Autor: ruthreis

  • Ginástica: Movimento que transforma

    Ginástica: Movimento que transforma

    A prática ajuda no desenvolvimento motor, na autoestima e na socialização das crianças.

    Solo, salto, barras assimétricas e trave na ginástica artística, arco, bola, maças e fita na ginástica rítmica. Esses termos estão na cabeça dos brasileiros depois do sucesso de Rebeca Andrade nas duas últimas Olimpíadas e as recentes conquistas da equipe de ginástica rítmica no Pan-Americano e na Copa do Mundo. 

    O holofote na ginástica fez com que o esporte ficasse em terceiro lugar com mais super fãs no Brasil, perdendo apenas para o futebol e o vôlei. Segundo uma pesquisa da Sponsorlink de 2025, houve um aumento de 44% na última década. O despertar das crianças para praticar essas modalidades aconteceu em todo o país. Logo após as Olimpíadas, o Centro de Treinamento Amigos do Esporte, de Belo Horizonte, teve um aumento de 400% na procura pela ginástica, com 1.500 candidatos.

    O  professor, pesquisador, ex-ginasta Maurício Olliveira,  coordenador do projeto “Escolinha de Iniciação à Ginástica”, da Ufes, conta que esse efeito Rebeca também foi percebido no Espírito Santo.“As pessoas gostam de assistir, de apreciar a ginástica. Toda vez que tem um grande evento e a ginástica se destaca, buscam o esporte. Com o fenômeno da Rebeca, que chamou muita atenção nas últimas duas Olimpíadas, a nossa lista de espera aumenta. É muito bom saber que tem essa procura toda”.

    Vantagens da iniciação à ginástica na infância

    Além de formar atletas, a prática de ginástica se torna um fator importante no desenvolvimento infantil e um aliado dos pais na busca pela saúde dos filhos. Maurício acredita que o esporte prepara a criança em todos os aspectos da vida. “A ginástica tem benefícios que são físicos: vai ficar mais forte, mais flexível, mais resistente e mais coordenada. Tem psicológicos: vai aprender a lidar com o medo, com as avaliações e com a pressão.  Também tem os benefícios sociais: fazer amizades, ter empatia, saber ajudar, apreciar e avaliar o outro”, explicou o coordenador.

    Arthur Murayama, monitor do projeto, entende que o principal benefício da atividade é o desenvolvimento da cognição, que além de ajudar com a execução dos movimentos melhora o comportamento social. “ Elas conseguem ter mais flexibilidade, agilidade, força, consciência corporal, e também vai ajudar nas questões de casa e da escola”, explica o monitor.

    Para Felipe Anunciato, pai da aluna Maya, o esporte é seu aliado para manter a saúde física e mental da filha.“A gente vive num momento de telas, né? Então é a hora que a gente consegue tirar um pouquinho da tela e trazer para fazer uma atividade física, e ela gosta muito. Não falta uma aula”, pontua o pai.


    Felipe Anunciato e a filha Maya

    Exigência na medida

    A ginástica além de exigir bastante do atleta no físico, principalmente, no início, para que se forme a consciência corporal, exige muito do mental para lidar com as cobranças de movimentos perfeitos e boa performance nas competições. Concentração, coordenação, disciplina, equilíbrio, flexibilidade e força são características de ginastas.

    Lidar com frustrações e aceitar as quedas não é fácil para todos. A pressão que a ginasta Rebeca Andrade enfrenta, pode ser motivadora, mas vem de sua adaptação ao longo dos anos e do suporte com a psicóloga da seleção. Ela sempre exalta nas suas entrevistas o quanto essa profissional é essencial para sua performance.

    Nas Olímpiadas de 2020 a ginasta americana Simone Biles, considerada uma das maiores do esporte, chocou o mundo quando desistiu na metade da competição após sentir bloqueios mentais durante um salto, fenômeno chamado de twisties. Esse episódio com a atleta considerada um mito trouxe a discussão do cuidado com a saúde mental ser indispensável.

    E como essa pressão chega aos iniciantes? Maya Anunciato, de 8 anos, pratica ginástica há três anos, se inspira em Rebeca Andrade e sonha em ser atleta profissional. Ela relatou como lida com a pressão nos treinos. “Às vezes, quando é um movimento muito difícil, que vai ser a primeira vez que eu vou fazr, eu fico meio nervosa. Aí eu respiro e concentro o máximo”, ensina.


    Maya Anunciato

    Maurício e Arthur relatam que por estarem trabalhando com crianças na iniciação à ginástica olímpica a cobrança é muito mais leve. Mas deixam claro que para uma excelente execução o processo é a longo prazo.

    “A busca da perfeição da ginástica é todos os dias. O  ginasta bom vai aprender que vai cair. A criança precisa entender desde muito cedo que não deve ser perfeita ali no treino, talvez, na competição. E a competição é um planejamento em longo prazo, até chegar lá, ela já passou por toda uma fase adaptativa, tranquila, e na competição nem vai pensar nisso, só vai fazer o que já está treinando”, explica Maurício; “Fazemos algumas brincadeiras, treinos lúdicos, para que elas consigam ter uma visão mais leve do que é essa dificuldade do perfeccionismo na ginástica”, conta Arthur.

    O pai de Maya afirma que percebe um nervosismo na filha quando vai participar de uma competição ou aprender um movimento novo, e explica como lida com a situação: “ela fica nervosa, ansiosa quando eles vão para uma competição ou para fazer um exercício novo, mas a gente tenta auxiliar para ficar tranquila. Ela sabe lidar bem com a pressão”.

    GINÁSTICA NO ES

    O estado do Espírito Santo atua na formação de base de atletas já há algum tempo. A ginástica rítmica capixaba teve atletas que foram para as Olimpíadas, Mundiais e Pan-Americanos. Neste ano, o Brasil conquistou, pela primeira vez, medalhas em um Campeonato Mundial da modalidade, com a capixaba Amanda Manente entre as protagonistas. Outro destaque da ginástica rítmica no ES é a treinadora, Monika Queiroz. Além de ter comandado a seleção individual da modalidade nos Jogos Pan-Americanos do Rio 2007, Lima 2019 e nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e Rio 2016, ela revelou a também capixaba Deborah Medrado. Na artística, teve grandes promessas no passado, mas ainda não conseguiu dar esses saltos que a ginástica rítmica deu. 

    O momento atual da ginástica artística capixaba é muito mais de fomentar o esporte. O governo estadual inaugurou, em março deste ano, um ginásio com equipamentos importados.

    “O melhor ginásio que tinha no estado era o da Ufes. O fato de ter esse ginásio vai ajudar a fomentar com segurança, preservando o atleta, para ele chegar num brasileiro, por exemplo. Agora a gente está com condições. O que falta agora é continuar incentivando as nossas crianças a gostarem do esporte”, refletiu o coordenador.

    PROJETO UFES


    Aula turma de iniciação à ginástica artística

    A Ufes atua com o projeto “Escolinha de Iniciação à Ginástica” desde 2012. Mesmo na pandemia, o projeto não teve pausas. Ele visa democratizar o acesso à prática da Ginástica Artística por meio da oferta de aulas de iniciação e intermediário para crianças de 7 a 12 anos.  Em todos esses anos houve lista de espera, e com o sucesso da modalidade chegou a ter 120 crianças. 

