriel afirma que, em seu ambiente de trabalho, a fragmentação dos dados e excesso de ruído informativo causa sobrecarga dos analistas, que também precisam lidar com temas sensíveis como discursos de ódio, teorias conspiratórias e desinformação.

    O pesquisador afirma que é necessário destinar um tempo de descanso, de preferência fora das telas, a fim de qualificar a análise dos dados e garantir que o analista não fique sobrecarregado pelo volume de informações. Adicionalmente, ele cita uma segunda alternativa que seria de grande impacto na rotina dos pesquisadores. “Uma solução um pouco mais complexa é utilizar softwares e aplicações mais amigáveis para disponibilizar os dados para os analistas, de modo que as atividades fiquem menos vinculadas ao trabalho com planilhas e dados brutos, que sempre implicam um esforço extra de organização.” conclui.

  • O mundo está acabando ou é só impressão minha?

    O mundo está acabando ou é só impressão minha?

    O agravamento acelerado das mudanças climáticas em comparação ao ritmo lento de adoção de um desenvolvimento sustentável tem produzido impactos significativos na saúde mental dos indivíduos. Sem saber se o próximo dia será mais quente ou mais frio ou sequer a gravidade dos eventos climáticos futuros, as pessoas vivem em medo constante e uma persistente sensação de fim do mundo.
    De acordo com o artigo médico publicado pela Harvard Health Publishing, plataforma de notícias da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, “a ansiedade em relação ao clima geralmente é acompanhada por sentimentos de pesar, raiva, culpa e vergonha que, por sua vez, podem afetar o humor, o comportamento e o pensamento.”
    A ansiedade climática é sentida como um desamparo, desesperança e tristeza diante emergência dos eventos climáticos, mas se manifesta de maneira mais tangível na análise de seus sintomas. Além de impactos no humor e no comportamento, a ecoansiedade pode causar perda na capacidade de se concentrar, comer, dormir, estudar e desfrutar dos relacionamentos, explica a Smithsonian Magazine, uma publicação do Museu Smithsonian (instituição educacional e de pesquisa fundada e administrada pelo governo dos Estados Unidos). O quadro ansioso também pode impactar diretamente o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes.
    Em reportagem sobre mudança climática publicada pela National Geographic Brasil em julho de 2022 é evidenciado que as pessoas mais jovens são as mais afetadas pelo problema. O dado é reforçado também por uma pesquisa realizada pela revista científica The Lancet. “Mais da metade dos 10 mil jovens entrevistados concordou com a afirmação: ‘a humanidade está condenada’ e disseram que as preocupações com o estado do planeta estavam interferindo no sono, na capacidade de estudar, brincar e se divertir”, destaca a reportagem.

    Segundo o MapBiomas, rede colaborativa de cocriadores formada por Organizações Não Governamentais (ONGs), universidades e empresas de tecnologia, em 2024, a Amazônia atingiu recorde de incêndios florestais, apresentando aproximadamente 15,6 milhões de hectares queimados, um valor correspondente a 52% de toda área nacional afetada pelo fogo no ano. Estudos da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam que o derretimento acelerado das geleiras – que entre 2022 e 2024 registrou o maior degelo observado em três anos – pode gerar consequências para todo o mundo, como o aumento de inundações e elevação do nível do mar.  
    No dia 01 de agosto do ano passado a humanidade havia esgotado todos os recursos do planeta disponíveis para o 2024, começando a consumir recursos de 2025, segundo a organização internacional Global Footprint Network.De acordo com o programa de observação europeu Copernicus, o aumento de 1,6°C da temperatura média global em relação aos níveis pré-industriais desafiam o que é considerado limite seguro para o planeta (2°C).
    Walter Louzada
    Fonte: Reprodução Clínica Essência Psi 

    O psicólogo e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) Walter Louzada sinaliza que a diferença entre ansiedade climática e uma preocupação ambiental comum está nos impactos diretos à saúde dos indivíduos. Enquanto a ecoansiedade pode causar angústia e medo, acompanhado de demais sintomas característicos de um transtorno ansioso, a preocupação ambiental impulsiona atitudes mais ativas quanto as dificuldades ambientais seja através de pequenos hábitos ecológicos e sustentáveis até o envolvimento em atos mais profundos e de longo alcance, sem gerar a sintomatologia de ansiedade. “A ansiedade climática é mais prevalente entre os jovens devido à sua educação ambiental e maior acesso à informação, contrastando com gerações anteriores. Essa preocupação é agravada pela falta de estrutura de apoio à saúde mental na sociedade atual, deixando-os despreparados para lidar com os desafios ecológicos do século”, analisa o psicólogo.
    Segundo o especialista, a mídia, as redes sociais e demais veículos de informações trabalham diretamente no favorecimento ou diminuição dos transtornos desenvolvidos em relação aos eventos climáticos. Isso porque a exposição contínua a notícias sobre problemas ambientais pode prejudicar a saúde para além da ansiedade, comprometendo o sistema imunológico do indivíduo. Walter explica que “as células do nosso sistema imunológico possuem uma notável quantidade de receptores neurológicos, ficando atrás apenas das células do sistema nervoso. Isso implica que o que causa ansiedade, depressão e condições similares também afeta diretamente nosso sistema imunológico. Consequentemente, uma forte exposição midiática a conteúdos que nos geram ansiedade ou depressão impactará negativamente nossas células de defesa. Ou seja, nossa imunidade pode ficar comprometida por um período significativo, mesmo após a exposição a esses fatores estressantes ter cessado.”

    Para lidar com a ansiedade climática de forma saudável o especialista destaca algumas estratégias importantes:


    Em suma, enquanto a ecoansiedade se manifesta como um sério desafio para a saúde mental dos jovens, influenciada por uma sociedade por vezes despreparada e pela sobrecarga de informações alarmistas, a chave para lidar com essa preocupação reside no equilíbrio. A mídia e as redes sociais, com seu imenso poder de disseminação, podem tanto exacerbar o medo quanto pavimentar o caminho para a esperança. Ao invés de apenas focar nas catástrofes, temos a oportunidade de destacar as soluções, as ações positivas e as iniciativas que, embora muitas vezes desconhecidas, já estão transformando nosso mundo. Essa abordagem proativa e consciente pode nos guiar para um futuro onde a preocupação ambiental se converte em engajamento construtivo, e não em desespero.

    Victoria Lyrio
    Fonte: Reprodução Revista Vertigem 

    Victoria Lyrio, cientista social e mestranda em Comunicação e Territorialidades da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), conta que “aflição” é o sentimento mais recorrente ao consumir notícias e informações sobre as mudanças climáticas. Para ela, o passar dos anos é marcado pelos impactos significativos da crise ambiental sentidos diretamente. “Saber que estamos em uma situação de aquecimento que estava prevista para muitos anos à frente me faz refletir sobre como chegamos a esse ponto e me leva a imaginar um futuro que até então era um cenário distópico, mas que agora está de fato se aproximando de nós.” pondera.
    Ao ser questionada sobre cenários de esperança e práticas de enfrentamento que podem ser realizadas para mitigação da emergência climática, Victoria entende que nenhuma ação individual tem o poder de mudar as condições atuais de forma significativa e atribui tal responsabilidade às instituições públicas, governos e grandes empresas. Para ela, a urgência da temática tem ganhado cada vez maior espaço de discussão nas corporações. “O enfrentamento dessa situação implicaria todo um conjunto tecnológico de desenvolvimento sustentável por parte de grandes empresas e instituições governamentais, porém, isso é caro, e sabemos que em uma balança de interesses, o empresariado nunca vai colocar o bem-estar coletivo como prioridade se isso implica em uma redução de lucros.” analisa a cientista social.

