Autor: ruthreis

  • Pelo voto, vale a censura? 

    Pelo voto, vale a censura? 

    A cada dois anos todos os veículos de imprensa do Brasil se veem no limite da linha tênue entre não serem atacados por candidatos e apresentar todos os fatos.

    Na corrida eleitoral, todos candidatos querem conquistar votos e ganhar seu lugar nas instituições de poder. Mas pelo seu voto, vale a censura? A apenas três dias do segundo turno das eleições de 2024, o candidato Pablo Muribeca entrou com uma ação judicial pedindo a exclusão de conteúdos publicados pelo jornal Tempo Novo, que realiza a cobertura do município.

    A juíza Telmelita Guimarães decidiu a favor de Muribeca, em primeira instância, levando o Tempo Novo a excluir 16 conteúdos publicados, além de proibir o jornal de realizar matérias que – atacassem -, supostamente, direta ou indiretamente o candidato. 

    O  diretor do jornal, Yuri Scardini deixa claro: “Para a direção do jornal Tempo Novo e toda a equipe de colaboradores, não há dúvidas de que este veículo de comunicação sofreu censura.”  O ataque à liberdade de imprensa é uma afronta a você, eleitor, já que para a democracia ser exercida plenamente é necessário ter acesso à informações confiáveis. 

    Em quase 40 anos de democracia, a liberdade de imprensa sofre pressões, principalmente, no período eleitoral, aumentando a fragilidade do direito muito explícito no artigo 220 da Constituição Federal.

    Direito esse que o deputado estadual Muribeca afirma reconhecer: “ Reconheço a importância do papel da imprensa em informar e fiscalizar, mas acredito que isso deve ser feito com responsabilidade e imparcialidade.”

    Entretanto, a imparcialidade deve ser usada como técnica jornalística, não como uma desculpa para impedir a criticidade da imprensa. Segundo a  análise do professor de História Social da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Carlos Vinícius Costa de Mendonça,  cada veículo de comunicação possui sua linha editorial, que deve ser muito bem conhecida e analisada pelo seu leitor.

    Existem regras propostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para garantir que a reputação de nenhum candidato seja manchada durante a campanha, como não publicar acusações infundadas ou desinformação. Contudo, o próprio Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo (TRE-ES) decidiu que essas não foram descumpridas pelo Tempo Novo.

    Pablo Muribeca, declarou que foi a coligação Muda Serra, que entrou com o processo na justiça por perceber a violação de uma série de direitos e desrespeito à Lei.

    “A coligação confrontou que o que estava sendo feito não era jornalismo, mas sim praticamente uma campanha política. Todo o conteúdo que dizia ao meu respeito, vinha acompanhado de um deboche, alguma desqualificação, ao passo que quando se referia ao outro candidato, em situação idêntica, era visto como algo enaltecedor. A Justiça de primeiro grau entendeu por tendenciosas e concedeu decisão favorável, a meu ver acertada.”

  • G20 Social: Fórum une participação popular, cultura e política

    G20 Social: Fórum une participação popular, cultura e política

    Entre 14 e 19 de novembro, o Rio de Janeiro foi palco G20, o maior encontro de líderes mundiais, que o Brasil preside até novembro deste ano. A programação reuniu mais de 200 mil pessoas entre chefes de Estado e delegações de 40 países, além de 6 vencedores do Prêmio Nobel em três eventos principais: Urban 20 (U20), o G20 Social e a Cúpula dos Líderes do G20.

    A reportagem da Primeira Mão, esteve na capital carioca e acompanhou a cúpula do G20 Social Summit, entre os dias 14 e 16 de novembro. No evento, movimentos sociais, líderes comunitários e representantes da sociedade civil se reuniram em pontos culturais cariocas como na Praça Mauá, o Museu do Amanhã e o Boulevard Olímpico, para discutir temas como justiça social, combate à fome e mudanças climáticas.

    Durante o discurso de abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: “O G20 Social é uma prova de que as grandes mudanças começam quando ouvimos as vozes da sociedade”.


    Espaços temáticos e vozes inspiradoras

    Com palcos distribuídos em espaços temáticos como o “Espaço Favela” e o “Espaço Amazônia”, o G20 Social trouxe uma programação rica e diversa. Atividades culturais, mesas de debate e palestras reuniram mais de 10 mil participantes para discutir a inclusão, o combate à fome e à pobreza, bem como o fortalecimento de políticas globais.

    João Matheus, presidente do grêmio estudantil Jaiara Smalt, de Linhares (ES), representou sua cidade, trazendo uma perspectiva para a representatividade negra no evento. “Participar do G20 Social foi incrível, principalmente pra gente, preto, que está vendo nossa cultura sendo representada e pautada aqui”, comentou.

    As discussões também contaram com a participação de figuras internacionais como a ativista Tawakkol Karman, vencedora do Nobel da Paz, e líderes políticos, como o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, que assumirá a presidência do G20 em 2025.


    O futuro e as resoluções globais

    Após a cúpula social do evento, o G20 oficial aprovou a “Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza”, proposta brasileira que obteve a adesão de mais de 80 países. O acordo foi considerado um passo significativo na luta contra a fome mundial, além de promover ações concretas voltadas para a erradicação da pobreza.

    Essa é a primeira edição do evento a incorporar formalmente a participação popular e a cultura como elementos centrais. Os debates não apenas ampliaram o alcance das discussões do fórum global, mas também abriram o caminho para que essa abordagem se torne um pilar nas futuras edições.

    Durante o evento, também foram assinados compromissos globais, como o fortalecimento da inclusão social, a transição energética e reformas na governança global. O evento consagrou o Brasil como líder de um movimento global pela justiça social e a sustentabilidade.


    Cultura no festival Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza

    O festival cultural foi outro ponto alto do evento. Realizado na Praça Mauá, o Festival Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza trouxe apresentações de artistas renomados como Seu Jorge, Zeca Pagodinho, Ney Matogrosso e Daniela Mercury. A programação celebrou a diversidade cultural e promoveu o diálogo entre arte e ativismo.

    Organizado pela primeira-dama, Rosângela da Silva, e a Ministra da Cultura, Margareth Menezes, o festival contou com exposições e manifestações artísticas de comunidades indígenas e quilombolas, reforçando a conexão entre cultura e inclusão social.

