Autor: ruthreis

  • O tempo certo do empreendedorismo

    O tempo certo do empreendedorismo

    Quando o sol escaldante do verão chega, Cleudineia Barbosa já sabe: as vendas vão aumentar. Ela tem 39 anos e é dona da Super Geladinho, empresa com sede na casa dela e com um quadro total de três funcionários: ela, o marido e a filha. Ela produz chup chup, doce tipicamente brasileiro que se assemelha ao picolé, mas é consumido em um saquinho de plástico. 

    O empreendedorismo sazonal é um modelo de negócio em que o produto vendido tem um pico de vendas maior em um momento do ano, como acontece na empresa de Cleudineia. Mas além da venda dos produtos, o ofício empreendedor também pode ser sazonal. Durante os meses em que as vendas são reduzidas ou suspensas por falta de demanda, muitos empreendedores assumem outros trabalhos.

    Há 6 anos, Cleudineia Barbosa vende chup chup na região de Guarapari.

    É assim que começa a história do negócio de Cleudineia. Em 2019, ela passou a fazer chup chup para o filho e, sabendo disso, os vizinhos passaram a fazer encomendas. Foi aí que nasceu a Super Geladinho.

    No início, ela vendia chup chup somente no verão e, no resto do ano, trabalhava como revendedora de cosméticos. Porém, em 2023, ela ingressou na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e passou a vender seus “super geladinhos” na escola que frequentava, durante todo o ano.

    Com a rotina dos estudos e do trabalho como revendedora, a dinâmica da produção se mostrou desafiadora. “Dependendo dos pedidos, havia dias em que eu amarrava chup chup à meia-noite, depois de chegar da escola, pois no outro dia precisava entregar para o cliente”

    Em 2024, ela concluiu o ensino médio e tem planos de focar exclusivamente no seu negócio de chup chup. Apesar de ser um produto mais procurado durante o verão, isso não impediu Cleudineia de buscar ampliar os horizontes do seu negócio (em outros períodos do ano). As redes sociais e o “boca a boca” na cidade fizeram com que ela recebesse encomendas em diversos meses em 2024. Agora, o plano é abandonar gradativamente as revendas e direcionar todo o seu esforço para a sua empresa de geladinhos.

    Folia que gera renda

    Outro negócio sazonal que vem ganhando destaque é a confecção de artigos carnavalescos. E nesse ramo, a Ulalá, uma empresa capixaba voltada para a produção de arquinhos, ombreiras, presilhas e outras peças personalizadas para a folia, tem se destacado. 

    A empresa foi criada em 2014 pelos amigos Diego Nunes e Mariana Lucas, quando os dois foram curtir o carnaval no Sambão do Povo e resolveram fazer alguns artigos para usar no dia da festa. Após muitos elogios dos amigos, eles resolveram transformar suas ideias em empreendedorismo e se dedicam a isso até hoje, mais de 10 anos depois.

    Diego é diretor de arte e Mariana, artista visual. Ele conta que, devido à alta sazonalidade das vendas de seu negócio, após o carnaval eles deixam a produção de lado e se concentram em seus outros empregos. “Nos últimos anos, a produção da Ulalá tem ficado só no carnaval. Mas, às vezes, estamos andando na rua e vemos algo que gostamos, uma inspiração. Assim, vamos criando nosso acervo e observando as tendências, mesmo fora do período de produção.”

    Cuidados e planejamentos

    Para a analista do Sebrae-ES, Renata Bromonschenkel, o ideal é que o empreendedor sazonal amplie sua cartela de produtos para ter a possibilidade de vender em mais épocas do ano. Além disso, o planejamento é uma parte fundamental para quem tem um negócio sazonal.

    Um dos produtos da Ulalá com alta demanda é o arquinho de carnaval.

    “Sem o planejamento, não há direcionamento. O empreendedor tem que ter em mente onde ele quer vender, para quem ele quer vender e como ele quer vender”, destaca. 

    Esse planejamento pode ser decisivo para os meses em que não há vendas ou quando elas diminuem drasticamente. Um empreendedor que se planeja tem menos chances de passar por dificuldades financeiras no resto do ano, ressalta a analista.

    O economista Guilherme Dietze reitera a importância de se organizar antes do início da produção. “Se o empreendedor espera chegar à época do seu pico de vendas para começar a se estruturar, ele já perdeu muito tempo e pode ser prejudicado.”

    De acordo com o profissional, quem tem um negócio sazonal deve ter metas de vendas e utilizar estratégias online para ampliar a rede de vendas. Ele ressalta ainda que, para o empreendedor informal, as dificuldades são maiores. “A informalidade talvez seja o cenário mais desafiador para empreender. A pessoa na informalidade está estruturalmente mal. O ganho que ela tem pode ser perdido devido à falta de planejamento, principalmente quando ela trabalha com um produto sazonal.”