    O projeto conta com uma turma de iniciação e outra intermediária e não tem critério de habilidade para começar. A de iniciação normalmente são alunos que nunca fizeram nenhum tipo de atividade de ginástica. Com o aperfeiçoamento e evolução ocorre a transição para o intermediário. Os alunos que se destacam participam de competições estaduais e são indicados para academias particulares para se desenvolverem mais para a competição. Atualmente, o projeto aguarda o calendário do segundo semestre para inscrever seus alunos nas copas e festivas da Federação Espírito Santo de Ginástica. 

    “Por enquanto, estamos focados nessas competições mais regionais. Tomara que um dia a gente também possa alçar voos maiores, mas o nosso projeto também forma ginastas que vão para as academias particulares de Vitória, que prezam mais pela competição”, disse o coordenador.

  • Girlboss, o fim da era

    Girlboss, o fim da era

    De CEOs implacáveis a líderes empáticas: a revolução silenciosa no business feminino

    Ana Clara Andrade  

    Nos últimos anos, o termo ‘Girlboss’ ecoou como um mantra de empoderamento feminino no mundo dos negócios. Imagens de mulheres jovens, impecavelmente vestidas e com carreiras meteóricas, inundaram as redes sociais e as capas de revistas. A promessa era de que, para ter sucesso, a mulher deveria adotar uma postura assertiva, quase masculina, em um ambiente corporativo ainda dominado por homens. No entanto, essa narrativa, que parecia libertadora, revelou-se uma armadilha, impondo um padrão de perfeição inatingível e, muitas vezes, desconsiderando as nuances e desafios reais do empreendedorismo feminino. Hoje, assistimos ao declínio dessa era e ao florescer de uma nova abordagem: o soft power.

    A era ‘Girlboss’, impulsionada por figuras como Sophia Amoruso, da Nasty Gal, e Emily Weiss, da Glossier, prometia um caminho rápido para o topo. O sucesso era medido em avaliações bilionárias e em uma imagem de invencibilidade. Contudo, essa fachada começou a ruir. Empresas que pareciam inabaláveis enfrentaram falências, escândalos e a renúncia de suas fundadoras. A pressão para ser sempre forte, impecável e, de certa forma, uma versão feminina do “homem de terno”, mostrou-se insustentável. A crítica não é ao sucesso feminino, mas à forma como ele foi idealizado e imposto, ignorando a diversidade de experiências e a complexidade do mundo dos negócios.

    É nesse cenário de desconstrução que o soft power emerge como uma alternativa poderosa e mais autêntica para as mulheres empreendedoras. Longe da imposição e da agressividade, ele se baseia na escuta ativa, na empatia, na colaboração e na capacidade de influenciar sem dominar. É a força invisível que molda ambientes, impulsiona equipes e transforma ideias em impacto real. Essa abordagem ressoa com as tendências atuais do empreendedorismo feminino, que apontam para um futuro onde a sustentabilidade, a inovação e o impacto social são tão importantes quanto o lucro.

    Para entender melhor essa transição, podemos observar figuras como Mariana Henriques, uma influenciadora digital que construiu sua carreira não com base em uma imagem de perfeição inatingível, mas através da autenticidade e da conexão genuína com seu público. Com sua escuta ativa e empatia, transformou sua plataforma em um espaço de diálogo e apoio, onde mulheres se sentem representadas e inspiradas a seguir seus próprios caminhos, sem a pressão de se encaixar em um molde pré-definido. Ela não dita regras, mas compartilha experiências, aprendizados e vulnerabilidades, criando uma comunidade engajada e leal. Seu sucesso não vem da imposição, mas da influência sutil e do relacionamento construído com base na confiança.

    Por outro lado, temos Jéssica Andrade, uma empresária que lidera sua empresa com uma abordagem que prioriza o bem-estar de sua equipe e a criação de um ambiente de trabalho colaborativo. Jéssica entende que o sucesso de seu negócio não se mede apenas em números, mas na satisfação de seus colaboradores e na qualidade das relações que estabelece com parceiros e clientes. Ela pratica a escuta ativa, valoriza as contribuições de todos e busca soluções que beneficiem o coletivo. Sua liderança é inspiradora, não por ser impositiva, mas por ser inclusiva e empática. Jéssica representa a nova geração de empreendedoras que compreendem que o poder não reside na rigidez, mas na flexibilidade, na adaptabilidade e na capacidade de construir pontes.

    As tendências para o empreendedorismo feminino em 2025 reforçam essa mudança de paradigma. Há um foco crescente em negócios que priorizam a sustentabilidade, a economia circular e a personalização da experiência do cliente. O aumento da presença feminina em nichos técnicos, como desenvolvimento de software e design de experiência do usuário, demonstra que as mulheres estão ocupando espaços antes dominados por homens, mas o fazem com uma nova perspectiva, que valoriza a colaboração e a inovação com propósito. O “netweaving“, a construção de redes e relacionamentos, e o crescimento de negócios de cuidado e bem-estar são exemplos claros de como o soft power está se tornando a força motriz do empreendedorismo feminino.

    O fim da era “Girlboss” não é o fim do empreendedorismo feminino, mas sim o início de uma fase mais madura. É a oportunidade para as mulheres redefinirem o sucesso em seus próprios termos, sem a necessidade de imitar modelos masculinos ou de se encaixar em estereótipos. É a ascensão de uma liderança feminina que não precisa gritar para ser ouvida, mas que inspira e influencia através da sua essência e da sua capacidade de conexão humana.

  • Tarifaço nas exportações: o Espírito Santo na linha de frente dos impactos econômicos

    Tarifaço nas exportações: o Espírito Santo na linha de frente dos impactos econômicos

    André Cypreste

    A medida adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de sobretaxar produtos brasileiros em até 50% segue pressionando a economia capixaba, embora algumas categorias tenham conseguido escapar da alíquota mais pesada. Após negociações diplomáticas e pressão de setores estratégicos americanos e brasileiros, o governo norte-americano publicou uma lista de exceções que poupa parcialmente segmentos relevantes do agronegócio e da indústria.

    Ficaram de fora da nova sobretaxa de 40% (que somada aos 10% iniciais formaria o tarifaço de 50%) produtos como aeronaves civis e peças (incluindo os da Embraer), petróleo bruto e gás natural, fertilizantes, polpa de madeira, minério de ferro, metais preciosos (ouro e prata), além de suco de laranja e castanhas brasileiras. Esses produtos continuam sujeitos apenas à tarifa de 10% estabelecida anteriormente e representam entre 30% e 45% de todas as exportações brasileiras para os Estados Unidos.

    Apesar dos esforços diplomáticos, diversos setores capixabas cruciais seguirão enfrentando a tarifa integral de 50%, que começou no último dia 6 de agosto. Entre os mais afetados estão o café, o gengibre, os pescados como atum e peixe congelado, o mamão, a pimenta-do-reino (inclusive a exportada via Vietnã) e as rochas naturais (menos os quartzitos). Apenas nos primeiros seis meses deste ano, 51% da celulose e 41% do café solúvel exportado pelo Espírito Santo tiveram como destino os Estados Unidos.

