Autor: ruthreis

  • Centro Histórico como espaço de resistência

    Centro Histórico como espaço de resistência

    O bairro atravessa um processo de transformação que vai além da simples valorização imobiliária. Embora dados recentes apontam um aumento significativo no preço do metro quadrado (cerca de 15% em 2023, chegando a R$ 3 mil o metro quadrado), a realidade da região é marcada por tensões urbanas, desigualdades e uma “revitalização” que nem sempre contempla a diversidade social e cultural que historicamente caracterizou o território.

    O Mercado da Capixaba, o Viaduto Caramuru e o Museu Capixaba do Negro (Mucane) são alguns dos projetos que integram a chamada “revitalização” do Centro histórico de Vitória pelo poder público, em especial pela Prefeitura de Vitória, que diz buscar a requalificação da região central e estimular sua ocupação. 

    Grande parte da população considera equivocado o termo “revitalização”, pois apaga histórias que sempre estiveram ali. O Centro nunca morreu: sofreu um processo de esvaziamento. A partir das décadas de 1960 e 1970, com a crise da economia tradicional, marcada pela decadência da cafeicultura, e o avanço da industrialização no estado, ocorreu um deslocamento do eixo econômico para a Região Norte da cidade, que passou a concentrar grandes empreendimentos imobiliários, pólos industriais e centros comerciais. Somado a isso, houve também o deslocamento de parte do poder político, judiciário e administrativo, afirma Wallace Bonicenha, historiador e atual presidente da Associação de Moradores do Centro (Amacen). Órgãos públicos, secretarias, tribunais, sedes do governo e empresas passaram a se instalar fora do Centro, principalmente na região da Enseada do Suá, Reta da Penha e adjacências, consolidando um novo centro político e econômico. Isso contribuiu diretamente para o esvaziamento funcional e simbólico do centro histórico de Vitória.

    Para muitos moradores, o projeto que está sendo desenvolvido não é visto como uma iniciativa para estimular a preservação da herança que permeia o local, mas sim como uma estratégia para despertar o interesse do setor imobiliário para a região. O professor universitário e morador do Centro desde 2021, Mauro Pinheiro relata que “o que há é um projeto alinhado com o setor imobiliário de olho grande no potencial do Centro”, ele afirma ter visto muitos negócios abrirem e fecharem nos quatro anos em que habita o bairro. Para ele, não existe revitalização e continuam abandonados pela Prefeitura.

    Reinaugurado em julho de 2024, o Mercado da Capixaba estava fechado desde 2002, quando foi atingido por um incêndio. Nove meses após a inauguração do espaço restaurado, quatro das 16 lojas foram abertas. Porém, Mauro constata ter visto apenas eventos fechados ocorrendo: na concepção dele, não se vê nenhum verdadeiro Mercado da Capixaba. “É um prédio vazio que tem sido usado para eventos fechados.”, afirma.

    Enquanto os gestores da cidade prometiam investir em obras de infraestrutura, a verdadeira revitalização do Centro tem acontecido, em grande medida, pela ação direta de coletivos culturais, artistas independentes e movimentos comunitários. Feiras de produtores locais, saraus, eventos de rua e ocupações artísticas têm devolvido vida a espaços antes marginalizados, como a Praça Costa Pereira, o Parque Moscoso e os arredores da Escadaria Maria Ortiz. 

    O Centro é esse lugar genuíno, em que a cultura está em cada esquina. Você pode aparecer numa segunda ou quarta-feira e ter um samba em algum lugar porque os artistas estão lá. Encontra-se também o casario histórico que guardam resquícios de um tempo que não existe mais. Os programas artísticos dialogam com o passado e fortalecem a identidade cultural.

    Stael Magesck, produtora cultural e moradora do Centro de Vitória, virou referência no processo de reocupação do bairro ao transformar sua casa em um espaço cultural independente há quase 18 anos. Para ela, a movimentação cultural contribui muito para a vida no local e é o que mais aproxima quem está de fora, seja com as feiras, exposições, blocos de carnaval na rua, o Arraiá da (Rua) Sete, a festa de São Jorge na escadaria, entre outros. “Eu sempre defendo que o Centro é o berço da cultura, é genuíno, a cultura que acontece por aqui é onde tudo começou”, diz ela. O bairro passa por momentos de baixa e de alta, algumas pessoas vem, outras vão, mas, de certo modo, a cultura é o que mais movimenta e atrai as pessoas para o lugar. O espaço Casa de Stael, por exemplo, foi criado exatamente pensando nisso. 

    Os bares e outras atividades comerciais são importantes para a vida do local, mas Stael via a necessidade de outras opções e espaços independentes. Foi então, em 2007, que abriu a Casa da Stael, em um momento em que não havia tantas alternativas. Ambiente com música, poesia, moda autoral, arte capixaba, mostrando que temos cultura e tentando fazer um movimento para atrair pessoas à região, numa época em que não era tão comum utilizar a internet para divulgar nem encontrar esses eventos como hoje em dia. Desde então, sente-se cada vez mais uma defensora da valorização, não da revitalização. “Sempre digo que o Centro não está morto, portanto, não se revitaliza o que não está morto. Mas é preciso ter um olhar de carinho, de sensibilidade para perceber que o Centro tem, sim, seus bens ativos naturais, materiais, históricos, culturais e que precisam ser valorizados.”

    Essa valorização, para ela, não tem a ver com o momento em que muitos acham que aumentar o valor de um aluguel, de um imóvel, de compra ou de venda significa que está sendo valorizado. Ela defende a necessidade de políticas públicas que proporcionem melhores condições de mobilidade urbana, segurança e ambientação aprazível para que moradores e turistas se sintam seguros e tenham também desejo de voltar. 

    “Temos aqui nas adjacências o Morro da Capixaba, o da Piedade e o da Fonte Grande, que são lugares de difícil acesso e muitas vezes dá a impressão de que não fazem parte do Centro, mas fazem. Geograficamente, essa região toda pertence à Regional 1, então é fundamental olhar para esses lugares também”, afirma Stael. Ela reforça a necessidade de incluir os morros nas políticas de mobilidade e infraestrutura voltadas ao Centro: “É preciso pensar em como levar condições dignas para as pessoas que vivem nos morros. Elas moram aqui tanto quanto quem está ‘aqui embaixo’”.

    O futuro do Centro de Vitória não se desenha apenas na valorização imobiliária e em projetos de infraestrutura. São iniciativas às vezes invisíveis, coletivas e resistentes que, diariamente, combatem o abandono e mantêm a vitalidade de um lugar que nunca esteve morto, mas sim, negligenciado pelo poder público. A valorização genuína do Centro exige o reconhecimento e o apoio a essas pessoas que, com dedicação, constroem e mantêm a cultura capixaba. É fundamental que as políticas públicas considerem as necessidades de mobilidade urbana, segurança e habitabilidade para todos os residentes, incluindo as comunidades dos morros adjacentes. O verdadeiro desenvolvimento do Centro dependerá do olhar cuidadoso e sensível para seus bens ativos naturais, materiais e históricos, e da escuta ativa daqueles que o vivem e o fazem diariamente.

    A percepção dos moradores sobre as ações da Prefeitura e dos coletivos independentes é positiva quando elas respeitam a história, a cultura e valorizam a vida cotidiana, diz Wallace. Rejeitam qualquer iniciativa que traga violência, conflito ou desrespeito. O que buscam é afeto, diálogo e o entendimento de que são uma comunidade diversa, que deseja um encontro intergeracional e étnico, onde jovens, adultos, idosos e diferentes grupos étnicos possam conviver, aprender e construir juntos o futuro do Centro. Os moradores querem ser ouvidos e valorizados, participando ativamente das decisões que impactam suas vidas. Por isso, as ações que promovem inclusão, respeito e fortalecimento da cultura local são as que conquistam o apoio da comunidade. O Centro é um espaço vivo, cheio de histórias e gerações que se conectam, e a política urbana precisa reconhecer e promover isso.

  • Ameaça de retrocesso no cuidado com a saúde de jovens trans

    Ameaça de retrocesso no cuidado com a saúde de jovens trans

    Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) contraria consensos internacionais e gera polêmica e insegurança

    O Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou, no dia 16 de abril, uma resolução no Diário Oficial da União que revisa alguns critérios éticos e técnicos para o atendimento de pessoas trans. A Resolução nº 2.427/2025 tem como principal mudança a proibição do bloqueio hormonal para crianças e adolescentes com incongruência ou disforia de gênero. Além de vetar o início do tratamento com hormônios antes dos 18 anos, a resolução também restringe o acesso a procedimentos cirúrgicos de afirmação de gênero para menores de 21 anos. A medida revoga os direitos anteriormente estabelecidos e assegurados pela Resolução nº 2.265/2019, desconsiderando evidências científicas, protocolos internacionais e o sofrimento vivenciado por jovens trans no país, colocando-os em situação de vulnerabilidade.