    Laura Valentim
    Fonte: Divulgação

    Em contrapartida, apesar de demonstrar medo e angústia diante das notícias e atualizações sobre a crise climática no mundo, Laura Valentim, recém graduada em Jornalismo pela Ufes, revela crença no poder comunitário e ativista. Segundo ela, mesmo que as movimentações individuais sejam de baixo impacto em relação aos problemas globais, ainda sim demonstram capacidade combativa, essencial para o enfrentamento das crises. “Não basta apenas confrontar grandes corporações e exigir sustentabilidade delas; precisamos que a sustentabilidade esteja perto de nós, em nosso dia a dia. A mobilização para a coleta de lixo reciclável e a adoção de pequenas rotinas sustentáveis podem, juntas, colaborar e melhorar significativamente a situação.” defende.
    A jornalista revela que o cenário é amedrontador. Ela descreve que sente “como se o mundo estivesse gradativamente sucumbindo” e que apesar do privilégio de não residir em local de alto risco se assusta com notícias de deslizamento de casas em encostas, períodos de seca severa em regiões historicamente úmidas e alagamentos que transformam ruas em rios, arrastando tudo pela frente. “Ao comparar a situação com outros países que enfrentam os mesmos desafios, sinto um profundo desamparo por parte das autoridades nacionais em todo o mundo. É como se, globalmente, os poderes constituídos permanecessem inertes diante dos problemas.” destaca Laura.

    Luiz Fernando Schettino
    Fonte: Reprodução OSCIP COLORIR Criando Valores

    O professor, ambientalista e Membro Titular do Conselho Municipal de Ciência e Tecnologia de Vitória (CMCT), Luiz Fernando Schettino, aponta que o último ano foi marcado por eventos climáticos extremos, impactando a percepção do público e de atores políticos em relação ao colapso ambiental. Para ele o aumento dos fenômenos climáticos são percebidos por parte das pessoas como indicadores de “fim do mundo” e por outras como meras notícias do cotidiano.  “O mundo vive uma espécie de dissonância cognitiva coletiva: sabemos o que está acontecendo, mas agimos como se houvesse tempo de sobra. E essa ilusão de tempo é, talvez, o maior risco de todos”, afirma Schettino. 

    Essa desconexão entre a urgência da crise climática e a percepção pública ocorre também por falta de ação política em nível global. Schettino destaca que “a percepção pública sobre as mudanças climáticas ainda é fragmentada e, muitas vezes, influenciada por fatores como nível de escolaridade, orientação política e acesso à informação de qualidade”. Isso significa que em muitos países, grande parte da população ainda não compreende a gravidade da situação ou não sente que ela afeta diretamente sua vida. O especialista afirma que essa percepção reduz a pressão social sobre governos e empresas para que adotem medidas mais ambiciosas.

    No âmbito político, ele destaca as contradições evidentes entre a adoção de um modelo de desenvolvimento sustentável e sucesso econômico das nações. “Enquanto acordos internacionais são assinados com promessas de redução de emissões, muitos países continuam subsidiando combustíveis fósseis, flexibilizando leis ambientais e permitindo o avanço do desmatamento. A agenda climática, embora presente nos discursos, muitas vezes é tratada como secundária diante de interesses econômicos imediatos, o que é perceptível no Brasil, com expoente máximo nos EUA.” destaca Schettino.

    Ao apresentar sua visão sobre o preocupante cenário dos eventos climáticos, o ambientalista destaca o potencial transformador dos jovens. Segundo ele, “a história mostra que grandes mudanças sempre começaram com pessoas que ousaram agir, mesmo quando tudo parecia perdido.”
    Schettino cita a liderança em movimentos como o Parlamento Jovem (um programa que simula a jornada de trabalho de deputados federais para estudantes do ensino médio) e o Engajamundo (organização de liderança jovem focada em problemas ambientais e sociais). Ele também menciona a pressão sobre governos, a criação de soluções locais e a ocupação de espaços decisivos como estratégias para a mudança coletiva. O ambientalista enfatiza que essas ações são válidas mesmo que executadas com poucos recursos e que, a princípio, pareçam de baixo impacto.
    Neste sentido, para Luiz Fernando Schettino a ansiedade climática é “real e compreensível” mas que também pode ser transformada em ação. Mesmo diante de um cenário desestimulante e aterrorizador, a visão do especialista fornece uma fagulha de esperança para as mentes ansiosas em relação à construção de um futuro sustentável.
    “A esperança está em cada atitude coletiva e em cada voz que se levanta. A ação prática começa no cotidiano: entender o problema, conversar sobre ele, cobrar políticas públicas, apoiar causas ambientais, reduzir o consumo excessivo e, principalmente, se conectar com outras pessoas que compartilham do mesmo propósito. A ecoansiedade diminui quando a gente transforma preocupação em engajamento.” conclui Schettino.

    Você sabia que existe um mecanismo para alertar o planeta sobre os riscos de um potencial apocalipse? 

    O doomsday clock, ou o relógio do juízo final, criado por um grupo de cientistas nucleares chamado Bulletin of the Atomic Scientists, mede, por meio de cálculos matemáticos complexos, a probabilidade real de eventos catastróficos. Dentre eles estão guerras nucleares, doenças epidêmicas e mudanças climáticas. 

    O relógio foi criado logo depois da Segunda Guerra Mundial, em 1947, quando os cientistas, entre eles o físico Albert Einstein, começaram a se preocupar com a corrida armamentista entre Estados Unidos e União Soviética. A lógica é simples: quanto mais perto da meia-noite estiverem os ponteiros do relógio, mais próximo estará também o mundo do seu fim.

    Atualmente o relógio encontra-se a 89 segundos da meia-noite. Segundo nota oficial do grupo, a diminuição de um segundo desde 2023 em relação às mudanças climáticas foi devido ao aumento do nível marítimo e temperaturas globais, ondas de calor intensas, incêndios florestais, aumento de emissão de gases do efeito estufa e inundações. “Em 2024, a humanidade se aproximava cada vez mais da catástrofe. Tendências que preocupavam profundamente o Conselho de Ciência e Segurança continuaram e, apesar dos sinais inconfundíveis de perigo, os líderes nacionais e suas sociedades não conseguiram fazer o que era necessário para mudar o curso.”

    Vale ressaltar que o relógio representa uma excelente ideia de marketing para a discussão de medidas de mitigação da crise climática e para evitar guerras nucleares. No entanto, ele não oferece uma medição exata de quanto tempo ainda resta no planeta.

    Fonte: Reprodução CNN Brasil 

  • Corrida de rua: de hábito saudável a estilo de vida

    Corrida de rua: de hábito saudável a estilo de vida

    Na orla de Camburi, em Vitória (ES), corredores encontram mais do que uma pista. Encontram propósito.A cena se repete todas as manhãs e fins de tarde: tênis batendo no chão, fones de ouvido, sorrisos suados e um mar de gente ocupando o calçadão da orla de Camburi. Para muitos, pode parecer apenas mais uma prática física. Mas, para quem calça o tênis e vai, a corrida de rua tem sido uma escolha de vida, um compromisso com o bem-estar físico, mental e até social.