    Por mais periódicos que sejam, os negócios de Cleudineia, Diego e Mariana são pensados durante os 365 dias do ano. É o tempo do plantio, de preparar a terra para receber as sementes. Adubar e manejar aquele solo para que ele dê os frutos certos, nos momentos certos. 

    O empreendedorismo sazonal é um desafio cotidiano para aqueles que o escolheram. Mas quem adota esse tipo de negócio sabe, melhor do que qualquer outra pessoa, que, apesar das dificuldades, o planejamento e as estratégias a longo prazo podem aumentar as chances de bons resultados.

    VOCÊ SABIA?

  • Música, Livro, Filme

    Música, Livro, Filme

    símbolo musical clave de sol

    Praia do futuro

    ⭐⭐⭐⭐⭐

    O novo álbum do Baianasystem vem carregado de ritmo, com uma pegada de Olodum, e conta com participações incríveis, como Anitta e Seu Jorge. Mas a música que se destaca, para mim, é “Praia do Futuro”, uma homenagem à famosa praia de Fortaleza. Envolvente, ela convida o ouvinte a cantar junto, e é difícil resistir a esse convite. Em alguns momentos, parece que a canção vai chegar ao fim, mas é aí que ela explode, trazendo ainda mais alegria. Sorte de quem tiver a chance de dançar e cantar ao som dessa música no Navio Pirata, em Salvador.

    Isadora Lima

    A jornada – águas mais profundas

    Gênero: romance

    ⭐⭐⭐⭐⭐

    É difícil imaginar que um padre ousaria escrever um livro de romance. A obra retrata histórias plurais e pensamentos diversos que conduzem humanidade ao longo da vida. O enredo apresenta um grupo formado por diferentes jovens que, por algum motivo, acabam aceitando participar da Jornada Mundial da Juventude que ocorre em um lugar sensível do mundo. Os dilemas que surgem ao longo da viagem intimam o leitor a refletir sobre suas próprias escolhas em uma sociedade que oferta tantos caminhos: crer ou não crer? Ler ou não ler? A escolha é sua! O autor do livro, Padre Anderson Gomes, que atua na Arquidiocese de Vitória, propõe uma jornada diferente aos que se arriscam a trilhar os caminhos da fé. História sensacional!

    Ghenis Carlos

    Conclave (2024)

    Gênero: Thriller/Mistério
    ⭐⭐⭐⭐⭐

    A indicação de “Melhor Filme” ao Oscar não foi à toa. Conclave é aquele tipo de filme que te prende, com uma trama cheia de surpresas. A fotografia de Edward Berger é impecável, com enquadramentos que fazem a gente se sentir dentro da história. Mas o grande destaque é, sem dúvidas, os discursos feitos pelo cardeal Lawrence, interpretado por Ralph Fiennes. São os momentos mais intensos e impactantes do filme, trazendo uma carga emocional incrível. Sem dúvida, uma das melhores obras do ano.

    Hannah Queiroz

  • IA e Soberania Tecnológica: Ufes se prepara para novos desafios

    IA e Soberania Tecnológica: Ufes se prepara para novos desafios

    Ufes avança em IA, mas desafios estruturais ainda freiam a soberania tecnológica do país.

    Pedro Altafim

    A Universidade Federal do Espírito Santo se consolida como um dos principais centros de pesquisa em Inteligência Artificial (IA) no Brasil, figurando entre as 20 instituições que mais publicaram estudos na área. Segundo a Clarivate Analytics, empresa especializada em análise científica, pesquisadores da Ufes produziram 132 trabalhos entre 2019 e 2023, com destaque para pesquisas voltadas a veículos autônomos.

    O reconhecimento internacional foi ressaltado pelo diretor de pesquisa da Ufes, Sérgio Lins, que, em entrevista ao site da instituição, enfatizou a importância da IA como uma das áreas estratégicas definidas pela Administração Central. “A Universidade pretende fortalecer ainda mais essa potencialidade que temos”, afirmou. 

    A superintendente de projetos e inovação, professora Miriam de Magdala Pinto, destaca o papel da Superintendência de Projetos e Inovação (SPIN), conhecida como Inova Ufes, na promoção de iniciativas voltadas ao fortalecimento da inovação dentro da Universidade, entre as quais está compreendida a inteligência artificial. 

