Autor: ruthreis

  • Onde o congo toca, a cultura resiste

    Onde o congo toca, a cultura resiste


    Embora consolidado como Patrimônio Imaterial do Espírito Santo, o congo sofre com a falta de políticas públicas eficazes.

    O Congo é uma das expressões culturais mais marcantes do Espírito Santo. Surgido durante o período colonial, ele se formou a partir do encontro entre tradições africanas, indígenas e a religiosidade católica europeia. Mesmo em um contexto de repressão, em que práticas culturais de negros e indígenas eram proibidas, o congo sobreviveu e se tornou parte da identidade capixaba. 

    Presente em diferentes regiões do estado, o congo é vivido nas festas, nos cortejos, nos mastros erguidos com devoção e no som dos tambores e casacas. Em 2014, as bandas de congo foram reconhecidas como patrimônio imaterial do Espírito Santo, e hoje o movimento busca o reconhecimento também em nível nacional.

    Cada banda carrega devoções específicas, ligadas a santos como São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora da Penha e Nossa Senhora da Conceição. Essa diversidade está relacionada à forma como a tradição é praticada em diferentes comunidades, que se adaptam às próprias características. 

    Mistura originária

    No passado, em uma sociedade escravagista e preconceituosa, que bania qualquer prática cultural e religiosa que não fossem as dos europeus, unir elementos dessa cultura com as dos afrobrasileiros e indígenas era uma maneira de manter viva parte de suas crenças e costumes. Essa mistura originou, por exemplo, o congo. 

    As bandas envolvem músicas, danças, celebrações, com seus mestres, reis e rainhas. Eles realizam um conjunto de ritos, marcados pelo corte, puxada, fincada e derrubada do mastro, como é o caso do congo devoto de São Benedito

    Embora tenha surgido no período colonial, determinar uma origem exata para essa manifestação é uma tarefa complexa e, segundo especialistas, até questionável. Entre 2018 e 2020, os pesquisadores e professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), José Otávio Lobo Name, e do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), Elisa Ramalho Ortigão, produziram um projeto de pesquisa da Patrimonialização do Congo no estado, em parceria entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-ES) e a Ufes. Eles elaboraram um dossiê e um documentário sobre o congo capixaba. O material reforça que há diferentes trajetórias, histórias e práticas espalhadas pelo estado. 

    Clique na imagem e acesso o canal O Congueiro

    Cada banda contribui com sua própria memória e modo de fazer. Em vez de buscar um primeiro grupo ou local, os estudos recentes defendem a valorização da diversidade de experiências e das formas como o congo se transformou e resistiu ao longo do tempo.

    Para quem se dedica à pesquisa da cultura, tentar definir como e onde tudo começou ou qual foi a primeira banda não é o mais relevante. “Essa questão de ficar elencando o primeiro, o segundo, o terceiro, não faz sentido para a cultura em si”, observa José. A cultura é coletiva e sua história se constrói pela continuidade do costume. Diante disso, as práticas do congo são transmitidas por gerações através da oralidade, da participação e das festas. Essa passagem cultural, que ocorre de modo informal, se dá principalmente pelo legado familiar e pela participação dos mais jovens nas atividades das bandas.

    Atualmente, estima-se que existam cerca de 75 bandas de congo em atividade no Espírito Santo. Apesar do reconhecimento como patrimônio imaterial, muitas delas enfrentam sérias dificuldades para se manter. A falta de apoio financeiro e estrutural atinge desde a compra de instrumentos até questões logísticas, como transporte e alimentação durante as apresentações.

    Barra do Jucu

    “A Barra do Jucu é cultura, sempre foi cultura”, afirma Sebastião Vieira Sampaio, conhecido como ‘Xaxá’, integrante da Banda de Congo Tambor de Jacaranema. 

    Embora os pesquisadores não possam confirmar, os moradores da Barra do Jucu, bairro localizado em Vila Velha, relatam uma relação centenária com o Congo. Uma tradição passada de geração em geração, vivida por cada local, narra não só o nascimento da prática cultural, mas também do lugar. A Barra do Jucu e o congo nasceram e cresceram juntos e enquanto houver morador na Barra haverá congo. “Eu já tenho 67 anos,  participo [do congo] desde quando da barriga da minha mãe, […] É uma tradição que não vai acabar, eu tenho certeza disso”, declara Xaxá.

    Segundo a história contada pelo Museu Vivo da Barra do Jucu, a primeira banda de congo da comunidade surgiu no início da década de 1950, mas como Xaxá explicou, antes mesmo da formação de uma banda, o congo já fazia parte do cotidiano do lugar. A prática do congo chegava à comunidade por meio de bandas de regiões vizinhas, especialmente das localidades ribeirinhas, que costumavam se apresentar em festas no bairro. Conforme os moradores da Barra se interessavam e participavam das festividades, o congo foi criando raízes na região.

    Além das quatro bandas representadas no mapa produzido pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Vila Velha conta com mais uma banda, criada em 2018, Raízes da Barra. A mestre da banda, Rosangela Caus, conta que a banda foi fundada através de filhos, netos e bisnetos, com o intuito de manter a cultura viva. “Se a gente não der continuidade, a cultura acaba, o Congo acaba”, diz.

    Rosângela: “O congo é um patrimônio e precisa ser reconhecido e valorizado”

    Em conversa para a reportagem, Rosangela explica a importância da prática cultural para além do lugar físico. O congo participa da formação integral do cidadão capixaba, especialmente no desenvolvimento intelectual e social. “Através da escola, do trabalho, de eventos, de tudo que puder levar o conhecimento a quem não tem, principalmente a quem vive em situação de vulnerabilidade, a gente mostra a cultura e traz isso pra perto. Isso ajuda muito”, afirma a congueira.

    Além do mais, o coletivo, hoje, faz um trabalho social. Segundo ela, quando a cultura chega ao ambiente escolar, o interesse dos jovens cresce, e o congo passa a ser também uma ferramenta de perspectiva de futuro. “Aprender a tocar um tambor, uma casaca, entender de onde veio a tradição, como nasceu o congo. Tudo isso a gente aplica junto com a educação. Cultura e educação, juntos.”

    Dificuldades financeiras

    No entanto, há dificuldades enfrentadas no caminho. Manter uma banda exige muito: uniforme, manutenção, instrumentos, locomoção. E tudo isso envolve uma logística. Com cerca de 25 integrantes, a banda Raízes da Barra se sustenta, em grande parte, por conta própria. São os eventos que o próprio grupo organiza que ajudam a cobrir os custos básicos, e sobra bem pouco. 

    Rosangela reforça a necessidade de suporte e relata que muitos grupos não conseguem acessar editais ou contar com profissionais que os auxiliem na elaboração de projetos. E mesmo quando há, é uma disputa. Para ela, essa não deveria ser a realidade. “O congo é um patrimônio e precisa ser reconhecido e valorizado como tal, com apoio garantido, e não como se fosse uma sorte ser contemplado”, assegura a mestre. 

    A prefeitura de Vila Velha afirma apoiar o congo por meio de ações. De acordo com o secretário municipal de Cultura, Roberto Patrício Júnior, há hoje cinco bandas cadastradas na cidade, quatro na Barra do Jucu e uma no Centro, e o município busca incluir em eventos. O secretário também cita iniciativas educativas em escolas e oficinas de música que envolvem a tradição. 

    Xaxá: “Eu já tenho 67 anos,  participo [do congo] desde quando da barriga da minha mãe, […] É uma tradição que não vai acabar, eu tenho certeza disso”

    Porém, na prática, congueiros, ouvidos nesta reportagem, relatam que esse apoio tem sido pouco efetivo diante das demandas dos grupos. Faltam recursos e um diálogo mais próximo com as comunidades envolvidas. Enquanto o poder público destaca ações pontuais, os grupos continuam arcando com custos básicos. Para quem vive o congo na prática, o reconhecimento como patrimônio só será efetivo quando vier acompanhado de investimento, valorização verdadeira e compromisso político.