    A resposta no âmbito nacional e estadual 

    O secretário de Agricultura do Espírito Santo, Enio Bergoli, afirma que o mercado de café está parcialmente paralisado e que muitos contratos não estão sendo renovados, o que compromete o escoamento da produção. Ele alerta que, se o Estado não conseguir acessar novos mercados em tempo hábil, os preços vão cair e toda a cadeia produtiva será afetada, desde o exportador até o pequeno agricultor. 

    A situação é particularmente delicada no caso do gengibre, cuja exportação ao mercado norte-americano representou mais da metade do volume comercializado entre janeiro e junho. “A cada dia sem contratos novos, os prejuízos se acumulam. Isso afeta não só os exportadores, mas toda a cadeia produtiva, inclusive o produtor rural. [O gengibre] não têm mercado interno capaz de absorver o excesso de oferta, e a consequência direta será a queda nos preços e perda de renda no campo”, concluiu o secretário.

    Como resposta ao impacto tarifário, o Governo Federal anunciou a liberação de R$ 2 bilhões em linhas de crédito especiais para exportadores brasileiros afetados. Os financiamentos terão juros subsidiados e serão operacionalizados por instituições como o BNDES e o Banco do Brasil. Além disso, foi estabelecido um canal direto de negociação com mercados da Europa, Ásia, América Latina e África, com o objetivo de redirecionar parte da produção que perderá espaço nos Estados Unidos.

    No plano estadual, o governo do Espírito Santo anunciou um pacote emergencial de R$ 450 milhões. A maior parte desse valor, cerca de R$ 200 milhões, virá da reestruturação do Fundo de Desenvolvimento Agropecuário (FDA-ES). Outros R$ 150 milhões serão captados por meio de parcerias com investidores estrangeiros, voltadas para a industrialização de produtos exportáveis. O restante, R$ 100 milhões, será financiado por uma linha de crédito com garantia da União, destinada a capital de giro para empresas exportadoras.

    Quais os próximos passos?

    O economista Pablo Lira, diretor do Instituto Jones dos Santos Neves, aponta que o Espírito Santo tem um grau de abertura econômica duas vezes maior que a média nacional, o que o torna mais vulnerável a choques externos. Apesar disso, ele vê a possibilidade da medida se voltar contra a população americana: “A elevação das tarifas tende a pressionar os preços internos, aumentar o custo de vida e até gerar desemprego. O impacto negativo começaria dentro da própria economia dos EUA.”

    Segundo Lira, o Estado e o Brasil precisam diversificar seus mercados e fortalecer laços com blocos como a União Europeia, o Mercosul, além de países da Ásia e da África. “É nas crises e incertezas que surgem as grandes decisões estratégicas. O Espírito Santo deve aproveitar esse momento para repensar e expandir sua atuação internacional”, concluiu.

    Caso a tarifa de 50% se mantenha ao longo do semestre, estima-se que o Espírito Santo possa perder até R$ 3 bilhões em receitas de exportação. A expectativa é de que esse impacto gere efeitos em cadeia sobre o mercado de trabalho, os investimentos e a arrecadação pública. O governador Renato Casagrande tem se manifestado em entrevistas à imprensa nacional sobre a importância de uma reação conjunta dos estados e do governo federal para enfrentar os efeitos das tarifas impostas por Trump. Ele defende ações coordenadas de diplomacia comercial, incentivo à agregação de valor nos produtos e apoio direto aos produtores.

    Enquanto as articulações diplomáticas continuam, o Espírito Santo se organiza para enfrentar um dos seus maiores desafios no comércio exterior das últimas décadas, buscando manter sua competitividade internacional e proteger a base produtiva que sustenta boa parte da economia local.

  • A voz que revitaliza a cultura capixaba

    A voz que revitaliza a cultura capixaba

    Uma trajetória que ecoa tradição, inovação e orgulho da cultura do Espírito Santo

    Acsa Helena

    A literatura produzida no Espírito Santo tem raízes profundas e vozes potentes, entre elas, destaca-se José Roberto Santos Neves, hoje com 53 anos. Criado em um ambiente familiar imerso em literatura e tradição, ele é herdeiro de um verdadeiro patrimônio cultural capixaba. Neto do renomado folclorista Guilherme Santos Neves, fundador da Comissão Espírito-Santense de Folclore nos anos 1940, e sobrinho dos escritores Reinaldo e Luis Guilherme Santos Neves, que tiveram presença significativa na ficção brasileira, José Roberto cresceu cercado por livros e narrativas que celebravam as manifestações populares do seu estado. 

    “Eu posso afirmar sem sombra de dúvidas que eles estão entre os maiores escritores de ficção não só do Espírito Santo, mas do Brasil”, comenta. Essa herança literária, porém, não o prende ao passado. José Roberto construiu uma trajetória própria, unindo literatura, jornalismo, música e pesquisa. Ao mesmo tempo em que reconhece e valoriza os nomes que vieram antes, ele trilha um caminho singular, ampliando os horizontes da cultura capixaba por meio de uma escrita que dialoga com diferentes linguagens e sensibilidades. Sua obra transita com naturalidade entre o rigor da investigação e a leveza da crônica, revelando um autor comprometido não apenas com a documentação da história, mas com o pulsar vivo da identidade local.

    O ponto de partida da carreira como autor veio em 2005, com a biografia da cantora Maysa, lançada pela coleção “Grandes Nomes do Espírito Santo”. Foi um trabalho de fôlego, cercado de obstáculos: o filho da artista, o diretor Jayme Monjardim, recusou-se a conceder entrevista, e a Editora Globo já preparava sua própria biografia oficial. Em vez de desistir, o escritor apostou no que sabia fazer melhor, buscando fontes alternativas, histórias esquecidas e personagens anônimos que cruzaram a vida da artista. “Eu fui atrás dos primos da Maysa que moram aqui, de amigos da juventude, de quem realmente a conheceu em Vitória”, conta. A obra é, até hoje, referência sobre as origens da cantora, resgatando sua relação afetiva com o Espírito Santo, uma faceta ignorada até pela minissérie televisiva “Maysa: quando o coração fala” produzida pela Globo.

    Esse compromisso com a cultura capixaba está presente em toda a sua obra. José Roberto publicou livros como “Sons da Memória”, no qual mapeia 40 discos marcantes da música feita no Espírito Santo, e “Diários do Rock in Rio”, onde, mesmo narrando a história de um festival global, adota abertamente o ponto de vista de “um jornalista do Espírito Santo no maior palco musical do mundo”. Para ele, escrever é documentar, é preservar vozes e sons que correm o risco de desaparecer na poeira do tempo.

    Sem dúvida, um dos maiores retratos de sua paixão pela música e pela escrita é o livro MPB de Conversa em Conversa, nascido de entrevistas desafiadoras, como a de Ângela Rô Rô, que, a princípio, se recusou a falar com ele por telefone. “Ela desligou na minha cara”, lembra, rindo. O episódio o levou a compilar 40 conversas com grandes nomes da MPB, reunindo os bastidores que nunca cabem nas matérias do jornal.