    Miriam ressalta que não cabe à Inova Ufes o fomento direto à pesquisa em Inteligência Artificial ou em qualquer outra área específica. Seu papel é articular parcerias estratégicas e buscar diferentes fontes de apoio, não apenas financeiras, para que os avanços científicos desenvolvidos na universidade sejam aplicados em benefício da sociedade.

    “Para que os resultados de uma pesquisa se tornem inovação, é fundamental investir recursos na identificação do público beneficiado pela nova tecnologia, na conversão desse conhecimento em produtos ou serviços e na definição do modelo de funcionamento do empreendimento”, explica.

    A consolidação da pesquisa em IA na Ufes enfrenta desafios estruturais e financeiros significativos. Para aprofundar essa questão, a superintendente ouviu os pesquisadores Anselmo Frizera Neto e Alberto Ferreira de Souza, referências globais na área, que apontaram como um dos principais entraves para o desenvolvimento dessa área, a necessidade de financiamento sustentável.

    A pesquisa em IA exige investimentos contínuos e elevados, enquanto muitas universidades, incluindo a Ufes, dependem de fundos governamentais ou privados, que nem sempre são estáveis. Pela sua relevância na pesquisa em inteligência artificial, a Ufes tem papel ativo na formulação da política estadual de IA. A Inova Ufes colabora nesse processo em parceria com o Ifes e órgãos públicos estaduais, visando estabelecer diretrizes que impulsionam o avanço estruturado da área no Espírito Santo, garantindo um crescimento consistente nos próximos anos.

    No segundo semestre de 2024, a Inova Ufes esteve à frente do processo de formulação de uma proposta para a política capixaba de IA, promovendo diálogos com docentes de diferentes departamentos impactados pelas novas tecnologias. Além dessas discussões, um levantamento mapeou os projetos em andamento na universidade, identificando pelo menos 97 iniciativas distribuídas por todos os centros acadêmicos.

    Entre os projetos, destacam-se: o uso de IA no diagnóstico de doenças periodontais no Centro de Ciências da Saúde (em Maruípe); o mapeamento das áreas com commodities agrícolas (café, cacau e florestas plantadas) para implantação da plataforma selo verde Espírito Santo (na Região Sul do Espírito Santo, no Campus de Alegre); o desenvolvimento de “tutorias inteligentes” – sistemas de IA que oferecem instruções personalizadas e feedbacks em tempo real aos alunos (no Centro de Educação); o programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática – Baixo Rio Doce, na Região Costeira e Marinha do Espírito Santo (no Centro de Ciências Humanas e Naturais); o painel de informações e desinformações climáticas e socioambientais em redes sociais (no Centro de Artes); e a re-identificação de pessoas baseada em visão computacional e aprendizado de máquina em um espaço inteligente multi-câmeras (no Centro Tecnológico).

    Em 2025, a Inova Ufes continuará promovendo diálogos internos e externos sobre IA, com foco na interação multidisciplinar, visando potencializar não apenas a inteligência artificial, mas também a inteligência e a criatividade humanas.

    Caminhos para Avançar na Inteligência Artificial na Ufes

    O professor da Ufes no campus de Alegre, especialista em Aprendizado de Máquina e Segurança e doutorando em Ciência da Computação, Jacson Silva, acredita que a Universidade vem atuando ativamente para capacitar seus alunos a atuar em diversos setores da sociedade, ampliando suas oportunidades profissionais. Para isso, a universidade mantém objetivos contínuos, como: oferecer programas de formação para atualizar docentes e discentes com as mais recentes tendências e tecnologias em IA; incentivar a pesquisa interdisciplinar, promovendo projetos que integrem diferentes áreas do conhecimento e ampliem o impacto social das inovações; e fortalecer parcerias público-privadas, colaborando com empresas e órgãos governamentais no desenvolvimento de soluções para as demandas da sociedade.

    Além disso, a criação de iniciativas de formação continuada e o fortalecimento de laboratórios de pesquisa são estratégias que podem impulsionar significativamente esse avanço, como ressalta o especialista. Na sua visão, é essencial expandir e consolidar as colaborações entre departamentos e instituições, bem como intensificar parcerias com os setores público e privado. Isso inclui a busca por patrocínio e investimentos governamentais, uma vez que os equipamentos necessários para trabalhar com tecnologias de ponta em IA têm custos elevados.

    Silva considera que a universidade exerce um papel fundamental na capacitação contínua de alunos e na articulação de parcerias que impulsionam a IA em áreas como agronegócio, saúde e educação. “Pesquisas e desenvolvimentos importantes já ocorrem em Vitória e vêm se expandindo significativamente para o sul do estado. Também buscamos equilibrar a formação dos alunos com a promoção de projetos inovadores que atendam às demandas sociais”, afirma. Porém, como também aponta, desafios estruturais, como a necessidade de maiores investimentos em infraestrutura computacional, especialmente no interior, ainda limitam o potencial do Estado e do país na área.