    A professora Elisa Ramalho Ortigão aponta que há um conflito claro entre a vida urbana e a tradição congueira. Para ela, assim como para Rosangela e Xaxá, as bandas sobrevivem por esforço próprio. “As bandas de congo estão localizadas nas periferias das cidades, e o maior número delas se encontra na Grande Vitória. As bandas sobrevivem com recursos próprios e são resistência cultural”, reforçou. 

    Onde está o congo no Espírito Santo, segundo pesquis do Iphan

  • Festivais gratuitos movimentam a cena cultural da Grande Vitória

    Festivais gratuitos movimentam a cena cultural da Grande Vitória


    Cultura capixaba ganha força com festivais que democratizam o acesso e valorizam a produção local no Espírito Santo


    Sabrina Nascimento e Vida Flor

    A cena cultural da Grande Vitória vem ganhando fôlego com a realização de festivais de música gratuitos que ocupam espaços públicos com arte, música e diversidade. Iniciativas como o Delírio Tropical e o Movimento Cidade mostram que é possível democratizar o acesso à cultura e, ao mesmo tempo, fomentar conexões potentes entre artistas, público e território. 

    Além de abrir espaços para novas expressões artísticas e valorização local, esses eventos propõem uma experiência coletiva e acessível, que rompe com os limites geográficos e financeiros que muitas vezes dificultam o acesso livre à cultura. Ao serem realizados em espaços abertos, os festivais ampliam a participação popular e criam ambientes mais representativos, tanto para quem sobe ao palco quanto para quem assiste.

    A participação em festivais tem sido estratégica para apresentar o trabalho de bandas a novas gerações a fim de ampliar o alcance da cena musical capixaba dentro e fora do estado. Esse feito aproxima o público de diferentes expressões culturais e impulsiona artistas locais de diversas áreas para além da música, como teatro e audiovisual. 

    Cultura e tradição

    A banda Casaca, com 25 anos de história, mistura o reggae, o rock e o congo capixaba e reafirma seu espaço na valorização da cena cultural do Estado. “O principal papel desses festivais é a difusão, que na minha visão, é o próprio estímulo para que cada vez mais pessoas se interessem por arte e cultura. É importante que o público tenha acesso de forma gratuita a esses festivais para que cada vez mais a gente possa fomentar a cultura”, afirma Danilo Chapecó, baixista da Banda Casaca.

    Apesar de estar localizada na região Sudeste, a cena cultural capixaba ainda enfrenta desafios estruturais e de visibilidade em relação aos grandes centros, como Rio de Janeiro e São Paulo. Mesmo com essa distância, a produção artística do Espírito Santo se destaca pela riqueza e diversidade, e iniciativas de circulação e acesso são vistas como fundamentais para fortalecer esse ecossistema. “É muito complicado, principalmente para algumas bandas mais novas, bandas de estilos mais alternativos, viver de música ou de arte no Espírito Santo. Mas acredito que cada vez mais os artistas vão se redescobrir e conseguir fazer música de forma viável e muito feliz”, completa Danilo.

    A sustentabilidade da carreira artística no estado ainda requer esforço contínuo de reinvenção e resistência. Ainda assim, cresce o número de artistas que conseguem viabilizar suas produções e manter uma presença ativa no cenário cultural.

    Os festivais

    O Movimento Cidade também aposta no poder da ocupação cultural para transformar o espaço urbano em lugar de encontro. Atuando como um evento de expressões artísticas integradas, o festival permite, de modo gratuito, a possibilidade de o público não apenas usufruir da cena cultural capixaba, por meio de shows, mostras audiovisuais e manifestações culturais, mas também de participar ativamente da construção dessas produções. “Entendemos que é muito importante a aderência de novos públicos às novas linguagens do audiovisual, que é cada vez mais múltipla e dinâmica. Como somos um festival gratuito e realizado com recursos de Lei de Incentivo à Cultura, a acessibilidade dos conteúdos e a democratização do acesso são itens fundamentais”, explica a assessoria do Festival Movimento Cidade. 

    O Festival Delírio Tropical, por sua vez, traz uma proposta que mistura música, arte, sustentabilidade e pertencimento. Realizado em espaços abertos e gratuitos, procura dar visibilidade a artistas locais e experiências que conectam o público com a identidade cultural capixaba. “Buscamos não apenas oferecer entretenimento, mas também valorizar nossos artistas, fomentar a economia criativa e proporcionar um espaço verdadeiramente acessível e democrático. O Delírio Tropical é mais do que um festival, é um movimento de celebração e valorização da cultura capixaba”, destaca Vincenzo Guizzardi, diretor do evento. 

    Ao descentralizar os espaços culturais e atrair um público variado,  esses festivais vêm consolidando um modelo mais inclusivo de fruição cultural. Em tempos de cortes, iniciativas como o Delírio Tropical e o Movimento Cidade mostram que a cultura pode, e deve, ser de todos. E que para isso, precisa de investimento e apoio.


    É de graça, mas quem paga? 

    Embora gratuitos para o público, estes eventos têm custos reais, de estrutura, cachês de artistas, produção e logística. Quem paga essa conta, muitas vezes são editais públicos  de fomento à cultura, parcerias com empresas, instituições e apoio de políticas culturais estaduais ou municipais. O Delírio Tropical, por exemplo, é viabilizado por meio de recursos da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), com apoio da Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult). “Tivemos, em 2022, o início da aplicação da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC/2022), que, até o primeiro semestre de 2024, já contribuiu com a realização de aproximadamente 129 projetos culturais executados. Apesar desses avanços, o setor cultural tem muito potencial e, com certeza, novas políticas públicas podem ser pensadas para o pleno desenvolvimento do setor”, destaca Carolina Ruas, Subsecretária de Políticas Culturais.

    “Nesses eventos, o sentimento de pertencimento à cidade é aflorado e a cultura local fortalecida. E isso tem um impacto positivo em diversas áreas, na preservação da cidade, do meio ambiente, no desenvolvimento da economia local. É um sentimento que estimula a participação ativa das pessoas na vida social, política e cultural da comunidade. Além disso, o acesso à cultura é um direito fundamental e a realização de eventos culturais em espaços públicos contribui para a garantia desse direito”, completa Carolina. 

  • A quem interessa?

    A quem interessa?


    Intervenções no trânsito, falta de diálogo, novos empreendimentos residenciais e valorização imobiliária estão no cenário do atrito entre moradores da Enseada do Suá e Prefeitura de Vitória

    As recentes intervenções no trânsito da Enseada do Suá, bairro nobre de Vitória, vêm gerando uma onda de críticas entre moradores, comerciantes e motoristas que circulam pela região. As mudanças viárias, que incluem inversão de mão em vias importantes, retirada de vagas de estacionamento e reconfiguração de acessos, estão sendo realizadas no mesmo período em que avança a construção de um condomínio de alto padrão ao lado do Shopping Vitória, empreendimento que já vendeu 95% das unidades na primeira fase.

    A coincidência temporal entre as alterações no trânsito e o novo empreendimento imobiliário levanta discussão sobre a necessidade das alterações e a falta de diálogo com moradores. O tema tem mobilizado protestos da comunidade local e reacendido debates sobre planejamento urbano, mobilidade e os limites do crescimento imobiliário em áreas consolidadas da capital.

    Na noite do dia 26 de junho, um grupo de moradores realizou uma manifestação em frente ao Palácio do Café. Entre as principais reclamações estavam a ausência de diálogo prévio com a população, a retirada de vagas de estacionamento e os prejuízos causados ao comércio e à rotina residencial.