    Não à toa, o Brasil vive um verdadeiro boom das corridas. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO), com o apoio da agência Esporte & Negócio, o número de provas de rua realizadas no país cresceu quase 30% de 2023 para 2024. Mais do que um dado, esse crescimento mostra uma mudança de comportamento: cada vez mais pessoas estão buscando formas acessíveis de cuidar da saúde e encontrar motivação na rotina.

    Na capital capixaba, a orla de Camburi é um exemplo emblemático dessa tendência. Com cerca de 6 km de extensão, a via oferece uma das melhores estruturas do estado para a prática da corrida com espaço bem sinalizado, iluminação, policiamento, pontos de hidratação e uma paisagem que inspira.

    Heitor Guimarães, de 24 anos, não é atleta profissional, mas encontrou na corrida uma forma de manter a mente no lugar. “Comecei por causa da ansiedade. Hoje, correr virou um dos meus momentos preferidos do dia. A orla me dá essa sensação de segurança e pertencimento. A gente se reconhece nos outros corredores”, conta.

    Esse senso de comunidade também é apontado por especialistas como um dos atrativos da modalidade. Mesmo sendo um esporte individual, a corrida de rua une pessoas que compartilham objetivos em comum, seja superar o próprio tempo ou apenas chegar ao final da prova com um sorriso no rosto.

    Um dos motivos para o sucesso das corridas é justamente a barreira de entrada ser baixa: basta vontade, um bom par de tênis e constância. Ainda assim, médicos e treinadores alertam para os riscos de começar sem acompanhamento ou avaliação médica. Mesmo provas curtas de 3 km ou 5 km podem representar desafios para quem está sedentário.

    A corrida é uma atividade excelente para o coração e para o controle do peso, mas precisa ser iniciada com cuidado para evitar lesões, que infelizmente são muito comuns”, alerta o ortopedista Domingos Amaral. 

    Entre as recomendações mais comuns estão a realização de exames antes de iniciar os treinos, o fortalecimento muscular por meio da musculação e a adoção de práticas de mobilidade para evitar lesões, principalmente nos joelhos e quadris, as regiões mais afetadas.

    O ideal é combinar a corrida com treinos de força e respeitar a regra dos 10%, que diz para não aumentar o volume semanal em mais de 10%”, afirma o médico.

    O que começa como um desafio físico, muitas vezes, se transforma em um projeto de vida. Acordar cedo, manter disciplina, lidar com o cansaço, celebrar pequenas vitórias. Aos poucos, o corredor não corre apenas para o corpo, mas também para a mente.

    Correr me ensina a ser mais paciente, mais resiliente. É onde eu penso, respiro e me organizo”, diz Heitor. “Tem dias que é difícil, mas mesmo assim eu vou. No final, sempre vale.”

    E talvez seja esse o maior segredo das corridas de rua: elas não são só sobre chegar mais rápido. São sobre continuar passo após passo, dia após dia, construindo uma versão mais leve, saudável e determinada de si mesmo.

  • Selic a 15%: como isso afeta a sua vida

    Selic a 15%: como isso afeta a sua vida

    Esse é o maior valor em 20 anos sob pretexto de evitar a alta da inflação.

    O Banco Central decidiu aumentar a taxa básica de juros do Brasil, a Selic, de 14,75% para 15% ao ano no dia 18 de junho. O movimento marca o maior patamar desde 2006 e representa a sétima alta consecutiva da taxa. A inflação continua em um contexto complicado: acima da meta, em um cenário externo cada vez mais instável.

    Essa alta mostra que o Banco Central está tentando ‘reancorar’ expectativas e mostrar firmeza diante de um cenário econômico que ainda não inspira confiança”, afirma o mestre em Políticas Públicas pelo Insper, Rafael Altoé. “Com inflação persistente e risco fiscal elevado, manter os juros altos é uma forma de proteger a economia de pressões ainda maiores.

    A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela funciona como um termômetro e uma referência: quando está alta, encarece o crédito e desestimula o consumo; quando cai, estimula a atividade econômica. O objetivo do Banco Central ao subir a Selic é frear a inflação. Com o crédito mais caro, as pessoas tendem a consumir menos, e isso ajuda a conter a alta de preços.

    Apesar de alguns sinais de desaceleração na economia, os preços continuam subindo acima do desejado. Segundo o boletim Focus, do Banco Central, o mercado espera inflação de 5,2% em 2025 e 4,5% em 2026. Já o Copom projeta inflação de 3,6% para 2026, números acima da meta de 3%. Para a especialista em finanças e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Patrícia Bortolon, o atual cenário econômico exige atenção redobrada, especialmente das famílias com menor acesso à educação financeira. “Em um cenário de juros alto é ainda mais importante o conselho de não se endividar. As pessoas se endividam com as formas mais fáceis que são cartão de crédito e cheque especial, que são também as mais caras“, explica.

    Patrícia Bortolon, professora da Ufes

    Nesse momento, o essencial é fazer escolhas conscientes e priorizar o que realmente é necessário. Anotar quanto entra, quanto sai e para onde esse dinheiro está sendo destinado pode parecer um passo simples, mas evita uma bola de neve com o cartão de crédito ao final do mês.

    Quem mais sente os efeitos da alta da Selic é a população, principalmente quem vive de salário fixo e tem dívidas ou financiamentos. É o caso da professora do município da Serra, Maria Aparecida Carmo, que precisou renegociar o financiamento de um carro.

    Com os juros desse jeito, a parcela que já era apertada ficou quase impossível. Estou tentando vender o carro e usar transporte público, mas até isso está caro. A gente trabalha, mas parece que não sai do lugar”, conta.

    Para o assessor de investimentos Rodrigo Prata, da XP Investimentos em Vitória, decisões como buscar um empréstimo ou vender um bem precisam ser analisadas com calma por quem investe ou pretende investir. “Selic alta significa mais retorno para o investidor. Ao mesmo tempo, o crédito mais caro trava a economia real, o que pode impactar outros ativos, como ações”, explica.

    Empréstimos mais caros
    O financiamento da casa, do carro ou até o limite do cartão de crédito ficam com juros ainda mais altos.
    Investimentos mais atraentes
    Quem investe no mercado financeiro, inclusive na poupança começa a ganhar mais.
    Consumo menor
    Com o crédito mais caro, as pessoas compram menos, que pode afetar o comércio e os empregos.
    Inflação mais controlada
    A longo prazo essa é a meta, mas, até lá, a economia pode sentir um freio.

  • Palestina sob invasão

    Palestina sob invasão

    O papel de Israel no genocídio palestino e as origens da guerra atual

    Repudiar as ações de Israel contra a Palestina é repudiar um genocídio em massa e um apartheid que segrega um povo em função de um conflito político e territorial. Este conflito é movido pelo imperialismo e caracterizado pela promoção de uma limpeza étnica e um genocídio em massa que dura 79 anos. A história dessa disputa, contada por diversos estudos sobre o tema, começa muito antes da criação do Estado de Israel.

    Com a expansão do colonialismo e a derrota do Império Turco-Otomano pelos britânicos, ocorreu a divisão dos territórios turcos. Em 1923, surgiu o protetorado britânico na Palestina, exercendo controle sobre a área que hoje é Israel.