    Principais desafios:
    Os pesquisadores apresentaram à superintendente quatro frentes estratégicas para fortalecer o desenvolvimento da inteligência artificial na Ufes, considerando os desafios e oportunidades da área:
    1. Aquisição e manutenção de equipamentos de alto desempenho, como Unidades de Processamento Gráfico (GPUs – Graphics Processing Units) e Unidades de Processamento de Tensores (TPUs – Tensor Processing Units), fundamentais para o processamento de dados;
    2. Infraestrutura física adequada para abrigar pesquisadores e servidores de alto desempenho, além de redes de internet ultrarrápidas;
    3. Contratação e retenção de talentos, um desafio acentuado pela concorrência com o setor privado;
    4. Participação em eventos científicos e de inovação, essenciais para a atualização constante dos pesquisadores.

    Aplicações da IA no Brasil e Desafios para seu Avanço

    No Brasil, a IA pode ser aplicada em diversas áreas, como o setor agrícola, a saúde, a segurança pública e o mercado financeiro. Na produção rural, por exemplo, a tecnologia pode otimizar processos, auxiliar na previsão climática e aprimorar a gestão de recursos. No setor de saúde, a IA tem o potencial de melhorar diagnósticos, prever surtos de doenças e tornar a administração hospitalar mais eficiente. Além disso, áreas como educação e administração pública podem se beneficiar significativamente da inteligência artificial e da análise preditiva. Essas ferramentas podem ser valiosas para automatizar revisões científicas, realizar modelagem computacional avançada, personalizar o aprendizado e até mesmo ajudar alunos que, muitas vezes, hesitam em fazer perguntas diretamente aos seus tutores.

    Para que o Brasil se estabeleça como uma referência global em IA, é essencial superar desafios técnicos, estruturais e políticos. Um exemplo concreto está na infraestrutura, que exige investimentos expressivos para ampliar a capacidade computacional voltada à pesquisa e ao desenvolvimento. O professor Jacson Silva destaca que a aquisição de equipamentos capazes de operar ferramentas de IA de última geração ainda é uma meta a ser atingida pela universidade. Nesse contexto, o incentivo à pesquisa se torna um aspecto central: políticas públicas que promovam a colaboração entre universidades e empresas podem acelerar a inovação e fortalecer um ecossistema mais dinâmico e competitivo.

    Lições da China e desafios locais

    Casos como o do DeepSeek, um modelo de IA desenvolvido na China com custos relativamente baixos, exemplificam como soluções avançadas podem ser alcançadas por meio de investimentos estratégicos. A estratégia estatal chinesa para dominar a inteligência artificial, centrada no incentivo à pesquisa e no fortalecimento da infraestrutura, demonstra claramente como a soberania tecnológica pode ser conquistada com um planejamento governamental bem estruturado e parcerias eficazes.

    Nesse contexto, o professor Silva observa que é fundamental que o Brasil amplie o número de profissionais qualificados na área de IA, desde o ensino básico até a pós-graduação. Ele apontou que, embora já existam grupos de pesquisa focados nos avanços tecnológicos, ainda é necessário expandir essas iniciativas e promover colaborações entre elas para acelerar o desenvolvimento da tecnologia no país.

    Além da infraestrutura e da formação de pessoas, ele também defende que a criação de uma cultura de inovação é essencial para impulsionar o desenvolvimento da IA no Brasil. Um ambiente que favoreça a criação e o crescimento de startups pode acelerar a adoção de IA em diferentes setores, contribuindo para a soberania tecnológica. No entanto, ele também destaca a importância de garantir uma regulação equilibrada, que assegure o uso ético das tecnologias, sem criar barreiras que possam dificultar seu avanço e possam frear o progresso científico e tecnológico. Com esforços coordenados e uma estratégia de longo prazo, o Brasil pode se destacar no cenário global.

  • Transformando realidades: cooperativa impulsiona o futuro de estudantes

    Transformando realidades: cooperativa impulsiona o futuro de estudantes

    Programa “Faça acontecer” da Sicoob já auxiliou mais de 3 mil alunos a ingressarem na graduação, mestrado, doutorado e cursos especiais.

    Gráfico representando os principais motivos da dificuldade no acesso ao Ensino Superior no Brasil em 2023.

    Criação: Sara Ohnesorge e Yara Guidini.



    Em outro dado que confirma essa realidade, o Instituto Semesp, que representa as instituições particulares de ensino superior no país, entrevistou quase 2 mil estudantes em 2023, e 70% deles s disseram que não têm condições financeiras de pagar uma faculdade sem acesso a programas federais ou bolsa de estudos. 