    Tâmara Vasconcelos, funcionária pública e moradora do bairro, critica a falta de planejamento e os impactos negativos. “Tiraram todas as vagas que existiam aqui na avenida, inclusive as de carga e descarga. Se alguém precisar fazer uma mudança ou uma obra, não tem mais onde parar. Botaram uma mão contrária que só moradores de dois prédios estão usando. Não justifica acabar com todas as vagas e bagunçar o trânsito do bairro.”

    O sentimento de indignação é compartilhado por comerciantes, como a cabeleireira Emília da Silva Souza, que atua há anos na região. “Passa muito pouco carro e o dano que tá causando aos moradores e comerciantes é maior do que qualquer benefício. Acho que isso foi um tiro na canela”, lamenta.

    Moradores da Rua Clóvis Machado, uma das mais afetadas, também relatam dificuldades. Segundo o despachante aduaneiro Sávio Costa, que vive no local, o acesso ao prédio foi comprometido. “Retiraram todas as vagas, não pode encostar ambulância, Uber, viatura, nem caçamba de entulho para reforma ou mudança. A gente não tem nem onde descer um idoso acamado.”

    O síndico do Edifício Novitá, Maurício Pichara, acrescenta que a comunidade não foi ouvida. “Querem transformar a Clóvis Machado em uma avenida para desafogar o trânsito da ponte, mas estão prejudicando os moradores e comerciantes. Precisamos ser ouvidos.”

    Ao mesmo tempo em que os impactos sociais se intensificam, o mercado imobiliário da Enseada do Suá vive uma fase de valorização expressiva. O metro quadrado no bairro foi cotado em mais de R$ 13,6 mil em abril de 2025, com uma alta de mais de 30% em um ano, segundo o FipeZap. A região passou a figurar entre as áreas com maior valorização imobiliária do Brasil, atraindo empreendimentos de luxo e investidores.

    Para o arquiteto e urbanista, professor da Ufes, Tarcísio Bahia, é provável que o novo empreendimento de luxo tenha influenciado as obras na região. “Talvez não de forma totalmente determinante, mas é possível que tenha havido conversas entre o empreendedor e a prefeitura. De qualquer forma, por exemplo, o acesso à Ilha do Boi e à Curva da Jurema melhorou bastante. Antes havia uma via muito larga em um único sentido, o que parecia um desperdício. Hoje, com as mudanças, há mais fluidez. E isso facilita a vida de quem mora na Ilha do Boi, de quem trabalha por ali e também dos frequentadores nos fins de semana. Com a valorização da área e a chegada de novos empreendimentos comerciais e turísticos, é importante criar alternativas e melhorar a mobilidade urbana”, afirmou.

    Tarcísio reforça que não se trata de defender apenas os interesses de moradores da área nobre: “Mas é fato que a cidade precisa oferecer melhores condições de tráfego. Isso é positivo.” Ainda assim, ele faz críticas à forma como o processo foi conduzido. “Na Curva da Jurema, por exemplo, a mudança foi positiva: havia uma faixa larga apenas para saída e agora é possível contornar. Já na Rua Clóvis Machado, onde há muita polêmica, a situação é mais delicada. A prefeitura está impondo uma obra sem dialogar de forma adequada com a população local. Estão eliminando vagas, criando fluxos contrários, e tudo isso sem apresentar devidamente os estudos técnicos. Faltou diálogo.”

    Questionado sobre alternativas à intervenção na Clóvis Machado, Tarcísio afirma que outras soluções poderiam ser estudadas. “Não fiz o projeto, então não posso afirmar com certeza. Mas acredito que há outras possibilidades. As soluções não são excludentes. A prefeitura até começou a recuar após pressão do Ministério Público, da imprensa e da comunidade, e isso é muito importante. Se acredita que essa é a solução mais adequada, então que apresente os estudos.”

    Procurada pela reportagem, a Secretaria de Obras (Semob) ressaltou que as intervenções do Plano Mobilidade Leste, que abrangem os bairros Enseada do Suá, Praia do Canto, Santa Helena e Praia do Suá, foram construídas com base em diálogo direto com a população e que a Prefeitura recebeu sugestões e acatou diversas propostas apresentadas pelas comunidades, buscando soluções que atendessem aos reais anseios dos moradores.

    Além disso, eles garantem que foi realizado estudo do fluxo de veículos locais e metropolitanos, que aprovaram a requalificação viária que inclui revitalização do pavimento, recuperação do sistema de drenagem, implantação de baias e abrigos para ônibus, faixas adicionais para aumentar a capacidade, pavimento em concreto nas baias e sinalização completa.

    “A prefeitura está impondo uma obra sem dialogar de forma adequada com a população local. Estão eliminando vagas, criando fluxos contrários, e tudo isso sem apresentar devidamente os estudos técnicos. Faltou diálogo”


    Novo condomínio na Enseada do Suá muda formas de uso da região

    Tarcísio Bahia, arquiteto e urbanista, professor da Ufes

  • Reforma do ensino médio: promessas, frustrações e mais mudanças a caminho 

    Reforma do ensino médio: promessas, frustrações e mais mudanças a caminho 


    A proposta prometia mais autonomia para os estudantes, no entanto, as dificuldades  logo começaram  a surgir


    Rayla Correa

    A reforma do ensino médio no Brasil teve início em 2017, quando foi sancionada a Lei nº 13.415. A proposta alterou a estrutura dessa etapa da educação com o objetivo de modernizar o currículo e torná-lo mais flexível. Inspirada em modelos internacionais e alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a reforma pretendia aproximar o estudante de sua realidade, dos interesses individuais e das exigências do mercado de trabalho.

    Desde 2022, a nova organização curricular passou a ser implantada gradualmente nas escolas brasileiras. Com ela, surgiram os chamados itinerários formativos, áreas de aprofundamento escolhidas pelos próprios alunos conforme afinidade ou projeto de vida. A proposta prometia mais autonomia para os estudantes e mais sentido para o que se aprendia em sala de aula. No entanto, as críticas logo começaram a emergir, especialmente entre os alunos da rede pública.

    A realidade vista pelos estudantes

    Maria Luiza Corrêa Santos, estudante da Escola Irmã Maria Horta, em Vitória (ES), observa que o novo modelo tem gerado mais atrasos do que contribuições para a preparação dos alunos. Segundo ela, no primeiro ano do ensino médio, sua turma não teve aulas de geografia, história e biologia. No segundo ano, disciplinas como sociologia e filosofia também ficaram de fora. “Perdemos conteúdos fundamentais. Estamos em desvantagem em relação às escolas particulares que mantêm todas as matérias. É desigual”, relata Maria Luiza.

    Ela também questiona o foco dos itinerários formativos, como mídias digitais e projeto de vida, que, segundo sua percepção, não auxiliam na preparação para o Enem. “Essas matérias não caem na prova do Enem. Não me sinto preparada. Mesmo com o esforço dos professores, temos que estudar por conta própria para recuperar o conteúdo que foi deixado de lado”, afirma.

    Evandro Guimarães e Ana Clara Neves, também alunos do segundo ano, compartilham dessa visão e apontam que a reforma não levou em consideração a realidade de quem já estava no meio do ciclo. 

    “Nós deveríamos estar nos aprofundando nos conteúdos, mas estamos perdendo tempo com atividades que não contribuem para nossa preparação. Os projetos parecem interessantes no papel, mas, na prática, acabam tomando nosso tempo”, comenta Evandro.

    Ele também menciona a ausência de disciplinas tradicionais e sugere outras abordagens. “Filosofia, sociologia e, principalmente, algumas eletivas são matérias que, na minha opinião, poderiam ser substituídas por algo mais voltado ao Enem, como aulas de redação com correções feitas pelos professores”, sugere.