    A lógica de destituição do território dos povos originários, por parte do protetorado britânico, baseou-se em uma visão eugenista de inferioridade dos povos que ali viviam. A concepção de Israel, que muitos fantasiam ser uma “não-nação” com raízes bíblicas, na verdade, tem sua origem no berço do sionismo e foi moldada pela arbitrariedade inglesa, muito antes da Segunda Guerra Mundial. Esse processo deflagrou uma série de revoltas entre os países árabes, já que a criação de Israel representava a contraposição a toda e qualquer autonomia dos povos originários, promovendo bombardeios a escolas e hospitais, além de uma série de abusos contra o povo palestino.

    Israel limita o acesso a recursos básicos, segregando e humilhando inocentes na Palestina. Este conflito não é travado em pé de igualdade: os palestinos não possuem igual capacidade de resposta política e militar para enfrentar a guerra colonial israelense. O número de palestinos afetados é vastamente superior, como evidenciado em 2018, quando 31.558 palestinos foram mortos ou feridos, em contraste com 130 israelenses.

    Em outubro de 2023, Israel lançou mais uma ofensiva brutal contra Gaza, após ataques do Hamas. A resposta israelense foi desproporcional, resultando na morte de mais de 36 mil palestinos (a maioria civis, incluindo mais de 15 mil crianças), segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde de Gaza. Enquanto isso, Israel, financiado pelos Estados Unidos, continua a impor um bloqueio desumano a Gaza, limitando o acesso a água, energia elétrica, medicamentos e alimentos.

    A Corte Internacional de Justiça (CIJ) decidiu, em janeiro de 2024, que Israel está cometendo atos que configuram genocídio, e ordenou medidas para evitar mais mortes de civis. No entanto, o governo de Benjamin Netanyahu ignorou a decisão e seguiu com os ataques, inclusive em Rafah, onde mais de 1,4 milhão de palestinos deslocados estavam refugiados.

    As ações de Israel na madrugada de 13 de junho, que incluíram ataques de grande proporção contra o Irã, basearam-se na alegação de que o Irã estaria próximo de desenvolver bombas atômicas e desrespeitando o acordo nuclear. Essa justificativa, contudo, é comparável à utilizada pelos EUA para invadir o Iraque em 2003, que se provou infundada. Essa mesma afirmação sobre o enriquecimento de urânio pelo Irã e a iminência de produzir bombas atômicas tem sido repetida por Netanyahu há 30 anos.

    O Irã, como um dos principais opositores de Israel no Oriente Médio, apoia grupos de resistência como o Hamas e o Hezbollah, mas isso não justifica a violência israelense. A retórica de Israel e dos EUA tenta pintar o Irã como um “Estado terrorista”, mas esconde o fato de que Israel é o maior violador de resoluções da ONU, com mais de 100 condenações por violações de direitos humanos. Além disso, Israel detém 90 ogivas nucleares, segundo a Federação dos Cientistas Americanos e o Instituto Internacional de Pesquisa para Paz de Estocolmo.

    Embora cristãos fundamentalistas comercializem falsas perspectivas a respeito das críticas erguidas contra Israel, estas não dizem respeito a uma ótica antissemita. O termo faz referência a uma ideologia que defende a opressão de povos de origem semita, como judeus, libaneses, palestinos, sírios, jordanianos e muitos outros. Já a teoria sionista liga nacionalidade, hereditariedade e religião, sendo uma ideologia colonialista que busca firmar-se num território por meio da dominação e da necropolítica.

    A história e as evidências atuais demonstram um padrão de violações sistemáticas, perpetuadas por uma ideologia colonialista e racista. É crucial posicionar-se contra essa política de expansão infundada e contra uma concepção de Israel que se mantém viva apenas em fantasias bíblicas de uma “não-nação”. Originada no berço do sionismo, Israel se utiliza dos horrores do Holocausto em seu benefício e como forma de chantagem, enquanto oculta a colaboração ativa do movimento sionista com o inimigo mais feroz que os judeus já tiveram. Isso não pode ser ignorado.

  • Realidades silenciadas e alerta de censura cultural

    Realidades silenciadas e alerta de censura cultural

    Medida proíbe contratações públicas de artistas acusados de apologia ao crime e reacende debate sobre racismo cultural e censura à arte periférica

    Em Vitória, o projeto foi apresentado pelos vereadores Armandinho Fontoura (PL) e Leonardo Monjardim (Novo). De acordo com o jornal A Gazeta, o texto determina que todos os contratos artísticos financiados com verba pública incluam cláusulas que impeçam práticas que façam alusão positiva ao crime.

    O projeto também gerou amplo debate dentro da própria Câmara. Ainda segundo A Gazeta, a vereadora Karla Coser (PT) criticou duramente a proposta, apontando a subjetividade dos termos utilizados no texto. Apesar das críticas, a proposta foi aprovada por 11 votos a favor e 5 contra, e agora segue para sanção do prefeito Lorenzo Pazolini. O texto prevê que artistas que descumprirem a norma sejam penalizados com devolução do cachê e impedimento de novas contratações por até cinco anos.

    A lei leva o nome de Oruam, MC e trapper carioca conhecido por retratar em suas letras a realidade da favela e mencionar familiares que estiveram ou estão envolvidos com o sistema prisional. Suas composições, marcadas por narrativas sobre a vida nas comunidades, têm sido alvo frequente de críticas por suposta apologia ao crime, o que inspirou o nome do projeto.

    Entrevistamos a socióloga Victoria Ferro, graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e mestranda em Comunicação e Territorialidades, e para ela a Lei Anti-Oruam representa uma forma clara de controle sobre a cultura periférica. Segundo ela, “sob uma narrativa moralista, a lei busca conter e controlar as expressões culturais vindas das periferias, repetindo um padrão histórico de criminalização da cultura periférica e da sua potência simbólica e política”. 

    Ferro ressalta que, apesar do discurso oficial de combate à “apologia ao crime”, os artistas como Oruam utilizam suas letras para dar voz a realidades silenciadas pela elite, e a lei funciona como uma “prática seletiva de criminalização, tendo como alvo jovens negros e pobres que veem no funk e outros gêneros uma forma de resistência e transformação social.”

    Ainda que a lei tenha sido apresentada com o argumento de proteger a juventude de “influências nocivas”, seus efeitos já começaram a se refletir em ações concretas. Em maio, o funkeiro MC Poze do Rodo foi detido sob acusações de apologia ao crime, associação ao tráfico e lavagem de dinheiro.

    Liberado dias depois, a prisão gerou críticas de especialistas que contestam tanto o excesso policial quanto a fragilidade das provas. O portal UOL, em matéria sobre o caso, destacou a decisão do desembargador Peterson Barroso Simão, que considerou a prisão de MC Poze desproporcional. Segundo o juiz, o cantor foi algemado e exposto midiaticamente de forma excessiva, em um procedimento que compromete a regularidade da polícia, reforçando as críticas à forma como o caso foi conduzido.

    Lueverson Nascimento, conhecido artisticamente como Luvs, rapper e trapper de São Mateus, no Espírito Santo, confirma a percepção do preconceito cultural na região: “O Espírito Santo ainda é um estado extremamente preconceituoso. Tudo que vem da periferia sofre muito preconceito aqui, menos quando está em festivais elitizados na Grande Vitória”, alfinetou. 

    A criminalização de gêneros musicais ligados à população negra e periférica não é novidade no Brasil. No início do século XX, o samba foi considerado marginal e sofreu dura repressão policial: sambistas eram fichados, seus instrumentos apreendidos, e apresentações públicas eram frequentemente impedidas. Décadas depois, o funk e o rap passaram a ocupar o mesmo lugar de alvo institucional.