    A Associação Nacional de Travestis e Transexuais  (Antra) e o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IbratBRAT) deram entrada a uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.806, no Supremo Tribunal Federal (STF) solicitando a suspensão imediata da Resolução nº 2.427/2025 do CFM e o restabelecimento da Resolução nº 2.265/2019, assegurando o acesso a terapias hormonais e procedimentos afirmativos respaldados por evidências científicas.  A Antra e  a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexo (ABGLT), também encaminharam ofício à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), denunciando a nova Resolução do CFM, alegando que representa um grave retrocesso nos direitos humanos e no acesso à saúde da população trans e travesti no Brasil.

    “A decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) desconsidera as diretrizes da comunidade científica e os compromissos assumidos com os direitos humanos, tanto em âmbito nacional quanto internacional. A medida representa uma afronta à dignidade de crianças e adolescentes trans e configura uma séria violação ao direito à saúde integral e livre de discriminação”, afirmou Bruna Benevides, presidenta da Antra à imprensa.

    O relator da resolução e conselheiro federal do CFM pelo Rio de Janeiro Raphael Câmara, alegou que a medida foi motivada por mais de 120 estudos que indicam aumento de casos de arrependimento pós-transição. Câmara, que é ex-secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde no governo Bolsonaro, também disse aos jornais que: “Uma hipótese é que esteja havendo um sobrediagnóstico. Mais crianças e adolescentes estão sendo diagnosticadas com disforia de gênero e, com isso, sendo levadas a tratamentos. Muitas dessas crianças poderiam, no futuro, não ser trans, mas simplesmente gays e lésbicas”.

    Segundo especialistas, essa decisão pode reforçar preconceitos, deslegitimar a existência e resistência de uma identidade trans e ferir o direito constitucional dessas pessoas. O CFM alega que sua resolução se baseia em atos  semelhantes adotados em países como Suécia e Reino Unido, que restringem o uso de bloqueadores puberais, no entanto ignora outras diretrizes internacionais especializadas. Entre essas estão as da Associação Profissional Mundial para a Saúde Transgênero (WPATH) e as da Sociedade Endócrina Internacional, que recomendam bloqueadores e hormonioterapia em adolescentes, em contextos clínicos controlados e individualizados.

    Para as instituições que representam as pessoas trans, o CFM adota uma postura retrógrada e preconceituosa, que pode promover a desinformação, induzindo a acreditar que crianças e adolescentes trans estariam realizando procedimentos cirúrgicos de afirmação de gênero, o que não ocorre. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) alerta para a circulação de desinformação a respeito de supostas cirurgias em crianças trans “à força” ou “cedo demais”, o que não tem fundamento, pois esses  procedimentos não são oferecidos a esse grupo etário.

    Antecipar cenários catastróficos para crianças trans, baseados em suposições e preconceitos, mascara o verdadeiro problema: a negação do direito de existir para além da perspectiva cisnormativa (refere-se a identidade de gênero corresponde ao sexo biológio). Crianças trans, que nem sequer têm acesso a cirurgias, frequentemente são submetidas a diagnósticos que buscam ajustá-las às expectativas familiares e sociais, em vez de reconhecer e acolher suas experiências, defende a Antra.


    As instituições também criticam o CFM por não propor alternativas para garantir a saúde mental e física de adolescentes trans que vivenciam sofrimento por disforia de gênero, se a terapia hormonal estiver vetada. “Com a publicação da resolução, as pessoas trans continuarão tendo acesso integral a serviços do SUS”, minimizou o CFM sobre esse ponto.


    Além de recorrer a diversas instâncias contra a decisão do CFM a Antra cobra do Estado brasileiro políticas públicas eficazes voltadas à população trans, com ênfase especial para a imediata implementação do Programa de Atenção Especializada à Saúde da População Trans, desenvolvido com a proposta de substituir o Processo Transexualizador por uma política mais abrangente, atualizada e alinhada a diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS). O programa foi anunciado pelo Ministério da Saúde em fevereiro, mas ainda não tem previsão para ser oficialmente implementado.

    A secretária executiva lotada na Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidade da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Viviana de Paula Corrêa, disse que  a hormonização foi crucial para garantir a diminuição de sua disforia de gênero e proporcionar um salto de qualidade de vida, o que influenciou diretamente em sua saúde mental. Iniciou o tratamento antes da recomposição do ambulatório de diversidade de gênero do Hucam, em 2016, homologado pelo Ministério da Saúde apenas em 2018.

    “A meu ver, quanto antes a pessoa trans tiver a possibilidade de acesso aos bloqueadores hormonais, (hormonização cruzada) e a hormonização em si, mais um recurso no enfrentamento de uma sociedade transfóbica ela terá. Entendo que a resolução do CFM retrocedeu gravemente ao dificultar o acesso à saúde para esta população, não apenas em relação à hormonização, mas também aos procedimentos de afirmação de gênero. Além de desrespeitar a nossa autonomia em relação aos nossos corpos”, acrescentou Viviana.

    Especialistas demonstram preocupação com os impactos da resolução do CFM na saúde mental de jovens trans. Estudos publicados pela Jama Network Open (revista da American Medical Association) em 2022, abrangendo um universo de 11.000 crianças trans de 9 a 10 anos, nos Estados Unidos, revelou índices significativamente maiores de problemas de saúde mental, como sintomas depressivos e ansiosos, em comparação com crianças cisgênero (pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao sexo que lhe foi atribuído ao nascer). Além disso, foi observada uma maior frequência de bullying no ambiente escolar e de tentativas de suicídio entre as crianças trans participantes do estudo. 

    Já o segundo estudo, publicado em 2024, realizado na China, com cerca de 12.108 adolescentes trans e de gênero diverso, do ensino secundário, concluiu que esses jovens relataram mais dificuldades de saúde mental do que seus colegas cisgêneros. Entre os principais problemas observados estavam sintomas depressivos e ansiosos, pior qualidade do sono e maior exposição ao bullying escolar.

    De acordo com especialistas, o cuidado com a infância trans não deve estar restrito à prática clínica tradicional. O foco precisa ser o sujeito, e não apenas sua classificação. A produção de documentos ou avaliações deve partir da história de vida da criança, incluindo sua relação com a escola, a família, o ambiente, os afetos e a linguagem, tudo isso sob uma perspectiva de direitos humanos.

    A proibição do uso de bloqueadores puberais e de hormonização cruzada é um ato contrário ao direito a cuidados específicos em saúde para pessoas trans. A vivência corporal distante do modo como cada um de nós se identifica pode trazer um sentimento permanente de insatisfação, que pode resultar em desfechos desfavoráveis em saúde, principalmente em aspectos da saúde mental”, afirma a pediatra Tatiane Miranda.

    Segundo ela, a nova resolução do CFM não foi elaborada com participação de entidades científicas e de movimentos sociais, resultando em uma decisão excludente.

    “A exclusão marca, também, um agir contrário aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), como a universalidade, a equidade e a participação popular. Não se trata de um conselho de categoria profissional ter ou não o poder do conhecimento científico, uma vez que o conhecimento também é de domínio público. A questão passa pelo biopoder e pelo conservadorismo crescente nas políticas, inclusive de saúde”, analisa.

    A patologização dessas vivências não se mostra eficaz para garantir cidadania e dignidade a crianças trans, muitas vezes reforça um modelo de exclusão institucional que nega a própria humanidade dessas infâncias. Sendo necessário repensar o modelo de saúde oferecido. O cuidado deve ir além de diagnósticos ou classificações e abrir espaço para práticas que respeitem a diversidade.

    Crianças trans têm o direito de exercer identidades e expressões de gênero distintas daquelas socialmente esperadas. Precisam ter voz na escolha de suas roupas, nomes e modos de ser, direitos garantidos, inclusive, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que não faz distinções entre infâncias cis e trans. Por isso, ativistas, pesquisadores e profissionais da saúde defendem uma abordagem centrada na escuta, no brincar e no respeito à autonomia das crianças. Sendo necessário a garantia de uma infância digna, segura e livre para existir.

  • Quem é o dono da orla? A disputa entre banhistas e esportistas

    Quem é o dono da orla? A disputa entre banhistas e esportistas

    A prática de esportes tem dominado as areias das praias da Grande Vitória e levanta o debate sobre o uso do espaço público.

    Praia, mar e esporte: a paisagem típica das orlas tem mudado, nos últimos anos, com a prática de esportes como beach tennis, futevôlei e voleibol, que ganhou força e se espalhou pelas praias brasileiras. O crescimento acelerado dessas modalidades resultou na proliferação de arenas esportivas ocupando grandes faixas da areia e diminuindo o espaço para banhistas. 

    Ao amanhecer e ao entardecer é possível observar na orla da capital do Espírito Santo redes no alto e atividades esportivas coletivas, seja essa prática em escolinhas ou em grupo de amigos. Mas, afinal, como se dá a  ocupação das areias das praias? Para se divertir nesses esportes é necessário cumprir algumas regras.