    Ana Clara avalia que o novo modelo foi mal planejado e encontrou dificuldades de execução em escolas com pouca estrutura. “Entendo que foi um modelo de ensino aplicado nas escolas do Brasil, mas que foi mal implementado. Escolas pequenas não têm o suporte necessário nem estrutura para aplicar isso. Faltaram aulas e preparo para que os professores pudessem ensinar matérias, como ‘Projeto de vida’ e ‘Estudo orientado’, que são novas e não ajudaram tanto quanto se esperava”, relata.

    Ela também destaca que a redução da carga horária em disciplinas tradicionais impactou sua preparação. “Diminuíram a carga horária de matérias importantes, como história, geografia, filosofia e biologia. Em seu lugar, entraram disciplinas que acabaram se tornando aulas vagas. Me sinto despreparada em comparação a colegas de escolas particulares, que tiveram essas matérias e suporte para estudar para o Enem”, afirma.

    Sobre o exame nacional, Ana Clara diz que ainda se sente insegura. “Tivemos muitas reduções e os professores agora precisam correr para ensinar conteúdos do primeiro ano. Estamos atrasados e sobrecarregados”, conclui.

    O alerta de quem ensina

    A ausência de disciplinas como filosofia e sociologia nos primeiros anos do ensino médio também preocupa professores. Edimar Barcelos, professor de filosofia na escola Professor Fernando Duarte Rabelo, em Vitória, afirma que a exclusão compromete a formação crítica dos jovens. “O campo filosófico faz o aluno percorrer contextos históricos importantíssimos para prepará-los para a universidade. E não digo apenas pela competência exigida no Enem, mas também para os estudos mais avançados na graduação”, afirma o professor.

    Segundo ele, o impacto é visível no terceiro ano. “Eles chegam desesperados e nós, professores, tentamos dar o melhor. Mas não tem como, em apenas um ano, abordar toda a introdução e os ensinamentos básicos da filosofia. Precisamos do retorno dessas matérias desde o início. Não critico tudo que foi implantado, acho válido, mas não à custa de disciplinas tão importantes”, reitera. 

    O olhar de quem ensina

    A professora do Centro de Educação da UFES, Gilda Cardoso, aprofunda a análise ao destacar que as mudanças trazidas pela reforma não resolveram os principais gargalos do sistema. “Em que pese a redução da carga horária dos itinerários formativos ser um ponto positivo, os problemas de desigualdade de acesso permanecem. Muitas escolas públicas ainda têm falta de materiais pedagógicos e professores. No Espírito Santo, por exemplo, até julho de 2025 havia instituições sem docentes suficientes para a formação básica”, observa.

    Ela também ressalta o risco de perda da formação crítica. “Sem dúvida há perda da educação científica e humanística com a extinção de disciplinas como literatura, artes, filosofia e sociologia. Enquanto as escolas de elite continuam ofertando esse conteúdo, os filhos dos trabalhadores recebem uma formação instrumental, voltada para resultados em testes. Isso amplia a desigualdade educacional.”

    Segundo a professora, a lacuna entre escola e universidade se aprofunda quando o financiamento da educação é insuficiente para garantir um padrão mínimo de qualidade. “Mesmo com o aumento do Fundeb, ainda seriam necessários mais de R$60 bilhões para oferecer uma estrutura adequada. Isso inclui laboratórios, bibliotecas, professores com carreira valorizada. Sem isso, a qualidade do ensino não se sustenta”, conclui.

    Eliza Bartolozzi, Professora titular da Ufes, aponta que a educação básica brasileira precisa ser mais bem estruturada física e pedagogicamente. “As escolas precisam de mais e melhores espaços físicos, com laboratórios e um número menor de estudantes por sala de aula. Em relação ao currículo, é preciso romper com essa perspectiva simplista de competências e habilidades para que o conhecimento científico seja valorizado e produzido no interior das escolas.” 

    Ela finaliza dizendo que os professores precisam ser valorizados profissionalmente, dando prioridade a formação inicial e continuada como uma política pública desenvolvida presencialmente e pelas instituições de ensino superior públicas. 


    O que muda em 2025

    O Ministério da Educação apresentou uma nova proposta de reorganização do ensino médio, que vigora a partir deste ano. A versão foi elaborada com base em uma consulta pública que reuniu mais de 150 mil participantes em todo o país.

    Entre as principais mudanças está o aumento da carga horária da formação geral básica, que passará de 1.800 para 2.400 horas. Os itinerários formativos terão a carga reduzida para 600 horas. O objetivo é reequilibrar o currículo e garantir que todos os alunos tenham acesso às disciplinas essenciais. 

    Filosofia, sociologia, artes e educação física voltarão a ser obrigatórias nos três anos do ensino médio, e os itinerários serão organizados com base nas quatro áreas do conhecimento: linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas.

    “Muitas escolas públicas ainda têm falta de materiais pedagógicos e professores”, 

    Gilda Cardoso, Professora de Educação,  Ufes

  • Quem vai governar o Espírito Santo?

    Quem vai governar o Espírito Santo?

    Pesquisas de opinião mapeiam os principais nomes que podem concorrer às eleições de 2026, enquanto lideranças comunitárias criticam distanciamento dos pré-candidatos

    Os movimentos no cenário político para as eleições de 2026 no Espírito Santo já são visíveis. Nomes circulam, alianças começam a se desenhar e discursos ganham espaço nas redes e nas ruas. Mas, em meio a um fluxo constante de informações, nem sempre é simples conectar rostos, trajetórias e intenções.

    As três pesquisas mais recentes de intenção de voto — realizadas pelos institutos Paraná Pesquisas em fevereiro, Flex Consult entre fevereiro e março e Instituto Perfil em abril— ajudam a mapear esse cenário. Elas indicam quem são os pré-candidatos mais citados até agora. A partir desses dados, traçamos um ligeiro perfil de cada nome que hoje está no centro da disputa além de ouvir o que pensa quem vive a política no dia a dia das comunidades.

    Segundo o presidente da Federação das Associações de Moradores e Movimentos Populares de Cachoeiro de Itapemirim (Fammopoci), Emerson da Silva Costa, persiste um sentimento de distanciamento em relação aos pré-candidatos. “A maioria dos nomes que aparecem nas pesquisas não dialoga com a realidade das comunidades. Falta conexão com o povo, com quem vive as dificuldades na ponta. O sentimento é de distanciamento, de que essas figuras estão muito longe do que a população espera”, afirma.

    Ele também relata descontentamento com as promessas não cumpridas ao longo dos anos. “O povo quer ver ação, não só discurso. Espera saúde funcionando, educação de qualidade, segurança e políticas públicas que cheguem de fato. O governador e os senadores precisam ouvir e agir, não apenas prometer.”

    Um dos fatores que, embora não sejam decisivas, exercem influência sobre as decisões dos eleitores são as pesquisas. “Tem gente que decide o voto com base nelas, pensando em ‘não desperdiçar’ (o voto). Mas também existe muita conversa e troca de informações, principalmente pelas redes. As pessoas estão mais críticas e nem sempre seguem o que a pesquisa diz. A comunidade está começando a entender que política não é só votar, é também cobrar, participar, fiscalizar. Tem um movimento crescente de conscientização, e as lideranças têm papel fundamental nesse processo”, explica Emerson Costa.

    O segundo diretor financeiro e representante da Federação das Associações de Moradores da Serra (Fams), Osmar Pimenta, confirma esse sentimento e reforça que pesquisas nem sempre refletem o resultado das urnas. “As pesquisas geram comentários, mas não são suficientes para definir o voto. Um exemplo foi a eleição para prefeito da Serra-ES, quando o ex-prefeito Audifax Barcelos se destacava em todas as pesquisas e, mesmo assim, foi eliminado no primeiro turno.”

