Entre cineclubes, festivais e apoio institucional, o Espírito Santo se destaca como celeiro de novas vozes e olhares que transformam o audiovisual nacional.
A produção audiovisual capixaba tem se consolidado como um dos principais instrumentos de expressão cultural do estado. As obras se destacam em curta-metragens, embora a produção de longas tenha crescido nos últimos anos, impulsionada por editais públicos, festivais e laboratórios de desenvolvimento. O cenário é marcado pela diversidade de gêneros, com forte presença de dramas sociais, documentários e produções que exploram questões identitárias e territoriais, como cultura periférica, negritude, gênero e pertencimento.
A circulação dessas produções acontecem principalmente por meio de festivais locais e nacionais, como o Festival de Cinema de Vitória, a Mostra de Cinema de Tiradentes, o Festival de Brasília e o Cine PE. Muitos também são exibidos em cineclubes, mostras universitárias, plataformas de streaming independentes, e em projetos de itinerância cultural pelo interior capixaba.
Intitulado o maior evento audiovisual do estado, o Festival de Cinema de Vitória traduz a importância de eventos que reforcem o protagonismo do cinema capixaba e nacional. Mais do que exibir filmes, o tradicional evento cinematográfico “estimula a formação de plateia para o cinema brasileiro, através do lazer e da cultura, democratizando o acesso e o espaço de todos pela sétima arte e, desta forma, aproximando capixabas e turistas numa grande festa do audiovisual produzido no Brasil”, afirma o festival.
A democratização do acesso é uma diretriz essencial para iniciativas como o Movimento Cidade, que atua como um festival de artes integradas com entrada gratuita, por exemplo. “Entendemos que é muito importante a aderência de novos públicos às linguagens do audiovisual, que são cada vez mais múltiplas e dinâmicas. Como somos um festival gratuito e realizado com recursos da Lei de Incentivo à Cultura, a acessibilidade dos conteúdos e a democratização do acesso são itens fundamentais”, explica a assessoria do projeto.
A curadoria do Movimento Cidade também faz questão de valorizar as produções capixabas. “Por sermos um Festival nascido no Espírito Santo, na curadoria, as produções locais são sempre prestigiadas. Em anos anteriores, realizamos a Mostra Cena Capixaba, 100% focada em filmes locais”, completa. Com uma programação diversa e aberta a todas as linguagens artísticas, a produtora cultural atua de forma estratégica na valorização da identidade regional por meio da arte.
Vale lembrar que esse movimento de valorização cultural tem forte apoio institucional no estado. O curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) desempenha papel decisivo no desenvolvimento do setor audiovisual capixaba. Os universitários entram pelas portas da instituição com um único sonho e saem como jovens talentos da cinematografia.
Para Maria Vitória Mourenço, atriz e cineasta pela Universidade Federal do Espírito Santo, o audiovisual é uma ferramenta poderosa justamente por sua capacidade de tornar temas complexos acessíveis. “Um bom filme consegue alcançar tanto quem já entende do assunto quanto quem nunca nem ouviu falar sobre aquilo”, declara a cineasta. A cultura, especialmente por meio do cinema, cumpre um papel essencial: preservar a memória, provocar o pensamento crítico e promover o sensível, muitas vezes invisível aos olhos.
Apesar dos avanços no setor audiovisual, o acesso ao cinema ainda enfrenta um obstáculo significativo: quase 40% da população brasileira vive em municípios sem salas de exibição. Até 2018, segundo dados do IBGE, 39,9% dos brasileiros residiam em cidades que não contavam com sequer uma sala de cinema. Esse cenário evidencia uma profunda desigualdade no acesso não só ao cinema, mas também a outros equipamentos culturais, como museus e teatros. A pesquisa do Sistema de Informações e Indicadores Culturais mostra que essa exclusão cultural varia de acordo com fatores como sexo, cor ou raça, faixa etária e nível de escolaridade, reforçando barreiras estruturais que ainda limitam o pleno exercício dos direitos culturais no país.
A falta de acessibilidade cultural não é apenas uma lacuna no entretenimento, é uma exclusão que afeta diretamente o desenvolvimento humano, social e econômico. O impacto do acesso ao cinema vai além da formação de cidadãos engajados. Ele permite que novas narrativas ocupem as telas, dando visibilidade a histórias, rostos e realidades historicamente marginalizadas. “Ver filmes feitos por capixabas muda muita coisa, principalmente o olhar que a gente tem sobre nós mesmos e sobre o lugar onde vivemos. Quando a gente se vê representado nas telas, nas histórias, nos sotaques, nos cenários que reconhece, a sensação é outra. Dá um orgulho, cria uma conexão que vai muito além do entretenimento. É como se alguém dissesse: ‘isso aqui também importa, também merece ser contado’. E mais do que isso, esses filmes mostram pro resto do Brasil que o Espírito Santo existe, tem cultura, tem artistas, têm histórias potentes pra contar’”, destaca Maria Vitória.
As mudanças no mundo do trabalho, a redução da oferta de vagas e os processos de formação geram mais insegurança para quem conclui o ensino superior.
Ciclos sempre se encerram. A faculdade, no início, é um novo mundo. Encontramos liberdade, maturidade e o desejo de sermos bem-sucedidos naquilo que cursamos. Mas, após anos dedicados a estudos intensos, noites mal dormidas, avaliações e projetos, a principal meta do formando é construir uma carreira sólida. Entretanto, essa expectativa, compartilhada por muitos universitários, muitas vezes não condiz com a dura realidade: o mercado de trabalho é dinâmico e, nem sempre, oferece vagas para todos.
Segundo uma pesquisa realizada em 2021 pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), uma organização que conecta estudantes a vagas de estágio e aprendizagem, menos de 15% dos recém-formados em 2019 e 2020 conseguiram emprego na sua área de formação nos três primeiros meses após a formatura. Com um mercado de trabalho em mudanças constantes, relações de trabalho mais fluidas e postos de trabalho precarizados, exercer uma profissão pode ser um desafio.
Graduanda em Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Karen Telles compartilha a vontade de não ser mais uma estagiária, mas teme integrar o mapa do desemprego. “Aqui no estado existem muitas vagas de estágio, mas pouquíssimas com carteira assinada, o que torna angustiante estudar por quatro anos sem a certeza de conseguir um emprego na área”, afirma. Um semestre antes de se formar, ela lamenta a falta de preparação da própria universidade para o mercado de trabalho: “Nós somos muito mais direcionados para o meio acadêmico, com disciplinas muito teóricas e pouco práticas, sem sabermos qual a realidade dos empregos.”
Outros jovens têm se deparado com a mesma aflição. Dados levantados pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) mostram que a cada 10 graduados no Brasil, apenas um encontra emprego formal compatível com seu diploma. Recém-formada em Psicologia pela Multivix, Izabelly de Oliveira passou os anos de graduação alternando os estudos com a necessidade de trabalhar para se sustentar, o que apresentou dificuldades na procura por vagas.
