Descubra a manifestação cultural genuinamente cariaciquense. Uma festa que junta diferentes aspectos da cultura capixaba e mistura música, dança e religiosidade
Isadora Lima
Existem muitas manifestações culturais no Espírito Santo, principalmente ligadas à religião. A mais famosa, sem dúvida, é a Festa de Nossa Senhora da Penha e suas romarias. No entanto, a padroeira do estado também é homenageada de outras formas menos conhecidas, como o Carnaval de Congo de Máscaras de Roda D’Água, em Cariacica, que acontece sempre oito dias após o domingo de páscoa, no Dia de Nossa Senhora da Penha. Para quem vê de fora, essa festividade pode parecer incomum. Afinal, trata-se de uma celebração em homenagem a uma figura católica, mas que incorpora diversos elementos das religiões de matrizes africanas, como os tambores, os batuques e o próprio congo.
Esse ritmo, tipicamente capixaba, representa um exemplo marcante do sincretismo religioso no Brasil, misturando influências africanas e indígenas à religiosidade católica. O livro Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, ajuda a compreender esse fenômeno. Nele, entendemos que o sincretismo surgiu como uma forma de resistência e sobrevivência da cultura africana no Brasil. Como as religiões afro-brasileiras eram proibidas, os escravizados incorporavam seus elementos na religião católica, que era permitida, em uma tentativa de preservar tradições.





No caso do Congo, ele servia como uma forma de os escravizados participarem das atividades religiosas enquanto mantinham vivas suas próprias crenças. O ritmo está presente em celebrações religiosas de diversas regiões do Espírito Santo, cada uma com suas particularidades.
Em Cariacica, a homenageada é Nossa Senhora da Penha, enquanto na Serra e na Barra do Jucu, em Vila Velha, o protagonismo é de São Benedito e de São Sebastião. Mas no Carnaval de Congo de Máscaras de Roda D’Água, outra figura também chama atenção: João Bananeira. O personagem anda mascarado e coberto da cabeça aos pés, vestindo roupas feitas de folhas secas de bananeira.
O principal objetivo dessa vestimenta é ocultar a cor da pele. Alfredo Godô, dançarino de samba solto e passista, conta que só descobriu a história de João Bananeira aos 48 anos. Há 13 anos, ele recebeu um convite do prefeito da época para fazer parte da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Cariacica. Foi nesse período que se deparou com o nome da Lei João Bananeira e surgiu a curiosidade de descobrir quem foi ele e qual era sua história. “
Ao me aprofundar na pesquisa, percebi que, apesar de ter vivido 48 anos sem nunca ter ouvido falar dele, João Bananeira era uma figura importante. Agora, prestes a completar 60 anos, percebo como essa descoberta mudou minha trajetória. Ao conhecer essa história, decidi criar o projeto ‘João Bananeira na Escola’, com o objetivo de divulgar e preservar esse personagem para as novas gerações”, informou.
A pesquisa de Godô foi além, para entender melhor a história desse personagem icônico, ele foi até Roda D’Água, local de origem da lenda, onde entrevistou diversos moradores. É importante dizer que a história pode possuir outras versões, principalmente porque se assenta na oralidade.
João Bananeira teria surgido há mais de 130 anos entre os povos escravizados que viviam isolados nas fazendas, sem liberdade. Consta que, sendo uma pessoa de grande astúcia, ele desejava descobrir o que ocorria entre os senhores de engenho, mas estava ciente de que, caso fosse descoberto, poderia ser severamente punido ou até mesmo morto. Observando à distância, ele percebeu que, em determinado dia do ano, realizava-se uma grande festa, na qual todos os participantes usavam fantasias. Foi então que teve a ideia de se disfarçar para poder se infiltrar sem ser reconhecido.
Com poucos recursos, João improvisou uma roupa com retalhos e, para cobrir o corpo, utilizou folhas secas de bananeira, criando uma espécie de saia. Assim, fantasiado, conseguiu adentrar a festa sem levantar suspeitas.