    Pimenta aponta que, além da desconfiança nos políticos, há uma preocupação concreta sobre o futuro do estado. “A população quer segurança, saúde, mais geração de empregos e desenvolvimento econômico. E também teme que uma mudança no governo traga retrocessos nos avanços conquistados na gestão atual de Renato Casagrande.”

    Outra liderança que expressa preocupações em relação ao cenário eleitoral é a presidente da Federação das Associações de Moradores de Cariacica (Famoc), Elza Patrício. Com décadas de atuação nas pautas comunitárias, ela acredita que, embora a população esteja um pouco mais consciente, ainda há muita dificuldade na escolha de representantes que, de fato, dialoguem com as demandas populares. “Na verdade, o povo não está preparado verdadeiramente para a eleição. Está um pouco mais consciente, mas ainda vota muito em promessa. A gente tenta levar isso para as pessoas: que não podemos votar contra nós mesmos. Precisamos escolher quem quer mudança social de verdade”, desabafa.

    Segundo ela, alguns representantes atuais não têm trabalhado de forma satisfatória: “Tem deputado que você nem vê. Anda como cachorrinho do prefeito, não tem compromisso com ninguém. Ele faz o que quer e não escuta a comunidade.”

    A falta de diálogo entre a gestão municipal e as demandas da população é outro ponto de forte crítica. Segundo ela, questões básicas, como a construção de uma creche na Região 11 de Cariacica, seguem ignoradas. “Fizemos abaixo-assinado com mais de 800 assinaturas, entregamos, cobramos e nada. Para a educação e a saúde não tem dinheiro. Mas, para fazer quadra, tem”, afirma indignada.

    Para ela, o papel de fiscalizar o processo democrático não é só das instituições, mas também da população. “Quem é fiscal eleitoral somos nós. Temos que ser vigilantes. Se não for assim, não tem jeito”, defende.

    Na região da capital, Elza Resende da Silva, presidente do Conselho Popular de Vitória (CPV), atesta que o interesse da comunidade varia, mas as expectativas são claras: a população espera que os futuros governantes e senadores priorizem a melhoria dos serviços públicos essenciais — como saúde acessível, educação de qualidade e segurança eficaz —, com investimentos em infraestrutura que cheguem a todas as regiões.

    Também demandam políticas que gerem emprego e renda, valorizem a juventude e incentivem a economia local. Querem lideranças presentes nas comunidades, acessíveis e comprometidas com as reais necessidades do povo.

    No Senado, as lideranças comunitárias esperam representantes éticos, transparentes e atuantes na defesa dos interesses do Espírito Santo, com atenção às políticas de inclusão social e disposição para barrar retrocessos que afetem os direitos dos capixabas.

    Ela diz que há iniciativas populares para fomentar as discussões eleitorais: “Existem vários grupos de WhatsApp que fazem debates bastante construtivos, e os autores são bem esclarecidos, o que resulta em ideias novas e produtivas. Estamos planejando ações para incentivar a participação ativa dos moradores nas eleições de 2026. Acreditamos que a mudança começa quando o povo entende o seu poder e faz escolhas conscientes”, afirma.

    Luiz Gustavo, presidente do Conselho Comunitário de Vila Velha (CCVV), avalia que, de forma geral, a comunidade se sente representada pelos nomes que aparecem nas pesquisas, embora ainda haja desconfiança em relação aos políticos. Mesmo com o avanço de discursos negacionistas, a confiança no processo eleitoral se mantém, e a participação política da população tem crescido, mas ainda está distante do ideal. “Eleição é sempre uma questão muito polêmica, e o aumento da polarização ideológica, que foi o que dominou a política nacional nos últimos anos, acaba afastando as pessoas”, comenta.

    Segundo Luiz Gustavo, as pesquisas acabam influenciando a percepção dos moradores ao destacarem determinados nomes. A comunidade espera que os futuros governantes tenham espírito público e coerência com suas propostas, embora as preocupações variem bastante de acordo com faixa etária e classe social.

    Diante desse cenário de desconfiança, mas também de esperança por mudança, as escolhas para as eleições de 2026 ganham ainda mais peso.

    Arnaldinho Borgo é administrador e atual prefeito de Vila Velha. Começou a carreira como vereador em 2012, se elegendo depois deputado estadual. Na prefeitura seu foco é em obras de infraestrutura, modernização dos serviços e diálogo com o setor empresarial, buscando parcerias para desenvolvimento econômico.

    Ex-policial militar, Da Vitória começou sua trajetória como vereador em Vila Velha. Depois, foi deputado estadual e chegou à Câmara dos Deputados, onde está desde 2019. Sua atuação está voltada para as áreas de infraestrutura, desenvolvimento econômico e pautas municipalistas.

    Helder Salomão é professor de filosofia. Foi vereador e prefeito de Cariacica, mesmo município onde iniciou sua militância nas Comunidades Eclesiais de Base. Também foi deputado estadual por dois mandatos (2005–2012). Está no seu terceiro mandato na Câmara dos Deputados, tendo sido o mais votado do estado em 2022.

    Ex-delegado da Polícia Civil, Lorenzo Pazolini entrou na política em 2018, quando foi eleito deputado estadual defendendo pautas de segurança, ordem e valores conservadores. Em 2020, venceu a eleição para a Prefeitura de Vitória pelo partido Republicanos e se reelegeu em 2024.

    Paulo Hartung é economista e iniciou sua trajetória como líder estudantil na década de 1980. Desde então, ocupou diversos cargos públicos: foi deputado estadual, deputado federal, senador, prefeito de Vitória e governador do estado por três mandatos (2003–2010 e 2015–2018).

    Iniciou sua carreira em 1982 como vereador em Cachoeiro de Itapemirim, e passou por cargos de deputado estadual, federal e senador. Sua trajetória é marcada pela atuação nas áreas de economia e infraestrutura, com ênfase em responsabilidade fiscal. Atualmente, é vice-governador do Espírito Santo, pelo MDB.

    Sérgio Vidigal é psiquiatra e tem uma longa trajetória na vida pública. Iniciou suaccarreira como vereador na Serra, em 1988, e desde então foi deputado estadual, deputado federal e prefeito da Serra por três mandatos. Atualmente é secretário de Desenvolvimento do governo Casagrande.

  • Novo Papa, nova política?

    Novo Papa, nova política?

    Leão XIV e os rumos do Vaticano no cenário global

    A fumaça branca que se ergueu da chaminé da Capela Sistina em maio de 2025 não anunciou apenas um novo líder espiritual para os católicos do mundo. Com a escolha do norte-americano Robert Prevost, agora Papa Leão XIV, o Vaticano inicia uma nova fase que pode redefinir sua atuação política internacional. Se o papado de Francisco ficou marcado por uma agenda progressista em defesa do meio ambiente, da paz e dos direitos humanos, a chegada de Leão XIV levanta dúvidas: haverá continuidade ou ruptura?

    Para o doutor em Ciências da Religião e professor aposentado da Ufes, Edebrande Cavalieri, o Vaticano segue sendo um ator político de relevância global. Ele ressalta que, ao longo da história, a Igreja Católica influenciou decisivamente a política mundial, de João Paulo II, na queda do comunismo, à atuação de Francisco em crises humanitárias e ambientais. Agora, com Leão XIV, a Igreja se reposiciona diante de um cenário internacional marcado por conflitos armados, mudanças climáticas e polarização ideológica.

    A escolha de um papa norte-americano, com cidadania peruana e atuação pastoral marcada por simplicidade e acolhimento, surpreendeu e gerou simbolismos. Frei Gabriel, que atua como Guardião do Convento da Penha, destaca que os primeiros gestos do novo pontífice revelam uma liderança mais contemplativa e silenciosa, mas não menos potente. Para ele, o modo como Leão XIV se emocionou diante dos fiéis e saudou o povo de sua antiga diocese no Peru demonstra um estilo pastoral, mas também atento às questões sociais e diplomáticas que envolvem a Igreja.