“O único estágio que fiz foi o clínico, na faculdade. Como precisava trabalhar durante o dia, e estudar à noite, não consegui fazer um estágio, que muitas vezes oferecia um valor muito baixo, e insuficiente para me manter. Hoje, sinto a falta que esse estágio faz no meu currículo.”
As experiências de Karen e Izabelly revelam diferentes faces de um mesmo obstáculo: a distância entre a formação acadêmica e as oportunidades reais de trabalho.
Mas não é só isso. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 40% dos jovens do país não exercem atividades para as quais se especializaram. O trabalho como motorista de aplicativo, que bancou a faculdade de jornalismo do Felipe Sousa, hoje virou o sustento dele. Formado há quatro anos, ele ainda não conseguiu uma vaga na área. “Se eu falar para você que eu estou satisfeito com o aplicativo, eu estou mentindo. Mas hoje eu entendo que o aplicativo é uma oportunidade também de eu pagar minhas contas. Eu não posso viver de sonho só. Continuo sonhando e correndo atrás do que eu quero e vou chegar lá, mas eu entendo que o aplicativo hoje trabalha com a minha realidade”, relata Felipe Sousa, jornalista e motorista de aplicativo.
Seus relatos escancaram uma verdade incômoda, o diploma, por si só, já não é sinônimo de garantia profissional. Enquanto essa desconexão persistir, muitos jovens continuarão saindo da universidade com sonhos nas mãos, mas com o futuro envolto em incertezas. Mas nem tudo está perdido. Para a psicóloga especialista em recrutamento Flávia de Oliveira, após os períodos de dificuldade, uma oportunidade sempre aparece. “A paciência é a chave. Às vezes só precisamos de tempo para que uma chance apareça diante de nós.”“É importante continuar pesquisando, se candidatando e se aprimorando. Um curso adicional, uma pós, qualquer adição no currículo é importante, mas não podemos desistir”, completa a psicóloga.
A comunidade de Vila Esperança, em Vila Velha, nasceu em 2016 como um projeto para garantia de moradia digna e combate aos altos custos dos alugueis de imóveis. Desde então, os moradores constroem casas, planejam ruas, criam vínculos comunitários e trabalham para que o local seja um espaço não somente de moradia, mas também de prosperidade social.
Houve diversas tentativas de expulsão da população de Vila Esperança, movidas por escancarados interesses industriais e imobiliários. A Prefeitura de Vila Velha ainda apresenta resistência para reconhecer a região como bairro oficial. Vila Esperança conta apenas com o que a comunidade foi capaz de construir. Sem saneamento básico, rede elétrica e transporte público a permanência no território é somente um dos diversos obstáculos a serem superados.
Mesmo diante de um cenário nebuloso, 800 famílias persistem na luta pelos seus lares. A comunidade se mantém unida na esperança de um futuro digno. Segundo Adriana Paranhos (também conhecida como Baiana), coordenadora do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) e Presidente da Ocupação Vila Esperança:
“As crianças de hoje são o futuro da cidade, do amanhã. A gente continua batendo na mesma tecla, o direito de moradia e o direito também de viver com dignidade que não estão tendo. Nós não temos água, não temos acesso a energia. Tudo o que nós temos aqui hoje é improvisado, feito pelas nossas próprias mãos.”
Em um cenário onde um terço dos usuários da internet são crianças, o carisma infantil vira matéria-prima para um novo mercado, movido a publicidade, contratos e a busca incessante por engajamento.
Eduarda Fernandes
As novas gerações parecem já nascer programadas para a vida digital, imersas em um universo onde as telas são extensões de suas vivências. Não é exagero afirmar que parte significativa da infância atual ocorre de forma online, um cenário comprovado por dados de 2023 do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef): um em cada três usuários da internet é criança. Em paralelo, a criação de conteúdo em redes sociais viralizou e tem produzido um volume exponencial de influenciadores, profissão predominantemente adulta mas que hoje já alcança massivamente o público infantil.
Em alguns casos, essa produção de conteúdo ocorre de forma orgânica e natural, como uma genuína brincadeira que reflete os desejos e a individualidade da criança, tendo como principal propósito promover o entretenimento e a conexão entre pequenos de todo o país – e, por vezes, do mundo.
“O brincar é muito importante para o aprendizado da criança, se tornando uma ação capaz de reproduzir a sua vivência diante da brincadeira, possibilitando o processo de sua aprendizagem, facilitando o aperfeiçoamento da criatividade, constituindo desta forma a assimilação entre o brincar e a aprendizagem.” destaca Lacir Mendonça Trombini em sua monografia para conclusão de sua especialização em Educação: Métodos e Técnicas de Ensino na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2012.
Os influenciadores mirins cativaram a internet e desde então realizam publicidades, cumprem contratos e alcançam números elevados de seguidores a partir da expressão do carisma e espontaneidade característica do ser criança.
Embora a digitalização na infância ofereça inegáveis benefícios educativos e comunicacionais, como ferramenta de auxílio na aprendizagem, no desenvolvimento da fala e socialização da criança – segundo uma pesquisa realizada por estudantes de Psicologia da Universidade de Gurupi em Tocantins – é preciso ter cautela para a exposição online dos pequenos.
Diretrizes do ECA
Se para adultos, o mundo virtual já apresenta perigos latentes ao bem-estar e saúde mental do indivíduo, quando incluímos a vulnerabilidade do público infantil é necessário que a busca pela segurança digital seja constante. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) detém diretrizes essenciais para entender os direitos próprios da infância. Aplicados ao contexto virtual, é possível perceber como a expressão artística online se transformou numa categoria laboral.
Conforme artigos acadêmicos, pesquisas científicas e projetos de lei como o PL 2.259/2022 que busca estabelecer regras para o exercício da atividade de influenciador digital mirim, é evidente que essa nova modalidade necessita de urgente regulamentação.
O Art. 149 do ECA exige autorização judicial para trabalho artístico, mas ainda surgem divergências sobre a inclusão dos influenciadores mirins neste grupo. A discussão ainda está tramitando por Tribunais do Trabalho, Câmara de Vereadores e demais instâncias que permitirão encaixar a classe de influenciadores mirins nos contextos trabalhistas para fins artísticos, demandando um alvará para futuras crianças e adolescentes que desejem praticar a profissão.
O documento “O trabalho infantil artístico nas redes sociais: Como a legislação atual pode proteger crianças e adolescentes no ambiente digital?” elaborado pelo programa Criança e Consumo, iniciativa criada pelo Instituto Alana (organização da sociedade civil, sem fins lucrativos), analisa as atividades dos criadores de conteúdo mirins no que tange a legislação brasileira e propõe medidas para a proteção do público infantil.
A análise destaca que no caso dos influenciadores mirins apresenta-se um fator estimulante-compulsório na criação de mídia para a internet. Isso ocorre porque a criança influenciadora deve ser ativa nas redes, interagindo frequentemente com seus seguidores para garantir engajamento, além de ser submetida a gravação de peças de publicidade para empresas anunciantes. Por isso, além de manifestação artística, a atuação da infância na criação de conteúdo requer uma disciplina de trabalho, o que pode gerar sobrecarga de atividades causando danos ao bem-estar da criança.