Relata-se que os senhores e convidados, ao vê-lo, riram e o apelidaram de “Bananeira” devido à sua indumentária. Antes que alguém começasse a desconfiar de sua verdadeira identidade, ele se retirou rapidamente e compartilhou sua experiência com os outros escravizados. Desde então, a figura de João Bananeira se consolidou como uma lenda, tornando-se um símbolo de astúcia e resistência.
Para se ter uma ideia da influência de João Bananeira, até lei a lenda tem. Em 2005, a Câmara Municipal de Cariacica aprovou a Lei nº 4.328/2005, conhecida como “Lei João Bananeira”, que inicialmente funcionava por meio de incentivos fiscais com a utilização de bônus tributários. Nessa modalidade, os artistas e produtores culturais recebiam créditos fiscais, que poderiam ( junto a empresas na localidade) ser usados para abater impostos devidos ao município.
Em 2015, a legislação foi reformulada com a criação da Lei Municipal de Incentivo Financeiro à Cultura “João Bananeira” (Lei nº 5.477/2015), que simplificou o processo, garantindo o repasse direto (da Prefeitura) de recursos financeiros a artistas e produtores culturais residentes em Cariacica, eliminando a necessidade da troca de bônus e proporcionando um apoio mais ágil e direto à cultura local.
Além disso, João Bananeira foi oficialmente registrado como Patrimônio Imaterial de Cariacica por meio do Decreto nº 118/2020. Em 1º de agosto de 2023, um novo projeto de lei propôs a criação do “Dia do João Bananeira”. Essa proposta sofreu alterações com a Lei nº 6.655/2024, sancionada em 2 de abril de 2024, que estabeleceu oficialmente o Dia do João Bananeira em 22 de agosto de cada ano.
Congo emancipador
Há mais de 20 anos, Mestre Jefinho atua em bandas de Congo de Cariacica. Atualmente, é mestre da banda de Congo da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), uma organização não governamental que busca melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiência intelectual e múltipla.

Mestre Jefinho: “É um legado que não podemos deixar morrer; precisamos transmiti-lo adiante.”
Além dessa atividade, ele mantém um projeto social em que ensina capoeira, Congo e outras manifestações culturais, o “Diamantes da Lama”. Para ele, essas ações são fundamentais para a preservação da identidade histórica e cultural. “É um legado que não podemos deixar morrer; precisamos transmiti-lo adiante.” Jefinho também afirmou que quando está no Congo, sente-se como se estivesse no paraíso.
Para ele, ao tocar e cantar, a força do ditado popular “Quem canta, os males espanta” se revela verdadeira. Ele acredita que, ao carregar e manter essa cultura viva, especialmente fabricando os instrumentos do Congo, está preservando a história dos seus antepassados.
Ele também explica que o Congo contribui de diversas maneiras para o desenvolvimento de pessoas com deficiência, especialmente em aspectos relacionados à coordenação motora e à fonoaudiologia. “Trabalhamos a história, os mestres, a musicalidade, a tensão, o espaço, o tempo de entrada e de pausa dos instrumentos, o canto, os ‘blacks’ presentes nas músicas, além da fabricação dos instrumentos do Congo e da capoeira. Esses elementos envolvem diversos aspectos do desenvolvimento humano, incluindo das pessoas com deficiência. O projeto também abrange a expressão teatral, a experiência de se apresentar e a valorização da ancestralidade, promovendo inclusão e fortalecimento cultural.”
O legado do Congo e de João Bananeira mostra como essa manifestação cultural continua viva e se transformando ao longo do tempo. O trabalho de mestres como Jefinho e Godô mantém acesa a chama dessa tradição, garantindo que futuras gerações possam conhecer, valorizar e perpetuar essa rica herança cultural capixaba.
legendas
Mestre Jefinho: “É um legado que não podemos deixar morrer; precisamos transmiti-lo adiante.”
Banda de Congo da Apae (abaixo) e culto a Nossa Senhora, ao lado
João Bananeira é relatado como um homem escravizado que usou uma fantasia de folhas de banaeira para descobrir o que acontecia nas festas a fantasia dos donos da fazenda