    Direito de jogar

    A legislação brasileira no seu art. 10, da Lei nº 7.661, de 16 de maio de 1988, classifica a faixa de areia como bem de uso comum, ou seja, é pública e deve servir ao interesse coletivo. No entanto, a instalação de estruturas fixas e logotipos de empresas depende de autorização em alguns municípios, e não é o que acontece na Grande Vitória.

    O município da Serra não proíbe nem regulamenta a prática de esportes e lazer nas faixas de areia das praias, a prefeitura afirma que conta com o bom senso da população para que praticantes de esportes e banhistas convivam em harmonia nesse espaço. Em Vila Velha, também não há um decreto específico que determine horários e locais exatos. E a Prefeitura de Vitória, através do seu site, estabelece regras gerais para o uso das praias, incluindo áreas de lazer e atividades físicas, mas não há um decreto específico que cobre todos os detalhes. 

    Já a cidade de Marataízes regulamenta desde 2023, pelo Decreto 3.320/2023, a prática de esportes e lazer nas faixas de areia das praias e a montagem das quadras e campos destinados a jogos, que somente poderão ser realizadas após expressa autorização. Essa permissão determina locais e horários para início e fim. 

    Guarapari regulamentou o uso da faixa de areia em 2021, pelo Decreto 813/2021, na qual definia horários de acordo com a alta e baixa temporada, mas está em processo uma nova regulamentação. 

     “O uso da faixa de areia para atividades esportivas deve seguir as diretrizes estabelecidas pela legislação municipal em consonância com a União, por meio da Secretaria de Patrimônio da União (SPU). Atualmente, o município está em processo de adesão ao Projeto Orla, que visa ordenar o uso dessas áreas, inclusive com diretrizes específicas para práticas esportivas”, disse Lennon Monjardim de Araújo, Secretário Municipal de Esporte e Lazer de Guarapari.

    Depois de pronto o projeto, toda instalação de estrutura (como arenas ou equipamentos fixos) e a realização de aulas na faixa de areia requererá autorização prévia da prefeitura, mediante análise técnica das secretarias de Esporte, Meio Ambiente e Fiscalização. A autorização será limitada ao tempo e ao espaço de uso, variando de acordo com o evento ou atividade.

    O interessado deverá formalizar o pedido informando localização, datas, horários e natureza da atividade. O projeto também deve prever a cobrança de taxa a depender do tipo de uso (temporário ou permanente).

    “Após o projeto aprovado, a depender do tipo de uso pode ser exigido alvará de licença de uso ou termo de permissão precária. Em casos de uso continuado, o responsável poderá ser orientado a buscar uma concessão de uso formal, com cobrança de taxa, conforme regulamentação específica e análise da Procuradoria Municipal, afirmou o secretário.

    Disputa amistosa?

    Na Grande Vitória, os principais esportes que utilizam as quadras, ditas “arenas”, que invadiram a Orla de Camburi são o beach tennis e o futevôlei, porém, segundo o professor Patrick Batista, que tem uma escola de futevôlei em Jardim Camburi e utiliza uma destas arenas, as duas práticas não trazem conflito com os banhistas:

    “Nós deixamos a rede lá no espaço para a população utilizar, e todos respeitam. Além disso, nossa escola possui a divisão entre beach tennis e futevôlei, cada um utilizando um dia”, informa o professor.

    Um dos motivos do som das batidas na bola seguir ecoando pelas praias da Grande Vitória sem grandes problemas deve-se à separação de pontos para banho, como ocorre nas praias da Ilha do Frade, Guarderia, Curva da Jurema, Ilha do Boi e para a realização dos esportes, Orla de Camburi, em sua maioria. 

    “Os espaços para essas atividades estão bem destinados na orla de Camburi, por ter uma boa extensão de areia, possibilitando essas atividades serem harmoniosas com os banhistas, não temos relatos recentes sobre conflitos!”, afirmou Roberto, coordenador-geral da Associação dos Moradores de Jardim da Penha.

    Essa separação surge devido à contaminação das águas das praias de Jardim Camburi, o que a torna imprópria para banho e reduz o número de banhistas no local. Além disso, a praia de Camburi passou por diversas obras de aterro para conter a erosão causada pelo mar, o que aumentou a largura da orla, criando espaços propícios para o esporte. 

    No entanto, nas praias de Guarapari o convívio não é tão amistoso, mas é feita uma fiscalização pela prefeitura, sendo a ocupação irregular sujeita a autuação e remoção.

    “O município já recebeu algumas manifestações pontuais de banhistas, principalmente em períodos de alta temporada, solicitando ordenamento das estruturas. Tais situações reforçam a necessidade de planejamento e zoneamento para compatibilizar o lazer, o turismo e o esporte. A fiscalização sempre foi realizada pela Secretaria Municipal de Postura e Fiscalização, hoje Semic (Secretaria Municipal de Integração da Cidade), e quando necessário, com apoio da Secretaria de Esporte e do Meio Ambiente”, contou Lennon.

    Fomento ao esporte

    Apesar de ainda estarem encaminhando regulamentação de usos das arenas, os municípios apoiam a prática desses esportes. 

    A Secretaria de Esporte e Lazer disponibiliza, dentro de sua capacidade orçamentária, apoio a eventos esportivos, por meio de empréstimo de materiais, cessão de espaços, apoio logístico e parcerias institucionais. Interessados devem formalizar suas solicitações com antecedência, apontou o secretário.

    O professor Patrick alegou não ter dificuldades de conseguir a autorização necessária para a utilização do espaço, pois acredita que a prefeitura vê o fomento ao esporte como necessário para a população. 

  • Corpo, mente e coletivo: grupos autônomos promovem atividades ao ar livre na Grande Vitória

    Corpo, mente e coletivo: grupos autônomos promovem atividades ao ar livre na Grande Vitória

    Em meio ao ritmo acelerado da vida urbana, iniciativas independentes fortalecem vínculos sociais e bem-estar físico e mental

    Nas grandes cidades, o ritmo acelerado, a rotina individualista e a falta de espaços de convivência têm contribuído para o aumento do isolamento social e problemas de saúde mental. O avanço da urbanização, a verticalização das cidades, o aumento do trânsito e das jornadas de trabalho cada vez mais extenuantes moldaram uma nova paisagem urbana: densa, veloz e, muitas vezes, solitária. Se, por um lado, os centros urbanos oferecem infraestrutura, oportunidades profissionais e acesso a serviços, por outro, tendem a afastar as pessoas do contato com a natureza e do convívio comunitário.

    Esse quadro impacta diretamente a saúde mental: estudos indicam que moradores de centros urbanos apresentam índices mais elevados de estresse, ansiedade e depressão do que aqueles que vivem em áreas rurais ou cidades menores. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 264 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, e a prevalência é maior entre aqueles que vivem em centros urbanos, associada ao aumento de transtornos mentais, especialmente ansiedade e depressão. Nesse contexto, atividades coletivas ao ar livre surgem como uma resposta, promovendo não só o bem-estar físico, mas também o fortalecimento de vínculos sociais.

    Na Região Metropolitana da Grande Vitória, a combinação entre belas paisagens naturais e a infraestrutura urbana propicia o surgimento de diversas iniciativas autônomas que incentivam atividades coletivas ao ar livre, ocupando praças, praias, trilhas e parques para promover práticas que vão além do cuidado com o corpo: são ações que estimulam a saúde mental, o pertencimento comunitário e o fortalecimento dos laços sociais.

    Essa tendência de buscar atividades coletivas ao ar livre está diretamente relacionada à necessidade humana de pertencimento e de contato com a natureza — uma dimensão muitas vezes negligenciada no ambiente urbano. Participar desses grupos ajuda a romper o ciclo de isolamento, a criar novos vínculos e a desenvolver hábitos mais saudáveis.

    Ságila Farhat é psicóloga e psicanalista graduada em Psicologia pela FMU (SP) e pós-graduada em Fundamentos da Psicanálise pelo Instituto Espe. Hoje, moradora de Vitória, realiza o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Institucional da UFES e é integrante do projeto de extensão Ocupação Psicanalítica do Espírito Santo. Ságila destaca que “a importância das atividades coletivas é possibilitar não só uma melhora significativa para o corpo, mas, sobretudo, por contribuírem para a própria socialização do indivíduo. Para o campo da psicologia, saúde mental não se restringe à saúde física, mas se caracteriza por um conjunto de fatores que incluem aspectos de ordem psicológica e emocional”. Ela ressalta ainda que, para a psicanálise, o eu não se constitui sozinho, mas através do laço com o outro: “as relações coletivas são centrais para a constituição da identidade e para a regulação do mal-estar psíquico. Realizar atividades coletivas contribui, consideravelmente, para a possibilidade de construção de vínculos e acolhimento”.