Neste sentido, o documento reforça que “verificar a existência e promover a realização dos alvarás judiciais são responsabilidades das empresas que mantêm as redes sociais e plataformas digitais, bem como das empresas anunciantes, que auferem lucros com o trabalho dos influenciadores digitais mirins, na medida em que eles atraem novos públicos para as plataformas e as tornam mais atrativas às empresas anunciantes, que, por sua vez, se beneficiam pela divulgação de seus produtos e serviços.”
Pais e responsáveis legais das crianças que atuam no ramo artístico infantil devem procurar a regularização da atividade infantil, visando o bem-estar e os direitos dos menores. No entanto, a ocorrência de casos notáveis de exposição online de crianças e adolescentes, inclusive durante a gestação, pode suscitar um debate significativamente mais extenso sobre os responsáveis pela criação desse conteúdo.
Lua chegou ao Youtube antes de nascer
O maior exemplo de crianças que começaram a ser expostas nas redes antes de nascer talvez seja o de Lua, filha da influenciadora Viih Tube e do seu marido Eliezer, que direcionaram a criação de conteúdo para crianças e famílias através de seus perfis profissionais e de um perfil criado para a pequena.
A conta da pequena de dois anos acumula 2,6 milhões de seguidores e impulsionou a criação da marca TurmaTube, que comercializa produtos infantis e de cuidados maternos. A empresa também assina conteúdos digitais no Youtube e demais plataformas de música e vídeos para imersão do público em um universo lúdico, conectando a marca ao dia a dia das famílias.
Com a chegada de Ravi, segundo filho do casal (hoje com seis meses), mais uma conta pré-nascimento também foi criada e acumula um total de 513 mil seguidores.
Reprodução: alô alô Bahia / Reprodução: Turmatube
Muitas vezes o que ocorre nesta relação administrador de carreira versus pai/mãe, é um natural conflito de interesses. Ao mesmo tempo que desejam proteger suas crianças e procurar o bem estar, também precisam investir tempo e recursos significativos, muitas vezes à custa da própria vida pessoal e profissional, na gestão dessa carreira.
Alguns casos de gerenciamento de carreira por familiares repercutiram em âmbito nacional e internacional, como no caso da atriz Larissa Manoela que tornou público o rompimento com seus pais após alegar falta de acesso e controle sobre sua própria fortuna e contratos construídos desde a infância.
De maneira similar, a atriz estadunidense Jennette McCurdy, conhecida por sua atuação na série iCarly, detalhou em sua autobiografia “Estou Feliz Que Minha Mãe Morreu” os abusos emocionais e físicos sofridos além do controle obsessivo de sua mãe sobre sua carreira e vida pessoal.
É comum que o conflito de interesses seja ainda mais acentuado pela falta de experiência e conhecimento dos pais no ambiente de negócios e contratos. Mesmo com as melhores intenções, eles se vêem agindo como representantes de seus filhos, que são influenciadores mirins, sem a preparação necessária. Isso cria vulnerabilidades, deixando as crianças expostas à exploração tanto por parte das empresas quanto dos próprios locais onde atuam.
“Não podemos culpabilizar as mães e pais pela exploração comercial infantil na internet” disse Maria Mello, coordenadora do programa Criança e Consumo, no painel da RightsCon 2021 – conferência global, realizada online, de 7 a 11 de junho e organizada pelo Access Now (organização sem fins lucrativos), que se concentra nos direitos humanos na era digital.
“Empresas também precisam garantir um ambiente digital seguro para crianças, inclusive para influenciadores mirins”, conclui.
Governos federal e estadual atentos à conexão infância/internet
O trabalho de influenciador mirim pode impactar diretamente a rotina das crianças e adolescentes visto que é necessário equilibrar o tempo de lazer, sociabilidade e educação, com as demandas específicas da criação de conteúdo profissional. Essa sobrecarga pode prejudicar o desenvolvimento físico e psicológico da criança ou adolescente
A Secretaria de Estado de Educação do Espírito Santo (Sedu), informou à Revista Primeira Mão que “embora não haja regulamentação específica no âmbito da educação estadual, compreende que o tema exige atenção dos diversos setores da sociedade. A exposição precoce e intensa à internet pode trazer riscos ao desenvolvimento infantil, motivo pelo qual reforça a importância da orientação familiar, do acompanhamento escolar e da atuação integrada com outras políticas públicas para a proteção dos direitos da criança e do adolescente.”
A Sedu informa que acompanha com atenção os debates sobre o uso de dispositivos digitais por crianças e adolescentes e que considera o guia do Governo Federal como referência para a construção de políticas públicas. A secretaria destaca o programa Ação Psicossocial e Orientação Interativa Escolar (Apoie) como recurso disponível para apoio da comunidade escolar na busca de redução dos impactos do uso de telas na formação dos estudantes.
A Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal criou um grupo de trabalho para a elaboração do documento “Crianças, adolescentes e telas: guia sobre usos de dispositivos digitais”. O guia aborda temas relacionados à imersão da tecnologia na infância, baseado em evidências científicas e pesquisas internacionais, contextualiza o uso de dispositivos digitais por crianças, discute o bem estar digital, apresenta os principais riscos ao excessivo uso de telas, além de propor oportunidades para uma cidadania digital – com foco nas crianças e adolescentes.
O guia também classifica outros riscos online para além do uso excessivo ou problemático das telas e considera a inteligência artificial como um amplificador de riscos já que a tecnologia utiliza quantidades massivas de dados, coletados a cada atividade solicitada e até mesmo nas práticas cotidianas – muitos aplicativos já inseriram a IA em seus softwares para captação de preferências e entrega de algoritmos mais otimizados.
Principais riscos do excesso de exposição a mídias digitais
Impactos na saúde física
Atrasos no desenvolvimento da fala e no desenvolvimento cognitivo na primeira infância;
Sedentarismo e obesidade;
Problemas na visão, como miopia e fadiga visual e mental dos indivíduos;
Consequências negativas na capacidade de raciocínio e de socialização (dificuldade em selecionar, memorizar e ignorar informações, essencial para o processo pedagógico);
Enfraquecimento da atenção e dificuldade em manter o foco;
Dificuldades para dormir e problemas de sono.
Impactos na saúde mental
A vulnerabilidade dos jovens em ambientes digitais deve ser amplamente considerada dado o agravamento de determinadas situações na convivência virtual como:
Exposição a hostilidades e desinformação;
Cyberbullying ou assédio;
Exposição a gatilhos emocionais ;
Comparações autodepreciativas.
Sucesso Capixaba
Em reportagem publicada em agosto de 2023, o portal de notícias Tribuna Online apresentou influenciadoras mirins do Espírito Santo e revelou que grande parte das crianças começou a ter maior contato com a produção de conteúdo durante o ápice da pandemia da covid-19, na quarentena.
Reprodução: Tribuna Online
Nicoly Teixeira Santos é moradora de Laranjeiras, na Serra, tem 6 anos e acumula um total de 23,4 mil seguidores no Instagram. A influencer foi descoberta por produtores de São Paulo e convidada para atuar como Shirley Temple – atriz estadunidense considerada a maior estrela mirim de Hollywood – na série “Aventuras da Emília & Visconde no Sítio”, produzida no Vale do Paraíba e lançada no segundo semestre de 2023.