    A liderança do Brasil no debate internacional foi um dos grandes destaques da noite. O presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva, enfatizou a centralidade da justiça social para a construção de um mundo mais igualitário.

    “Não se pode pensar em desenvolvimento econômico sem considerar o impacto sobre os mais pobres”, declarou em seu discurso. A presença de lideranças internacionais e nacionais reforçou o papel do Brasil como catalisador de mudanças e protagonista dos debates do mundo”, destacou Lula.

  • Negócio fechado? 10 anos depois do desastre

    Negócio fechado? 10 anos depois do desastre

    Acordo, ação e indenizações que tentam limpar a lama do desastre de Mariana. Entenda o que está em jogo nas negociações para reparação do desastre ambiental de Mariana

    No dia 5 de novembro de 2015, bastou apenas 15 minutos para que  50 milhões de metros cúbicos de lama atingissem as primeiras casas em Mariana, Minas Gerais. Soterradas, 19 pessoas morrem. Em 49 municípios, cerca de 600 mil pessoas foram atingidas. O rompimento da barragem de Fundão, que deixou um rastro de destruição em um piscar de olhos, quase dez anos depois começa a ter alguma tentativa de reparação.

    A mineradora Samarco, responsável pela barragem do Fundão, a Vale e a empresa anglo-australiana BHP Billiton,  além da Fundação Renova, seguem em julgamento na ação criminal na corte inglesa. Além disso, assinaram junto ao Governo Federal brasileiro, a repactuação do acordo de indenização das vítimas.

    Na primeira reportagem da série “Negócio fechado? 10 anos depois de Mariana”, o Primeira Mão traz o novo acordo e ação criminal que tentam reparar um dos maiores desastres ambientais do país e a luta por justiça das vítimas atingidas. 

    O novo acordo

    No dia 25 de outubro de 2024, a Samarco, Vale e BHP Billiton assinaram o novo acordo, junto à União e aos governos de Minas Gerais e do Espírito Santo. A medida destina 170 bilhões de reais para ações de reparação e compensação. Desse total:

    100 bilhões de reais para União e os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo; 32 bilhões de reais para recuperação de áreas degradadas, remoção de sedimentos, reassentamento de comunidades e pagamento de indenizações às pessoas atingidas, realizados pela Samarco. Incluindo, 8 bilhões de reais para comunidades indígenas e quilombolas. 

    Segundo a Fundação Renova, 38 bilhões de reais já foram gastos com medidas socioambientais. O novo acordo substitui integralmente o acordo assinado em 2016, que havia estabelecido uma série de obrigações para as empresas, as quais deveriam executar ações para reparar os danos causados. 

    “As empresas tinham se comprometido com o poder público a atender às suas obrigações por meio da Fundação Renova. Quem é de Minas Gerais e do Espírito Santo sabe dos problemas que essa fundação tem e teve no passado”, afirmou o ministro Jorge Messias, advogado-geral da União (AGU), durante participação no programa “Bom Dia, Ministro”.

    Além disso, o acordo prevê o pagamento de 6,1 bilhões de reais entre os 49 municípios atingidos e uma indenização de 35 mil reais para as 300 mil vítimas que ainda não foram contempladas. No caso de pescadores e agricultores familiares, o valor da indenização será de 95 mil reais.wPara o professor de Oceanografia e Ecologia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Luiz Fernando Schettino, a nova medida pode representar  avanços em relação aos acordos anteriores, se de fato for cumprido, com transparência e participação da sociedade atingida.

    “Com os previstos utilizados de forma correta e com transparência, mesmo que não o ideal, há uma possibilidade de recuperação de parte importante do que ambientalmente foi impactado e a possibilidade de melhorar a vida dos atingidos”, ressalta.

    Entretanto, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB-ES), afirmou que o fechamento do acordo foi feito sem a participação dos envolvidos, o que teria levado a escolhas prejudiciais às vítimas. Entre elas, está a cláusula que define que  para ter acesso aos valores do novo acordo de Mariana as vítimas terão que desistir das ações judiciais no Reino Unido.

    Ação na Inglaterra será julgada até março de 2025

    No Brasil, as empre sas foram julgadas criminalmente e absolvidas pela Justiça Federal, no dia 14 de novembro, deixando para as vítimas a última esperança de justiça nas mãos da corte inglesa. A ação bilionária movida contra a BHP Billiton vai decidir a responsabilidade da empresa anglo-australiana, com sede em Londres, sobre o desastre.

    O trabalho é conduzido pelo escritório de advocacia internacional Pogust Goodhead, especializado em ações coletivas ligadas a causas ambientais e sociais, que pede uma reparação de R$ 230 bilhões. 

    “Chegou a hora de a BHP ser confrontada na Justiça sobre seu envolvimento no rompimento da barragem de Mariana. Estamos empenhados em garantir que as vítimas finalmente recebam a devida indenização pelos danos sofridos e, assim, criar um precedente para que grandes corporações sejam responsabilizadas pelos seus atos ao redor do mundo”, afirmou Tom Goodhead, CEO e Global Managering Partner do Pogust Goodhead. 

    O processo envolve cerca de 620 mil vítimas, entre elas 46 municípios, que se veem no dilema entre aceitar o acordo nacional e desistir da ação inglesa, ou seguir na esperança de uma decisão favorável aos atingidos, como conta Heider Boza, membro da coordenação do MAB-ES.

    “A chamada cláusula de quitação final, que limita os atingidos a escolher entre uma indenização ou outra, foi feita pela justiça brasileira desde 2020. De lá para cá, essa injustiça foi mantida no novo acordo e fazendo com que várias pessoas perdessem seu direito.”, observou Boza.

    O julgamento foi iniciado no dia 21 de novembro e segue até março do próximo ano. A previsão é de que a decisão seja anunciada em meados de 2025. Há ainda outro processo, com 77 mil pessoas, além de cidades, empresas e associações, que ocorre na Holanda. 

  • Crescimento das casas de apostas impactam futebol

    Crescimento das casas de apostas impactam futebol

    Possíveis causas, escândalos e a luta pela transparência no esporte.