    Pesquisadores também alertam para o uso subjetivo do conceito de “apologia ao crime” para censurar determinadas manifestações culturais. Segundo Victoria Ferro, a lei expressa uma violência simbólica ao deslegitimar a cultura periférica e naturalizar a desigualdade. “O funk é posto como algo antiético e perigoso, afastado do conceito de cultura, reforçando uma dualidade que estipula o que é ‘bom’ ou ‘ruim’ e elimina o que é dissonante à visão da elite.” 

    Ela explica que essa dominação simbólica faz a sociedade acreditar que a cultura periférica representa uma ameaça constante, “fortalecendo argumentos de periculosidade para deslegitimar expressões artísticas de jovens marginalizados”, completou.

    A aprovação da Lei Anti-Oruam, nesse contexto, parece menos uma medida de proteção e mais um instrumento legal para silenciar vozes que expressam o incômodo da desigualdade. No fim, o que incomoda não é a menção ao crime, mas quem está falando sobre ele e de onde fala.

  • A difícil integração de negros e filhos de imigrantes em esportes na Europa

    A difícil integração de negros e filhos de imigrantes em esportes na Europa

    Casos de racismo e xenofobia contra descendentes de africanos ainda são frequentes; o passado imperialista da Europa pode ajudar a entender as origens do preconceito.

    Quando a seleção portuguesa venceu a Itália pela Eurocopa sub-17, em maio deste ano, e seguiu para se tornar a campeã do torneio, um episódio transformou as redes sociais num campo de batalha. Logo após a vitória contra a azzurra, uma foto da seleção portuguesa onde havia apenas jogadores negros foi publicada no instagram da seleção. Isso gerou revolta por parte dos portugueses na internet, alegando que a seleção “parecia africana”. Os comentários ofensivos foram ocultados do perfil para evitar uma maior retaliação aos atletas.

    Mas, diferentemente do que parte dos internautas alegaram, nenhum dos jogadores que entraram em campo naquela semifinal nasceu em um país da África. Aquele que, de fato, nasceu em solo africano foi Eusébio, considerado um dos melhores jogadores da história e responsável por colocar Portugal no radar europeu na década de 1960.

    Esse problema não é novidade em solo europeu. Na década de 1990, a seleção francesa de futebol viveu uma espécie de Guerra Fria contra a Frente Nacional (antigo Reagrupamento Nacional), o partido de extrema-direita do país. A geração black-blanc-beur (ou negra-branca-árabe, em francês) se destacava no futebol europeu da época por sua alta miscigenação e pelo salto de qualidade nos resultados. Isso desagradou a extrema-direita francesa, que muito se orgulhava das seleções nacionais do passado. 

    De acordo com Maria Cristina Dadalto, professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), especialista em estudos de imigração, este problema surge a partir do sentimento de “colonizador” que ainda persiste na população européia. “É uma população mobilizada pela raiva e pelo ressentimento de quem é entre aspas ‘menor do que você’ ter conseguido atingir um sucesso que o meu filhinho que é branquinho de olhos azuis, loiro e lindo não consegue”, explicou.

    Em 1996, um dia antes do confronto entre França e República Tcheca pela semifinal da Eurocopa, veio à público a fonte do ódio à seleção miscigenada: Jean Marie Le Pen, então líder da Frente Nacional, afirmou seu descontentamento com a seleção “artificial” que representava a França. No dia do jogo, 0 a 0 no tempo regulamentar e 6 a 5 para os tchecos nas cobranças de pênalti. França eliminada.

    Apesar da constante perseguição aos jogadores por suas ascendências, foi neste mesmo ambiente miscigenado que cada coração francês vibrou com a conquista da primeira taça da Copa do Mundo. Vinte anos depois, o segundo título, mas com a mesma onda racista e xenófoba.

    Ao longo dos anos, muitos movimentos tentam descredibilizar os atletas, criando a narrativa de que os mesmos seriam naturalizados, ou seja, jogariam pelo país por acordos políticos e não pelo pertencimento àquela cultura. Outra vez, a narrativa não encontra seus fundamentos, uma vez que a grande maioria dos que defendem o azul francês nasceram dentro do país.

    Zinedine Zidane, melhor jogador do mundo em 1998 e filho de argelinos, ergue a taça de campeão do mundo pela França. (Foto: Stewart Kendall/Allstar/Mary Evans/imago)

    A questão francesa joga luz sobre outro problema em solo europeu: a crise imigratória. São milhares de civis que chegam pelas fronteiras e tentam a sorte na Europa. Boa parte chega alí fugindo da guerra em seu país, especialmente os da África, que vivencia até hoje as consequências do imperialismo e da divisão arbitrária dos territórios no continente. A Europa agora também encara o desdobrar do que fez há mais de um século.

    O PASSADO

    Dos 54 países da África, 52 encararam o avanço da Europa sobre as terras que os pertenciam. Falamos aqui do início do século XX e da repartição arbitrária destes territórios para Bélgica, Reino Unido, Portugal etc. “A Europa colonizou o mundo. A América Latina, a Central… as Américas e também os países africanos. E qual é a visão de um colonizador? A visão do colonizador é que você é submisso a ele o tempo todo. Ele é superior a você”, comenta Dadalto

    Esta visão de superioridade foi o que balizou todo o domínio Europeu sobre o continente. A partir das divisões forçadas das terras, estava o problema da divisão étnica, onde um mesmo grupo poderia estar fragmentado entre dois países e/ou junto de outra etnia que possuía atritos. A base da configuração geopolítica africana permanece a mesma há pelo menos meio século. Mas durante esse tempo, inúmeras guerras tiraram o sono dos civis no continente, potencializados pelas interferências europeias.

    Mapa étnico da África (esquerda) e sua divisão política (direita) (imagem: reprodução/Universidade Federal de São João del-Rei)

    Em material publicado pelo Podcast Copa Além da Copa, as questões históricas e sociais que reverberam no território africano são explicadas: a Bélgica estabeleceu no Congo uma colônia privada, o Império Britânico (atual Reino Unido) na região da África Ocidental até a Oriental e Portugal nos litorais, iniciando uma era de opressão dos cidadãos da África e exploração de seus recursos naturais. Ainda hoje, países da região lutam para reaver peças de arte que foram roubadas durante a colonização.

    Os longos conflitos étnicos levaram à criação de grupos armados e consolidaram uma série de guerras no território. A insegurança na região motivou e ainda motiva dezenas de famílias a fugirem de suas casas e tentar a sorte em outros países.

    Em muitos casos, o racismo deste período é mascarado em tons recreativos, sob o pretexto de ser apenas uma piada. É o que acontece com o personagem Tintim, criado pelo quadrinista belga Hergé em 1929, por exemplo. No contexto da colonização violenta do Congo, surge em 1931 o quadrinho “Tintim na África”. Nesta história em quadrinhos (HQ), Hergé retrata os congoleses como estúpidos e preguiçosos. Os traços grosseiros das personagens muito se assemelham à prática do blackface, maquiagem feita por atores e atrizes brancas para interpretar uma personagem negra. 

    Tintim é carregado por congoleses na HQ, reforçando o estereótipo da superioridade europeia. (Foto: Reprodução/Copa Além da Copa)

    Ainda nesta HQ, Tintim ensina aos moradores sobre a “pátria belga”, como uma catequese aos indígenas. Questionado em 1975 sobre o contexto racista em sua obra, Hergé se defendeu dizendo que baseou os congoleses no que “ouvia falar” e apoiado pelo “espírito paternalista que prevalecia na época”.