As redes sociais e a produção de conteúdo da pequena são totalmente administradas por sua mãe, Flávia Teixeira Lima, de 44 anos. Para nossa reportagem, Flávia faz questão de ressaltar a liberdade criativa oferecida à filha, revelando que a iniciativa de produzir vídeos surgiu como uma forma de estimular o desenvolvimento da fala e das habilidades comunicacionais da menina.
Flávia conta que Nicoly sempre foi destaque em todos os lugares que ia, dançava e brincava energicamente, animando o ambiente. Sua facilidade em decorar falas também deu propulsão ao estrelato imediato. Sem prever a magnitude do alcance dos vídeos, a mãe afirma que rapidamente Nicoly foi convidada para fazer provadores, comerciais e ações publicitárias. Ela reforça que os trabalhos realizados nem sempre são pagos em dinheiro, optando pela permuta de serviços e produtos.
Além disso, ela afirma que não possui frequência de postagem e gravação, mas que procura arquivar conteúdos para postagens diárias e manutenção do carinho dos seguidores.
“A Nicoly adora fazer os vídeos dela. Tudo no tempo dela, na hora dela, do jeito dela. Vamos supor que hoje ela quer gravar só stories e aí ela grava só stories, se quiser gravar dancinha ela grava dancinha e tem dia que ela não quer gravar nada. Não é uma coisa que ela tem que fazer todo dia. Inclusive o dia que ela tá muito animada a gente grava dois, três, quatro vídeos, mas o dia que ela não está a gente não grava nada. Não é uma obrigação dela, é um lazer pra ela, é uma forma dela se expressar, comunicar e tirar um pouco a timidez dela.” conta a tutora.
Perigos da exposição
As telas também são limitadas na rotina da influencer mirim. Flávia confessa saber dos perigos ligados à exposição online de maneira excessiva e que deixa a filha navegar nas redes por apenas duas horas, sob tutela e moderação de conteúdo. Com uma energia contagiante, Nicoly divide seu tempo entre diversas paixões: adora brincar de boneca, maquiagem, praticar capoeira, nadar, fazer ginástica e cantar.
No contexto da criação de conteúdo online, ela encontra prazer em atividades como a gravação de dancinhas e stories. Olhando para o futuro, Nicoly revela ambições igualmente versáteis, almejando ser atriz e médica ao mesmo tempo, uma combinação que ela descreve como ‘o máximo’.
“Se amanhã ela não quiser mais fazer videos, estar nesse ambiente digital, de ser influencer, tudo bem, não tem problema nenhum não. Acho que valeu a experiência e pelo menos ela desenvolveu melhor a fala, o jeito de agir e ensinar.” conclui Flávia.
Especialistas alertam para a necessidade de educação midiática
A terapeuta ocupacional Bruna Lidia Taño, especialista em temas como saúde mental e garantia de direitos de crianças e adolescentes, procura entender a infância considerando os aspectos geopolíticos e territoriais que circulam o indivíduo. Para ela, a existência de diferentes realidades infantis e as profundas desigualdades sociais que assolam o país, interseccionadas por recortes de raça, são fatores contribuintes para a criança trabalhar. Além disso a situação é reforçada “por uma organização social muito movida pelo consumo”, analisa.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) comprovam que, inegavelmente, a infância trabalha. Em 2023 pelo menos 1,6 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estavam em situação de trabalho infantil. Bruna também comenta sobre o processo de demonização das telas, aspecto incoerente ao considerar as diferentes realidades das famílias brasileiras. A tela muitas vezes age como um recurso de entretenimento relativamente barato e acessível até para quem se encontra nas classes sociais mais baixas. Para a terapeuta ocupacional, a educação midiática seria a solução mais viável para entender os dispositivos como aliados ao desenvolvimento de crianças e adolescentes – educação esta que atualmente não apresenta circulação eficiente.
O Governo Federal, sob coordenação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM), criou o documento “Estratégia Brasileira de Educação Midiática” para funcionar como um guia e facilitar a promoção da educação em mídias digitais para públicos diversos. Reunindo crianças, adolescentes, adultos e idosos, o documento pretende contribuir para promover “um ambiente digital saudável, plural, diverso e dotado de informações confiáveis e de qualidade, com respeito e proteção aos direitos das pessoas”.
A Educação midiática se apresenta como medida importante de segurança digital, funcionando como uma potente alavanca para reduzir crimes e a exploração de profissionais, especialmente aqueles que atuam na produção de conteúdo. Ela capacitaria os indivíduos que produzem e os que consomem conteúdos digitais, tornando-os mais conscientes e resilientes aos riscos do ciberespaço. Outro pilar importante é a responsabilização das plataformas para que o ambiente das redes digitais seja saudável para todos os públicos.
Como garantir a proteção da infância digital?
Regulamentar e fiscalizar as atividades online
Com o avanço da tecnologia e digitalização do cotidiano desde a primeira infância, é necessário que haja regulamentação e fiscalização vigente para lidar com possíveis riscos no ambiente virtual. Para a proteção de crianças que produzem conteúdo na internet e para aquelas que consomem tais conteúdos devem ser exigidos alvarás judiciais para monetização e para a permissão do trabalho em si.
Além disso, é crucial que essas regulamentações contemplem a supervisão rigorosa do conteúdo, a aplicação de limites claros de tempo de exposição e a promoção de um ambiente seguro que resguarde a saúde mental e o desenvolvimento integral dos menores. A Resolução N° 245 de 5 de abril de 2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) estabelece diretrizes claras para a criação de um ambiente online seguro ao público infantil e que sobretudo tenha como objetivo o desenvolvimento integral dos menores.
Promover uma educação midiática estratégica
Crianças, adolescentes e adultos devem tomar conhecimento do que é o ambiente digital e como ele se movimenta para captação da atenção do indivíduo. Mais do que somente uma medida para a proteção dos jovens, a educação midiática estratégica aplicada a todos os grupos sociais poderá elaborar um senso crítico, reflexivo e espontâneo, capaz de detectar possíveis perigos, golpes ou desinformações.
O documento elaborado pela SECOM destaca que “A Educação Digital compreende o conjunto de competências, habilidades e conhecimentos necessários ao pleno exercício da cidadania na atualidade. Nesse sentido, conecta-se com a Educação Midiática para lidar, de forma crítica, significativa, reflexiva e ética, com o conjunto de informações, comportamentos e práticas sociais no meio digital. Diz respeito também à compreensão e ao desenvolvimento do pensamento computacional, considerando os desafios e oportunidades da era digital, as dinâmicas sociais mediadas e influenciadas pela tecnologia e as transformações no mundo do trabalho.”