    Em meio a esse cenário, iniciativas como o programa de crédito estudantil “Faça Acontecer”, promovido pelo Sicoob, têm se destacado por oferecer soluções concretas. Desde o seu lançamento em 2018, a iniciativa já auxiliou mais de 3.000 alunos a obterem seus diplomas de ensino superior, com expectativa de expandir em mais de 50% o número de alunos em 2025. Para contratar o financiamento, o aluno precisaria estar vinculado a uma instituição conveniada ao programa.

    Só no ano de 2024, mais de 150 alunos se formaram com o apoio da cooperativa, que abrange cursos de graduação, pós-graduação, MBA, mestrado e doutorado em instituições parceiras de 16 estados brasileiros.

    Uma porta que se abriu para Letícia

    “É justamente a possibilidade de realizar um sonho que torna a vida interessante”, escreveu o escritor brasileiro Paulo Coelho em sua obra mais vendida de todos os tempos, O Alquimista. Foi com essa crença que Letícia Zucolotto, de 26 anos, conquistou o que sempre quis: estudar medicina. Natural de Vila Velha, a estudante se mudou para Cachoeiro de Itapemirim em 2019 por conta da faculdade, mas sua história na graduação começa bem antes, em um curso que não era sua primeira opção.

    Filha de taxista e de uma dona de casa, aos 17 anos ela passou no vestibular para medicina veterinária na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), mas, após um ano e meio, decidiu retornar à sua cidade natal para se preparar novamente e tentar ingressar em Medicina. 

    E a aprovação veio em 2019, quando foi aberta a primeira turma de Medicina na faculdade Multivix, em Cachoeiro. “Lembro-me perfeitamente do dia da minha aprovação: um calor escaldante, típico da cidade, e a emoção indescritível ao receber a ligação informando que eu havia sido aprovada no vestibular”, conta. 

    No entanto, ao mesmo tempo que Letícia estava extasiada de alegria, outro sentimento tomou conta: a incerteza após receber o valor da mensalidade. No momento da matrícula, ela já se deparou com um boleto que parecia impossível de pagar. Sem desistir do seu sonho e com apoio de sua família, era preciso buscar alternativas. Foi então que, no setor financeiro da própria faculdade, lhe apresentaram o programa Faça Acontecer.

    O Impacto do Apoio Financeiro durante o Ensino Superior

    Medicina é o curso com a mensalidade mais cara do Brasil, de acordo com dados do Meu Valor Digital de 2023. Em sua realidade, Letícia sabia que seus pais não conseguiriam arcar com o valor integral da graduação. Foi nessa circunstância que o Faça Acontecer serviu de auxílio: o financiamento deu a ela a possibilidade de dividir os pagamentos em dois períodos. “Em vez de quitar tudo em seis meses, tínhamos um prazo de um ano, com parcelas menores e mais viáveis”, ela explica.

    Qualquer aluno pode simular o financiamento diretamente no site facaacontecer.com.br. No entanto, para que o crédito seja aprovado, ele precisa estar matriculado em uma instituição conveniada. Não é necessário que o aluno comprove a renda, mas ele não pode ter restrições no CPF.

    Além disso, o estudante deve indicar pelo menos um avalista, que também não pode ter nenhuma restrição no CPF. Ele pode incluir quantos avalistas forem exigidos para atingir a renda mínima necessária para a aprovação do financiamento.

    “Minha família fez muitos sacrifícios, e eu sabia que, no futuro, poderia retribuir esse esforço ao começar a trabalhar e assumir os contratos que haviam sido feitos para me ajudar.” (Letícia Zucolotto)


    Agora, com a graduação concluída, o principal objetivo de Letícia é conquistar sua independência financeira e retribuir todo o apoio que recebeu ao longo dos anos. Ela procura não apenas oportunidades na sua área e uma carreira sólida, mas também a chance de estender a mão para outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes aos que ela viveu.

    “Inspiração: todo o esforço vale a pena”


    Surgimento do programa Faça Acontecer

    O Faça Acontecer nasceu em 2018, em um cenário em que a oferta de financiamento pelo FIES foi reduzida. Isso gerou uma demanda dos associados do Sicoob, principalmente pais de alunos da graduação, por uma alternativa de financiamento estudantil para as instituições de ensino particular.

    A supervisora de Crédito e Agronegócio do Sicoob, Caroline Gobbo Sá Cavalcante, explica que a visão inicial sempre foi ter um produto que levasse as melhores condições para o estudante ter condições de pagar seu curso.   Neste começo do programa, a iniciativa encarou algumas questões.