    ATUALIDADE

    Em 2024, outro caso de agressão racista ocorreu, desta vez envolvendo a considerada melhor jogadora de vôlei da Itália: Paola Egonu. Campeã olímpica em Paris e eleita a melhor jogadora do torneio, Egonu recebeu um mural – de nome “italianidade” – em sua homenagem na cidade de Roma. Porém, o mesmo foi vandalizado, com os criminosos jogando tinta rosa por cima de sua pele negra. Também foi apagado o que estava escrito na bola, que trazia uma mensagem pelo fim do ódio, do racismo, da xenofobia e da ignorância.

    Pintura original (esquerda), feita em homenagem à Egonu e seu estado após a vandalização (Foto: Reprodução/EuroNews)

    Além de Egonu, havia outras duas jogadoras negras que defendiam o azul e branco italiano: Myriam Sylla e Loveth Omoruyi, também com raízes africanas. Mas é importante notar que há outras jogadoras nascidas fora da Itália que defendem o país, como Ekaterina Antropova (nascida na Islândia e filha de russos) e Sarah Luisa Fahr (nascida na Alemanha). Mesmo neste cenário, recai sobre elas o ódio aos imigrantes. “Você ter a cidadania não significa absolutamente nada. Aliás, para eles é um estorvo. Por que não significa? Porque você não é branco. Quem é branco para o europeu e para o americano? É aquele que nasceu na Europa. Não importa se você chega lá ‘branquinho’, você é um não-branco.” explica Dadalto.

    Comportamentos extremistas do tipo por parte dos italianos são exatamente o que pensa Laika, artista de rua e autora do mural. Ao finalizar sua arte, ela declarou ao jornal La Repubblica que a vitória nas Olimpíadas “é um tapa na cara de todos os chamados ‘patriotas’ que não aceitam uma Itália multiétnica, composta de segundas gerações, que não quer o jus solis“.

    Entra aqui outros conceitos importantes para entender mais sobre as dificuldades enfrentadas pelos filhos de imigrantes na Europa: a diferença entre jus solis e o de jus sanguinis, termo fundamental para a emissão de uma cidadania.

    Jus solis concede a cidadania com base no território em que nascemos. Sendo assim, basta que eu nasça no Brasil para receber a cidadania brasileira, pois respondemos a esse conceito. Assim segue por quase toda a América.

    Já o jus sanguinis se refere à ascendência, isto é, a emissão da cidadania baseada na cidadania dos seus pais. O cenário é simples. Uma mãe nigeriana que está grávida e um pai ganês migram para um país que responde ao jus sanguinis. Quando este bebê nascer, a cidadania emitida será a mesma dos pais, ganesa e nigeriana, e não a do país em que nasceu. 

    Neste cenário, a cidadania do país em que nasceu será emitida apenas aos que decidirem encarar um longo processo judicial. A maioria da Europa responde a este sistema, tornando este um dos fatores que impedem a integração dos imigrantes em países deste continente.

    Assim foi o caso da oposta Paola Egonu, que precisou esperar até os quatorze anos até conseguir uma cidadania italiana, mesmo nascendo no país. Este é o “tapa na cara” que Laika mencionou, o tapa em pessoas que acreditam que um país que responde ao jus sanguinis é um cenário agradável.

    Todos os problemas que ocorreram fora da quadra fizeram com que Egonu decidisse se aposentar da seleção no passado, em 2022, quando se sentiu cansada de receber tantas ofensas. A aposentadoria não veio, mas chegou para ela a inédita conquista olímpica.

    O FUTURO

    Como mencionado anteriormente, a retaliação aos imigrantes na França é encabeçada pela Frente Nacional e os esportes não ficaram de fora. Sua seleção de futebol teve um “boom” de qualidade nos anos 1990. Em 1998, conquista sua primeira Copa do Mundo com um país cada vez mais miscigenado, despertando a ira do político Jean Marie Le Pen. O ex-presidente da Frente Nacional declarou abertamente que não gostava de ver o país que ele amava ser representado por tantas “pessoas de cor”.

    De lá para cá, a seleção viveu rebatendo declarações da direita francesa, tornando-se cada vez mais politizada. Grandes nomes como Zinedine Zidane e Karim Benzema (ambos descendentes de argelinos) chegaram até mesmo a não cantar o hino da França em nenhuma partida, pois a mesma glorificava uma terra que se orgulhava de pegar em armas para frear a imigração.

    Mesmo que permaneça multiétnica, houve tentativas de acabar com isso. Em 2011, o site Mediapart denunciou uma tentativa da Federação Francesa de Futebol (FFF) de limitar a no máximo 30% o número de negros e árabes na seleção.

    Novos casos de racismo e xenofobia contra imigrantes não parecem mera coincidência. Nos últimos anos, a Europa testemunhou um rápido avanço da extrema-direita nos parlamentos e na presidência. O alinhamento dos discursos segregacionistas não deixam margem para crer numa aliança.

    Brasil: O racismo não existe só no esporte Europeu

    Apesar da grande miscigenação do país, casos de racismo no esporte têm se tornado cada vez mais frequentes, aponta estudo.

    humilhados, chamados de macacos e sendo atacados com bananas, jogadores protestam. (foto: reprodução/Agência Brasil)

    Durante a segunda rodada da Libertadores sub-20, em março deste ano, um caso de racismo marcou a vitória do Palmeiras contra o Cerro Porteño. No momento das substituições dos jogadores, torcedores imitaram e chamaram os atletas do Palmeiras de macacos. Uma das principais vítimas foi o camisa 9, Luighi.

    Após o fim do jogo, Luighi chorou e protestou contra o repórter que o entrevistou, por nem sequer mencionar o caso de racismo. “Até quando a gente vai passar por isso? O que fizeram comigo foi um crime, você não vai me perguntar sobre isso?”, questionou o atleta.

    O problema não parou neste momento. Alguns dias depois, durante a disputa de pênaltis na final da Libertadores sub-20, Luighi foi chamado de “chorão” pela torcida rival. Os gritos foram imediatamente relacionados ao episódio anterior.

    Situações como essa têm se tornado cada vez mais comuns no cenário do esporte brasileiro. De acordo com a última edição do relatório produzido pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol (ODRF), em 2023 foram registrados 250 casos de racismo no Brasil e no exterior. 

    De acordo com Maria Cristina Dadalto, professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e especialista em estudos de imigração, o eurocentrismo não existe somente na Europa e o racismo não difere de um continente para o outro. Além disso, ela aponta que o espaço do futebol se torna palco para esse tipo de expressão racista e xenófoba por causa da grande visibilidade que o esporte concede aos jogadores. Isso por si só causa revolta naqueles que se consideram superiores e não possuem essa mesma fama.

    Para ela, há ainda um longo caminho para superar o problema do racismo e da xenofobia. “Para sair do racismo estrutural é preciso de muito tempo. É preciso que se converse sobre isso. É preciso que se assuma que é [racista]. São anos e anos de processo até você chegar lá na frente”, completou.

    Em entrevista à Agência Brasil, o diretor do ODRF, Marcelo Carvalho, comentou que é notado um aumento da preocupação dos clubes da CBF em combater os casos de racismo, apesar de ainda não haver punições para quem comete o crime. Para ele, os jogadores, jornalistas e torcedores em geral parecem estar mais conscientes do problema. Porém, é algo que está longe de acabar. “Infelizmente isso não está refletindo nos casos julgados nos tribunais de justiça desportiva. Ao que parece, ali essa conscientização ainda não chegou”, explicou.