    No campo político, os sinais iniciais são claros. A primeira reunião de Leão XIV com diplomatas internacionais foi marcada pelas palavras “paz”, “justiça” e “verdade”. Para Cavalieri, essa tríade revela o caminho que o pontificado pretende seguir. Ele avalia que, diante de guerras como as da Ucrânia e da Faixa de Gaza, o novo Papa defende uma paz ativa, desarmada e desarmante, que passa pela justiça social e pela reconstrução de laços entre os povos.

    Esse tipo de diplomacia ativa já é uma tradição do Vaticano, mas ganha novo fôlego com Leão XIV. Sua atuação política tem o potencial de interferir em debates sobre governança global, especialmente em temas como migração, meio ambiente e direitos humanos. O professor destaca que o Vaticano tem voz própria nas Nações Unidas e representa uma moralidade que atravessa fronteiras. As falas do Papa influenciam cúpulas internacionais e disputas de poder.

    Outro ponto de atenção será a relação entre o novo papa e os Estados Unidos. Embora Leão XIV tenha vivido por décadas na América Latina, sua nacionalidade americana gera expectativas quanto à sua postura diante de figuras como Donald Trump, atual presidente americano. Cavalieri acredita que Leão XIV tende a confrontar a visão unilateralista de Trump com uma política externa baseada na multilateralidade e no diálogo entre nações. Ele levanta ainda um ponto curioso: como será a recepção de um papa norte-americano em um país que, internamente, vive uma profunda divisão entre setores da própria Igreja?

    Frei Gabriel observa que a escolha de Leão XIV atende a uma necessidade política da Igreja: equilibrar o perfil pastoral e popular de Francisco com um conhecimento profundo das estruturas de poder do Vaticano. Ele acredita que o novo pontífice terá o desafio de navegar entre diferentes expectativas: de um lado, os fiéis que esperam proximidade e acolhimento; de outro, os setores da Igreja e do mundo que exigem habilidade diplomática para lidar com temas controversos como desigualdade social, ecologia e guerras.

    A escolha do nome “Leão” também carrega significados históricos. Leão XIII, papa do século XIX, marcou a doutrina social da Igreja diante das contradições da Revolução Industrial. Já Leão Magno, no século V, foi diplomata hábil em tempos de crise. Para Cavalieri, o novo papa se insere nessa linhagem de líderes que negociam a paz e defendem os mais pobres. O simbolismo é forte. Leão XIV parece mirar tanto a espiritualidade quanto a política, com base em princípios de justiça e fraternidade.

    Apesar do catolicismo manter posturas conservadoras em temas como sexualidade e ordenação feminina, Leão XIV deve buscar ampliar o acolhimento dos diversos setores sociais dentro da Igreja. Para Frei Gabriel, a fé precisa dialogar com os dilemas do mundo atual, e a Igreja, ainda que não partidária, tem o dever de se posicionar frente às injustiças sociais e ambientais. A doutrina social católica, afirma ele, continuará a ser uma referência importante para orientar a atuação da Igreja no campo político, não apenas religioso.

    A eleição de Leão XIV não é apenas a troca de um líder espiritual. É uma movimentação estratégica no xadrez global, com efeitos que podem atingir desde as relações entre potências até os debates sobre o futuro do planeta. Seus próximos passos dirão se ele será lembrado como um continuador das reformas de Francisco ou como alguém que trilhou novos caminhos, com prudência, espiritualidade e diplomacia.

  • A evolução das máquinas e as transformações do jornalismo

    A evolução das máquinas e as transformações do jornalismo

    Da informatização das redações de jornais à assimilação dos recursos de Inteligência artificial não é apenas de poder, do tempo e da linguagem.

    Discutir tecnologia no jornalismo é falar sobre instrumentos que transformam a forma de pensar, produzir e disseminar informação. Nas últimas décadas, o jornalismo passou por mudanças profundas nos meios de produção, saindo de uma técnica linear e mecânica para adentrar fluxos digitais, automatizados e, mais recentemente, mediados por inteligência artificial.

    Essa transição, discreta em seus primeiros momentos, hoje suscita preocupações evidentes. O que muda não é apenas a rapidez na criação de conteúdo, mas a própria essência do trabalho jornalístico. A inteligência artificial vai além da execução de tarefas: ela interpreta, prevê e, em certa medida, toma decisões. Na prática, a evolução das máquinas representa também uma reestruturação de poder, tempo e linguagem nas redações. A informatização incorporou editores de texto, bancos de dados, softwares de edição e plataformas digitais que reformularam toda a rotina de apuração e publicação. Atualmente, sistemas que sugerem títulos, elaboram resumos e indicam estruturas narrativas tornam o processo mais complexo e menos linear.

    Ferramentas como assistentes de texto e sistemas automatizados fazem parte do cotidiano de muitos veículos. Algumas redações já utilizam algoritmos para produzir reportagens sobre diversos temas.

    Como ressalta a professora de Jornalismo da Ufes Ruth Reis, em artigo intitulado Robôs falantes, inteligência artificial e impactos na comunicação, “essas ferramentas podem propagar preconceitos e comprometer ainda mais a qualidade e a confiabilidade da informação jornalística”. A máquina reproduz os dados e padrões dos textos usados em seu treinamento, e esses frequentemente contêm distorções humanas.

    No mesmo artigo, Ruth também aborda a necessidade de transparência no uso de IAs para a produção jornalística. Ela identificou que, no Brasil, veículos de comunicação têm criado mecanismos, visando assegurar a transparência no uso de IA na produção de notícias. Entre eles, estão o Estadão, a Folha de São Paulo e a Rede Globo, que já adotaram documentos de autorregulamentação da IA. “Dessa forma, procuram criar condições para absorver essas ferramentas sem afetar ainda mais a confiança do público, já fragilizada desde o advento das mídias digitais e redes sociais”, afirma. O Digital News Report, pesquisa periódica do Reuters Institute, demonstra redução de confiança nas notícias, de 62% para 43%, no período de 2015 a 2024.

    O ponto central, portanto, não é apenas o que essas tecnologias são capazes de realizar, mas o que devem realizar e sob quais parâmetros. A inteligência artificial não é neutra; ela funciona com base em escolhas humanas, dados historicamente eventualmente enviesados e objetivos nem sempre claros para o público. Conforme observa Ruth Reis, esse novo cenário “impõe desafios a uma sociedade midiatizada e conectada”, exigindo responsabilidade e senso crítico de todos os envolvidos na produção e no consumo da informação.

    Mais do que resistir ou se render aos avanços tecnológicos, cabe ao jornalismo contemporâneo compreender a dinâmica dessas mudanças e se posicionar diante delas. O desafio está não apenas em dominar ferramentas, mas em preservar valores como ética, contextualização e escuta ativa. A inteligência artificial pode sugerir caminhos, mas é o jornalista quem decide qual história contar, como narrá-la e por quê.

    Aos 35 anos, a Revista Primeira Mão participa desse debate como testemunha e agente das transformações. Sua trajetória acompanha a própria evolução do curso de Comunicação: da datilografia ao digital, das publicações impressas às narrativas multiplataforma. Nesse momento de transição, é importante reafirmar o compromisso de informar com clareza, ouvir com empatia e escrever com responsabilidade. Porque o jornalismo pode mudar de forma, mas sua essência continua sendo humana.

