A IA cresce no meio acadêmico gerando dilemas e oportunidades que impactam a pesquisa e o ensino
Pedro Altafim
A presença da Inteligência Artificial (IA) nas universidades está se expandindo rapidamente, trazendo consigo uma série de desafios, oportunidades e questões éticas. De acordo com uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), em parceria com a Educa Insights, cerca de 70% dos alunos e candidatos ao ensino superior utilizam essas tecnologias de maneira regular.
O levantamento, realizado em julho de 2024 com 300 participantes, incluiu estudantes que iniciaram seus cursos entre o final de 2023 e o início de 2024, além de pessoas interessadas em ingressar em instituições de ensino particular. A pesquisa, que abrangeu faixas etárias de 17 a 50 anos de todas as regiões do Brasil, destacou não apenas o crescimento da IA na educação, mas também seus impactos no aprendizado, na interação dos alunos e no estímulo ao pensamento crítico.
O professor Anselmo Frizera Neto, do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Espírito Santo, analisa como a IA pode transformar a educação, a pesquisa e a administração universitária. Ele coordena o Laboratório de Sistemas Orientados ao Ser Humano e concentram principalmente em soluções para a saúde e a reabilitação.
Nesse laboratório, destacam-se projetos como andadores robóticos para reabilitação e assistência à locomoção, além do desenvolvimento de estratégias de navegação para robôs autônomos.”Estamos aplicando modelos modelos de visão e de linguagem em grande escala para permitir que robôs compreendam comandos complexos e integrem informações visuais e contextuais de maneira fluida”, explica o professor Frizera Neto.
Além das oportunidades trazidas pela IA, surgem dilemas éticos no campo da educação. O uso de IA para gerar textos ou respostas levanta questões sobre autoria e plágio, além da confiabilidade dos resultados gerados. Frizzera Netoaponta a necessidade da adaptação curricular nas universidades para integrar essas novas ferramentas de forma ética e eficiente. Tambémdestaca a importância da capacitação de professores, estudantes e técnicos no uso adequado dassas tecnologias.
Apesar dos desafios, a IA tem um enorme potencial para otimizar processos acadêmicos e administrativos. Ela pode melhorar a personalização do ensino, oferecendo feedback em tempo real para estudantes e criando soluções mais acessíveis para aqueles com necessidades especiais. Além disso, pode acelerar a análise de grandes volumes de dados, ajudando no trabalho dos pesquisadores.
A professora associada do Departamento de Comunicação Social da Ufes, Daniela Zanetti, destaca que a tecnologia não é neutra, mas carrega em si uma ideologia. Para ela, essas ferramentas estão intrinsecamente ligadas a questões políticas, econômicas e ideológicas, e muitas vezes as pessoas não percebem essa realidade. Existe uma tendência de acreditar que esses sistemasoperam de forma independente, como se tivessem uma “vida própria”. No entanto, ela alerta para o equivoco dessa visão e que, em sua essência, a tecnologia é sempre moldada por interesses e contextos sociais.
Zanetti também enfatiza que o uso da inteligência artificial deve ser feito com responsabilidade e ética, especialmente à medida que se tornam mais acessíveis. Zanetti também alerta que, em ambientes altamente competitivos, a pressão por produtividade pode levar ao uso excessivo ou inadequado dessas tecnologias e ressalta que a universidade já está envolvida em debates sobre questões como o viés algorítmico e a vigilância.
Essa preocupação com o impacto da IA se reflete não apenas no meio acadêmico, mas também na experiência cotidiana dos estudantes. Embora a pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), realizada em 2024, não seja focada na Ufes, seus resultados ilustram desafios vividos por alunos da instituição. Segundo o estudo, 71% dos universitários brasileiros afirmam usar IA frequentemente, atraídos pela eficiência que ela proporciona. Contudo, 52% dos estudantes sentem a perda da interação humana, enquanto 49% apontam riscos de dependência tecnológica. O estudante de Cinema da Ufes Gabriel Araujo exemplifica esses limites: “Busquei uma citação no ChatGPT para meu TCC e ele me deu autores e livros fictícios”, conta. Depois do episódio, ele decidiu retomar a pesquisa tradicional no Google e refletiu sobre a limitação de inteligências generativas com textos mais complexos.
“Massificação de ‘verdades’”
O estudante do oitavo período de Ciência da Computação na Ufes Yan Maia utiliza a IA para agilizar a elaboração de códigos e superar lacunas técnicas. No entanto, ele reconhece uma consequência preocupante: “Há uma menor cristalização do aprendizado.” Para o estudante de Engenharia da Computação Felipe Raposo Soares, a tecnologia é um recurso útil, mas seu uso deve ser moderado, destacando a importância de evitar dependência excessiva dessas ferramentas.
A estudante de Serviço Social Sabrina Luciano critica a “massificação de ‘verdades’” promovida pelas plataformas de IA, destacando que elas tendem a limitar o espaço para o pensamento reflexivo, fundamental nos ambientes acadêmicos. Segundo ela, a maneira como a inteligência artificial oferece respostas prontas pode desencorajar questionamentos e discussões mais aprofundadas, empobrecendo o processo de aprendizado. Além disso, Sabrina enfatiza a importância de discutir o uso dessas tecnologias sob uma perspectiva política e social: “Essas plataformas têm donos bilionários e viés ideológico”, alerta.
Enquanto a Ufes avança em pesquisas sobre IA, Sabrina acredita que o desafio vai além da inovação tecnológica, abrangendo também a necessidade de formar estudantes críticos, capazes de questionar o funcionamento dessas plataformas e seus impactos. Para ela, não basta apenas dominar as ferramentas; é essencial compreender as implicações éticas e sociais que elas envolvem.