  • Jogadores veteranos ainda se garantem?

    Jogadores veteranos ainda se garantem?

    Os ditos “vovôs” em alta performance tem aumentado no futebol brasileiro com o avanço da ciência do esporte

    Nos últimos 10 anos, com o avançar da ciência do esporte, a longevidade dos jogadores profissionais de futebol tem aumentado. Não é apenas continuar atuando em campo, mas conseguir competir em alto nível. O maior exemplo de veterano em ótima performance é o português Cristiano Ronaldo, 40 anos, defende o Al-Nassr, é capitão da Seleção Portuguesa e foi campeão recentemente pela Liga das Nações

    Os vovôs estão on

    O Brasileirão, neste ano, iniciou com 49 atletas jogadores +35 em 16 dos 20 clubes da Série A. Segundo o Censo do Brasileirão do GLOBO, na edição de 2025, a média de idade dos elencos é de 25,8 anos. Com média de 27,89, o Mirassol é quem tem o time com faixa etária mais alta da série A. 

    Média de idade de cada um dos 20 clubes da série A (Foto reprodução/Editoria de Artes do jornal O GLOBO)

    De 2015 até a atual temporada, a elite do futebol nacional teve  476 jogadores nessa faixa etária. A partir de 2017, em especial, o crescimento ganha corpo, alcançando o ápice em 2024. O Fluminense é alvo de piadas pelos torcedores atualmente, que o consideram  o “time de aposentados”,  devido ao fato de ser o que abriga mais contratações 35+ entre os times do Brasileirão, como Thiago Silva (40 anos), Germán Cano (37 anos), Samuel Xavier (35 anos), Manoel (35 anos), Ganso (35 anos), Keno (35 anos), Thiago Santos (35 anos) e Fábio (44 anos), o mais velho do campeonato. O que esses “zoadores” não contavam era o excelente desempenho que o “cemitério de aposentados” ia ter no Mundial de Clubes, classificado para a semifinal com atuação de quatro veteranos entre os titulares e eliminando grandes da Europa.

    Mais próximo, no Espírito Santo, também temos veteranos atuando pelo principal clube, o Rio Branco: os goleiros Fernando Henrique, 41 anos, e Neguete, 35 anos, o volante Bruno Silva, 38 anos, o meia Ricardinho, 35 anos, e o atacante Maranhão, 35 anos.

    Manter um medalhão no clube é ter uma liderança entre os jogadores. Eles se tornam referências dentro e fora de campo. São eles que mantêm o equilíbrio emocional do time em momentos de pressão, orientam os mais jovens, dão o exemplo de dedicação e se tornam “auxiliares de campo”. Já viralizaram diversas histórias positivas na mídia de como o jogador David Luiz, 38 anos, atualmente no Fortaleza, ajudou com seus conselhos aos colegas de profissão.

    Genética ou preparação física?

    Para que cheguem nesse nível de alta performance esses atletas normalmente adotam rotinas de cuidados extremos com o corpo e a mente, o que naturalmente implica renunciar a alguns prazeres que não são compatíveis com esse padrão de exigência.  

    O professor Rodrigo Aquino, líder do Grupo de Estudos e Pesquisa em Ciências no Futebol da Ufes, um dos 10 cientistas do esporte da América Latina com maior número de publicações relacionadas ao futebol, apontou que são as escolhas diárias, muitas vezes silenciosas e solitárias, que definem quem consegue seguir em alto nível por mais tempo. 

    “Não se trata de fórmulas prontas ou “receitas de sucesso”. O diferencial está justamente na constância. É essa regularidade, quase invisível aos olhos de quem vê apenas o treino ou a competição, que realmente sustenta uma carreira de alto rendimento. E é por isso que tão poucos conseguem se manter no topo. Além do preparo físico e técnico-tático, é preciso ter muita força mental, foco e comprometimento”. 

    Essa gestão profissional da carreira, antes rara, agora é um diferencial decisivo. Desde as categorias de base, é necessário investir em fisioterapia, nutrição, treinamentos personalizados e descanso adequado. Os clubes estão cada vez mais preocupados em não esgotar o seu plantel e, hoje, buscam uma metodologia de treinamento que cause o menor dano possível e preserve os atletas. O cientista acredita que não é somente começar mais cedo, mas ter uma formação de base.

    “Não existe exatamente uma “idade limite”, mas é fundamental que a carreira de um(a) jogador(a) de futebol respeite algumas etapas de desenvolvimento. A literatura científica, especialmente os estudos do pesquisador canadense Jean Côté, uma referência internacional na Ciência do Esporte, aponta que o caminho até o alto rendimento geralmente envolve duas fases principais: os anos de experimentação: normalmente iniciados por volta dos seis anos de idade, e os anos de investimento: iniciam-se, em geral, entre os 10 e 11 anos, com uma dedicação mais consistente”, disse Aquino.

    Ele também listou alguns avanços baseados em estudos atualizados que tem se mostrado eficaz para prolongar a vida útil no esporte de alto rendimento.

    “Isso se deve a uma combinação de fatores científicos e tecnológicos: o controle individualizado da carga de treinamento; a nutrição e suplementação esportiva personalizada; e as metodologias de treinamento. Hoje, treina-se com base em evidências científicas, inclusive, no que diz respeito à força e potência muscular. Há uma verdadeira revolução nas estratégias de recuperação. Atletas de elite contam com recursos como compressão pneumática, fotobiomodulação, imersões em água fria ou quente, estimulação elétrica neuromuscular, técnicas de regulação emocional, cuidados com o sono e muito mais”.

    A geração de 80 e 90 do Brasil é reconhecida pela capacidade técnica diferenciada, ainda que sua capacidade física seja limitada, o que é compensado com atalhos técnicos. Afinal, a genética seria o principal fator desse sucesso? Para o professor não. “Venho desenvolvendo pesquisas e reflexões a partir de uma perspectiva que rompe com a ideia de que o talento esportivo é algo exclusivamente inato. Em vez disso, defendo que o desempenho de alto nível e, mais desafiador ainda, a permanência nesse patamar ao longo dos anos depende, sobretudo, da interação entre o sujeito e o ambiente. Quando analisamos a trajetória de atletas veteranos(as) de elite, é comum encontrarmos histórias marcadas não por “genes excepcionais”, mas por uma combinação de esforço, consistência, aprendizado ao longo do tempo e boas condições de desenvolvimento.”, explicou.

  • “Trabalha, confia e torce” — Os capixabas que levaram o Espírito Santo à Copa do Mundo de Clubes nos EUA

    “Trabalha, confia e torce” — Os capixabas que levaram o Espírito Santo à Copa do Mundo de Clubes nos EUA

    Com a camisa dos seus clubes e a bandeira do estado nas mãos, torcedores do Espírito Santo cruzaram fronteiras para viver de perto o sonho do Mundial de Clubes. Em meio a arquibancadas lotadas e estádios imensos, eles fizeram ecoar um sotaque familiar em solo americano.

    Entre os dias 14 de junho e 13 de julho, os Estados Unidos receberam uma das maiores competições do futebol mundial: a Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Times de cinco continentes disputaram o título de melhor do planeta, enquanto torcedores brasileiros, acostumados a eventos esportivos grandiosos, viram no torneio uma chance única — não apenas para acompanhar os jogos, mas para se conectar com outras histórias e lugares.