    Apesar de ter lançado alguns de seus livros em palcos cariocas e paulistas, com cobertura da mídia nacional, José Roberto decidiu permanecer no Espírito Santo. “Acredito que existe, sim, espaço para os autores capixabas no cenário nacional. Mas, para isso, é essencial que o escritor tenha esse projeto, essa ambição. Conheço autores talentosos aqui no estado que optaram por não sair de Vitória e permaneceram em um lugar confortável. No meu caso, lancei livros no Rio, e em São Paulo, tive espaço na mídia, mas, por questões pessoais, optei por continuar no Espírito Santo”, explica.

    Para ele, a qualidade da obra é o que abre portas, mas é preciso querer atravessá-las. Sua presença na Academia Espírito-Santense de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico do ES é apenas uma faceta institucional de uma vivência mais profunda, ele respira cultura capixaba diariamente, e sua produção se entrelaça com ela em todos os aspectos, da literatura à música, ao audiovisual.

    A identidade capixaba não é apenas origem, é impulso criativo. Essa conexão profunda com sua terra o inspira a seguir explorando novos caminhos. E o mais ambicioso deles? Uma obra sobre Clara Nunes, uma de suas cantoras favoritas. “Ainda não sei se será uma biografia ou um ensaio crítico, mas está no meu radar. É o meu maior sonho literário hoje.”

    Ao unir o rigor jornalístico com a leveza e a sensibilidade da literatura, José Roberto Santos Neves trilha um caminho próximo ao de autores como Ruy Castro, de quem, aliás, se declara admirador. Mas o que confere singularidade à sua trajetória é o enraizamento afetivo e intelectual em sua terra natal. Seu olhar é atento às vozes locais, às histórias que brotam fora dos grandes centros e aos detalhes que costumam escapar às narrativas mais convencionais. Em um Brasil que ainda precisa reconhecer plenamente a riqueza de sua diversidade regional, José Roberto surge como uma voz necessária, um escritor que escreve para o mundo, sim, mas sem jamais deixar de ser capixaba, por escolha, por convicção e por pertencimento. Sua obra é, ao mesmo tempo, espelho e ponte: reflete o Espírito Santo e o conecta a um Brasil mais amplo, plural e atento às margens.

  • Regional da Nair: o grupo de amigos que virou multidão

    Regional da Nair: o grupo de amigos que virou multidão

    Fundado por estudantes da Ufes em 2008, o bloco cresceu com o movimento cultural do Centro e hoje atrai milhares de pessoas

    Vida Flor e Ana Carolina Brandão

    Para além do desfile de escolas de samba, o carnaval de Vitória é, em sua essência, o samba tocado e cantado nas ruas, manifestado pelo povo capixaba e movimentado pelos blocos. O carnaval da cidade tem seu marco no Corso Carnavalesco dos anos de 1920 e, depois nos longos e elegantes desfiles no centro de Vitória e no Sambão do Povo.

    Porém, não é possível definir o carnaval de Vitória sem considerar as celebrações nas ruas da capital, o forte sentimento de identidade e pertencimento que os blocos de rua proporcionam, e que de certa forma, unem todos os grupos sociais. Entre tantos blocos, novos e tradicionais, que percorrem as ruas principais do centro da cidade, as repórteres da Revista Primeira Mão conta a história do que agrega multidões: o Regional da Nair, um bloco que nasceu de um encontro de amigos e hoje é visto como um símbolo do carnaval de Vitória.

    “Filho do Centro de Vitória, o Regional da Nair e toda a sua potência vem da alegria do samba e do compartilhamento de sensações”, afirma Vitor Lopes, jornalista e um dos fundadores do bloco. Antes de se tornar propriamente um bloco de rua, o Regional da Nair era um bloco de casa, um encontro de amigos no apartamento de Nair Rúbia Baptista, no Parque Moscoso, Centro de Vitória. O bloco foi fundado em 2008, em uma reunião desses jovens amigos, que escolheram a música para mantê-los unidos.

    Durante a entrevista, Lopes relembra os primeiros encontros do grupo, tardes animadas com muita música e harmonia. Na época, Vitor e outros fundadores do bloco eram recém-formados pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Ainda imersos na vivência universitária, buscavam algo que unisse estudantes jovens e que desse a eles um sentimento de pertencimento. Ele conta que naquele tempo não havia programas na cidade para jovens, como há hoje em dia, então o Regional surgiu também com o objetivo de acolher e entreter essa parcela da população.

    No início, o bloco não era nem um pouco profissional, o grupo fundador não era composto por músicos formados, e sim por comunicadores, que sabiam um pouco de cada instrumento, e tinham o mesmo interesse no fazer musical. Além de Lopes, participaram dos primeiros encontros André Félix, que hoje é diretor artístico do bloco, Rafael Paes, professor da Ufes, William Sossai, Henrique Alves, e claro, Nair Rúbia. Todos eles eram amigos que estudaram juntos.

    “Amigo chama amigo”

    Amigo chama amigo. Foi assim que Vitor descreveu o processo de crescimento do bloco. O Regional nasceu de um passatempo, uma fuga da rotina para aqueles que já haviam iniciado a vida no mercado de trabalho. E para que o Regional acontecesse, eles precisavam de mais pessoas que tocassem instrumentos. Dessa forma, começaram a surgir os convites para amigos de amigos. “Teve gente que tocava flauta, acordeon”, cita Lopes em tom divertido. Eles não se importavam qual instrumento seria tocado, se o conjunto estivesse em harmonia e sintonia, era sinal de que estava dando certo.

    Para que mais pessoas soubessem do bloco, os recém-formados em comunicação tiveram a ideia de chamar o público por meio de e-mails. Em meados de 2009 e 2010, o e-mail ainda era o principal meio de comunicação, especialmente entre os jovens universitários. Eles escreviam e-mails engraçados com trocadilhos e piadas, convidando para a próxima roda de samba. “A gente mandava e-mail para os amigos, que mandavam para outros. Era bem curioso, porque as pessoas também ficavam esperando receber”, comenta Vitor.

    Conforme o tempo foi passando, o Regional foi deixando de pertencer a um grupo intimista, fazendo com que a casa de Rúbia fosse pequena demais para a turma de mais de 30 pessoas. Assim, para abrigar todos que se interessavam pelo bloco, os fundadores decidiram ir para a rua.

    Em 2011, a primeira roda de samba na rua partiu da famosa Rua Sete, no Centro da capital. Os amigos tinham uma caixa de som presa em uma bicicleta, um microfone e o objetivo de fazer um bloco andando a pé, como descreve Vitor Lopes. A invenção durou pouco, já que nos primeiros minutos a ideia foi ralo abaixo. “Deu errado, então a gente subiu a Rua Sete cantando, alguém tinha uma percussão e a gente subiu cantando e batendo tambor. Sem violão. Sem nada”, relembra Lopes.