    Erros de arbitragem, gol contra, falhas de goleiros e outros equívocos, são situações corriqueiras no futebol. Afinal, são atitudes naturais de seres humanos que desempenham uma atividade na qual, inevitavelmente, estão sujeitos a cometer falhas. Contudo, com o crescimento da presença das casas de apostas esportivas no mundo da bola, eventos como esses passaram a ser observados com desconfiança. Isso se dá pela possibilidade de corrupção entre atletas envolvidos em esquemas que buscam beneficiar tanto apostadores, quanto a si mesmos.

    Especialmente no contexto brasileiro, os nossos campeonatos enfrentam uma crise de integridade, com sucessivas acusações desde os campeonatos menores e menos midiáticos até as grandes partidas da divisão de elite.  A  operação “Penalidade Máxima”, do Ministério Público de Goiás, descobriu e condenou integrantes de uma rede de manipulação de resultados. A investigação desempenhou um papel relevante não só para o combate ao crime organizado no esporte, mas também para o fortalecimento da transparência dos campeonatos envolvidos nos esquemas fraudulentos.

    Em parte dos casos denunciados, o apostador entra em contato com o atleta e faz uma proposta para manipular alguma ação em uma partida específica, visando obter lucro por meio das odds oferecidas pelas casas de apostas. As odds funcionam como um fator de multiplicação, que varia conforme a probabilidade de um evento ocorrer — quanto menor a probabilidade de um resultado, maior será a odd e, consequentemente, o retorno financeiro em caso do cumprimento da meta. 

    Comportamentos antiéticos

    Diante disso, surge o grande debate: o que leva um atleta, que ganha significativamente mais do que a média da população, a colocar em risco toda a sua carreira pela promessa de ganhar mais dinheiro? A psicóloga Deborah Ível, pós-graduanda em neurociências do comportamento, afirma que essas atitudes podem ser motivadas pela expectativa de alcançar um estilo de vida que, em tese, pode ser proporcionado pelo dinheiro.

    “A normalização de manipulação de resultados pode reforçar comportamentos antiéticos, com atletas justificando suas ações ao verem outros fazendo o mesmo. Do ponto de vista neurológico, promessas de ganhos financeiros ativam o sistema de recompensa do cérebro, o que dificulta a análise crítica e aumenta a vulnerabilidade do atleta à manipulação”. 

    O ser humano no geral tem a tendência de buscar o benefício próprio pelos caminhos mais fáceis, que muitas vezes nos leva a cair em situações antiéticas e até mesmo, criminosas. No Brasil existe até mesmo um nome para isso: o chamado “jeitinho brasileiro”. Quando a falta de honestidade é revelada, as punições para atletas do mundo da bola são historicamente brandas para os mais diferentes casos, não só por parte da justiça desportiva. Podendo citar os casos do Marcinho (Ituano), Renan (Shabab Al-Ahli), o técnico Cuca (sem clube), entre outros exemplos de personalidades da bola que se envolveram em crimes e continuam atuando normalmente.

    Em relação à impunidade em casos de apostas no Brasil, um exemplo recente envolve o jogador Alef Manga, hoje atleta do Avaí. Após cumprir uma suspensão de 360 dias, ele retornou aos campos e voltou a marcar um gol, apesar de ter sido condenado por envolvimento em um escândalo de manipulação de resultados, por ter tomado um cartão amarelo intencionalmente. Essa versão tem uma estrutura mais clara e fluida. Esse tipo de situação merece ser amplamente questionada, pois transmite a mensagem errada aos atletas, especialmente aos de menor expressão, de que vale a pena se envolver com a corrupção, já que ainda não há punições severas para esses casos.

    Isso reforça a necessidade urgente de uma regulamentação mais rigorosa sobre as casas de apostas esportivas no Brasil. O advogado Lorenzo Matos defende que um modelo de compliance seria essencial para reduzir ocorrências suspeitas, com a criação de um órgão controlador independente. “Esse órgão seria responsável por exigir transparência das contas virtuais dos apostadores nas casas de apostas e das contas das próprias casas de apostas. Somado com um setor responsável pela fiscalização das apostas suspeitas e na fiscalização de patrocínio para times e jogadores de futebol”, afirma.

    Credibilidade das casas de apostas

    As casas de apostas, como principais prejudicadas pelos escândalos de manipulação de resultados, têm se movimentado para recuperar sua credibilidade, investindo em campanhas publicitárias que atestam a confiabilidade e a transparência de seus serviços. No entanto, apesar dessas iniciativas, é essencial que as autoridades estabeleçam uma regulamentação mais rígida e eficaz para garantir que o setor seja devidamente fiscalizado e que práticas fraudulentas sejam punidas com severidade. 

    Somente por meio de uma abordagem robusta e coordenada entre casas de apostas, clubes, atletas e entidades esportivas e poder judiciário será possível minimizar os casos de corrupção no futebol. Isso garantirá que o esporte continue refletindo ética, dedicação e respeito.

  • Efeitos econômicos das bets

    Efeitos econômicos das bets

    Diante dos efeitos negativos provocados pelo mercado de apostas ao país, como o uso dos recursos do Bolsa Família e o aumento da inadimplência entre os mais pobres, surge a pergunta:  a alternativa será a regulamentação ou o banimento

    No mundo dos esportes, avaliar cenários e apostar segundo as probabilidades é uma experiência comum e, hoje em dia, capitalizada a partir das casas de apostas on-line, mais conhecidas como “bets” (no inglês, bet significa apostar). No Brasil, desde a legalização da atividade, em 2018, o mercado de apostas vem crescendo e ganhando relevância econômica, com patrocínios a canais de televisão, jornalistas, influenciadores e clubes esportivos. Contudo, apesar dos benefícios a esses segmentos, pesquisas recentes sugerem que, diferentemente de cassinos físicos, as apostas pela internet não geram retornos econômicos à sociedade como um todo. Ao que tudo indica, elas retiram capital da economia produtiva e reduzem o poder de compra dos estratos mais vulneráveis da população. 

    Seguindo a tendência internacional, a exploração comercial de apostas de quota fixa foi finalmente legalizada no país após a sanção da Lei 13.756/2018. A lei também determinou que a atividade deveria ser regulamentada posteriormente, o que acabou acontecendo somente no final de 2023. Conhecida como Lei das Bets, a Lei 14.790/2023 estabeleceu normas tributárias e medidas de proteção ao consumidor, além de legalizar a operação de cassinos on-line. Atualmente, segundo dados do Banco Mundial, o Brasil lidera o ranking em número de acessos aos sites de bets.