Exigir responsabilidade das plataformas e empresas de tecnologia
Todos os atores que de alguma forma lucram com a criação de conteúdo feita por crianças e adolescentes devem passar a exigir alvará judicial para trabalho artístico e trabalhar com os órgãos públicos para garantia de uma profissão segura tanto em termos físicos e mentais quanto em termos econômicos e contratuais. Agências, anunciantes e plataformas devem primeiramente zelar pela integridade e interesses que promovam o bem-estar da criança, mesmo que isso signifique maior regulamentação e fiscalização de suas atividades – o que naturalmente se torna um ponto de conflito para empresas focadas no lucro obtido pelos influenciadores mirins.
Neste sentido, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES) foi contatada para expressar seu posicionamento regional sobre o tema. A instituição revelou que a decisão de trabalhar com influenciadores mirins tem sido autônoma dos empresários, evidenciando a necessidade de uma discussão mais aprofundada sobre o assunto.
“Como se tratam de ações individuais dos comerciantes – eles decidem se contratam ou não, de acordo com seu planejamento –, acreditamos que o mais interessante é estabelecer contato com os próprios empreendedores que utilizam essas estratégias. Por ora, não temos nenhum estudo aqui na Fecomércio que trate do tema ou alguma fonte especializada em estratégias de marketing sobre a questão dos influenciadores mirins” destaca representante de comunicação da Federação.
Essa responsabilidade se estende também à proteção das crianças que estão do outro lado da tela. Segundo o documento elaborado pelo programa Criança e Consumo já citado anteriormente “De mesmo modo, a fim de resguardar as crianças espectadoras e seus direitos, é igualmente fundamental a atuação dos diversos atores para impedir, em absoluto, a concessão de alvará judicial para participação de crianças em campanhas publicitárias que visam o direcionamento de mensagens comerciais diretamente ao público infantil, diante de sua abusividade e, portanto, ilegalidade.”
Zelar pela saúde mental e bem-estar da criança no ambiente digital
O desenvolvimento de campanhas que estimulem a denúncia de perigos no ambiente online por meio de canais já existentes e daqueles criados especificamente para este propósito, deve ser constantemente pautado, tanto nas esferas públicas quanto nos setores privados. A segurança das crianças brasileiras depende não somente de seus pais ou de institutos ligados aos direitos infantis.
Proteger a infância dos perigos lascivos que circulam nas telas deve ser uma responsabilidade de todos os atores sociais, que precisam atuar de forma colaborativa para monitorar o tempo de tela, promover o equilíbrio entre atividades online e offline, e estar atentos aos sinais de sofrimento psicológico decorrentes da exposição digital. É essencial que o ambiente virtual seja um espaço que promova o desenvolvimento saudável, e não um gerador de ansiedade, depressão ou outras questões de saúde mental que afetem o bem-estar dos menores.
Estimular o engajamento multissetorial e a criação de políticas públicas
Segundo a Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) é importante que o Governo Federal continue desenvolvendo pesquisas, guias, estratégias e políticas públicas que sejam eficientes na proteção da infância digital. Isso implica em articular a colaboração entre todos os atores sociais: empresas de tecnologia, agências de publicidade, órgãos de defesa do consumidor, instituições de ensino, organizações da sociedade civil e, claro, as famílias.
A criação de fóruns permanentes de discussão e a adaptação contínua da legislação são cruciais para que as políticas públicas acompanhem a rápida evolução tecnológica e garantam um ambiente digital seguro e propício ao desenvolvimento saudável das crianças. Somente com um esforço coordenado e um compromisso compartilhado será possível construir um futuro digital onde os direitos e o bem-estar da infância sejam prioridade.
No Galpão das Paneleiras a cultura se mistura com a tradição e a sobrevivência. Na entrada do espaço, dois cachorros se banham no sol da manhã enquanto lá dentro se inicia o dia de trabalho. Moldando panelas, definindo o formato com uma pedra lisa, pisando o barro com os pés para tornar a argila homogênea, queimando panelas na fogueira e amassando as cascas da Rhysophora mangle, o mangue vermelho, para fazer o tanino – pigmento que dá a coloração escura as peças.
Por mais de cinco décadas, Berenicia Corrêa Nascimento transformou o barro em cultura, resistência e sustento. Aos 68 anos, ela carrega no ofício de paneleira um legado familiar que atravessa gerações: é filha, neta e bisneta de paneleiros. “A minha bisavó provavelmente também era paneleira”, conta, com um sorriso no rosto.
Sua história com o barro começou cedo, aos nove anos, quando fazia pequenos brinquedos de argila. Aos 11, se profissionalizou, incentivada pelos compradores da época. “Eles levavam o que a gente fazia, mesmo que não fosse perfeito”, relembra. Desde então, nunca mais largou o ofício. São 55 anos dedicados à confecção da tradicional panela de barro capixaba um patrimônio cultural e imaterial do Brasil. Hoje, além de artesã, Berenicia é presidente da Associação das Paneleiras de Goiabeiras, e já somam 15 ou 16 mandatos ininterruptos, como ela mesma calcula. “Este ano tem eleição de novo, e sou uma das candidatas. Não quero largar pela metade o que comecei.”
Luto e superação
A trajetória de Berenicia é marcada também por perdas e superações. Aos 11 anos, viveu um dos episódios mais difíceis da vida: perdeu o pai, de maneira súbita, enquanto retiravam barro no Barreiro do Vale do Mulembá, local de extração da matéria-prima essencial para as panelas. “Meu pai nunca gostava de me levar, mas um dia ele me chamou: ‘Berenicia, vamos comigo’, achei até estranho. Lá, ele começou a cavar o barro, e de repente parou. Se sentou, me chamou perto e falou ‘Eu tô passando mal’, deitou debaixo de uma árvore e faleceu ali, na minha frente.”
Naquela época, a mãe de Berenicia havia falecido há apenas nove meses, vítima de câncer de mama, após lutar por um tempo contra a doença. Com a perda dos pais, a família, composta por sete irmãos, se dispersou. “Cada um foi pra casa de uma tia, da avó, da madrinha…Saímos do nosso lugar”. Anos depois, já casada, Berenicia voltou para o mesmo quintal onde os pais moravam e criou sua família ali, ao lado de irmãos e irmãs. Casada há 49 anos, ela segue vivendo no mesmo espaço, hoje compartilhado com familiares que também vivem da produção das panelas.
Sobrevivência, tradição e resistência
A panela de barro sempre foi, para ela, mais do que uma tradição: uma forma de sobrevivência. “Na nossa infância, éramos a família mais pobre de Goiabeiras. Se almoçássemos, não tinha janta. Às vezes, minha avó mandava uma marmita pra dividir entre oito.” Mesmo diante das dificuldades, aprendeu o ofício e continuou o legado de sua família. “O legado que meus pais deixaram pra gente foi esse: fazer panela.”
Entretanto, Berenicia lamenta, com um semblante triste, a falta de valorização do trabalho das paneleiras. “As pessoas vêm comprar a panela, tiram foto, acham bonito, mas não valorizam quem está atrás do balcão, quem faz com as próprias mãos.” Ela destaca que a política pública muitas vezes se resume a ações simbólicas, sem apoio real. “Na pandemia, mandaram fechar o galpão por seis meses. Ninguém veio perguntar se a gente precisava de alguma coisa. Como iríamos sobreviver?”A comunidade resistiu como pôde: com doações, ajuda mútua e muita luta. “A prefeitura mandou algumas cestas, conseguimos um projeto de máscaras, mas foi muito difícil.”