    Apesar de o primeiro bloco ser relembrado quase como desastroso, este chegou a reunir mais de 200 pessoas, um número que não cabia nas previsões do grupo. A partir desse momento, os encontros passaram a acontecer em bares, que forneciam espaço suficiente para a multidão. O Regional passou por bairros como Jardim da Penha e Jucutuquara até se firmar no Centro de Vitória, no Bar do Zilda. “Naquela época, percebendo esse movimento cultural, nós vimos que precisávamos cada vez mais vivenciar a cidade. Por isso, a maioria das nossas apresentações naquela época eram gratuitas, em espaços públicos e de acesso direto”, lembra Vitor Lopes.

    Com o passar dos anos, o Regional foi se consolidando e se tornando conhecido entre os capixabas, até que o grupo começou a ser chamado para tocar em eventos e festivais. Em conversa com André Felix, ele afirmou que esse ponto foi crucial para a profissionalização do bloco. Ele conta que o bloco investiu na retomada do carnaval de rua do Centro de Vitória e tem atraído um público diverso, com pessoas de todas as raças, gêneros e classes sociais. “Isso tudo tornou o Regional da Nair um bloco popular e, com o aumento do carnaval de blocos de rua nas capitais do sudeste, o Regional virou um símbolo de resistência, alegria e de representatividade de Vitória”, destaca. 

    No processo de amigo chama amigo descrito por Vitor Lopes, o Regional ganhou as ruas e o coração da população. Os convites atravessavam as bolhas sociais. A única característica comum entre todos era o samba, tocado e cantado por pessoas diferentes, que em sua maioria nem se conheciam.

    “Quem quiser ficar em Vitória, que fique”

    Com o tempo, o Regional foi ganhando proporções de um grande bloco, de uma quase escola de samba. Ele estava cada vez mais inserido no cenário carnavalesco capixaba e por essa razão merecia destaque, tal como o desfile das escolas de samba, que acontece uma semana antes da semana oficial de carnaval. Pelo menos, era assim que alguns fundadores pensavam, o que motivou o próximo passo na história do bloco. Por que não sair na semana oficial do carnaval de Vitória?

    Vitor ressalta que a decisão de botar o blo na rua na semana do carnaval oficial da cidade não foi um consenso entre todos do grupo. Na época, muitos viajavam para o Rio ou para outras regiões brasileiras, sobrando poucas pessoas em Vitória. Mesmo assim, Lopes e outros integrantes que ficaram na cidade, propuseram levar o bloco à rua mais uma vez.

    “Nessa época eu acho que já dava umas 5 mil pessoas no bloco. E aí quando teve a mudança para o domingo de carnaval, a gente achava que não ia ninguém de novo, porque estava todo mundo viajando. Mas muita gente ficou”, lembra

    Em 2014, o Regional da Nair ocupou as ruas de Vitória em pleno domingo de carnaval. Sem saber, a ousadia do Regional incentivou outros blocos a irem à rua, transformando o carnaval da cidade.

    Regional da Nair, para além do bloco tradicional

    Além do histórico bloco, no período carnavalesco, que arrasta multidões, o Regional da Nair  também promove rodas de samba. Estas se tornaram tradicionais, reunindo um público fiel nos últimos 15 anos, em festivais e locais privados durante o ano. Uma das recentes apresentações da roda de samba foi em julho deste ano, no Gastronomia da Samba, promovido pelo Instituto Panela de Barro. Também participaram do Delírio Tropical de verão em janeiro, e da edição especial do evento em comemoração ao aniversário dos 490 anos da cidade de Vila Velha. “Já estamos há uns três anos com essa formação fixa com 11 músicos. Tem uma equipe que trabalha com a gente. A coisa tá mais profissional e reflete no tipo de entrega de qualidade dos shows”, afirma André Felix.

    De acordo com ele, embora o carnaval de rua seja bastante aclamado pelo público capixaba, os blocos enfrentam dificuldades na arrecadação de recursos. Felix conta que os blocos não são totalmente contemplados pelas políticas públicas, tendo que recorrer a outras fontes de recursos, como é o caso do Regional, que participa de festivais e apresentações privadas.

    Ele ainda explica que existe uma diferença de ritmo entre o crescimento do carnaval de rua e os incentivos estatais. Enquanto a multidão que acompanha o carnaval continua aumentando de forma acelerada, a estrutura e o planejamento público caminha a passos lentos e não consegue estar em sintonia.

    Apesar dos impasses, André Felix afirma que o futuro do carnaval está no fomento dos blocos de rua e na independência financeira. Ele diz que o objetivo principal é tornar o carnaval de Vitória e o Regional sustentáveis e acredita que “isso pode ser uma revolução para a cultura capixaba na direção de construir uma saúde financeira e incentivar o consumo interno como cultura daqui.”

  • Artes e palavras que saem das mãos de um professor

    Brenda da Fonseca

    Em uma sociedade em constante busca por inclusão e igualdade, indivíduos inspiradores emergem, rompendo barreiras e empoderando comunidades inteiras. Rafael Monteiro da Silva, um carismático professor de 40 anos, é um desses indivíduos que dedicam sua vida a dar voz à comunidade surda através de duas poderosas formas de expressão: a interpretação da Língua Brasileira de Sinais (Libras), a ilustração e obras literárias.

    Nascido na cidade de Vitória, Espírito Santo, Rafael descobriu sua paixão pela Libras desde criança. Sempre teve gosto pela arte e até alguns desenhos publicados no extinto jornal infantil A Gazetinha. Quando cresceu, Rafael teve uma banda sem nome e nem logomarca, então se arriscou e fez uma identidade visual pela primeira vez. Deu certo e o gosto só aumentou pela modalidade. O professor já fez arte em diversas áreas, desde bandas até empresas. Fascinado pela linguagem visual e pela comunicação não verbal, ele se formou em pedagogia, fez pós-graduação em libras, segunda graduação em português e inglês e terminou o mestrado recentemente. Especializado como intérprete de Libras, se tornou um defensor dos direitos e da inclusão das pessoas surdas.

    Em 2017, começou sua jornada acadêmica como professor bilíngue de surdos pela Secretaria de Educação (Sedu) , preocupado em como andava a educação de crianças surdas, ele foi pessoalmente descobrir e investigar esse processo de interação direta com o aluno surdo. A partir daí, ganhou gosto por lecionar iniciando mais tarde a migração de área.. Além de sua atuação intensa como professor na Ufes e na UFRJ, ele tenta sempre continuar desenhando, mesmo com a carga horária em sala de aula bem puxada. Rafael sempre tem alguns serviços ligados a essa área e recentemente está se aventurando para escrever e ilustrar um livro autoral voltado para crianças surdas. 

    Rafael encontrou uma forma única de conectar-se com a comunidade surda. Utilizando sua habilidade para a ilustração, ele dá vida às obras literárias tornando-as acessíveis aos surdos por meio de imagens expressivas e vibrantes. Seu objetivo é proporcionar uma experiência de leitura mais rica e significativa, abrindo portas para a imaginação e o conhecimento para aqueles que não têm acesso pleno à linguagem escrita. Ao concluir o mestrado em novembro de 2022, o produto para a sociedade que ele desenvolveu foi a tradução e adaptação de seis livros para o modelo de VideoBook. O intérprete construiu o site, um canal do YouTube e uma página do Instagram com o nome de @leialibros, e esse tem sido seu atual xodó.