    O primeiro impacto negativo na economia brasileira foi sentido pelos setores de comércio e serviços. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), em 2024, o varejo brasileiro teria perdido 90 bilhões em faturamento, devido ao deslocamento de demanda deste setor para os jogos de apostas. Esse número também significa uma perda de 5 bilhões em arrecadação federal, uma vez que, explica o economista e professor, Moisés Brasil, o risco de evasão fiscal por parte das casas de apostas é altíssimo, 

    Hoje, segundo a Lei das Bets, a competência para regular o mercado de apostas e cassinos virtuais é do Ministério da Fazenda. Sob pedido do senador Omar Aziz (PSD-AM), o Banco Central (BC) foi provocado a desenvolver um estudo sobre o impacto das bets e auxiliar o desenvolvimento de políticas pelo Ministério. A autarquia descobriu que, de janeiro a agosto deste ano, beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 10,51 bilhões via Pix em apostas, com uma média de 147 reais por pessoa. Essa má utilização do dinheiro público, aponta Moisés, pode ser impedida pelo próprio Bacen. “Hoje, todas as transações via Pix passam pelo sistema do Banco Central. No caso do Bolsa Família, é possível estabelecer um certo limite que pode ser gasto nessas casas”, explica.

    De acordo com a autoridade financeira, as empresas retêm cerca de 15% do valor apostado; já segundo pesquisa encomendada pelo Banco Itaú, para cada 3 reais apostados, o apostador perde 1 real, resultando em, aproximadamente, 33,34% de perda do valor apostado. Apesar dos resultados diferentes, ambas as pesquisas indicam que apostas não devem ser encaradas como estratégia para o enriquecimento a  longo prazo.

    Outro dado que indica a insustentabilidade do hábito de apostar é o aumento do endividamento nos últimos meses. Ainda segundo a CNC, 1,3 milhão de consumidores teriam ficado inadimplentes no mesmo período em que se registrou um aumento de renda, em especial na faixa até três salários mínimos. A confederação sustenta que, ao invés de poupar ou gastar no varejo, parte dessas famílias estão empregando uma parcela considerável da renda e do crédito disponível no mercado de apostas. 

    Para o assessor de investimentos da corretora Valor, Murilo Marques, a longo prazo, a alta na inadimplência pode impactar no hábito de consumo, diminuindo a capacidade de financiamento da economia. “Se os recursos que seriam utilizados para consumo são gastos em apostas, as empresas, que geram empregos para lidar com o crescimento de produção, recebem menos incentivos para isso, diminuindo a renda disponível e, consequentemente, o investimento na economia”, explica.

    Face aos efeitos relacionados a esse mercado, surge o debate sobre a eficiência da regulamentação imposta pelo Governo Federal. Em outubro, durante entrevista à rádio Metrópole, da Bahia, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mencionou que pode proibir a atividade no país se as medidas do governo “não derem conta”. Segundo Marques, é necessário que o poder público tome cuidado se quiser jogar todo um setor na ilegalidade. “Na economia, a proposta de uma solução para um problema pode gerar efeitos contrários ao que se esperava inicialmente”, pondera o assessor.

    Pelo lado da iniciativa privada, uma das soluções aventadas por associações setoriais é a legalização de cassinos físicos. Entretanto, na opinião de Murilo, algumas implicações sociais causadas pelas apostas também podem se manifestar na atividade presencial, “uma vez que a atividade da aposta, física ou virtual, gera efeitos psicológicos parecidos, o que poderia acarretar as mesmas implicações”.

    Já Moisés Brasil considera que pode haver efeitos econômicos positivos na liberação de cassinos presenciais, mas não descarta a continuidade de alguns efeitos já observados atualmente. “Existem efeitos diversos. Os efeitos positivos são a geração de receita para o governo e a criação de empregos diretos e indiretos. Quanto aos efeitos negativos, há o endividamento, problemas de relacionamento causados pelo vício, o que gera sobrecarga em serviços sociais e de saúde”, conclui.

  • Diferença de preços entre supermercados e pequenos comércios

    Diferença de preços entre supermercados e pequenos comércios

    Por que os pequenos comerciantes vendem mais caro: a dinâmica da desigualdade econômica

    A diferença de preços entre grandes supermercados e pequenos comércios bairristas é uma realidade que intriga muitos consumidores. Um pacote de arroz de dois  quilos, que custa nove  reais no supermercado, pode custar 15 reais ou mais no comércio local. Demais itens básicos, como macarrão, feijão ou qualquer outro alimento facilmente encontrado tanto em mercearias, distribuidoras , quanto em franquias de varejo seguem a mesma tendência. Mas, o que explica essa diferença?

    Os grandes supermercados possuem uma vantagem significativa: o volume de compras. Como explica o Economista e ex-presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), Ricardo Paixão, essas redes conseguem negociar diretamente com fabricantes e fornecedores, garantindo contratos de longo prazo e preços mais baixos por unidade. Esse ganho de escala permite que os supermercados repassem custos menores ao consumidor final.

    Já os pequenos comerciantes, como o dono do mercadinho Teresa em Goiabeiras, Eli Felipe, enfrentam desafios diferentes. “Ao contrário dos supermercados, não tenho fornecedores diretos, ou seja, não compro diretamente de fabricantes ou grandes distribuidores. Compro em atacadistas e revendo aqui. Além disso, preciso incluir os custos de transporte e logística”, explica. Esses custos, somados a gastos operacionais, como aluguel e energia elétrica, manifestam-se em uma margem de lucro maior por produto, o que os torna inevitavelmente mais caros.

    Um dos fatores que explica a diferença entre as margens de lucro aplicadas é o volume de vendas. Supermercados atraem um amplo número de clientes e conseguem lucrar com pequenas margens, pois vendem sempre em grande quantidade. Nos bairros, a realidade é oposta: “Mesmo com preços altos, vendemos pouco. Um pacote de arroz que custa 15 reais na minha loja pode custar 11 reais no supermercado, mas enquanto eles vendem centenas, eu vendo no máximo dez por mês”, pontua Eli.