  • As primeiras mãos

    As primeiras mãos

    Cada estudante de jornalismo deixa sua marca por meio de estilos, olhares e vivências na revista Primeira Mão

    Com o passar do tempo, muitas mãos se juntaram para construir o legado que hoje carregamos, por meio de entrevistas, crônicas, ensaios fotográficos e histórias que comovem e inspiram. A Primeira Mão é uma revista inteiramente produzida atualmente pelos alunos do sexto período de Jornalismo, na disciplina Gêneros, Estilos e Discursos do Jornalismo. Mais do que um projeto acadêmico, ela se tornou um símbolo afetivo para aqueles que passaram por suas páginas, reunindo memórias, aprendizados e conquistas.

    Ao longo dos anos, a revista conquistou seu espaço como veículo de comunicação e  de formação, indo além dos muros da Universidade Federal do Espírito Santo e se consolidando como um marco na trajetória de muitos jornalistas. O que começou como um jornal, fruto de uma turma entusiasmada de estudantes, no final do ano de 1989 transformou-se em espaço para evolução na profissão.  Em 1990 ciruclou a edição número 1, elaborada por estudantes da turma de Jornalismo Impresso. 

    Aos 35 anos, Primeira Mão continua se reinventando: está cada vez mais moderna e leva na bagagem os valores que traduzem os criadores: a diversidade, inclusão e liberdade.

    Compromisso que atravessa gerações

    Raquel Salaroli atuou na primeira edição do primeira mão, em 1990. Atualmente é Analista de Comunicação Social na Assembléia Legislativa do Espírito Santo.

    Raquel Salaroli, jornalista

    Você lembra como surgiu a ideia para criar a Primeira Mão?

    Raquel: Surgiu da necessidade de criação de um jornal laboratório para os estudantes de jornalismo. Um semestre antes da criação do Primeira Mão, a turma 87/01 criou um pequeno jornal, mas que ficou restrito à turma. A partir da turma 87/02, ficou ainda mais evidente a necessidade de um meio de comunicação que permitisse aos alunos ter contato real com os processos de produção, apuração, redação, edição e diagramação (sim, na época era diagramação rsrs) das notícias.

    Na época, alguns professores estavam à frente da criação desse novo veículo: Ruth Reis (texto), Tânia Mara Ferreira (diagramação) e David Protti (foto). A produção do Primeira Mão era feita com orientação nas aulas deles. Discutimos e aprovamos o nome do jornal, formato, linha editorial… era uma criação coletiva orientada.

    Como era a produção da revista na época? 

    Raquel: Na época ainda era um jornal, não uma revista. Existia uma sala de prancheta (móvel hoje de museu rsrs) e máquinas de escrever manuais (também peças de museu haha) onde funcionava a nossa redação. Era ali que definíamos toda a produção do jornal. 

    Houve um semestre em que foi feita uma parceria com a Associação de Moradores de Jardim da Penha (Amjap) e o jornal virou uma espécie de veículo do bairro. A intenção era permitir que os alunos saíssem dos muros (que não existiam fisicamente na época, era  uma cerca viva de casuarinas) da Ufes para a comunidade, ou seja, para ter contato real com possíveis pautas, fontes e não ficarmos atrelados apenas ao ambiente universitário.  Foi um período de produção muito legal. Depois das matérias prontas (datilografadas em laudas), editadas e fotos escolhidas (reveladas no laboratório de foto), os editores, também alunos, acabavam fazendo a diagramação do jornal, com o método do milênio passado: diagrama, régua de paicas etc. 

    Vocês imaginavam que a revista se manteria ao longo de tantos anos?

    Raquel: Pra ser sincera, na época acho que a gente nem pensava nisso: na possível vida longa do Primeira Mão. Para mim, pessoalmente, foi uma experiência maravilhosa, e fico super feliz de ver que, aquele embrião que praticamente começou com a minha turma, continua existindo até hoje, se adequando às novas realidades, ano após ano, e servindo de instrumento de aprendizado para os alunos de comunicação. Dá orgulho de fazer parte dessa história e ver que ela continua sendo escrita ao longo dos anos por tantas mãos e colaborando com a formação profissional de tanta gente.

    Qual a sua principal lembrança quando se fala da revista?

    Raquel: Que a gente se achava muito (hahahaha). E era bom demais. Não de forma arrogante, é claro. Mas como a gente tinha contato pela primeira vez com a produção real de jornalismo, a gente meio que já se sentia jornalista, um pouco mais perto do mercado para onde almejávamos ir depois. Era um primeiro contato com a realidade profissional. E isso dava uma adrenalina muito legal, era um grande incentivo, porque as matérias práticas estavam sendo vividas, de fato, de forma prática. Eu aprendi muito com o Primeira Mão. Por meio do trabalho que desenvolvi nele, inclusive fui indicada por uma das professoras a fazer alguns trabalhos antes mesmo de me formar. Na nossa época o estágio era proibido e era mais difícil treinarmos a profissão antes de entrar nela. Então, o Primeira Mão foi, para muitos, a primeira e única experiência antes de entrar pra valer no mercado de trabalho.

    Eu tive experiência depois na primeira turma de estagiários da Rádio Universitária e também nesses trabalhos para os quais fui indicada. Mas muitos viveram o Primeira Mão como ‘a experiência’ jornalística durante o período de formação profissional.

    Memórias que não se apagam

    Wilson Igreja Campos participou da Primeira Mão no segundo semestre de 2003. Atualmente é coordenador de Marketing e Eventos no Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).

    Wilson Igreja, jornalista

    Como foi a sua experiência na Primeira Mão?

    Wilson: Eu achei que a minha experiência na disciplina que envolvia o Jornal Primeira Mão foi muito bacana. Ela era uma disciplina como uma mini-redação. Então, deu para dar uma noção muito real e interessante de como fazer essas interações. De busca de pauta, discussão dos assuntos, o que entraria em cada editoria. Quando eu cursei, acho que a gente fez três edições no período e a gente teve uma edição que teve uma interação com a disciplina de fotografia. Então, o pessoal estava tirando fotos e elas entraram no jornal. Foi bem interessante. Tivemos a vivência também de buscar patrocínio para veiculação de impressão e publicação do jornal, que naquela época não tinha uma verba fixa, uma verba menor, então a gente buscou patrocinadores externos à universidade para poder publicar. Então, assim, eu achei que foi uma vivência bem interessante porque, num campo seguro como um campus universitário, você pode errar e experimentar. A gente fazia a busca das pautas, fazia discussão dos assuntos e depois a diagramação e publicação do veículo. Sentíamos muito orgulho de ter aquele produto depois publicado.

    Primeira Mão: Qual a sua principal lembrança quando se fala da revista?

    Wilson: As principais lembranças que eu tenho da disciplina, quando eu cursei a revista, que na época era um jornal, eram as discussões que simulavam uma redação. Então, tivemos um tempo para fazer as pautas. A professora na época era a professora Ruth Reis, ela fazia umas editorias. As editorias eram separadas por campus, lembro que eu e minha dupla fomos ao campus de Maruípe e apuramos uma pautas. Depois, a turma se reunia para discutir essas pautas  e quais que entravam ou não. Cada editoria possuía seu editor, um aluno indicado, era parecido com um jornal. Eu me recordo dessa vivência da questão da busca da pauta, de selecionar o que seria mais relevante ou não para entrar no jornal.

    Eu lembro de algumas discussões específicas das aulas. Quem queria uma pauta ou outra, quem queria uma pauta maior, se seria em dupla e trio, quem queria fazer uma pauta mais voltada à cultura ou outros aspectos, já existiam editorias diversas, porque o espaço nos permitia isso.

    Primeira Mão: Como a revista influenciou na sua carreira?

    Wilson: Eu acabei optando por trabalhar em assessoria, trabalhei a minha vida toda em assessoria. Hoje, sou formado há mais de 20 anos. Quando cursei a disciplina foi no segundo semestre de 2003. Acho que foi uma experiência muito interessante para simularmos o ambiente de trabalho. Onde hoje eu trabalho, temos o costume de trazer as pautas, de discutir, de conversar com os colegas e definir o que é mais interessante para os nossos veículos, veículos institucionais e organizacionais. Então, vejo que foi bem interessante ter o primeiro contato com essa vivência logo na universidade. 

