Possíveis causas, escândalos e a luta pela transparência no esporte.
Erros de arbitragem, gol contra, falhas de goleiros e outros equívocos, são situações corriqueiras no futebol. Afinal, são atitudes naturais de seres humanos que desempenham uma atividade na qual, inevitavelmente, estão sujeitos a cometer falhas. Contudo, com o crescimento da presença das casas de apostas esportivas no mundo da bola, eventos como esses passaram a ser observados com desconfiança. Isso se dá pela possibilidade de corrupção entre atletas envolvidos em esquemas que buscam beneficiar tanto apostadores, quanto a si mesmos.
Especialmente no contexto brasileiro, os nossos campeonatos enfrentam uma crise de integridade, com sucessivas acusações desde os campeonatos menores e menos midiáticos até as grandes partidas da divisão de elite. A operação “Penalidade Máxima”, do Ministério Público de Goiás, descobriu e condenou integrantes de uma rede de manipulação de resultados. A investigação desempenhou um papel relevante não só para o combate ao crime organizado no esporte, mas também para o fortalecimento da transparência dos campeonatos envolvidos nos esquemas fraudulentos.
Em parte dos casos denunciados, o apostador entra em contato com o atleta e faz uma proposta para manipular alguma ação em uma partida específica, visando obter lucro por meio das odds oferecidas pelas casas de apostas. As odds funcionam como um fator de multiplicação, que varia conforme a probabilidade de um evento ocorrer — quanto menor a probabilidade de um resultado, maior será a odd e, consequentemente, o retorno financeiro em caso do cumprimento da meta.
Comportamentos antiéticos
Diante disso, surge o grande debate: o que leva um atleta, que ganha significativamente mais do que a média da população, a colocar em risco toda a sua carreira pela promessa de ganhar mais dinheiro? A psicóloga Deborah Ível, pós-graduanda em neurociências do comportamento, afirma que essas atitudes podem ser motivadas pela expectativa de alcançar um estilo de vida que, em tese, pode ser proporcionado pelo dinheiro.
“A normalização de manipulação de resultados pode reforçar comportamentos antiéticos, com atletas justificando suas ações ao verem outros fazendo o mesmo. Do ponto de vista neurológico, promessas de ganhos financeiros ativam o sistema de recompensa do cérebro, o que dificulta a análise crítica e aumenta a vulnerabilidade do atleta à manipulação”.
O ser humano no geral tem a tendência de buscar o benefício próprio pelos caminhos mais fáceis, que muitas vezes nos leva a cair em situações antiéticas e até mesmo, criminosas. No Brasil existe até mesmo um nome para isso: o chamado “jeitinho brasileiro”. Quando a falta de honestidade é revelada, as punições para atletas do mundo da bola são historicamente brandas para os mais diferentes casos, não só por parte da justiça desportiva. Podendo citar os casos do Marcinho (Ituano), Renan (Shabab Al-Ahli), o técnico Cuca (sem clube), entre outros exemplos de personalidades da bola que se envolveram em crimes e continuam atuando normalmente.
Em relação à impunidade em casos de apostas no Brasil, um exemplo recente envolve o jogador Alef Manga, hoje atleta do Avaí. Após cumprir uma suspensão de 360 dias, ele retornou aos campos e voltou a marcar um gol, apesar de ter sido condenado por envolvimento em um escândalo de manipulação de resultados, por ter tomado um cartão amarelo intencionalmente. Essa versão tem uma estrutura mais clara e fluida. Esse tipo de situação merece ser amplamente questionada, pois transmite a mensagem errada aos atletas, especialmente aos de menor expressão, de que vale a pena se envolver com a corrupção, já que ainda não há punições severas para esses casos.
Isso reforça a necessidade urgente de uma regulamentação mais rigorosa sobre as casas de apostas esportivas no Brasil. O advogado Lorenzo Matos defende que um modelo de compliance seria essencial para reduzir ocorrências suspeitas, com a criação de um órgão controlador independente. “Esse órgão seria responsável por exigir transparência das contas virtuais dos apostadores nas casas de apostas e das contas das próprias casas de apostas. Somado com um setor responsável pela fiscalização das apostas suspeitas e na fiscalização de patrocínio para times e jogadores de futebol”, afirma.
Credibilidade das casas de apostas
As casas de apostas, como principais prejudicadas pelos escândalos de manipulação de resultados, têm se movimentado para recuperar sua credibilidade, investindo em campanhas publicitárias que atestam a confiabilidade e a transparência de seus serviços. No entanto, apesar dessas iniciativas, é essencial que as autoridades estabeleçam uma regulamentação mais rígida e eficaz para garantir que o setor seja devidamente fiscalizado e que práticas fraudulentas sejam punidas com severidade.
Somente por meio de uma abordagem robusta e coordenada entre casas de apostas, clubes, atletas e entidades esportivas e poder judiciário será possível minimizar os casos de corrupção no futebol. Isso garantirá que o esporte continue refletindo ética, dedicação e respeito.