    Mesmo custando mais aos consumidores, os pequenos comércios têm um papel indispensável na economia local, oferecendo uma praticidade e proximidade que não é encontrada em grandes redes. Como destaca Ricardo Paixão, apesar da baixa competitividade, os negócios de bairro sustentam-se por promover uma relação de confiança e conveniência com os moradores. “É possível comprar fiado, ou resolver uma emergência sem precisar se deslocar até o supermercado. Essa proximidade é algo único dos comércios de bairro”, ressalta o economista. 

    Dona Cida, moradora de Goiabeiras, também reconhece esse valor. Embora prefira fazer compras em supermercados para economizar, em situações de urgência – quando, por exemplo, falta sal ou açúcar em casa – ela recorre às lojas do bairro onde mora. “É caro, mas é perto e resolve na hora”, comenta.

    Segundo Paixão, entender a diferença entre os dois modelos de negócio é essencial para buscar soluções que fortaleçam o comércio local, sem comprometer o acesso a produtos baratos. Uma maneira para aumentar a competitividade dos pequenos varejos seria a cooperação com iniciativas que oferecem capacitação aos empreendedores, que carecem muitas vezes  de conhecimento técnico para gerenciar os negócios. Um exemplo são as empresas juniores de universidades, organizações formadas por estudantes universitários que aplicam na prática o que aprendem em sala de aula. Essas empresas podem oferecer consultorias gratuitas em áreas como precificação, gestão financeira e planejamento estratégico. Ajudando pequenos empreendedores a estruturar seus negócios de forma mais eficiente. Outro caminho seria incentivar cooperativas e parcerias entre comerciantes para compras em grupo, reduzindo custos.

  • Mães empreendedoras

    Mães empreendedoras

    Preocupadas em acompanhar a educação dos filhos de perto, mães passam a tomar mais iniciativas para ter seu próprio negócio.


    “Ser mãe não é fácil”, frase que todo filho já escutou e que toda mãe já disse pelo menos uma vez. Mães não são apenas mães, elas também são médicas, terapeutas, cabeleireiras, cozinheiras e muito mais. E, a cada ano que passa, as mães vêm participando mais do mercado de empreendedorismo. É o que aponta o estudo de Empreendedorismo Feminino, realizado pelo Sebrae de 2023, que revela que 67% das mulheres empreendedoras do Brasil são mães. Afinal, o ramo oferece diversas vantagens, como renda extra e mais tempo para passar com os filhos, entre vários outros motivos que levam as pessoas a empreenderem.

    Essa é a realidade de Cenita Guerra, de 57 anos, que começou a empreender quando sua primeira filha nasceu, há 33 anos. Na época, ela saiu do seu trabalho formal para cuidar da bebê, mas ainda precisava fazer algo para gerar uma  renda para a família. Foi assim que Cenita se deparou com a possibilidade de empreender, e passou a vender roupas de crianças quando levava e buscava sua filha, Thaiany, na creche. Assim, conseguia  mais tempo para conciliar as funções de mãe, dona de casa e trabalhadora, enquanto o marido trabalhava fora de casa.


    Cenita em um de seus primeiros empreendimentos


    A empreendedora fez questão de passar o máximo de tempo possível com seus filhos, para oferecer uma infância à qual ela não teve acesso. “Fui criada sem meus pais, e não queria que meus filhos fossem criados longe de mim”, explica. Mesmo trabalhando fora, sua prioridade sempre foi passar tempo com sua família.

    Empreender possibilita maior flexibilidade de horários, por exemplo, o que facilita a vida de mães que apresentam essa necessidade. “O empreendedorismo, muitas vezes, é uma alternativa às barreiras impostas pelo mercado formal”, comenta Suzana Fernandes Sanches, gestora estadual do Sebrae Delas – programa que visa  aumentar a probabilidade de sucesso de ideias e negócios liderados por mulheres. No mundo corporativo, a estrutura rígida de horários e a falta de suporte para a maternidade afastam muitas mulheres, que encontram no empreendedorismo uma saída.

    Apesar de ter sido beneficiada em sua vida pessoal por ter se tornado empreendedora, Cenita sofreu muito preconceito por ser uma mãe nesse ramo. “Quando você fala que é a dona, as pessoas perguntam se eu não deveria estar em casa cuidando dos meus filhos”, conta, destacando que, na verdade, é possível fazer os dois. Ela também aponta que quando as pessoas entram no estabelecimento sempre se referem ao marido dela, que passou a trabalhar na cantina depois que se aposentou.

    Por isso, há a necessidade de apoiar mulheres e mães que entram no empreendedorismo. O Sebrae Delas, por exemplo, é uma iniciativa que busca destacar a importância da presença feminina no empreendedorismo, gerando soluções inovadoras e novas maneiras de resolução de problemas. No entanto, Suzana destaca que isso não é suficiente: é vital apoiar o empreendedorismo feminino e materno não apenas pela perspectiva dos negócios, mas para que haja mudanças estruturais e desenvolvimento social. “Mulheres, como qualquer indivíduo, têm o direito de buscar realização profissional, sem que suas escolhas sejam limitadas por expectativas de gênero ou estereótipos”, critica a gestora

    Além da venda de roupas infantis, Cenita já foi dona de quiosque na praia, de pastelaria e de cantina, onde trabalha até hoje. O empreendedorismo é uma alternativa que permite a promoção da autonomia da mulher; em contrapartida, quem empreende também precisa lidar com a instabilidade e suas diversas variáveis. Muitas vezes, Cenita teve que se adaptar e mudar totalmente de vida para continuar recebendo. “Eu me desdobrava, mas dava conta”, destaca.

    Algumas vezes, ela precisava levar os filhos para o local de trabalho, quando não tinha onde deixá-los. Mesmo sendo dona dos empreendimentos, ela ainda precisava cumprir um horário fixo. Ao mesmo tempo que trabalhava, precisava garantir que os filhos ficassem comportados e que fizessem os deveres de casa. Às vezes as crianças até ajudavam no trabalho. O trabalho de mãe nunca para.

    Em 2020,  no contexto da pandemia da Covid-19, Cenita precisou fechar suas cantina e inovar novamente. Desta vez, contou com a ajuda da família para fazer comidas e vender pela internet. Fazia pizza, açaí, bolos e muito mais. O marido fazia as entregas, o filho administrava a página da internet e uma das filhas atendia os clientes. “A família toda se uniu nesse empreendimento”, cita.