    Através de seu trabalho, Rafael Monteiro tem ganhado reconhecimento tanto na comunidade surda quanto no campo da educação inclusiva. Seu trabalho sempre enfatiza a importância da inclusão e do acesso à educação para todos. Ele acredita que a ilustração e a Libras podem não apenas quebrar barreiras de comunicação, mas também estimular a criatividade e a empatia em todos os indivíduos. Seus trabalhos geram uma experiência inclusiva e enriquecedora para a comunidade surda. 

    Para Rafael, seu trabalho vai além das palavras e dos traços. É uma forma de promover a igualdade e a inclusão em uma sociedade que muitas vezes negligencia as necessidades das pessoas surdas. Seu compromisso com a causa e seu espírito inovador têm feito dele um expoente no campo da educação inclusiva, e um exemplo de como a paixão pode mudar vidas. Com sua dedicação e talento, o ilustrador e professor está construindo um futuro mais inclusivo e acolhedor para a comunidade surda. Ele prova que a linguagem transcende as palavras e que a arte pode abrir portas para uma sociedade mais empática e igualitária. Sua jornada é uma inspiração para todos

    POST DOS LIVROS NESSES LINKS

    Tirinhas do SUPERMAO

    Tirinhas do SUPERMAO

  • O polêmico mergulhão

    O polêmico mergulhão

    Obra estimada em R$77 milhões e prevista para durar três anos, enfrenta resistência da comunidade e questionamentos sobre diálogo e impactos ambientais.

    Filipe Turiri e Maria Luiza Favalessa

    Reprodução: PMV

    A construção do mergulhão no cruzamento das avenidas Dante Michelini e Norte-Sul, na orla de Jardim Camburi, em Vitória, está longe de ser unanimidade. Anunciada pela Prefeitura como a grande solução para os congestionamentos na região, a intervenção, prevista para começar ainda neste ano, tem gerado polêmica entre moradores e frequentadores do bairro.

    Com orçamento estimado em R$77 milhões e prazo de conclusão de três anos, o projeto prevê a construção de um túnel que eliminará semáforos e dará prioridade ao fluxo de veículos. A obra também prevê a instalação de uma passarela elevada para pedestres e ciclistas, equipada com rampas, escadas e mirantes com vista para a praia, uma substituição das atuais faixas de pedestres no cruzamento.

    Moradores reclamam de falta de diálogo

    Enquanto o poder público justifica o projeto, a comunidade se mobiliza, muitos afirmam que não foram devidamente consultados, e que as audiências públicas realizadas não atenderam às expectativas de debate. Um protesto realizado em julho no local denunciou a falta de escuta, alertando para os impactos ambientais e urbanísticos.

    O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) entrou em cena e realizou uma reunião com representantes da comunidade, da Prefeitura e de associações de bairro, cobrando esclarecimentos sobre os impactos da obra e verificando se o projeto respeita o Plano Diretor Urbano e as legislações ambientais.

    Foram feitas tentativas de contato com a Semob para obter posicionamento, mas não obtivemos resposta até o fechamento desta matéria.
    De acordo com uma matéria publicada no portal da Prefeitura de Vitória, o projeto do Mergulhão de Camburi foi novamente apresentado à comunidade em reuniões realizadas em março de 2025, sendo essa a terceira apresentação do empreendimento à população local, com amplo tempo destinado a questionamentos, os quais foram respondidos pelos secretários de Obras e Transportes, com apoio técnico de arquitetos da Prefeitura

    Obra avança em meio à polêmica

    Apesar da controvérsia, a Prefeitura mantém o cronograma. O canteiro de obras deve ser instalado até o fim do ano, com intervenções de drenagem e terraplanagem previstas para os primeiros meses de 2026. A entrega está estimada para o início de 2027. Enquanto isso, a mobilização dos moradores permanece forte, com promessas de novos protestos e debates.

  • Entre palavras e paradas: Biblioteca Transcol retorna aos terminais da Grande Vitória 

    Entre palavras e paradas: Biblioteca Transcol retorna aos terminais da Grande Vitória 

    Com acervo múltiplo, cultura e literatura gratuita, a biblioteca impacta milhares de passageiros que passam diariamente pelos terminais

    O que começou como uma pequena banca de revistas em agosto de 2007, hoje pulsa como um coração literário no vai e vem da rotina. A Biblioteca Transcol nasceu discreta, em um canto do terminal, cercada por pressa. E foi justamente ali, onde ninguém esperava literatura, que fincou sua raiz mais forte: entre o ir e vir de quem tem pouco tempo mas muita sede para o olhar literário. 

    Naquele início tímido do projeto, uma dúvida maior pairava: será que o capixaba gosta de ler? A resposta veio rápida. Em três anos, a ideia da Biblioteca Transcol cresceu e se espalhou pela região da Grande Vitória. De um único ponto a dez terminais, de uma banca a contêineres maiores. E não demorou para que os olhos antes voltados apenas aos relógios e itinerários começassem a se perder entre fantasias, mangás, memórias, fantasias e conselhos.

    Entre 2007 e 2025, o projeto passou por diversas transformações e precisou ser interrompido em 2020, durante a pandemia. Segundo o presidente da OSC Universidade Para Todos, Rodrigo Trazzi, que atua na gestão da iniciativa, o impacto, até então, já era expressivo. “Quando o serviço foi interrompido por conta da pandemia, o projeto já havia alcançado mais de 40 mil usuários cadastrados e cerca de 280 mil atendimentos por ano. Isso mostra a força da Biblioteca Transcol e como ele foi bem recebido pela população.” 

    A Biblioteca Transcol se consolidou a partir daquele momento, como um marco de incentivo à leitura no Espírito Santo, oferecendo acesso gratuito e democrático à literatura em espaços de circulação intensa. “É uma biblioteca pública em um lugar onde as pessoas estão de passagem, e mesmo assim, elas param, pegam um livro, leem, devolvem, recomendam. Isso muda a relação das pessoas com o espaço público e com a leitura”, destaca Rodrigo. 

    O projeto surgiu com o objetivo de aproximar a comunidade do acesso gratuito e facilitado à literatura. Como fruto dessa iniciativa, nasceu a Biblioteca Transcol, um espaço dedicado à promoção da leitura e à democratização do conhecimento.

    Acesso à leitura

    No Brasil, 53% da população afirma não ter lido nenhum livro, seja impresso ou digital, nos três meses anteriores à Sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil do Instituto Pró-Livro. A perda foi de quase 7 milhões de leitores nos últimos quatro anos. O cenário é ainda mais preocupante quando se observa a leitura de livros inteiros: 73% dos brasileiros, 148 milhões, não completaram nenhuma leitura.

    O Instituto Pró-Livro revelou em 2024 que, apesar de pequenos avanços, a situação da leitura no Brasil ainda é preocupante. Estima-se que pouco mais da metade da população brasileira seja considerada leitora regular. Isso inclui aqueles que leem ao menos partes de um livro a cada três meses. Embora a média de livros lidos tenha aumentado, ao excluir os livros didáticos, esse número cai drasticamente.