     

  • ES lidera ranking nacional de recuperação ambiental de áreas degradadas

    ES lidera ranking nacional de recuperação ambiental de áreas degradadas

    O Espírito Santo ocupa, atualmente, o primeiro lugar no ranking nacional de recuperação de áreas degradadas, segundo levantamento do Centro de Liderança Pública (CLP), com base em dados do MapBiomas e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o portal da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEAMA), o resultado é reflexo direto das ações realizadas por meio do Programa Reflorestar, iniciativa do governo capixaba voltada para a restauração florestal e a conservação dos recursos naturais.

    Desde sua criação, em 2011, o Reflorestar já possibilitou a recuperação de 11,8 mil hectares de áreas degradadas e a preservação de outros 13 mil hectares em todo o estado, com mais de 9,1 milhões de árvores nativas plantadas. Mais de 5,2 mil produtores rurais foram beneficiados até agora, recebendo apoio técnico e financeiro para aplicar práticas sustentáveis em suas propriedades.

    Recuperação avança, mas o tempo da natureza exige paciência e persistência

    Apesar dos avanços, o Espírito Santo ainda enfrenta desafios significativos. Em 2024, foram registrados 137 hectares desmatados, uma redução de mais de 60% em relação ao ano anterior, quando o número chegou a 362 hectares. Embora esse dado represente uma conquista, a degradação continua presente em diversas regiões.

    Estudos do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) indicam que a regeneração natural de florestas tropicais pode levar mais de 30 anos para que a vegetação atinja condições semelhantes às do estado original. Por isso, o uso de técnicas como sistemas agroflorestais, plantio de espécies nativas e proteção de nascentes torna-se essencial para acelerar o processo e garantir que a recuperação ambiental também gere retorno econômico.

    Um exemplo prático desse resultado vem de Santa Teresa. Lá, o agricultor Luiz Fonseca viu sua propriedade se transformar após aderir ao programa. “As nascentes estavam quase secas e o solo ficando pobre. Com o projeto, replantamos nativas e implantamos um sistema agroflorestal. A água voltou, a terra está melhor e ainda tiro renda do que planto. Mudei o jeito de produzir”, afirma.

    Com adesão dos produtores e apoio da sociedade, futuro ambiental pode ser mais verde

    O Reflorestar combina assistência técnica com apoio financeiro via editais públicos. O modelo inclui a recuperação de nascentes, criação de áreas de preservação permanente (APPs), reservas legais e técnicas produtivas sustentáveis. Tudo isso sem comprometer a renda dos produtores — o que tem sido decisivo para o crescimento da adesão.

    A Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEAMA) aponta, em suas campanhas, que o objetivo agora é ampliar o programa, especialmente nas regiões com maior vulnerabilidade ambiental. O secretário da pasta, Felipe Rigoni, foi procurado pela reportagem, mas não retornou os contatos até o fechamento desta edição.

    Além do Reflorestar, programas de nível nacional também têm contribuído para a restauração ambiental em larga escala. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) tem como meta restaurar 12 milhões de hectares até 2030, enquanto o Programa Floresta+, oferece incentivos financeiros a quem protege e recupera florestas em todos os biomas brasileiros, – ambos promovidos pelo governo federal.

  • A descarbonização prometida e os ventos da realidade

    A descarbonização prometida e os ventos da realidade

    Com holofotes de Nova Iorque, o Fundo de Descarbonização promete um Espírito Santo mais verde. Resta saber se sai do papel e se chega a quem respira longe dos discursos bem iluminados.

    Imagine uma promessa de futuro que alcança meio bilhão de reais. Sol, vento, inovação, economia limpa – um novo Espírito Santo que troca as chamas dos combustíveis fósseis pela brisa da sustentabilidade. Parece bonito, e é. Mas antes da emoção, é bom manter os pés firmes no chão.

    O Fundo de Descarbonização anunciado com pompa pelo governador Renato Casagrande em Nova Iorque é, sem dúvida, um marco importante. Afinal, não é todo dia que um estado brasileiro anuncia um investimento inédito de R$ 500 milhões para fomentar a transição energética. Mas por trás dos discursos em inglês e das fotos bem iluminadas nos fóruns, há perguntas que resistem como capim-dourado no meio do cerrado.

    O que exatamente vai ser financiado? Quem decide? Quais garantias existem se é algo completamente novo? O orçamento vai parar nas mãos de quem já tem placas solares no telhado e startup de verde no nome, ou também chegará aos agricultores das regiões serranas que pagam caro pela energia elétrica?

    Responsabilidades para além do papel

    “É preciso pensar no fundo não como um troféu, mas como uma responsabilidade. Se não houver critérios rigorosos e controle público, ele pode virar só um cofre bonito de intenções”, alerta Dado Freire, auditor fiscal de Meio Ambiente na Serra e ex-subsecretário da área na prefeitura de Vitória. Ele, que já viu promessas verdes virarem fumaça (literalmente), tem motivos para manter a lupa na gestão.

    O Espírito Santo é um estado com um histórico ambíguo. De um lado, há experiências bem-sucedidas como o Programa Reflorestar, que incentivou práticas de recuperação florestal com apoio técnico. De outro, convivemos com atividades intensivas como o polo de petróleo e extração de minério da costa capixaba e indústrias pesadas que ainda não ouviram falar em neutralidade climática — ou fingem não ouvir.

    Corporativismo e social andando juntos

    Lançar um fundo verde no exterior é bonito. Mas e os mecanismos de participação social? Quem representa as comunidades tradicionais que mais sofrem com os impactos da crise climática? A pressa por aplausos internacionais não pode atropelar a escuta local. “Descarbonizar o Espírito Santo” envolve mais que planilhas: envolve conflitos, disputas, e escolhas políticas. “Quando falamos do setor empresarial, entendo que é difícil conciliar com o lado mais ‘humano’ da coisa. O empresariado está atento, sim, mas precisa de clareza às regras contratuais para se alinhar com o governo”, defende a gerente de Responsabilidade Social Corporativa, Barbara Paiva, que atua em um grupo privado presente no Espírito Santo.

    Ineditismo: faca de dois gumes

    Outro ponto de atenção está na governança. O montante é gerido com base no Fundo Soberano do Estado, cuja lógica é mais econômica que ambiental. E aqui surge a pergunta incômoda: como garantir que a busca por retorno financeiro não engula os critérios ambientais? Porque, entre financiar um projeto que promete retorno rápido e outro que protege uma bacia hidrográfica em extinção, a escolha pode pender para o lado mais… monetizável.

    Ainda assim, o fundo não deve ser descartado. Ele é uma oportunidade, sim — mas uma oportunidade que precisa ser pressionada, fiscalizada, empurrada para ser mais do que marketing verde. Há potenciais reais: financiar startups de energia limpa, subsidiar a troca de matriz energética no campo e investir em qualificação técnica para jovens em áreas de vulnerabilidade. Mas nada disso acontecerá no piloto automático. E menos ainda se a política for tratada como vitrine, e não como ferramenta.

    O programa não pode ser apenas um discurso. Esse ato deve desenterrar práticas, rever estruturas, incluir vozes e contrariar interesses. Se o Espírito Santo quiser ser vanguarda climática, vai precisar fazer mais do que anunciar em Nova Iorque — vai ter que escutar o que se diz em Ecoporanga, Cachoeiro, Aracruz…

    O fundo pode florescer, sim. Mas só se for regado com transparência, justiça e, sobretudo, compromisso com quem respira o mesmo ar que se quer purificar.


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