    Apesar de todas as dificuldades enfrentadas por Cenita, ela afirma que tudo valeu a pena, e que foi empreendendo que conseguiu fazer parte da infância de seus filhos, algo que sempre sonhou. Mesmo sendo mãe, dona de casa e empreendedora ao mesmo tempo, ela conseguiu um horário mais flexível que facilitava a realização de todas essas dificuldades. O empreendedorismo uniu a família, e isso é o mais importante para uma mãe.


    Cenita, seu marido e seus filhos: Thaiana, Thielly, Gabryel e Gabriella

  • Sem escuta para a pele que habita

    Sem escuta para a pele que habita

    A terapia sem recorte e letramento racial silencia a dor de pessoas negras.

    Você faz terapia? Já se sentiu invisível em um espaço onde deveria ser acolhido? Já falou sobre sua dor para alguém que, ao invés de escutar, te devolveu o silêncio? Aliás, você se sente acolhido durante suas sessões? Se a resposta da segunda pergunta foi “sim”, ótimo. Mas essa não é a realidade de todas as pessoas negras. Muitas encontram psicólogos, terapeutas, psicanalistas e analistas sem letramento racial, o que pode gerar danos à saúde mental. 

    Nas paredes brancas e nos sofás acolchoados de muitos consultórios de terapia, ou através das telas de consultas online, as histórias de racismo e exclusão ainda são tratadas como questões individuais. Para Ana Karolina, uma jovem negra de 27 anos, a experiência foi reveladora: “Eu falava sobre os olhares desconfortáveis no trabalho, o incômodo com meu cabelo crespo, e o terapeuta dizia que talvez fosse ‘paranoia minha’. Saí me sentindo mais invisível do que nunca”.

    Ana, não está sozinha. Um dado preocupante ilustra essa realidade: 68% das mulheres negras já sofreram racismo durante os atendimentos médicos, segundo o Instituto AzMina. Embora essa estatística se refira a todas as áreas da saúde, ela inclui também a prática terapêutica, mostrando que o despreparo dos profissionais é um problema estrutural.

    A técnica de enfermagem Joyce, procurou a terapia quando já tinha o diagnóstico de ansiedade e síndrome de pânico. Na época, por falta de grana, buscou ajuda profissional no centro de saúde em que sua mãe trabalhava. A jovem relata que foi atendida por uma terapeuta, mas logo após a primeira sessão a profissional entrou de férias e ela ficou 30 dias sem atendimento. No retorno, Joyce mencionou uma dificuldade com sua autoestima e insegurança, e a terapeuta nem a ouviu direito. “Ela falou que meu primeiro problema eu já tinha conseguido resolver e que eu já estava dispensada das sessões com ela, sem ao menos tocar no assunto da autoestima que eu comentei”, lembra a técnica.

    Levou um tempo para que Joyce conseguisse se abrir; ficou três anos sem procurar ajuda, por receio de acontecer novamente, e nesse tempo teve uma piora psicológica drástica. Hoje, em terapia com uma mulher negra, ela vem tratando o que viveu fora e dentro do processo terapêutico, com mais acolhimento em relação às suas questões raciais. 

    Joyce e Ana não foram as únicas vítimas de situações como essas com terapeutas não negros. Estudiosos sobre saúde mental e população negra têm apontado as violências que podem acontecer quando o psicólogo não tem letramento racial.  No estudo “Psicoterapia, raça e racismo no contexto brasileiro: experiências e percepções de mulheres negras”, todas as entrevistadas manifestaram um tipo de afastamento de uma parceria racial com a terapeuta negra e temor de não ser entendida pela terapeuta branca. Uma das entrevistadas continha-se quanto a levar à terapia suas vivências de racismo: “[…] eu não vou nem discutir isso com ela porque ela [terapeuta branca] não vai me entender”. 

    A psicóloga e especialista em Psicoterapia racializada e Terapia cognitiva comportamental, Cláudia Sales, considera que a saúde mental de pessoas negras precisa ser abordada com o reconhecimento de que a dor racial existe. Sem isso, a terapia reforça a violência em vez de curar. O trauma racial, definido pela psicóloga americana Joy DeGruy como o impacto cumulativo do racismo sobre a psique, é um elemento muitas vezes ignorado em abordagens terapêuticas tradicionais. Nesse raciocínio, é uma reação a experiências de racismo, incluindo violências e humilhações, também podendo ser chamado de estresse traumático baseado na raça.

    Quando a saúde mental da população negra é discutida, é necessário pensar nos atravessamentos que consiste ser uma pessoa negra no Brasil. Segundo Cláudia, o mito da democracia racial no Brasil contribui para que muitas pessoas negras demorem a reconhecer sua identidade racial ou para que percebam como o racismo interfere em suas vidas. Esse desconhecimento, somado ao despreparo de muitos profissionais, pode resultar em diagnósticos equivocados ou abordagens ineficazes.

    Ao atender pessoas negras diariamente, a psicóloga observa que relatos de pacientes mostram que um terapeuta sem letramento racial pode reforçar o peso do racismo estrutural, sendo ineficaz no acolhimento. A importância de um processo terapêutico com letramento racial está em se debruçar tanto nas questões subjetivas da pessoa quanto nas sociais, fazendo com que o paciente entenda de onde vem essa insegurança. “Pessoas negras sentem que só podem falar coisas que pessoas brancas querem ouvir. Falas autônomas não são bem-vindas”, explica Cláudia. Essa tendência pode também ser agravada ou atenuada conforme a condução do profissional. 

    Quando não é analisado de acordo, o recorte racial pode ter impactos profundos e prolongados na vida de uma mulher negra. A insegurança dessa parcela da população pode ser reduzida a um caso simples de baixa autoestima, como o caso de Joyce, ou a comportamentos como o “fenômeno da impostora”, que é quando a pessoa acredita que não tem conhecimento ou autoridade para falar de determinado tema, mesmo tendo total condições. Ao diagnosticar erroneamente uma questão sistêmica como um problema individual, a mulher negra pode ser responsabilizada por sua própria dor, o que reforça narrativas de autossuficiência e culpa. Em vez de enxergar que a sociedade é estruturada de maneira a diminuir sua voz, sua presença e sua legitimidade, ela pode internalizar a ideia de que precisa simplesmente “se esforçar mais”, “acreditar mais em si mesma” ou “superar suas inseguranças”, ignorando os fatores externos que a colocam nessa posição de vulnerabilidade. 