    Diante desses dados, a relevância do projeto torna-se ainda mais evidente: promover o acesso democrático à literatura é um passo essencial para reverter esse cenário e fortalecer a cultura leitora no Brasil. A estudante de Biblioteconomia, Thâmara Gêja reafirma essa importância.Por estarem situadas em locais onde as pessoas precisam passar diariamente, as bibliotecas acabam se tornando uma pausa na rotina pesada. Elas oferecem um momento de lazer e cultura no meio das tarefas e responsabilidades do dia a dia do trabalhador.”

    O auxiliar de serviços gerais Rafael Oliveira, 29 anos, morador da Serra, conheceu o projeto por acaso, numa manhã comum a caminho do trabalho. Ele costuma pegar dois ônibus até chegar ao serviço, e sempre aproveita os minutos de espera no Terminal de Laranjeiras para tomar um café e observar o movimento. “Um dia, enquanto esperava o coletivo, reparei nas prateleiras cheias de livros e revistas coloridas. Vi um mangá, reconheci o nome de um desenho que assistia quando era criança e resolvi levar para casa”, conta.

    A volta aos terminais 

    Em 2025, a retomada da Biblioteca Transcol trouxe lembranças a quem um dia já utilizou o projeto para criar memórias entre viagens de ônibus. Os primeiros passos dessa nova fase começaram nos terminais de Jardim América, em Cariacica, e Laranjeiras, na Serra, duas das maiores rotas de circulação da Grande Vitória. Em menos de duas semanas de funcionamento conjunto, as unidades já registraram 717 leitores cadastrados. “Agora, com a reabertura das unidades, estamos trabalhando para reconstruir a base de leitores pouco a pouco. Mas a aceitação pública está sendo muito boa”, destaca o Presidente da OSC Universidade Para Todos.

    Mais do que colocar livros à disposição, o projeto aposta em uma curadoria cuidadosa e adaptada ao público real dos terminais. A seleção é feita por bibliotecários da Biblioteca Pública Estadual e por Igor Souza, profissional dedicado exclusivamente à Biblioteca Transcol. A equipe cruza informações sobre hábitos de leitura com dados da Câmara Brasileira do Livro e o comportamento dos empréstimos nas unidades.

    O resultado é uma estante plural: literatura brasileira e estrangeira, livros de autoajuda, poesia, biografias, mangás e títulos infantis convivem lado a lado. “A ideia é ser bem diverso, de modo que qualquer pessoa se sinta à vontade consultando as estantes”, afirma Rodrigo, que também garante a reposição contínua dos exemplares com base na demanda e no estado de conservação.

    Além disso, os livros de autores capixabas ganham cada vez mais espaço. “Também vale dizer que já temos um bom número de obras de autores capixabas, e esse número tende a crescer ao longo do projeto”, adiciona. 

    A disponibilidade gratuita de livros muda a relação da população com a literatura.  A proposta de levar leitura a espaços de circulação cotidiana tem mostrado impacto direto na vida das pessoas. Thâmara, moradora da Serra, é uma das leitoras que se reaproximaram dos livros por conta da praticidade do projeto. “A possibilidade de ter uma biblioteca com um acervo atual e diverso no caminho para o trabalho ou para a aula me aproxima da leitura, simplesmente por ser mais prático do que ter que desviar da minha rota para ir até uma biblioteca tradicional”, relata.

    Esse acesso democrático à cultura é um dos pilares da retomada, que se propõe a ser um instrumento de inclusão, não apenas pela gratuidade, mas também pela presença nos espaços urbanos mais comuns à população capixaba.

    Mesmo com poucos dias de funcionamento, o perfil dos títulos mais procurados já começa a se desenhar. Entre os mais lidos estão clássicos da literatura brasileira como A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e Lúcia McCartney, de Rubem Fonseca. O público jovem, por sua vez, tem levado para casa mangás como Dandadan, Demon Slayer, One Piece e Death Note. Títulos contemporâneos como A Biblioteca da Meia-Noite, A Menina que Roubava Livros e Ainda Estou Aqui também aparecem entre os favoritos.

    O futuro do projeto 

    A nova fase da Biblioteca Transcol não se limita à volta. A Secretaria da Cultura (Secult), a Biblioteca Pública Estadual e a Ceturb articulam uma modernização completa do projeto. Isso inclui nova identidade visual, presença nas redes sociais, sistema de cadastro online e realocação inteligente do acervo com base nos interesses locais.

    “O governador [Renato Casagrande] já manifestou interesse em colocar um módulo do projeto na Rodoviária de Vitória, que passa por obras, e a Secult está tratando disso com todo carinho. A ideia é manter o que sempre funcionou – o acesso fácil ao livro – e ao mesmo tempo renovar a experiência de quem passa pelo terminal”, afirma a gestão do projeto.

    O projeto Biblioteca Transcol é uma realização da Secretaria da Cultura (Secult) e da Biblioteca Pública do Espírito Santo (BPES), em parceria com a Associação Universidade para Todos, selecionada por chamamento público, apoio da Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo (Ceturb), e conta com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) do Ministério da Cultura (MinC).

  • Música, Livro e Filme

    Música, Livro e Filme

    Chemtrails é a penúltima faixa do álbum nomeado Five Seconds Flat, lançado em 2022, pela cantora norte-americana Lizzy McAlpine. Com letras delicadas e carregadas de simbolismo, a faixa Chemtrails retrata com profundidade a dor da perda de figuras familiares, especialmente marcada pela morte do pai de Lizzy em 2020. A música expressa o conflito de ter que assumir a vida adulta repentinamente, enquanto ainda se sente como uma criança por dentro, presa entre o luto e a necessidade de seguir em frente.

    A Cabeça do Santo é um romance brasileira publicado em 2014, que mistura realismo mágico, religiosidade popular e crítica social. Escrita pela jornalista cearense Socorro Acioli, a obra acompanha um jovem que, após a morte da mãe, parte em busca do pai ausente e acaba vivendo dentro da cabeça de uma estátua gigante de santo Antônio, em uma cidade fictícia do sertão. Lá, ele passa a ouvir as preces das mulheres da região, o que transforma sua relação com o mundo e a fé. aos que se arriscam a trilhar os caminhos da fé. História sensacional!

    Dirigido pelo cineasta japonês Hirokazu Koreeda, Monster é um drama que desconstrói os eventos de uma narrativa sob diferentes pontos de vista para revelar as complexidades das relações humanas. O filme, lançada mundialmente em 2023, trata de bullying, empatia e sexualidade de modo particular, cuidadoso e sensível. A trilha sonora foi a última composição do maestro Ryuichi Sakamoto antes de sua morte, o que confere uma carga emocional ainda mais forte à obra.

  • O embate entre grafite e pixo nos muros da cidade

    O embate entre grafite e pixo nos muros da cidade


     Acsa Helena

    Por muito tempo, muros e paredes das cidades foram considerados meras superfícies funcionais, destinadas à publicidade, à comunicação institucional ou ao completo apagamento. Contudo, para milhares de jovens das periferias brasileiras, esses espaços sempre foram mais do que concreto, são telas em branco, campos de disputa simbólica, territórios de linguagem e resistência. 