    Segundo artigos publicados pela Associação Americana de Psicologia (APA), como “Working out boosts brain health”, “Nurtured by nature” e “The risks of social isolation” afirmam que a prática de exercícios em grupo e o contato com a natureza reduzem os níveis de cortisol (hormônio do estresse) e aumentam a produção de endorfina e serotonina, neurotransmissores ligados ao prazer e ao equilíbrio emocional. Além disso, a sensação de pertencimento gerada por essas interações ajuda a combater a solidão, um problema crescente em sociedades urbanizadas.

    Nesse sentido, Ságila complementa: “Atividades ao ar livre contribuem como uma maneira de possibilitar momentos de pausas, rompendo com a lógica acelerada e abstrata da vida urbana e digital. Estar em ambientes ao ar livre pode contribuir para desacelerar o indivíduo de suas multitarefas, possibilitando um olhar mais contemplativo naquilo que é externo, na alteridade, a partir do investimento libidinal em outros objetos”.

    Além dos benefícios individuais, esses grupos cumprem um papel importante na ocupação positiva dos espaços públicos. A informalidade das atividades também é um diferencial. Sem custos ou inscrições burocráticas, elas se tornam acessíveis a todos, reforçando a ideia de que saúde e bem-estar não devem ser privilégios.

    As grandes cidades podem, paradoxalmente, favorecer tanto o encontro quanto a alienação. “Cidades altamente urbanizadas e densamente povoadas podem acentuar o isolamento. A urbanização intensifica exigências e renúncias, muitas vezes dificultando os vínculos humanos em favor de uma lógica produtivista, competitiva e individualizante”, afirma Ságila Farhat.

    Em relação à realidade local, ela pondera: Vitória, embora não se enquadre em um território equivalente a São Paulo ou Rio de Janeiro, também compartilha características urbanas como desigualdade socioespacial, fragmentação de territórios e falta de espaços públicos integradores. Dependendo do bairro, classe social e modo de vida, a cidade pode, sim, gerar riscos de isolamento subjetivo, sobretudo se não houver espaços comunitários, culturais e naturais que favoreçam o encontro e o pertencimento”.

    Ela ainda lembra que essas dificuldades são agravadas pela mobilidade urbana precária, que limita o acesso a espaços de socialização e lazer.

    Marcus Vinícius Gonçalves, morador de Viana que já participou de algumas dessas atividades, compartilha sua experiência:

    “Eu fui convidado por meu primo, mas depois que vi as imagens no Instagram, como parecia legal e ter contato com a natureza me emociona, eu decidi participar. Estar conectado com a natureza para mim é muito importante, gosto dos visuais, respirar ar puro, estar conectado a isso é muito importante. Agora, quanto ao físico, acho que o corpo agradece por sair da rotina urbana do cotidiano e se aventurar em algo diferente.”

    Ao ser perguntado se indicaria essas atividades para outras pessoas, Marcus conclui: “Sim, e também quero fazer novamente. É sempre bom sair da rotina e ter o contato com pessoas diferentes e natureza.”

    Esses grupos revelam uma tendência que vai além da busca por condicionamento físico: expressam uma vontade coletiva de ressignificar a relação com a cidade e com o outro. São formas de resistência à lógica individualista que predomina nos grandes centros urbanos.

    Ságila Farhat reforça a importância do pertencimento social nesse processo: “O pertencimento é uma condição básica para a constituição do eu. Desde a infância, o sujeito busca um lugar de reconhecimento no desejo do outro. Sem um lugar no laço social, o sujeito corre o risco de permanecer no campo da angústia, ou até de sucumbir à vivência de não-existência simbólica”. Para ela, pertencer é ser reconhecido como sujeito no discurso do outro, condição fundamental para a estabilidade emocional: “O pertencimento sustenta a inscrição do sujeito na cultura, favorecendo sua estabilidade emocional e sua capacidade de investir afetivamente no mundo”.

    A emergência desses grupos autônomos na Grande Vitória reflete uma importante transformação social: o resgate do protagonismo popular na construção de uma cidade mais humana, acolhedora e saudável. São iniciativas que demonstram como, a partir de gestos simples — como caminhar juntos, meditar ou praticar esportes em grupo —, é possível fortalecer a saúde física e emocional, criar redes de apoio e transformar a experiência urbana.

    Oferece aulas gratuitas de Yoga todos os sábados no quintal do J3 Mangalô, Curva da Jurema, às 7h15min da manhã e também tem o “Amanhecer” uma vez ao mês, às 4h30min. Só chegar com a canga ou seu tapete de yoga!

    “A intenção do projeto é dar uma movimentada nessa região da praia pela manhã. Quando começou, em 2022 estava saindo daquele contexto de Lockdown da pandemia, as coisas estavam começando a entrar em uma certa entre aspas “normalidade,e aí surgiu um pouco dessa necessidade de buscar qualidade de vida, saúde, estar mais em espaços abertos, começar a socializar de novo, sair do virtual, que foi o que dominou a vida de todo mundo na pandemia”.  [Administrador do projeto]

    O grupo se reúne todas as segundas, quartas e sextas-feiras para nadar recreativamente!

    O horário é às 5h30 da manhã e entram na água às 6h00 da manhã. Normalmente nas sextas-feiras fazem um café da manhã compartilhado. O local de encontro é próximo à praça do ciclistas em Vila Velha, na Praia de Itaparica, em frente ao condomínio e às ilhas gregas. 

    “Éramos apenas quatro amigos que buscavam um pouco mais de qualidade de vida. Acordávamos 5h00 da manhã e íamos para o final da praia de itapuã para nadar até a ilha Pituã para ver o nascer do sol. Aos poucos fomos convidando mais amigos que também perceberam que precisavam de um pouco mais de contato com a natureza” [Co-fundador do projeto]

    É um projeto gratuito do centro de educação física em parceria com a federação de tiro com arco que oferece aulas gratuitas de tiro com arco para a comunidade interna e externa da Ufes toda segunda a quinta a partir das 15:30. As turmas são divididas em uma hora de duração e fornece todo material para a prática. Atende a iniciação quanto aos atletas que treinam para competição!

    Encontro que acontece todos os sábados no Morro do Moreno, Vila Velha, com quatro anos de tradição. Os participantes se encontram por volta das 5h da manhã no pé do morro para um café compartilhado, seguido de uma subida ao topo para assistir ao nascer do sol, orar e contemplar a paisagem. A iniciativa, idealizada pelos irmãos Thiago e Jayme, nasceu da busca por saúde física e espiritual.

    “É um momento de gratidão, para começar o fim de semana com energia boa”, dizem os organizadores.

    Empresa criada por estudantes de Educação Física durante a faculdade, há sete anos, hoje consolidada no mercado de trilhas e passeios pagas. Oferece caminhadas ao ar livre em montanhas e cachoeiras, acreditando que as atividades são terapêuticas, tanto física quanto mentalmente, promovendo a socialização e o contato com a natureza. As atividades atendem de crianças a idosos, com trilhas classificadas por grau de dificuldade no “Trilhômetro”. Informações e inscrições pelas redes sociais e site.
    “Criamos a empresa na faculdade, éramos estudantes de Educação Física e tivemos que apresentar um projeto de atividade física em meio natural. Fizemos a primeira trilha no Mestre Álvaro e tivemos R$ 80 de renda. Demos continuidade e hoje somos sócios proprietários.” [Wanderley (Papada), sócio da empresa.]

    O Alma Viva promove a prática da Canoagem Polinésia, atividade paga que une esporte, cultura e conexão com a natureza. As remadas são realizadas em grupo, em embarcações típicas conhecidas como va’a, que exigem sincronia e cooperação entre os participantes. Além do aspecto esportivo, o projeto busca proporcionar bem-estar, saúde física e mental, além de criar uma comunidade integrada com o mar e a cultura ancestral da canoagem.

    As atividades acontecem em Vitória, e qualquer pessoa pode participar, independentemente do nível de experiência. Mais informações e inscrições: www.almavivavaa.com.br e pelo Instagram: @almaviva.vaa.

  • A revolução dos  modelos de gestão no futebol capixaba

    A revolução dos  modelos de gestão no futebol capixaba

    O futuro é inevitável, as formas de se manter competitivo mudam, ainda mais fora dos grandes centros esportivos. No atual cenário, a moda do momento, no universo dos investimentos, é a Sociedade Anônima do Futebol (SAF), um modelo de gestão que permite a transformação de clubes de futebol em empresas. Neste formato, é possível que vários acionistas se juntem para aumentar os investimentos nas equipes.

    No Brasil, a criação da SAF ganhou força após a Lei nº 14.193, de 2021, que instituiu o regime jurídico para o futebol empresarial, facilitando o acesso a créditos e investimentos para os clubes que aderirem ao modelo. Para o futebol capixaba, que historicamente sofre com limitações financeiras e pouca visibilidade nacional, a SAF representa uma nova esperança. 