  • Saúde: direito ou privilégio?

    Saúde: direito ou privilégio?

    O Consultório na Rua atende a população em situação de rua que não tem acesso a Unidades de Saúde

    Um a cada mil brasileiros não tem acesso à moradia. De acordo com pesquisa do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) de 2023, são 236.400 pessoas vivendo em situação de rua no país. Como os outros cidadãos do Brasil, elas têm direito ao acesso à saúde. Porém, esse direito não é atingido no dia a dia dessa população. Às vezes, a pessoa tem o atendimento negado, por estar suja ou com mal cheiro, ou apenas por se encontrar nessa situação. Na prática, o serviço que deveria ser universal não atende todos os cidadãos.

    Foi a partir da análise deste cenário que o Consultório na Rua (CnaR) foi criado pelo Governo Federal, em parceria ao SUS, visando ampliar o acesso da população em situação de rua aos serviços de saúde. O programa é formado por uma equipe multidisciplinar de enfermeiros, médicos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e psicólogos, que acolhem e oferecem tratamento a pessoas em situação de rua. Os profissionais trabalham de maneira itinerante, apoiando-se nas unidades de saúde quando há necessidade. Porém, nem sempre esse apoio é efetivo.

    A maioria do atendimento é realizado na rua. Entretanto, em casos em que há a necessidade de realizar um exame em local privado, a equipe depende das unidades de saúde para concluir o tratamento. Contudo, a assistente social Franciely Pereira, que atua no CnaR, aponta que algumas unidades chegam a negar atendimento para essa população. Isso vai contra a lei do SUS (lei 8.080/90), que estabelece que o acesso à saúde é um direito de todos. Esse direito está sendo negado.

    Essas negativas são ancoradas na discriminação em relação ao mau cheiro ou à falta de documentação. Justamente por lidarem com essa realidade diariamente, muitas pessoas em situação de rua se privam de acessar as unidades, porque sabem que serão julgadas ou que terão o tratamento recusado. “A população não vê as pessoas em situação de rua como seres humanos”, critica a assistente. A partir disso, essas pessoas dependem do Consultório na Rua como único meio de acesso à saúde, já que não têm acesso às UBSs.

    O CnaR trabalha tanto os aspectos médicos e de acesso à saúde médica quanto o apoio social – encaminhamento a abrigos e contato com familiares, por exemplo –, realizando uma abordagem adaptada às necessidades do paciente. Como muitos não sabem ler, por exemplo, a equipe faz a receita médica desenhada, e explica as partes do tratamento de acordo com o nível de conhecimento dos pacientes. “A gente lida com eles como qualquer pessoa. Com eles eu falo de igual para igual”, cita a doutora Thielly Guerra.

    A prescrição de medicamentos também é modificada, priorizando remédios que são tomados apenas uma vez, como o benzetacil. Thielly explica que a pessoa pode continuar consumindo álcool ou drogas, mas ainda é melhor tratar o paciente do que correr o risco de desenvolvimento de uma infecção ou sépsis. “Na condição deles, a gente pesa o que é melhor: tomar o antibiótico sabendo que vai beber, ou não tomar e ter uma infecção que pode se agravar”.

    Franciely destaca que o projeto foca no acolhimento qualificado dessas pessoas. Além do acompanhamento médico, o CnaR realiza encaminhamentos para abrigos ou para o Centro POP e entra em contato com familiares da pessoa quando necessário. “A gente faz essa escuta ativa e esse acolhimento, não é apenas uma mera conversa que você teria com um amigo.” Assim, a equipe consegue algumas vezes convencer o paciente a deixar de consumir álcool, por exemplo, em casos de tratamento de gestantes. “É uma negociação diária”, adiciona Thielly.

    Os profissionais contam também com a ajuda da comunidade, para que o tratamento da população em situação de rua seja bem-sucedido. Em alguns casos, a equipe do CnaR faz um combinado com donos de comércios locais: o paciente realiza algum serviço para o dono do estabelecimento – arrumar mesas, por exemplo –, em troca de dinheiro ou de um local para guardar os medicamentos. “Eles têm uma rede de apoio, que é um dono de uma loja que abre todo dia, e a gente deixa o remédio com eles”, explica a doutora. Redes de apoio como essas são construídas para garantir o tratamento eficaz do paciente.

    As funcionárias trabalham diariamente contra o preconceito, mostrando que não há razão para um julgamento negativo sobre a população em situação de rua. Thielly conta que em seu primeiro dia de trabalho seus colegas acharam que ela foi corajosa ao não ter medo de entrar na cabana de um dos pacientes para examiná-lo. Entrar no local geralmente é necessário para o tratamento, e ela diz que não entende a barreira que as pessoas criam em relação a pessoas em situação de rua. “Medo de quê? Para mim foi algo natural, eu até sinto mau odor, mas não é algo que me impeça e não deveria me impedir de atuar”.

    Atualmente, o Consultório na Rua é a única forma de acesso das pessoas em situação de rua à saúde, já que eles não são recebidos na maioria das unidades. Apesar dos vários benefícios do CnaR a essa população, Thielly e Franciely frisam que ele é uma solução temporária, e que o ideal seria que as unidades de saúde realmente acolhessem essa população. “Deveria existir um mundo em que qualquer pessoa poderia acessar uma unidade de saúde”, reforça Thielly.

  • Um negócio de 20 bilhões

    Um negócio de 20 bilhões

    Novos cursos de medicina expõem qualidade duvidosa da formação dos profissionais


    Ao entrar em uma sala de aula e fazer a pergunta “quem quer fazer medicina?”, provavelmente grande parte das mãos serão levantadas. Em 2022, foram 41,7 candidatos por vaga no curso da Ufes. Mas essa relação pode chegar a números maiores, como aconteceu em 2018, na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em que foram contabilizados 312,7 candidatos por vaga. A crescente procura pelo curso vem se tornando um campo de grandes investimentos por parte das faculdades particulares. 