    “Enfrentamos alguns desafios no começo. O primeiro foi desenvolver um produto que beneficiasse o aluno, a instituição de ensino e o Sicoob de maneira equilibrada. Queríamos garantir um preço justo e uma jornada de contratação totalmente online.”  

    Outro empecilho encontrado pela iniciativa foi, justamente, explicar o que é Cooperativismo para as instituições de ensino.  

    “Podemos caracterizar o cooperativismo como um movimento que visa desenvolvimento social e econômico para um grupo de pessoas baseado na honestidade, equidade, solidariedade e transparência. O modelo de negócio tem mais de 170 anos, mas seu princípio continua atual, despertando o interesse de quem busca melhores oportunidades e condições mais justas no mercado.” – Sicoob


    Caroline destaca que a missão da cooperativa é democratizar o acesso ao ensino superior, oferecendo alternativas viáveis para aqueles que enfrentam dificuldades financeiras: “o programa ajuda a empoderar os nossos associados a investir na formação acadêmica, auxiliando na melhora profissional e no padrão de vida”.

    O Faça Acontecer oferece suporte adicional às instituições conveniadas por meio de clínicas financeiras, nas quais voluntários do Sicoob orientam os alunos sobre a melhor gestão dos seus recursos financeiros. Além disso, o sistema fornece palestras de educação financeira, que contribuem para o desenvolvimento do aluno não só no aspecto acadêmico, mas também em sua saúde financeira e tomada de decisões mais conscientes.

    Qualquer aluno pode simular o financiamento diretamente no site facaacontecer.com.br. No entanto, para que o crédito seja aprovado, ele precisa estar matriculado em uma instituição conveniada. Não é necessário que o aluno comprove a renda, mas ele não pode ter restrições no CPF.

    Além disso, o estudante deve indicar pelo menos um avalista, que também não pode ter nenhuma restrição no CPF. Ele pode incluir quantos avalistas forem exigidos para atingir a renda mínima necessária para a aprovação do financiamento.

  • Mudança de ideologia ou de regime? A encruzilhada da era Trump-Vance

    Mudança de ideologia ou de regime? A encruzilhada da era Trump-Vance

    A chegada de uma nova elite republicana ao poder nos EUA aponta para uma superação do paradigma reaganita. No entanto, correligionários do novo governo Trump defendem uma mudança ainda mais profunda

    No âmbito da política internacional, o ano de 2024 foi marcado pela eleição de Donald Trump para um segundo mandato não-consecutivo na presidência dos Estados Unidos, uma reedição inédita do feito de Grover Cleveland, eleito em 1885 e 1893. Mais do que o retorno dos republicanos à Casa Branca, a recondução de Trump também significa a consumação do movimento MAGA (Make America Great Again, na sigla em inglês) como ideologia oficial do partido, agora reformado à imagem e semelhança do líder populista. Tal transformação, apesar de consolidada pela vitória, não aconteceu na noite de cinco de novembro, mas ao longo dos últimos quatro anos, nos quais, Trump enfrentou não apenas as famigeradas ações judiciais que quase o impediram de participar do pleito, como também a resistência por parte de republicanos velha-guarda. 

    De fato, os valores reivindicados pelos grupos que hoje orbitam o governo dos EUA representam uma ameaça à ação política conservadora que se tornou convencional no pós-Guerra Fria, construída a partir do prestígio da presidência de Ronald Reagan (1981-89). A grosso modo, a agenda reaganita, que conquistou a hegemonia durante quase quatro décadas no GOP (Great Old Party, sigla em inglês para se referir ao Partido Republicano), consiste na continuação das políticas implementadas pelo governo dos EUA nos anos 1980. 

    No prisma econômico, o reagan republicanism, como ficou conhecido, advoga por um programa ideológico identificado com o fenômeno neoliberal. Já no eixo social, a característica mais distinta é a defesa de uma suposta superioridade moral da democracia frente a regimes autoritários. Esta crença foi instrumentalizada mais tarde como justificativa para incursões imperialistas no Oriente Médio, empreitadas pelos neoconservadores, outro subgrupo republicano que cresceu às margens do reaganismo, representados historicamente pelas famílias Bush e Cheney.

    Apesar do inegável triunfo cultural do reaganismo, até mesmo além das fronteiras da direita norte-americana (algo que a eleição de Bill Clinton deixa claro), seu legado chegou a ser contestado ainda nas eleições presidenciais de 1992, com o sucesso da candidatura independente de Ross Perot. Em linhas gerais, a plataforma eleitoral de Perot denunciava o aumento expressivo do déficit público após as políticas fiscais da era Reagan-Bush e advogava por um reequilíbrio da balança comercial a partir da imposição de tarifas sobre produtos importados. 