Um patrimônio esquecido
Na baia ao lado, uma das mulheres molda panelas enquanto um cachorro dorme próximo aos seus pés. Curioso com a presença de uma visita incomum, ele se aproxima mas logo vai embora. Apesar do reconhecimento formal – a panela de barro de Goiabeiras foi um dos primeiros bens imateriais tombados no Brasil -, Berenicia aponta que o título não trouxe os benefícios esperados. “É patrimônio nacional, tem indicação geográfica, mas cadê a ajuda? Não temos verba, não temos estrutura. Muitas vezes, gasto do meu próprio bolso pra comprar material, pra registrar uma ata.”
Ela defende que os órgãos públicos deveriam assumir a responsabilidade de manter o espaço e apoiar as artesãs. “Quem conhece a história somos nós, as paneleiras.” Para ela, a falta de reconhecimento se expressa até mesmo na formalização da profissão. “Quando vou abrir conta no banco e dizem: ‘Qual a sua profissão?’ Respondo: paneleira. Mas não existe. Temos que colocar artesã ou ceramista.”
Hoje, ela vê com alegria o quintal cheio: irmãos, irmãs e filhos dividindo o mesmo espaço onde cresceu, todos ligados, de alguma forma, à tradição da panela de barro. E reforça: “Eu faço porque amo, porque é a cultura do nosso estado, e também porque é meu meio de sobrevivência. Só queria que os governantes olhassem mais pra gente, pra quem está aqui, todos os dias, modelando o barro e mantendo viva a tradição do nosso Estado”
Estimado leitor, neste ano celebramos o aniversário de 35 anos da Revista Primeira Mão. Este laboratório de jornalismo que existe desde 1989, já fez parte da rotina de muitos estudantes do curso de Jornalismo, primeiro como jornal e agora como revista, e de muitos leitores interessados no que os universitários têm a dizer.
35 anos marcam três décadas e meia de pluralidade de vozes. Marcam tenacidade editorial, apuração eficiente, cobertura diversa, expressão de um tempo e principalmente a formação de novos jornalistas. Os comunicadores que entraram na Primeira Mão não foram os mesmos que saíram dela e isso permanece.
Temos novas histórias, novos repórteres, novas ambições, novos propósitos e nova identidade visual. Mas fique ciente, estimado leitor, que o novo e o histórico – porque nos recusamos a chamar qualquer produção jornalística de velha ou ultrapassada – se juntam aqui com o mesmo objetivo: trazer temas de relevância social da esfera cotidiana e promover debates emancipatórios de interesse dos universitários e de toda a comunidade.
A edição #163 chega em um momento em que as fronteiras entre o real e o virtual estão cada vez mais difusas. Vivemos uma sobrecarga de informações que molda nosso modo de pensar e agir. Mas ainda é possível resistir a esse ritmo acelerado. Podemos optar por desacelerar, refletir e abrir espaço para vozes críticas. Acreditamos no poder do jornalismo que questiona, propõe e transforma. Viemos para ficar.
Como primeira editora-chefe da nova equipe da revista, gostaria de citar minha antecessora Lara Santoro:
“Os fatos não falam por si só, é preciso entendê-los, contextualizá-los e vislumbrar as perspectivas que existem. Contar as histórias a partir da realidade de quem, muitas vezes, é invisibilizado. Escutar quem, muitas vezes, é silenciado. Entrever aquilo que, muitas vezes, pode estar escondido.”
Espero que tenhamos escutado e escrito aquilo que você queira ouvir e ler, estimado leitor. Somos gratos por produzir jornalismo de qualidade na universidade e mais gratos ainda por poder compartilhar estes materiais com vocês.
E sobretudo, espero que façam uma excelente leitura!
Prezado leitor, “para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve”. Esta é uma frase icônica do livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Mas, convenhamos, não saber para onde vai é pior do que estar perdido. Perder-se pressupõe a existência de um objetivo, de um caminho a ser percorrido e um destino a ser alcançado. Por outro lado, não ter ideia de onde se quer chegar reflete o medo de criar expectativas para o futuro, por isso, tudo lhe aparenta ser possível, qualquer caminho lhe parece oportuno. No entanto, a realidade confronta esse ilusório mar de possibilidades e essa estranha ausência de sentido.
Atenção: jornalistas precisam saber para onde vão e qual caminho devem percorrer. Isso porque um texto jornalístico exige saber para onde vai antes mesmo de ser escrito. É preciso definir de antemão quem é o público alvo. Este, por sua vez, serve de parâmetro para escolher o melhor caminho, ou seja, o melhor ângulo para se contar uma versão de determinada história. Se esses elementos não estiverem óbvios para quem escreve, o resultado é uma narrativa incompleta, sem sentido e sem contexto. Esse também é o perigo que corremos, ter uma vida vazia, incompleta e sem sentido.
É preciso ter esperança. As possibilidades, as portas e os caminhos já estão diante de nossos olhos. Já podemos avistar vestígios do que o futuro nos reserva, mas o desconhecemos. Exige-se de nós, hoje, definir onde queremos chegar e apesar disso, não há como assegurar a existência do amanhã. Por isso Fernando Pessoa discordaria disso tudo, diria que devemos apenas nos importar com o lugar onde estamos. Para ele, “se há alguém para além da curva da estrada, esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada”.
Caro leitor, devo lhe dizer que a cada dia amadurecemos nossa compreensão do jornalismo. Perdoe-nos, se ainda não ultrapassamos a curva de nossa estrada acadêmica, mas estamos confiantes de que a cada passo apuramos a atitude crítica necessária a um bom jornalista. Felizmente, fomos conduzidos até aqui pelo olhar treinado de nossas supervisoras. Elas sim, já ultrapassaram muitas curvas ao longo de suas estradas.
Esta edição encerra uma parte do caminho que estamos percorrendo enquanto estudantes de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Mantidos pela esperança, seguiremos em busca dos nossos objetivos. O que nos aguarda depois da curva da estrada? Não sabemos. De qualquer forma, as dúvidas não assustam um bom jornalista, mas o instiga a escrever.
Os povos indígenas Tuyuka e Tukano vieram da fronteira entre Brasil e Colômbia e vivem atualmente na aldeia Yukuro, localizada Parque Ecológico do Lago Janauari, a aproximadamente uma hora de lancha de Manaus, a capital do Amazonas. Eles têm no turismo sua principal fonte de sustento, realizando apresentações culturais com músicas e danças tradicionais, além da produção e venda de artesanato típico para os visitantes.
Apesar da proximidade com a cultura ocidental e do contato frequente com viajantes, eles mantêm vivas tradições como a caça e a pesca. Dessa forma, preservam sua identidade cultural enquanto constróem novas formas de interação e de sobrevivência no mundo contemporâneo.