    Em 2024, dois novos polos de ensino voltados para a formação médica foram inaugurados na Grande Vitória. Dados da pesquisa Demografia Médica da Faculdade de Medicina da USP e da Associação Médica Brasileira (AMB) mostram que uma vaga em um curso particular de medicina vale 2 milhões de reais para a instituição de ensino. O estudo expôs também que, em 2022, as escolas médicas privadas do país teriam capacidade de gerar uma receita total de 20,9 bilhões de reais. 

    Mas, para além dos grandes lucros, serão formados grandes médicos? A alta demanda pelo curso pode ser uma solução para a falta desses profissionais em diversas cidades do Espírito Santo? 


    Nas salas de aula e consultórios

    Conforme o Censo da Educação Superior, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o percentual de ocupação das vagas em escolas médicas em 2023 foi o mais alto entre as graduações do país. Foram 96,6% de vagas preenchidas nas instituições públicas de ensino e 94,6% nas privadas. Isso significa que, em uma sala de aula do curso, quase todas as carteiras estão ocupadas. 

    Por outro lado, a Demografia Médica de 2024, realizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), revela que Vitória é a capital com a maior densidade de médicos em todo o país. Nela, a cada mil habitantes, existem 18,68 médicos. Já no interior do Espírito Santo, a densidade é de 2,22 médicos por mil habitantes. É com base nesse cenário que duas faculdades particulares da Grande Vitória anunciaram seus novos cursos de medicina. 


    Grande demanda, mais vagas

    Até abril de 2024, o Estado tinha oito polos acadêmicos que possuíam escolas de medicina, sendo um público e os outros sete privados. Mas, a partir da metade do ano, esse número aumentou: agora, são nove centros com o curso. 

    A graduação de medicina da Faesa, centro universitário particular, recebeu um investimento de aproximadamente 23 milhões de reais. Somente a inscrição para fazer o vestibular do curso chega a 550 reais. Uma breve busca no site da instituição aponta também que as mensalidades do curso de medicina custarão 9.985 mil reais. Cada turma contará com 60 vagas: 50 para candidatos concorrendo na ampla concorrência e 10 vagas destinadas a candidatos cotistas (não especificadas). Apesar dessas informações, o site da Faesa não deixa claro se o novo curso vai aderir ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) ou às bolsas do Programa Universidade para Todos (Prouni). 

    O foco da escola de medicina dessa instituição é a educação em saúde digital, como revelam dados de seu site, desenvolvendo uma formação em “[…] serious game, gamificação, realidade virtual e aumentada, Homem Virtual”. Mas, não deixa claro do que se trata todos esses termos, nem como eles são aplicados na medicina moderna. A equipe do Primeira Mão entrou em contato com a Faesa, mas até o fechamento desta reportagem a instituição não se manifestou sobre as questões levantadas. 

    Já na Faculdade Multivix, a novidade é o polo acadêmico de medicina em Cariacica. Informações divulgadas no site da instituição de ensino mostram que foram destinadas 57 vagas para ampla concorrência e 3 para cotas (nesse caso, pessoas com deficiência, renda ou estudantes de escola pública). A mensalidade do curso custa 8.990 reais. Além disso, o site não deixa claro qual será o hospital-escola do campus de Cariacica. 

    A portaria 13/2013 do Ministério da Educação (MEC) associa a abertura de novos cursos médicos à existência de um hospital de ensino. Eles não são obrigatórios; mas, de acordo com o MEC, são essenciais para a vivência prática do estudante e para a sua formação completa.

    Enquanto algumas instituições constroem novos polos, outras optam por superlotar as salas de aula. Em nota divulgada nas redes sociais, o Centro Acadêmico de Medicina da UVV denunciou a abertura de mais de 100 vagas em cada turma, em um espaço físico no qual somente dois auditórios comportam esse número de alunos. 

    O grande número de estudantes por turma desencadeia uma série de problemas, como tempo de aulas reduzido e falta de materiais básicos para todos, como luvas e linhas de suturas. Ademais, o curso de medicina na UVV não conta com hospital-escola. Enquanto isso, a instituição estima investir até R$ 100 milhões na construção do novo polo em Linhares, para a inauguração de uma nova escola médica.


    Mercantilização do ensino

    Para os alunos de diversos cursos de medicina do estado, tanto públicos quanto privados, a abertura de novas escolas médicas, da forma  que vem ocorrendo, é motivo de repúdio. A diretora do CA de Medicina da Emescam, Carolynne Rigoni, ressalta o descaso das instituições de ensino com os cursos que já existem. “As diretorias negam os pedidos básicos dos alunos, enquanto abrem outras escolas. O que importa, no final, é ter 100 alunos entrando e reduzir os gastos”, critica. 

    Rigoni destaca que “ter mais médicos não significa melhorias no sistema de saúde, e a interiorização proposta pelo Programa Mais Médicos nos mostrou isso.” Para ela, uma das soluções possíveis seria o aumento das vagas dos cursos de medicina nas universidades federais. 

    A presidente do DA de Medicina da Ufes, Helena Napoli, afirma que o aumento das escolas médicas é um reflexo da comercialização da educação. “Esses cursos não têm a estrutura mínima necessária para uma formação completa. Isso tudo vai muito além do que um aumento de oferta, é resultado de um processo de mercantilização do ensino”, cita. Ela completa ressaltando a importância de uma reflexão sobre as reais dificuldades. “A questão não é a alta demanda nem o número de médicos formados, mas sim a falta de médicos no interior, de especialistas, no atendimento a atenção básica da saúde e outros.”


    CRM é contra 

    O CFM criou o Sistema de Acreditação de Escolas Médicas (SAEME-CFM), que funciona como um selo de qualidade das formações médicas do Brasil. Atualmente, o Espírito Santo conta com nove escolas de medicina; dessas, apenas duas possuem o selo SAEME. Nenhum dos dois cursos que foram inaugurados neste ano possui essa qualificação. Eles também não possuem hospital-escola ativo, como é exigido pelo MEC.

    O presidente do Conselho Regional de Medicina do ES (CRM-ES), Fernando Tonelli, destaca que o órgão, em momento algum, foi consultado pelas instituições particulares de ensino na montagem dos novos cursos. Tonelli afirma também que o CRM, assim como o CFM, é contrário à abertura de mais escolas médicas da maneira como vem ocorrendo. Para ele, a boa formação dos alunos e a adequação ao cenário da saúde de cada região são fatores que estão sendo constantemente ignorados.


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