    No meio dessa multidão global, um grupo especial de torcedores ganhou destaque: os capixabas. Pessoas vindas do Espírito Santo que decidiram atravessar o oceano, atravessar fusos horários e enfrentar o desafio de torcer em solo estrangeiro para levar a voz e a identidade do seu estado para os maiores estádios do mundo.

    O Espírito Santo, tradicionalmente pouco representado nas grandes manchetes do futebol brasileiro, mostrou seu poder simbólico nas arquibancadas americanas. Um desses momentos foi protagonizado por Bruno Salles Pereira, programador de 44 anos, natural de Vila Velha e residente em Orlando, na Flórida.

    Durante o intervalo da partida entre Flamengo e Chelsea, em Filadélfia, Bruno abriu com orgulho a bandeira azul, branca e rosa do Espírito Santo, que traz o lema “Trabalha e Confia”. Para muitos, pode parecer apenas um pedaço de pano; para Bruno, foi um gesto de afirmação.

    Programador Bruno Pereira com a Bandeira do ES – Foto: Arquivo pessoal

    “Eu cresci em Vila Velha, jogando bola na rua, torcendo pro Flamengo com meu pai e vendo o Espírito Santo ser sempre esquecido nos grandes eventos. Morando aqui nos Estados Unidos há alguns anos, senti que essa era a minha chance de representar. Quando abri a bandeira do nosso estado no meio do estádio lotado, foi como se eu estivesse dizendo: ‘a gente existe, a gente tá aqui’. Aquilo não era só sobre futebol, era sobre identidade. Sobre pertencimento. Foi emocionante demais, algo que vou guardar pra sempre”, explicou Bruno.

    Esse gesto repercutiu nas redes sociais e entre os capixabas que acompanhavam o torneio. A presença da bandeira chamou atenção e fez com que outros torcedores se aproximassem, gerando encontros espontâneos e conexões que só o futebol proporciona.

    Família, futebol e memória

    Enquanto Bruno carregava a bandeira com emoção, outro capixaba dava um passo ainda maior: transformar o Mundial de Clubes numa experiência familiar. Victor Caldeira, empresário de Vitória, viajou com a esposa, os filhos, a mãe e amigos para acompanhar o Flamengo em seus jogos nos Estados Unidos.

    Victor Caldeira, com a esposa e os filhos acompanhando o Mundial de Clubes – Foto: Arquivo Pessoal

    “Essa viagem foi um sonho. Eu, minha esposa, meus filhos, minha mãe… fomos todos juntos. A gente esperava há muito tempo por uma oportunidade assim. Quando soubemos que a Copa do Mundo de Clubes ia ser nos Estados Unidos, decidimos que era agora. E não foi só pelo Flamengo, foi por viver isso juntos. Teve jogo, claro, mas teve também passeio, conversa, emoção e choro no estádio. Meus filhos talvez não se lembrem de todos os detalhes quando crescerem, mas vão lembrar do que sentiram. Isso não tem preço”, contou Victor.

    Para ele, o futebol foi uma ponte que uniu gerações, renovou laços e criou memórias afetivas que ultrapassam a mera competição esportiva. A torcida virou uma festa familiar que, longe do Brasil, ganhou ainda mais valor.

    A voz do Espírito Santo na multidão

    Além de Bruno e Victor, muitos outros capixabas estiveram nos jogos em Orlando, Filadélfia e Nova Jersey, espalhados entre as torcidas do Flamengo, Fluminense e até do Mamelodi Sundowns — o time sul-africano que contou com o capixaba Arthur Sales no elenco.

    Entre médicos, estudantes, jornalistas e trabalhadores que vivem nos Estados Unidos, as arquibancadas ganharam um tom diferente, um sotaque que, de vez em quando, fazia ecoar um “capixaba na área” nos estádios.

    “Eu sabia que levar a bandeira do Espírito Santo podia parecer simples pra quem não conhece nossa história. Mas pra mim foi como levar um pedaço da minha origem. E quando vi gente filmando, gente chorando, gente gritando ‘é do ES!’, percebi que não era só sobre mim. Era sobre todos nós que viemos desse estado tão fora do radar, mas cheio de paixão”, conta Bruno.

    O sentimento foi o mesmo entre grupos informais de torcedores, que se encontravam para trocar histórias, cantar juntos e dividir a emoção de ver seus times em um palco tão grandioso.

    Futebol e pertencimento: reflexões para além do campo

    Para Victor e Bruno, o futebol é mais do que esporte — é uma forma de expressão cultural, uma linguagem que ultrapassa fronteiras e que fortalece a identidade pessoal e coletiva. No caso dos capixabas, a viagem ao Mundial de Clubes foi uma oportunidade de reafirmar seu lugar no mundo.

    O Espírito Santo, estado conhecido por sua natureza exuberante e por ser “fora do eixo” das grandes capitais brasileiras, raramente tem seu protagonismo no futebol reconhecido. Ainda assim, a paixão pela bola é enorme e presente em cada canto do estado.

    Essa mobilidade dos torcedores capixabas para os Estados Unidos não é apenas uma aventura esportiva, mas uma afirmação política e cultural: mostrar que, apesar do pouco destaque midiático, o ES tem sua voz, seu orgulho e sua torcida.

    A experiência dos torcedores no exterior

    Viver o Mundial de Clubes em solo americano também significou para muitos um choque cultural, um encontro com uma nova realidade. Estádios modernos, diversidade de públicos, sistemas organizados e a mistura de idiomas foram parte da experiência.

    Victor Caldeira comenta que, mesmo distante, a atmosfera fez com que ele e sua família se sentissem perto do Brasil.

    “Era engraçado ouvir o português se misturando com o inglês, ver famílias de diferentes países torcendo juntas, mas com aquela chama brasileira acesa. Meus filhos brincavam com outras crianças que também falavam português, e a gente sentia que estava ali representando algo maior”, afirmou Victor.

    Além disso, a oportunidade permitiu a muitos a experiência de viagens internacionais e contato com culturas diferentes — o que torna o futebol um instrumento de aprendizado e troca cultural.

    O que fica para o Espírito Santo?

    Embora o estado não tenha tido times na competição, sua presença foi sentida nas arquibancadas e nas redes sociais. O gesto da bandeira, os encontros entre torcedores, as histórias de famílias unidas pelo esporte e as narrativas pessoais mostram que o Espírito Santo é mais do que apenas um estado “de passagem” no mapa do futebol brasileiro.

    Para o jornalista e torcedor capixaba Humberto Gomes, que acompanhou parte da competição, esses relatos refletem uma mudança:

    “Ver capixabas nos estádios da Copa do Mundo de Clubes mostra que nossa torcida não é invisível. É um passo para que possamos ser reconhecidos, para que o futebol capixaba ganhe espaço na mídia e no coração dos brasileiros”, explica.

    A participação capixaba no Mundial de Clubes pode ser o pontapé inicial para uma maior valorização do futebol local e da torcida no Espírito Santo. O fortalecimento dos clubes locais, como Rio Branco, Desportiva e Vitória, e a valorização da cultura da torcida são essenciais para que o ES ocupe mais espaço nas narrativas esportivas nacionais e internacionais.

    Enquanto isso, histórias como as de Bruno, Victor e tantos outros torcedores que cruzaram o continente permanecem como símbolo de resistência, paixão e pertencimento.


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