    O sucesso desse discurso protecionista chamou a atenção do então jovem empresário Donald Trump, que, apesar demonstrar entusiasmo com as políticas de desregulamentação da economia e dos cortes de impostos federais implementados na década de 1980, já era famoso por criticar um suposto abuso por países asiáticos das baixas tarifas de importação dos EUA. Segundo ele, China e Japão se beneficiavam do imenso público consumidor norte-americano, que acabavam preterindo os produtos produzidos nacionalmente (e, por isso, mais caros), um movimento que enfraquecia a indústria.

    Trump chegou a concorrer à presidência nas eleições de 2000 pelo Partido Reformista, fundado por Perot para concorrer ao pleito de 1996, mas acabou desistindo durante as prévias. No entanto, em 2016, somente 8 anos após o fim do mandato de George Bush Jr., agora concorrendo pelo GOP, Trump venceu sob um vocabulário político cujo conteúdo carregava uma miríade de heresias para o cânone neoliberal, que encontra adeptos numa maioria de representantes eleitos no país até hoje. 

    Por mais incrível que pareça à época, um republicano havia sido eleito presidente sob promessas de aumentar tarifas alfandegárias e isolar o país das relações internacionais. Não satisfeito, ao longo dos seus 4 anos de mandato, Donald Trump aproximou os Estados Unidos da Rússia, (algo que somente o democrata J. F. Kennedy havia ousado fazer), elogiou publicamente regimes iliberais e líderes autocratas mundo afora e proferiu discursos críticos à atuação da Otan (Organização do Tratado do Atlântico-Norte) e das Nações Unidas, bastiões do atlantismo e da resistência ao imperialismo russo na Europa. 

    A sua derrota para Joe Biden nas eleições de 2020 parecia encerrar esse experimento estranho ao status quo nacional, uma volta à normalidade que se mostrou tão breve quanto ilusória. Hoje, as características que fizeram do trumpismo o inimigo público número um do establishment liberal internacional estão mais aclamadas do que nunca entre os eleitores republicanos.

    Em 2024, o seu companheiro de chapa, o católico, monarquista e autodenominado pós-liberal J. D. Vance trouxe consigo não só o apoio de uma elite tecnocrática oriunda do Vale do Silício, mas uma nova linguagem política conservadora que vem sendo formulada e ganhando adeptos em subculturas da internet e em think-tanks alheios à esfera de influência tradicional do Partido Republicano. A ideologia neorreacionária (NRx), formulada pelo blogueiro e amigo de Vance, Curtis Yarvin, alguns apologetas da Doutrina Social da Igreja Católica (DSI), como o escritor Rod Dreher, além de demais críticos da democracia-liberal norte-americana, como Patrick Dennen, autor do livro “Porque o Liberalismo Falhou” (2018) são algumas das influências intelectuais do atual vice-presidente dos EUA. 

    Com a perspectiva de Vance assumir a sucessão de Trump, é possível que o futuro “líder do mundo livre” seja um homem profundamente cético, para dizer o mínimo, em relação às bases da cooperação econômica internacional e, mais importante que isso, ao conjunto de valores do liberalismo norte-americano. Uma possível “mudança de regime” nos EUA, algo desejado por muitos dos segmentos que se sentem representados por Vance, com certeza não ficaria restrita à política interna do país.

    A célebre frase do crítico literário Lionel Thrilling, segundo a qual “Nos Estados Unidos o liberalismo não é apenas dominante, mas sim a única tradição intelectual” parece ter perdido a sua validade descritiva. Contrariando aqueles que anunciaram o fim da História após a queda do Muro de Berlim, ouso dizer que ela não acabou – e está acontecendo neste instante.

  • Café mais caro: bom para o produtor, ruim para o consumidor

    Café mais caro: bom para o produtor, ruim para o consumidor

    Fatores climáticos, econômicos, mercadológicos e logísticos causam o encarecimento do produto

    Tomar um cafezinho de manhã já faz parte da rotina do brasileiro, que, muitas vezes, não consegue começar o dia sem um gole para se energizar. Contudo, manter  esse ritual matinal está ficando cada vez mais pesado no bolso da população. Em 2024, o preço do café moído teve aumento de 40%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Com isso, muitos brasileiros estão parando de tomar café, por estar se tornando um produto caro.

    De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), o preço médio do grão nos mercados em 2024 passou de R$ 29,62 para R$ 42,65. Em janeiro de 2025, o valor já chegou a R$ 56,07, um acréscimo de 30% em relação a dezembro do ano anterior. A previsão da ABIC é que os primeiros meses de 2025 irão continuar a apresentar reajustes, estimados entre 10% a 15%.