    Maior campeão do Espírito Santo, com 39 títulos estaduais, o Rio Branco Atlético Clube adotou o modelo SAF em 2023, quando vendeu 90% da sua SAF para a T2R Sports, grupo de investidores capixabas. O contrato estabeleceu um investimento mínimo de R$ 50 milhões a serem aplicados ao longo de 10 anos. A T2R é liderada por Renato Antunes de Souza Júnior,  CEO do clube, e Rodrigo Simões Miranda. 

    O modelo SAF é uma oportunidade única para o futebol capixaba evoluir. Não se trata apenas de captar recursos, mas de estruturar o clube para ser competitivo e sustentável”, explica Luiz Henrique Martins Ribeiro, advogado especialista em negócios esportivos e um dos consultores do projeto.

    Ele ainda faz o alerta de que a transformação em SAF deve ser conduzida com cautela e profissionalismo, pois somente assim a operação poderá ser segura e vantajosa para o clube e seus torcedores.

    Desde a transformação, o Rio Branco já colhe frutos significativos. Com o investimento de R$ 2 milhões elevou sua receita em 700% e multiplicou em 20 vezes a folha salarial do futebol. Esses recursos permitiram melhorar a estrutura do elenco e a contratação de jogadores de destaque. O clube conquistou os Campeonatos Capixabas de 2024 e 2025, reafirmando sua condição de potência estadual.

    A torcida acompanha esse crescimento com entusiasmo. A média de público no estádio Kleber Andrade aumentou 934% — saindo de um público médio de 473 pagantes por jogo, para uma média de 1.624 pagantes por partida — e revelando um resgate da paixão e confiança no clube. As vendas de camisas também dispararam, com expectativa de superar 10 mil unidades em 2025.

    Renato Antunes, enfatizou a importância do projeto para o futebol capixaba, trazendo de volta o sentimento de pertencimento aos times do estado. 

    As pessoas se identificam com projetos sérios. E o Rio Branco se transformou em uma SAF com gestão profissional. O futebol tem um grande poder de causar impacto na economia de um estado, além de fazer o seu povo criar conexões com sua identidade. As empresas e os torcedores já entenderam isso. Temos o objetivo de transformar o futebol capixaba através do Rio Branco, e a economia do Espírito Santo através do futebol. O capixaba sempre gostou de futebol, o que não existia antes era um bom produto. É o que estamos construindo”, comentou.

    A transição para o modelo de clube-empresa vem acompanhada de uma reestruturação administrativa e de investimentos em categorias de base, infraestrutura e contratações. A intenção da gestão é tornar o Rio Branco não apenas vitorioso, mas também financeiramente sustentável, abrindo caminho para a volta ao protagonismo no cenário nacional.

    Um dos compromissos da SAF Capa-Preta é a construção de um Centro de Treinamento. Até o momento, o clube conversa com prefeituras da Grande Vitória e avalia os melhores terrenos para a construção. A expectativa é que no próximo ano o tema ganhe força nos bastidores do clube, que planeja entregar as obras em torno de cinco anos.

    Na fase zero em 2024, quando assumimos o clube, o objetivo era ter estrutura mínima para que a gente conseguisse performar nesse meio tempo. Então, trouxemos a estrutura básica. Nesses quatro ou cinco anos, até a gente conseguir entregar esse projeto, precisamos ter uma estrutura condizente com os nossos projetos esportivos”, completou Antunes. 

    Enquanto isso, a gestão capa-preta realiza melhorias no atual local de trabalho diário do clube. No Bairro de Fátima, na Serra, o clube da Associação Recreativa e Esportiva Tubarão (AERT) recebe treinamentos do profissional e Sub-20 do Rio Branco-ES. O projeto da diretoria é que a evolução do atual CT seja feita em fases. Dessa forma, com o gramado revitalizado, também foram realizadas mudanças na estrutura geral dos equipamentos utilizados pelo clube.

    O sucesso esportivo e o crescimento financeiro possibilitaram ao Rio Branco firmar parcerias de peso. Ao fim da temporada 2024, a diretoria capa-preta avançou em negociações importantes, que levaram o nome do clube para o território nacional. Foi assim com Bruno Silva (ex-Botafogo), Fernando Henrique (ex-Fluminense), no acerto com Kappa (nova fornecedora de materiais) e Zé Delivery (patrocinadora).

    Tudo isso acontece porque a gente teve sucesso esportivo no primeiro ano. É isso que atrai grandes parceiros, que antes não olhavam para o futebol capixaba”, opina o CEO.

    Em 2025, o Capa-Preta fechou um acordo com o hub de casas de apostas Blackbox até o fim de 2026. A partir de agora, a empresa vai estampar sua marca no espaço mais nobre do uniforme capa-preta, além de estar presente em ações antes dos jogos com o clube e sua torcida, promoções de eventos e divulgação. O investimento pode chegar a R$ 4 milhões, sendo o maior valor de patrocínio já aplicado em um time de futebol do Espírito Santo.

    Outra novidade é o modelo de negócio para a exibição do patrocinador. Com a parceria, o Rio Branco vai exibir marcas de forma rotativa em seu espaço master. Desta forma, além da própria Blackbox, outras empresas farão parte do negócio, e de maneira periódica vão se revezar no patrocínio da camisa.

    Este modelo é inédito no futebol brasileiro e vai permitir que as empresas aumentem sua visibilidade e potencial de alcance, além de tornar a camisa capa-preta ainda mais valorizada”, concluiu o CEO do Rio Branco SAF.

    Apesar do Rio Branco ser o único clube capixaba com a SAF assinada e oficializada, a Desportiva Ferroviária vive há pouco mais de um ano a expectativa de também se tornar uma Sociedade Anônima do Futebol. Em abril de 2024, o modelo de gestão já havia sido aprovado em Assembleia Geral Extraordinária, após a proposta vinculante de R$ 116 milhões, por 90% das ações, ter recebido a assinatura necessária.

    Após votação que aprovou a mudança no estatuto da Desportiva Ferroviária, clube associativo e investidores não se alinharam corretamente nos detalhes finais. Houve erro na entrega da documentação decisiva. Dessa forma, o prazo de 120 dias para a finalização do processo de Constituição da SAF foi superado, o que pede um reinício da diligência. Em contato diário com associação e equipe jurídica do clube, a SAF deve ser constituída até o mês de julho.

  • Os lobos que giram a porta

    Os lobos que giram a porta

     Luxo desmedido, censura e  manipulação do jogo político‑judicial compõem a tríade que mantém o poder no campo, mesmo fora dele.

    O Tribunal de Justiça do Rio destituiu Ednaldo por possível falsificação da assinatura do ex‑presidente Coronel Nunes, declarando “ilegítima” toda a diretoria. (Foto: Reprodução/CBF)

    Na tarde de 4 de abril de 2025, Allan de Abreu assinava na Revista Piauí a reportagem que expunha os bastidores da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Cartões corporativos generosos, hoteis de luxo, grandes salários aos presidentes das federações e muito mais. Quatro dias depois, seis jornalistas da Entertainment and Sports Programming Network (ESPN) a colocaram em foco no programa “Linha de Passe”. Mas isto durou pouco. No dia seguinte, os jornalistas foram afastados da emissora. Nenhuma explicação convincente. Nos corredores da imprensa esportiva, a mensagem era clara: cutucou a CBF, leva vermelho.

    A pressão da gestão Ednaldo sobre a emissora gerou críticas negativas, como o narrador Galvão Bueno, que pediu ao Ministério Público para que investigasse a CBF “em nome do futebol brasileiro”. Houveram declarações mesmo na ala conservadora, como o deputado federal Nikolas Ferreira. “Se for verdade que a CBF pediu providências à ESPN sobre fala de jornalistas, o nome disso é um só: censura”, declarou o deputado em suas redes sociais. 

    Mesmo sob críticas e condenações na justiça, a gestão seguia intacta. Não era a primeira vez que a confederação mostrava seu talento em virar o jogo. Por trás de contratações de gerar euforia, títulos de impacto ou dos feitos inéditos, vigoram os esquemas que não alcançam o grande público e onde até mesmo um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) se envolveu de forma negativa.

    Pela porta da frente

    Ao detalhar gastos de U$500,00 por dia com cartões corporativos, voos em primeira classe para parentes e hospedagens de nove meses no Grand Hyatt – um hotel cinco estrelas na Barra da Tijuca – pagas pela entidade, a reportagem da Piauí escancarou um ponto‑cegueira nacional: a CBF opera como uma corte absolutista, bancando mordomias com dinheiro que deveria irrigar a base do futebol brasileiro. 

    A mesma matéria revela que presidentes de federações estaduais, em vez de fiscalizar, foram premiados com reajustes que elevaram seus salários mensais de R$ 50 mil para R$ 215 mil. No fim, este não foi o interesse do público, mas na alteração de uma regra. Um dia após a medida que afastou os seis jornalistas da ESPN, a CBF regulamentou que todo jogador que fizesse o ato de parar sobre a bola – comum para as ditas “firulas” – estaria passível de punição. Vozes relevantes do futebol brasileiro como Neymar, Memphis e Felipe Melo, demonstraram indignação com a medida. 