Nesta reportagem fotográfica para a Revista Primeira Mão, realizada durante o carnaval de 2025, registramos momentos da apresentação cultural, com músicas e danças, em que apresentam diferentes tipos de instrumentos musicais.
A IA cresce no meio acadêmico gerando dilemas e oportunidades que impactam a pesquisa e o ensino
Pedro Altafim
A presença da Inteligência Artificial (IA) nas universidades está se expandindo rapidamente, trazendo consigo uma série de desafios, oportunidades e questões éticas. De acordo com uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), em parceria com a Educa Insights, cerca de 70% dos alunos e candidatos ao ensino superior utilizam essas tecnologias de maneira regular.
O levantamento, realizado em julho de 2024 com 300 participantes, incluiu estudantes que iniciaram seus cursos entre o final de 2023 e o início de 2024, além de pessoas interessadas em ingressar em instituições de ensino particular. A pesquisa, que abrangeu faixas etárias de 17 a 50 anos de todas as regiões do Brasil, destacou não apenas o crescimento da IA na educação, mas também seus impactos no aprendizado, na interação dos alunos e no estímulo ao pensamento crítico.
O professor Anselmo Frizera Neto, do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Espírito Santo, analisa como a IA pode transformar a educação, a pesquisa e a administração universitária. Ele coordena o Laboratório de Sistemas Orientados ao Ser Humano e concentram principalmente em soluções para a saúde e a reabilitação.
Nesse laboratório, destacam-se projetos como andadores robóticos para reabilitação e assistência à locomoção, além do desenvolvimento de estratégias de navegação para robôs autônomos.”Estamos aplicando modelos modelos de visão e de linguagem em grande escala para permitir que robôs compreendam comandos complexos e integrem informações visuais e contextuais de maneira fluida”, explica o professor Frizera Neto.
Além das oportunidades trazidas pela IA, surgem dilemas éticos no campo da educação. O uso de IA para gerar textos ou respostas levanta questões sobre autoria e plágio, além da confiabilidade dos resultados gerados. Frizzera Netoaponta a necessidade da adaptação curricular nas universidades para integrar essas novas ferramentas de forma ética e eficiente. Tambémdestaca a importância da capacitação de professores, estudantes e técnicos no uso adequado dassas tecnologias.
Apesar dos desafios, a IA tem um enorme potencial para otimizar processos acadêmicos e administrativos. Ela pode melhorar a personalização do ensino, oferecendo feedback em tempo real para estudantes e criando soluções mais acessíveis para aqueles com necessidades especiais. Além disso, pode acelerar a análise de grandes volumes de dados, ajudando no trabalho dos pesquisadores.
A professora associada do Departamento de Comunicação Social da Ufes, Daniela Zanetti, destaca que a tecnologia não é neutra, mas carrega em si uma ideologia. Para ela, essas ferramentas estão intrinsecamente ligadas a questões políticas, econômicas e ideológicas, e muitas vezes as pessoas não percebem essa realidade. Existe uma tendência de acreditar que esses sistemasoperam de forma independente, como se tivessem uma “vida própria”. No entanto, ela alerta para o equivoco dessa visão e que, em sua essência, a tecnologia é sempre moldada por interesses e contextos sociais.
Zanetti também enfatiza que o uso da inteligência artificial deve ser feito com responsabilidade e ética, especialmente à medida que se tornam mais acessíveis. Zanetti também alerta que, em ambientes altamente competitivos, a pressão por produtividade pode levar ao uso excessivo ou inadequado dessas tecnologias e ressalta que a universidade já está envolvida em debates sobre questões como o viés algorítmico e a vigilância.
Essa preocupação com o impacto da IA se reflete não apenas no meio acadêmico, mas também na experiência cotidiana dos estudantes. Embora a pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), realizada em 2024, não seja focada na Ufes, seus resultados ilustram desafios vividos por alunos da instituição. Segundo o estudo, 71% dos universitários brasileiros afirmam usar IA frequentemente, atraídos pela eficiência que ela proporciona. Contudo, 52% dos estudantes sentem a perda da interação humana, enquanto 49% apontam riscos de dependência tecnológica. O estudante de Cinema da Ufes Gabriel Araujo exemplifica esses limites: “Busquei uma citação no ChatGPT para meu TCC e ele me deu autores e livros fictícios”, conta. Depois do episódio, ele decidiu retomar a pesquisa tradicional no Google e refletiu sobre a limitação de inteligências generativas com textos mais complexos.
“Massificação de ‘verdades’”
O estudante do oitavo período de Ciência da Computação na Ufes Yan Maia utiliza a IA para agilizar a elaboração de códigos e superar lacunas técnicas. No entanto, ele reconhece uma consequência preocupante: “Há uma menor cristalização do aprendizado.” Para o estudante de Engenharia da Computação Felipe Raposo Soares, a tecnologia é um recurso útil, mas seu uso deve ser moderado, destacando a importância de evitar dependência excessiva dessas ferramentas.
A estudante de Serviço Social Sabrina Luciano critica a “massificação de ‘verdades’” promovida pelas plataformas de IA, destacando que elas tendem a limitar o espaço para o pensamento reflexivo, fundamental nos ambientes acadêmicos. Segundo ela, a maneira como a inteligência artificial oferece respostas prontas pode desencorajar questionamentos e discussões mais aprofundadas, empobrecendo o processo de aprendizado. Além disso, Sabrina enfatiza a importância de discutir o uso dessas tecnologias sob uma perspectiva política e social: “Essas plataformas têm donos bilionários e viés ideológico”, alerta.
Enquanto a Ufes avança em pesquisas sobre IA, Sabrina acredita que o desafio vai além da inovação tecnológica, abrangendo também a necessidade de formar estudantes críticos, capazes de questionar o funcionamento dessas plataformas e seus impactos. Para ela, não basta apenas dominar as ferramentas; é essencial compreender as implicações éticas e sociais que elas envolvem.
Descubra a manifestação cultural genuinamente cariaciquense. Uma festa que junta diferentes aspectos da cultura capixaba e mistura música, dança e religiosidade
Isadora Lima
Existem muitas manifestações culturais no Espírito Santo, principalmente ligadas à religião. A mais famosa, sem dúvida, é a Festa de Nossa Senhora da Penha e suas romarias. No entanto, a padroeira do estado também é homenageada de outras formas menos conhecidas, como o Carnaval de Congo de Máscaras de Roda D’Água, em Cariacica, que acontece sempre oito dias após o domingo de páscoa, no Dia de Nossa Senhora da Penha. Para quem vê de fora, essa festividade pode parecer incomum. Afinal, trata-se de uma celebração em homenagem a uma figura católica, mas que incorpora diversos elementos das religiões de matrizes africanas, como os tambores, os batuques e o próprio congo.
Esse ritmo, tipicamente capixaba, representa um exemplo marcante do sincretismo religioso no Brasil, misturando influências africanas e indígenas à religiosidade católica. O livro Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, ajuda a compreender esse fenômeno. Nele, entendemos que o sincretismo surgiu como uma forma de resistência e sobrevivência da cultura africana no Brasil. Como as religiões afro-brasileiras eram proibidas, os escravizados incorporavam seus elementos na religião católica, que era permitida, em uma tentativa de preservar tradições.