    É nesse cenário que o grafite e o pixo emergem não apenas como expressões estéticas, mas como gestos urgentes de afirmação, presença e enfrentamento. 

    A tinta, aqui, não é apenas cor, é denúncia, identidade, memória e desejo de pertencer. 

    Em meio à arquitetura das grandes cidades, cada traço pulsa a contracorrente de um sistema que insiste em calar corpos e histórias.

    Apesar de, internacionalmente, o grafite e o pixo serem tratados como variações de uma mesma prática, a arte de intervir no espaço urbano com mensagens visuais, no Brasil, essa relação ganhou contornos únicos. 

    A distinção entre o grafite “artístico” e o pixo “vandalismo” não é uma realidade global, mas uma construção cultural que reflete nossas próprias hierarquias sociais, raciais e simbólicas.

    O grafite tem origens nas metrópoles norte-americanas dos anos 1970, principalmente Nova York, em meio a uma juventude negra e latina que reivindicava, com tinta spray, sua existência nas paisagens hostis da cidade. 

    Com o tempo, essa prática foi absorvida pelo mercado da arte, ganhando prestígio em galerias. No Brasil, o grafite desembarcou nos anos 1980, inicialmente em São Paulo, como uma derivação cultural importada, mas rapidamente ganhou contornos próprios, mesclando-se com a vivência das favelas, os problemas sociais e as pautas locais.

    Já o pixo, em sua forma mais radical, ou seja, em sua expressão mais crua, direta e transgressora, surgiu como uma resposta à própria domesticação do grafite, ou seja, à maneira como o grafite foi sendo incorporado, suavizado e aceito pelas instituições e pelo mercado, perdendo parte de seu caráter rebelde. 

    Criado nas entranhas da exclusão urbana, o pixo nega a estética colorida e as formas convencionais de arte, reivindicando o gesto bruto, a letra cravada, a urgência da presença. O que se vê hoje é uma dualidade marcada por preconceitos. 

    O grafite, quando domesticado, ou seja, transformado em algo palatável e permitido pelas normas sociais. O pixo, com sua força contestadora, segue sendo criminalizado, ainda que ambos tenham a mesma raiz.

    É como aponta o professor de artes e coordenador do grupo de pesquisa sobre arte urbana no Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes Líder(es) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Aparecido José Cirilo. 

    “Em todos os lugares do mundo, o grafite e o pixo são uma coisa só. O Brasil inventou essa diferença, classificando como bom o grafite colorido, que alegra a cidade, e como ruim o que se aproxima da tag, da assinatura, do gesto urbano mais cru”. 

    A diferença, portanto, não é técnica nem estilística, é política. O grafite é legitimado como arte, enquanto o pixo é rejeitado como crime. Cirilo destaca que essa separação reflete uma lógica de poder: o que é autorizado ganha prestígio; o que é espontâneo, incomoda. 

    Para ele, qualquer forma de arte urbana precisa ser compreendida dentro do seu contexto histórico e social, e não julgada apenas a partir de critérios institucionais ou estéticos. 

    O grafite e o pixo, apesar de distintos em forma e função, nascem de um mesmo impulso: o de inscrever na cidade o que muitas vezes foi negado nos livros, nas galerias, nas políticas públicas, na existência periférica.

    Ronaldo Gentil, pichador desde os 13 anos, vive em Manguinhos, Serra, encontrou nos muros uma forma de expressar sua revolta e sua vivência nas periferias. 

    Ronaldo Gentil compara a força do pixo ao funk

    Para ele, a pichação tem uma força simbólica comparável à do funk na música: “uma arte com muito preconceito, mas que ainda assim é muito forte, que mostra a realidade daquelas pessoas e mostra um sentimento de pertencimento para as pessoas que vivem naquele lugar específico”. 

    Em suas palavras, a pichação carrega uma verdade inconveniente. Apesar de ter flertado com o grafite, Ronaldo rejeitou o que chamou de “americanização da linguagem”, preferindo a crueza direta do pixo. 

    “Era muito americanizado, e eu não queria reproduzir elementos estrangeiros e continuar arriscando minha vida em lugares não tão seguros para mostrar algo que não é da minha cultura”, afirma. 

    Já Kika Carvalho, formada em artes pela UFES, iniciou sua jornada no grafite ainda adolescente, dividindo muros com amigos. “No começo, quando eu grafitava com os meus amigos, eu nunca percebi uma diferença de tratamento por eu ser mulher em um ambiente majoritariamente masculino”, mas isso mudou à medida que ela foi se tornando adulta e se destacava tecnicamente. 

    “Sofri assédio, fui afrontada por homens que estavam há mais tempo no meio. Quando entrei no movimento feminista, era vista como alguém que queria se impor sobre eles.” 

    Kika Carvalho, antes afrontada pelo machismo, hoje realiza exposições internacionais

    Apesar disso, ela conta que sempre teve o apoio dos amigos para enfrentar essas lutas. Ela relata algumas agressões verbais que sofreu por ser mulher e grafitar sozinha nas ruas, “em diversas ocasiões, mesmo com autorizações em mãos, enfrentei ataques verbais”. 

    Em uma dessas situações, enquanto fazia uma intervenção permitida no centro de Vitória, foi insultada por um motorista que disse para ela ir “lavar louça” e foi filmada por uma mulher que a acusava de destruir a cidade.

    Breno Kalic, mais conhecido como Ficore, começou no grafite ainda jovem, logo após se mudar de Belo Horizonte para o Espírito Santo. Com talento nato para o desenho, encontrou nos muros da cidade um lugar para criar e comunicar. 

    Ficore encontrou, nos muros, lugar de expressão

    Para Ficore, a sociedade ainda opera sob uma lógica de aceitação seletiva da arte urbana: outdoors são naturais, mesmo quando promovem armas ou consumo, já uma assinatura na parede é escandalizada. “A cidade aceita a publicidade, mas rejeita a expressão”, argumenta. 

    Essa contradição escancara uma lógica capitalista em que o valor da arte é medido por sua utilidade econômica e institucional. 

    O que é arte para o poder público?

    A distinção entre grafite e pixo no Brasil carrega uma camada invisível, mas poderosa: a maneira como o poder público regula e classifica essas expressões. 

    Como destaca o diretor do Museu de Arte do Espírito Santo, Nicolas Soares,  a partir da perspectiva da arte contemporânea como campo expandido, em que as fronteiras entre arte, política, urbanismo e vida cotidiana se dissolvem, a separação entre manifestação artística e vandalismo se torna profundamente instável. 

    “No campo expandido, a arte não se limita a suportes tradicionais nem a espaços legitimados como galerias ou museus, ela se desloca para as ruas, muros, redes sociais e corpos, apropriando-se de linguagens não convencionais e frequentemente marginalizadas. No entanto, o poder público tende a operar com critérios fixos, baseados na legalidade, na autorização institucional e na estética normativa,” afirma.

    “Muitas dessas ações são gestos de resistência ou reapropriação simbólica do espaço urbano, embora ilegítimas aos olhos do Estado, são potentes como expressão estética e política”, explica Soares.Na visão dele, o Estado precisa se reposicionar não como regulador exclusivo do que é arte, mas como mediador e facilitador de múltiplas formas de criação. 




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