    A porta girou. Em poucas horas, o debate sobre corrupção e mordomias deu lugar a discussões sobre a nova “regra bizarra”, consolidando mais uma cortina de fumaça.

    Ednaldo Rodrigues assumiu a presidência da CBF em 2021 e foi destituído do cargo em dezembro de 2023 por decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro No processo movido por um grupo de cartolas, estava coronel Nunes, ex-presidente da confederação, que apontava ilegalidades na sua eleição. 

    Quando isso ocorreu, o ministro Gilmar Mendes, do STF, entrou em campo e assistiu Ednaldo, impondo uma liminar que devolvia o cargo ao dirigente. Breve veio à tona um contrato milionário de 84% da receita da CBF Academy, entre a CBF e o  Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), do qual Gilmar é sócio. 

    O cenário então veio a se repetir em 15 de maio de 2025, quando o mesmo Tribunal destituiu Ednaldo por possível falsificação da assinatura de Coronel Nunes, declarando “ilegítima” toda a diretoria e nomeando Fernando Sarney, filho do ex-presidente da República José Sarney. 

    Quatro dias depois, Ednaldo retirou o recurso que ainda poderia devolvê-lo ao cargo com o objetivo de “pacificar o futebol brasileiro”. Fernando Sarney, que passou a compor a CBF em 1998 como diretor de relações governamentais, já foi alvo da Polícia Federal, sendo indiciado por formação de quadrilha, gestão de instituição financeira irregular, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Tudo isto nos leva à conclusão: a CBF segue sendo liderada por cartolas controversos.

    Um Jogo Sem VAR

    Apesar de tudo, a CBF permanece intacta porque opera sob regras próprias. É uma das associações sem fins lucrativos mais lucrativas do país, com um registro de caixa de R$2,43 bilhões em dezembro de 2024. Por sua natureza jurídica, não deve satisfações ao Tribunal de Contas da União. Não está sob vigilância do Ministério Público, que somente age quando há alguma denúncia concreta. Seus dirigentes são eleitos majoritariamente por presidentes de federação — que vivem da mesada da própria entidade. Os clubes, que geram receita, têm pouco peso nas decisões.

    Quando seus escândalos vêm à tona, a entidade distrai a torcida com regras esdrúxulas, silencia a imprensa com telefonemas e redesenha a partida com a ajuda de juízes fora do gramado. A trama não é recente, pelo contrário. Há denúncias registradas ainda na década de 90. Desde a época de Ricardo Teixeira, ex-presidente da confederação, a CBF está envolvida em corrupção, lavagem de dinheiro, negociação de propina e uma série de outros atos. 

    O problema da CBF não é apenas de gestão, mas sobretudo de impunidade, que é potencializada por esquemas e parcerias. Há sempre um lobo espreitando na sombra e, quando necessário, a porta gira mais uma vez.

  • Bicicletas elétricas, uma nova modalidade: os vácuos na regulamentação e fiscalização

    Bicicletas elétricas, uma nova modalidade: os vácuos na regulamentação e fiscalização

    Podemos listar vários motivos que fizeram o novo modal ‘bombar’: a comodidade, o conforto, a economia, a facilidade de locomoção, entre outros. Os jovens podem ter adotado a bicicleta elétrica pela capacidade de velocidade, mais rápido que uma bicicleta normal, mais confortável que um patinete elétrico, e com certeza demanda menos esforço físico para conduzir. Apesar de possuir qualidades atrativas, especialistas ouvidos nesta reportagem apontam que a falta de uma fiscalização eficiente e uma regulamentação assistida pode transformá-las em um pesadelo.

    “O pessoal anda numa velocidade acima do que geralmente é permitido”, disse outra moradora do bairro Jardim da Penha que também preferiu não ser identificada.

    “Sou ciclista há mais de 45 anos, gosto de bicicleta, gosto de pedalar. E observo sim que existe uma falta de atenção ou de preparo dos condutores das bicicletas elétricas porque eles não têm um entendimento, o que eu já observei, das regras de trânsito”, afirmou Luciano de Oliveira, morador de Vitória.

    Em 2023, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) instituiu uma regulamentação que determina regras de velocidade, equipamentos obrigatórios e as dimensões que as bicicletas elétricas devem possuir. Veja um quadro ilustrativo de algumas normas da Resolução 996/2023:

    O Contran também explica que a circulação de bicicletas elétricas em ciclovias, ciclofaixas e demais calçadas compartilhadas devem respeitar o limite de velocidade imposto pelo órgão regulador da via, não podendo ultrapassar 45 km/h. Sem especificações para o processo de fiscalização desses veículos, o órgão atribui a competência para a esfera municipal, que tem a permissão para impor novas normas e sistemas de controle desde que respeitem as regras já estabelecidas.

    Uma observação está clara para os cidadãos de Vitória entrevistados nesta reportagem: não há fiscalização. E a regulamentação do Contran? Pelo visto, não se aplica aqui. 

    O Gerente de Fiscalização de Trânsito do Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran/ES), Jederson Lobato, explicou que essa nova modalidade ainda é muito recente e é um desafio para os órgãos fiscalizadores. Em entrevista para o Primeira Mão, Lobato comentou alguns meios que podem compor um projeto de fiscalização para esses veículos. 

    “Na prática, como o critério ali é velocidade, o que faz mais sentido é que seja utilizado um radar móvel, por exemplo, para fiscalizar esses veículos. Mas isso ainda não está previsto na legislação, então hoje a gente não tem mecanismo para aferir esse critério específico que é o principal da norma, a velocidade desse veículo”, declarou.

    De um lado estão os pedestres e ciclistas que temem compartilhar espaço com os condutores das bikes, e por outro lado, estão os próprios usuários do veículo que denunciam a precariedade na infraestrutura urbana em acolher, de forma segura, os modais que circulam na cidade.

    “As ciclovias são poucas e muitas estão bem ruins, com buracos, acesso difícil… Aí, como a bike chega a uns 32 km/h, nem sempre dá pra andar junto com ciclistas ou pedestres. Acabo usando a pista, principalmente dentro do bairro, mas aí tem outro problema: motorista que não respeita, fecha a gente”, comentou. 

    O relato é do Luis Fernando Vinco, estudante de 21 anos, morador de Jardim da Penha, que utiliza o meio elétrico para ir para a faculdade, ir para o trabalho e outros locais rotineiros. Ele conta que escolheu a bicicleta elétrica pela autonomia e economia, mas aponta desafios em ciclovias na cidade.

    A reportagem procurou à Secretaria de Transportes, Trânsito e Infraestrutura Urbana de Vitória (Setran) sobre a existência de um planejamento urbano que inclua pessoas e os demais veículos com segurança. A assessoria do órgão respondeu, por meio do WhatsApp, que “haverá planejamento para adaptar infraestrutura urbana para a nova modalidade, porém, será fundamental que os usuários do modais respeitem as regras estabelecidas para evitar acidentes.”

    Apesar da afirmação positiva, a Setran informou que não há maiores detalhes sobre o planejamento, e este será tratado futuramente, e por outra secretaria, a Secretaria de Desenvolvimento da Cidade (Sedec). 

    Ao perguntarmos sobre a possibilidade de uma nova regulamentação para as bikes no município, a Setran respondeu por nota.

    Os desafios se tornam maiores quando não encontramos dados que constatem os problemas enfrentados. “Sempre que a gente olha para os observatórios, para as estatísticas disponíveis, a bicicleta elétrica acaba sendo um número comum com a bicicleta normal. Então está tudo junto ali, não tem segmentado o que é elétrica e o que é propulsão humana”, explica Lobato.

    Aprovado na Câmara Municipal de Vitória, o Projeto de Lei “Bike Legal” visa promover a circulação segura de bicicletas elétricas no município capixaba. De forma mais específica, a regulamentação prevê limites de velocidade de acordo com o tipo de via:

    • 6 km/h em áreas de circulação de pedestres;
    • 25 km/h em vias onde não houver ciclovia ou ciclofaixa e locais de maior circulação, devidamente sinalizados pela Prefeitura;
    • 32 km/h nos demais locais.

    O PL, que aguarda a sanção do Prefeito, também propõe que as bicicletas deverão possuir campainha, iluminação dianteira e traseira, e sinalização refletiva. Além disso, o projeto oferece a possibilidade de cadastramento dos veículos.

    O Cadastramento Municipal de Bicicletas Elétricas visa facilitar a identificação em casos de furto ou roubo; permitir a responsabilização em caso de infrações de trânsito; e principalmente, gerar dados para o planejamento urbano e de mobilidade, cobrindo o leque estatístico comentado anteriormente.