Banda de Congo da ApaeJoão Bananeiraculto a Nossa SenhoraBanda de congo com Mestre JefinhoJoão Bananeira é relatado como um homem escravizado que usou uma fantasia de folhas de banaeira para descobrir o que acontecia nas festas a fantasia dos donos da fazenda
No caso do Congo, ele servia como uma forma de os escravizados participarem das atividades religiosas enquanto mantinham vivas suas próprias crenças. O ritmo está presente em celebrações religiosas de diversas regiões do Espírito Santo, cada uma com suas particularidades.
Em Cariacica, a homenageada é Nossa Senhora da Penha, enquanto na Serra e na Barra do Jucu, em Vila Velha, o protagonismo é de São Benedito e de São Sebastião. Mas no Carnaval de Congo de Máscaras de Roda D’Água, outra figura também chama atenção: João Bananeira. O personagem anda mascarado e coberto da cabeça aos pés, vestindo roupas feitas de folhas secas de bananeira.
O principal objetivo dessa vestimenta é ocultar a cor da pele. Alfredo Godô, dançarino de samba solto e passista, conta que só descobriu a história de João Bananeira aos 48 anos. Há 13 anos, ele recebeu um convite do prefeito da época para fazer parte da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Cariacica. Foi nesse período que se deparou com o nome da Lei João Bananeira e surgiu a curiosidade de descobrir quem foi ele e qual era sua história. “
Ao me aprofundar na pesquisa, percebi que, apesar de ter vivido 48 anos sem nunca ter ouvido falar dele, João Bananeira era uma figura importante. Agora, prestes a completar 60 anos, percebo como essa descoberta mudou minha trajetória. Ao conhecer essa história, decidi criar o projeto ‘João Bananeira na Escola’, com o objetivo de divulgar e preservar esse personagem para as novas gerações”, informou.
A pesquisa de Godô foi além, para entender melhor a história desse personagem icônico, ele foi até Roda D’Água, local de origem da lenda, onde entrevistou diversos moradores. É importante dizer que a história pode possuir outras versões, principalmente porque se assenta na oralidade.
João Bananeira teria surgido há mais de 130 anos entre os povos escravizados que viviam isolados nas fazendas, sem liberdade. Consta que, sendo uma pessoa de grande astúcia, ele desejava descobrir o que ocorria entre os senhores de engenho, mas estava ciente de que, caso fosse descoberto, poderia ser severamente punido ou até mesmo morto. Observando à distância, ele percebeu que, em determinado dia do ano, realizava-se uma grande festa, na qual todos os participantes usavam fantasias. Foi então que teve a ideia de se disfarçar para poder se infiltrar sem ser reconhecido.
Com poucos recursos, João improvisou uma roupa com retalhos e, para cobrir o corpo, utilizou folhas secas de bananeira, criando uma espécie de saia. Assim, fantasiado, conseguiu adentrar a festa sem levantar suspeitas.
Relata-se que os senhores e convidados, ao vê-lo, riram e o apelidaram de “Bananeira” devido à sua indumentária. Antes que alguém começasse a desconfiar de sua verdadeira identidade, ele se retirou rapidamente e compartilhou sua experiência com os outros escravizados. Desde então, a figura de João Bananeira se consolidou como uma lenda, tornando-se um símbolo de astúcia e resistência.
Para se ter uma ideia da influência de João Bananeira, até lei a lenda tem. Em 2005, a Câmara Municipal de Cariacica aprovou a Lei nº 4.328/2005, conhecida como “Lei João Bananeira”, que inicialmente funcionava por meio de incentivos fiscais com a utilização de bônus tributários. Nessa modalidade, os artistas e produtores culturais recebiam créditos fiscais, que poderiam ( junto a empresas na localidade) ser usados para abater impostos devidos ao município.
Em 2015, a legislação foi reformulada com a criação da Lei Municipal de Incentivo Financeiro à Cultura “João Bananeira” (Lei nº 5.477/2015), que simplificou o processo, garantindo o repasse direto (da Prefeitura) de recursos financeiros a artistas e produtores culturais residentes em Cariacica, eliminando a necessidade da troca de bônus e proporcionando um apoio mais ágil e direto à cultura local.
Além disso, João Bananeira foi oficialmente registrado como Patrimônio Imaterial de Cariacica por meio do Decreto nº 118/2020. Em 1º de agosto de 2023, um novo projeto de lei propôs a criação do “Dia do João Bananeira”. Essa proposta sofreu alterações com a Lei nº 6.655/2024, sancionada em 2 de abril de 2024, que estabeleceu oficialmente o Dia do João Bananeira em 22 de agosto de cada ano.
Congo emancipador
Há mais de 20 anos, Mestre Jefinho atua em bandas de Congo de Cariacica. Atualmente, é mestre da banda de Congo da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), uma organização não governamental que busca melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiência intelectual e múltipla.
Mestre Jefinho: “É um legado que não podemos deixar morrer; precisamos transmiti-lo adiante.”
Além dessa atividade, ele mantém um projeto social em que ensina capoeira, Congo e outras manifestações culturais, o “Diamantes da Lama”. Para ele, essas ações são fundamentais para a preservação da identidade histórica e cultural. “É um legado que não podemos deixar morrer; precisamos transmiti-lo adiante.” Jefinho também afirmou que quando está no Congo, sente-se como se estivesse no paraíso.
Para ele, ao tocar e cantar, a força do ditado popular “Quem canta, os males espanta” se revela verdadeira. Ele acredita que, ao carregar e manter essa cultura viva, especialmente fabricando os instrumentos do Congo, está preservando a história dos seus antepassados.
Ele também explica que o Congo contribui de diversas maneiras para o desenvolvimento de pessoas com deficiência, especialmente em aspectos relacionados à coordenação motora e à fonoaudiologia. “Trabalhamos a história, os mestres, a musicalidade, a tensão, o espaço, o tempo de entrada e de pausa dos instrumentos, o canto, os ‘blacks’ presentes nas músicas, além da fabricação dos instrumentos do Congo e da capoeira. Esses elementos envolvem diversos aspectos do desenvolvimento humano, incluindo das pessoas com deficiência. O projeto também abrange a expressão teatral, a experiência de se apresentar e a valorização da ancestralidade, promovendo inclusão e fortalecimento cultural.”
O legado do Congo e de João Bananeira mostra como essa manifestação cultural continua viva e se transformando ao longo do tempo. O trabalho de mestres como Jefinho e Godô mantém acesa a chama dessa tradição, garantindo que futuras gerações possam conhecer, valorizar e perpetuar essa rica herança cultural capixaba.
legendas
Mestre Jefinho: “É um legado que não podemos deixar morrer; precisamos transmiti-lo adiante.”
Banda de Congo da Apae (abaixo) e culto a Nossa Senhora, ao lado
João Bananeira é relatado como um homem escravizado que usou uma fantasia de folhas de banaeira para descobrir o que acontecia nas festas a fantasia dos donos da fazenda