    O programa ainda indica pagamento de taxas para a realização do cadastro. Segundo o documento do projeto, a Prefeitura de Vitória poderá oferecer o cadastro, porém fica a cargo do Poder Executivo exigir ou não o pagamento de taxas para a realização do cadastro.

    Embora a nova regulamentação complemente algumas lacunas, ela não soluciona os vácuos já apontados na reportagem. A implementação de uma fiscalização eficiente e a adaptação da infraestrutura urbana para o modal não foram previstas, e assim Bike Legal se aproxima do Contran na escassez de medidas suficientes.

    Mesmo que não haja comprovação estatística, podemos afirmar, diante das experiências diárias dos entrevistados desta reportagem, que os jovens e crianças constituem o grupo majoritário dos condutores das bicicletas elétricas. Com certeza, pelo menos uma vez ao dia, um cidadão capixaba tentou não ‘topar’ com um adolescente dirigindo fora das ciclovias, enquanto realizava seu trajeto normalmente.

    O terceiro vácuo se encontra exatamente nessas situações de descuido e desatenção: a falta de restrição de idade para a condução das bicicletas elétricas. O cenário de perigo já está posto, crianças de todas as idades já circulam com as bikes pela cidade, claro que a ausência de dados falha nesses apontamentos, mas os cidadãos de Vitória confirmam a presença deles todos os dias. 

    “Na minha rua, às vezes, que é mais deserta, tem muito adolescente indo para a aula cedo e aí eles vão numa velocidade considerável, um pouquinho menos que uma moto. E isso é tipo sete horas da manhã”. Embora ache perigoso, a estudante Ana Clara Schulz, moradora de Jardim da Penha, conta que o movimento das bikes na rua onde mora não a afeta muito, pois os condutores não costumam passar pelas calçadas.

    Durante a conversa com o Jederson Lobato, questionamos a necessidade de estabelecer uma idade mínima para as bicicletas elétricas, e a resposta foi tão clara quanto autoexplicativa.

    “Quando você está falando de um veículo que pode alcançar 30, 40, eventualmente 50, destravado ali, quilômetros por hora, eu acho que sim, é muito perigoso você não estabelecer um limite de idade para o condutor desse veículo, principalmente quando você fala de via pública. Ou talvez em uma faixa intermediária, mas quando você libera isso para qualquer idade, eu acho que é um risco muito grande para a segurança no trânsito”, ponderou.

    Carência de políticas e ações de fiscalização, infraestrutura urbana inadequada e condução sem restrição de idade são buracos profundos que acometem a segurança da mobilidade urbana em Vitória. Para que esses vácuos sejam preenchidos e resolvidos, primeiro é preciso encará-los como problemas a serem solucionados.

    A regulamentação federal não permite a implementação de normas que a modifiquem, portanto, estabelecer uma idade mínima para as bicicletas elétricas é uma decisão que não compete ao poder legislativo municipal. Dessa forma, a responsabilidade é devolvida ao Contran, que deve esperar provas (dados sobre acidentes) até que o assunto seja pautado.

    O cimento necessário para tapar os três principais buracos — antes que se tornem crateras — é a união entre as duas esferas: a federal e a municipal. É preciso que haja regras mais rigorosas e mais específicas, e talvez, maior autonomia às cidades para implementar medidas e normas conforme a necessidade e as características do território local.

  • Direitos autorais na era da IA: Sistemas generativos desafiam noções de autoria e originalidade

    Direitos autorais na era da IA: Sistemas generativos desafiam noções de autoria e originalidade

    Com IA generativa redefinindo criação artística, o debate sobre autoria, originalidade e direitos autorais ganha urgência, exigindo novas leis e éticas para proteger artistas e criadores.

    A inteligência artificial generativa, tecnologia capaz de criar textos, imagens, músicas e outros conteúdos a partir de vastos bancos de dados, está transformando gradualmente a produção artística e intelectual. “Esses sistemas não copiam conteúdos diretamente, mas aprendem as estruturas e estilos para depois gerar novas composições que sejam coerentes e criativas”, explica Howard Roatti, especialista em inteligência artificial e professor do Centro Universitário FAESA.

    Contudo, esse avanço tecnológico levanta complexas questões éticas e legais sobre direitos autorais e proteção aos criadores originais cujas obras servem de base para esses desenvolvedores.

    A criação de conteúdo por inteligência artificial, mesmo ao replicar o estilo de um artista, não constitui automaticamente uma infração legal. No entanto, esse tipo de uso levanta sérias questões éticas, principalmente quando há uma apropriação não autorizada da identidade criativa de alguém. “Há indícios de que alguns modelos generativos foram treinados com dados provenientes de fontes ilegais ou de repositórios privados, incluindo materiais protegidos por direitos autorais”, explica Marcos Alécio Spalenza, Cientista de Dados e doutor em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

    O rápido desenvolvimento dessas tecnologias tem aberto debates sobre os limites do uso de obras protegidas no treinamento de algoritmos. A Lei de Direitos Autorais (9.610/98), ainda não estabelece regras para esse tipo de uso, o que provoca insegurança jurídica em diversas áreas criativas.

    Essa lacuna preocupa músicos como o cantor e compositor capixaba, Gabriel Dias: “A IA apenas replica materiais de artistas,  em sua maioria de forma antiética. Ela não tem a capacidade, que para mim é unicamente humana, de criar a partir de experiências de vida”.

    Além da música, áreas como o design gráfico, a literatura e até o jornalismo têm sido impactadas por sistemas generativos. Ferramentas de IA já são capazes de escrever notícias, ilustrar livros e produzir campanhas publicitárias, o que altera significativamente a cadeia de produção criativa e desafia modelos tradicionais.

    Os algoritmos de ‘machine learning’ foram criados para extrair e replicar padrões a partir dos dados fornecidos durante seu treinamento. “A expectativa é que esses modelos aprendam uma representação generalizada do conhecimento, mas quando o treinamento envolve dados protegidos por direitos autorais, principalmente sem consentimento ou licenciamento, podemos sim estar diante de situações equivalentes ao plágio”, afirma Spalenza.

    O caso do Stable Diffusion, ferramenta de geração de imagens por IA, processada nos Estados Unidos por usar imagens protegidas sem autorização, ilustra a dimensão global do problema. No centro do debate estão três questões, como aponta Roatti: “Precisamos definir autoria em obras geradas por IA, regular o uso de conteúdos protegidos para treinamento e estabelecer limites para obras similares”.

    Em resposta a esses desafios, o Especialista em Inteligência Artificial ressalta, “O Brasil tem dado passos importantes, mas o debate ainda está em construção. Um exemplo é o Projeto de Lei 2.338/2023, que propõe um marco legal para a inteligência artificial no país. Essa proposta busca garantir o uso ético, seguro e transparente da IA, considerando os riscos e impactos sociais dessas tecnologias”.

    Quando uma IA gera uma obra quase idêntica à de um artista humano, a responsabilidade não é simples. “A atribuição de responsabilidade deve considerar o papel de cada agente humano envolvido”, diz Spalenza. “Os desenvolvedores são responsáveis pela concepção segura e ética do modelo, enquanto os usuários são responsáveis pela forma como utilizam essas ferramentas”.

    Casos envolvendo artistas brasileiros ainda são pouco documentados, mas dubladores já relataram prejuízos. “O ator Wendel Bezerra, conhecido por dar voz ao personagem Goku, chegou a registrar queixa policial após descobrir o uso não autorizado de sua voz por IA”, destaca o Cientista de Dados.

    Spalenza defende uma visão equilibrada sobre o papel da IA na criação artística. “Embora a arte gerada por IA possa despertar interesse e curiosidade, ela ainda apresenta limitações técnicas importantes. Na maioria dos casos, são tentativas de reproduzir estilos e padrões artísticos sem captar as nuances, emoções e contextos humanos que dão significado à arte”, explica.

  • Cultura capixaba nas redes: A geração que está reinventando o orgulho de ser do ES 

    Cultura capixaba nas redes: A geração que está reinventando o orgulho de ser do ES 

    De humor a política, influenciadores capixabas usam as redes para desconstruir estereótipos e fortalecer a identidade cultural do ES, transformando likes em orgulho local.

    O cenário das redes sociais no Espírito Santo ganha cada vez mais destaque com o surgimento de influenciadores digitais que transformam likes, comentários e compartilhamento em verdadeiros movimentos culturais. 

    De moda a política, passando por humor e gastronomia, os criadores de conteúdo não apenas conquistam milhares de seguidores, mas também reforçam a identidade capixaba no ambiente virtual, tornando-se peças-chave na formação de opinião e no comportamento de consumo de uma geração conectada.

    Matheus Simão, criador do perfil @oquefazervitoria, reforça essa tendência: “Os principais temas que abordo são gastronomia, turismo (hospedagens e experiências), lazer e entretenimento, sempre com foco no Espírito Santo. Escolhi esses temas porque acredito no potencial turístico e cultural do estado, que muitas vezes é subestimado ou pouco divulgado. Meu propósito é mostrar que o Espírito Santo oferece experiências incríveis, comparáveis às de qualquer outro destino turístico do Brasil.”

    Por muito tempo, o Espírito Santo enfrentou o desafio da invisibilidade cultural frente aos vizinhos com maior projeção na mídia. Essa ausência de representação na grande mídia nacional alimentou o mito da “falta de identidade capixaba”. Agora, com a força das redes sociais, criadores locais estão virando esse jogo, mostrando que o estado tem, sim, muito a dizer.

    Essa lacuna foi também o ponto de partida para o influenciador Matheus criar seu perfil. “A ideia surgiu de maneira muito orgânica, a partir da minha paixão por explorar viagens e compartilhar com amigos as descobertas de novos lugares para comer, se divertir e viver experiências únicas. Com o tempo, percebi que muitas pessoas tinham as mesmas dúvidas: “O que fazer em Vitória?”. Daí veio o nome e o conceito do perfil.”

    Luanna Esteves (@estevesluanna), jornalista, apresentadora do TVE Espírito Santo e influenciadora, encontrou seu espaço ao questionar justamente a suposta “falta de cultura” capixaba. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), iniciou sua carreira na televisão, atuando em programas de entretenimento. Foi nesse contexto que começou a levar parte dos conteúdos produzidos para o Instagram, onde encontrou um espaço para desenvolver reflexões sobre identidade e pertencimento.

    Foto: Alana Paganucci

    “Um dos meus conteúdos já produzidos acabou tendo como base uma provocação: será que não temos cultura ou será que não a conhecemos?”, relembra. Baiana de origem, ela traz um olhar singular: “Geralmente quem está na ilha não vê a ilha. Meu papel é fazer pontes entre as diversas expressões culturais do estado”

    No universo de novos criadores de conteúdo que surgem no estado, Anna Karoline Justiniano @conhecameuestado, é uma influenciadora que também compartilha da missão de valorizar e ressignificar a identidade capixaba. Sua motivação vem de uma experiência cotidiana: “Sempre que ia para São Paulo as pessoas não sabiam onde ficava o Espírito Santo, e isso fez com que surgisse a necessidade de começar a produzir conteúdo, porque queria que as pessoas se interessassem em conhecer o meu estado. E só percebi que já era influenciadora quando comecei a gravar vídeos para o TikTok e as pessoas começaram a me acompanhar.”

    Esse movimento vai além do entretenimento. Como explica Daniela Zanetti, professora associada do Departamento de Comunicação Social da UFES: “Os influenciadores capixabas têm um papel fundamental em valorizar características locais, até mesmo aquelas que alguns consideram “negativas”, transformando-as em elementos de orgulho e diferenciação”

    O resultado é uma nova forma de pertencimento. Jovens que antes só tinham os grandes centros como referências agora encontram nos influenciadores capixabas os espelhos de sua própria realidade.

    Entre os influenciadores destaques, está Lara Santana, publicitária e atriz capixaba que ganhou projeção nacional com vídeos de humor no TikTok. No ano passado ela foi a vencedora, pelo voto popular, do prêmio Ibest Influenciador ES.

    Criadora do personagem Cadu, o “hétero top” que satiriza comportamentos masculinos com o bordão “vapo”. Com formação em Publicidade e Propaganda pela UFES, ela transformou seu talento em um negócio próprio, mostrando que é possível conciliar criatividade e profissionalização no universo digital.

    Enquanto projetos como o Prêmio Influenciadores ES revelam novos talentos, fica claro que esses criadores são mais que celebridades digitais, são também elementos essenciais para a construção de uma nova narrativa capixaba. Uma narrativa que, cada vez mais, se desdobra para além das telas e pode influenciar diretamente áreas como o turismo, a educação e as políticas culturais, reposicionando o Espírito Santo no mapa simbólico do Brasil

  • Cinema capixaba em movimento

    Cinema capixaba em movimento

    Entre cineclubes, festivais e apoio institucional, o Espírito Santo se destaca como celeiro de novas vozes e olhares que transformam o audiovisual nacional.


    A produção audiovisual capixaba tem se consolidado como um dos principais instrumentos de expressão cultural do estado. As obras se destacam em curta-metragens, embora a produção de longas tenha crescido nos últimos anos, impulsionada por editais públicos, festivais e laboratórios de desenvolvimento. O cenário é marcado pela diversidade de gêneros, com forte presença de dramas sociais, documentários e produções que exploram questões identitárias e territoriais, como cultura periférica, negritude, gênero e pertencimento.

    A circulação dessas produções acontecem principalmente por meio de festivais locais e nacionais, como o Festival de Cinema de Vitória, a Mostra de Cinema de Tiradentes, o Festival de Brasília e o Cine PE. Muitos também são exibidos em cineclubes, mostras universitárias, plataformas de streaming independentes, e em projetos de itinerância cultural pelo interior capixaba. 

    Intitulado o maior evento audiovisual do estado, o Festival de Cinema de Vitória traduz a importância de eventos que reforcem o protagonismo do cinema capixaba e nacional. Mais do que exibir filmes, o tradicional evento cinematográfico “estimula a formação de plateia para o cinema brasileiro, através do lazer e da cultura, democratizando o acesso e o espaço de todos pela sétima arte e, desta forma, aproximando capixabas e turistas numa grande festa do audiovisual produzido no Brasil”, afirma o festival. 

    A democratização do acesso é uma diretriz essencial para iniciativas como o Movimento Cidade, que atua como um festival de artes integradas com entrada gratuita, por exemplo. “Entendemos que é muito importante a aderência de novos públicos às linguagens do audiovisual, que são cada vez mais múltiplas e dinâmicas. Como somos um festival gratuito e realizado com recursos da Lei de Incentivo à Cultura, a acessibilidade dos conteúdos e a democratização do acesso são itens fundamentais”, explica a assessoria do projeto.

    A curadoria do Movimento Cidade também faz questão de valorizar as produções capixabas. “Por sermos um Festival nascido no Espírito Santo, na curadoria, as produções locais são sempre prestigiadas. Em anos anteriores, realizamos a Mostra Cena Capixaba, 100% focada em filmes locais”, completa. Com uma programação diversa e aberta a todas as linguagens artísticas, a produtora cultural atua de forma estratégica na valorização da identidade regional por meio da arte.

    Vale lembrar que esse movimento de valorização cultural tem forte apoio institucional no estado. O curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) desempenha papel decisivo no desenvolvimento do setor audiovisual capixaba. Os universitários entram pelas portas da instituição com um único sonho e saem como jovens talentos da cinematografia. 

    Para Maria Vitória Mourenço, atriz e cineasta pela Universidade Federal do Espírito Santo, o audiovisual é uma ferramenta poderosa justamente por sua capacidade de tornar temas complexos acessíveis. “Um bom filme consegue alcançar tanto quem já entende do assunto quanto quem nunca nem ouviu falar sobre aquilo”, declara a cineasta. A cultura, especialmente por meio do cinema, cumpre um papel essencial: preservar a memória, provocar o pensamento crítico e promover o sensível, muitas vezes invisível aos olhos.

    Apesar dos avanços no setor audiovisual, o acesso ao cinema ainda enfrenta um obstáculo significativo: quase 40% da população brasileira vive em municípios sem salas de exibição. Até 2018, segundo dados do IBGE, 39,9% dos brasileiros residiam em cidades que não contavam com sequer uma sala de cinema. Esse cenário evidencia uma profunda desigualdade no acesso não só ao cinema, mas também a outros equipamentos culturais, como museus e teatros. A pesquisa do Sistema de Informações e Indicadores Culturais mostra que essa exclusão cultural varia de acordo com fatores como sexo, cor ou raça, faixa etária e nível de escolaridade, reforçando barreiras estruturais que ainda limitam o pleno exercício dos direitos culturais no país.

    A falta de acessibilidade cultural não é apenas uma lacuna no entretenimento, é uma exclusão que afeta diretamente o desenvolvimento humano, social e econômico. O impacto do acesso ao cinema vai além da formação de cidadãos engajados. Ele permite que novas narrativas ocupem as telas, dando visibilidade a histórias, rostos e realidades historicamente marginalizadas. “Ver filmes feitos por capixabas muda muita coisa, principalmente o olhar que a gente tem sobre nós mesmos e sobre o lugar onde vivemos. Quando a gente se vê representado nas telas, nas histórias, nos sotaques, nos cenários que reconhece, a sensação é outra. Dá um orgulho, cria uma conexão que vai muito além do entretenimento. É como se alguém dissesse: ‘isso aqui também importa, também merece ser contado’. E mais do que isso, esses filmes mostram pro resto do Brasil que o Espírito Santo existe, tem cultura, tem artistas, têm histórias potentes pra contar’”, destaca Maria Vitória. 


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