    Fonte: Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC)

    Elaboração: Luisa Andrade Ferreira

    O economista Ricardo Paixão aponta que o valor do café deve demorar cerca de dois anos para se regularizar e voltar ao que era antes, graças à dinâmica da produção agrícola. “Enquanto o timing do mercado industrial é muito mais rápido para a recuperação, o mercado agrícola demora um pouco mais”, destaca. A produção dos frutos de café dura aproximadamente dois anos e meio após o plantio, o que causa essa melhora tardia. Em contrapartida, o especialista em café Raul Guizellini argumenta que, depois que o produtor passa a cobrar um preço mais alto, dificilmente ele irá voltar a baixar o valor. “A gente vai entrar nesse patamar e vai ficar”, declara.

    Aumento do câmbio e da exportação

    O encarecimento do café nesse período apresenta diversas causas, incluindo a instabilidade climática, o crescimento da exportação e a incerteza do potencial produtivo. Paixão cita que a amplificação da taxa de câmbio, por exemplo, afetou fortemente o preço do grão. O economista explica que a valorização da moeda estrangeira “intensifica as exportações do produto, desabastecendo o mercado interno brasileiro. A oferta diminui ainda mais, e isso faz com que os preços se elevem muito.”

    Dados da ABIC indicam que, apenas nos primeiros quinze dias úteis de dezembro de 2024, foi exportada uma média diária de 470,6 toneladas de café torrado, extratos, essências e concentrados de café, representando uma alta de 40,4% quando comparada com dezembro do ano anterior. Conforme o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), de janeiro a novembro de 2024 foram exportadas 46,7 milhões de sacas de 60kg de café, registrando um aumento de 34% em relação ao mesmo período de 2023. Esse foi o maior volume exportado pelo Brasil em um único ano, mesmo sem contar com dezembro. Como a maior parte do café nacional está sendo exportada, há menos café disponível para a venda dentro do Brasil, o que faz com que ele fique mais caro.

    Produção vietnamita

    A queda no rendimento do café vietnamita é outro fator que contribuiu para o valor do produto brasileiro. O Vietnã é o segundo maior produtor de café no mundo, com cerca de 16% da produção total, atrás apenas do Brasil. Os problemas climáticos no país asiático nos últimos ciclos produtivos limitou sua produtividade, atrasando a colheita e reduzindo os estoques, de acordo com pesquisas da ABIC. Com isso, as exportações caíram 17,2% em 2024. Assim, como o Vietnã não teve mais capacidade de exportar o grão, o Brasil o substituiu parcialmente nesse mercado, intensificando mais ainda o comércio global.

    Consumo chinês 

    Outro país que afetou a cafeicultura nacional foi a China. Os chineses passaram a consumir mais café cotidianamente no lugar do chá, aumentando a demanda do produto. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o consumo de café até 2009, na China, era de 300 mil sacas de 60kg por ano; em 2024, chegou a 6 milhões. Além disso, a exportação do produto para o país asiático cresceu 275% em relação a 2022, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), passando   da posição de 20º para o 6º país que mais importa café brasileiro. O especialista Guizellini salienta que esse incremento do consumo na China irá fazer com que falte café no mercado nacional. “A produção de antes já era toda consumida. Com a China entrando no jogo, vai faltar café”, aposta o especialista.

    Problemas logísticos 

    A logística é outro aspecto que causou tamanha alteração no valor do café. Guizellini relata que o mundo se encontra em uma crise logística iniciada na época da pandemia que perdura até hoje. Como as exportações em 2020 foram restritas graças à Covid-19, não houve grande movimentação de contêineres. Quando o mercado reabriu, a demanda pelo produto cresceu e a oferta diminuiu, levando à escassez de contêineres e à limitação das exportações novamente. Outro fator logístico que o especialista menciona é a pirataria existente na região do Mar Vermelho. “Além de estar demorando muito para passar no Canal de Suez, há um risco muito grande, porque ali é um dos lugares que mais têm pirataria no mundo”, afirma. Com isso, há necessidade de investir em escolta armada, gerando ainda mais gastos para o transporte cafeeiro.

    Mudanças climáticas 

    O clima também é um dos principais fatores que levaram à variação do preço do café. Como é um produto agrícola, ele é extremamente sensível em relação à variação de temperatura, umidade, luminosidade e muito mais. Guizellini reforça que a geada forte e fria de 2021, seguida da seca de 2022 a 2024, prejudicou a cafeicultura no Brasil. As altas temperaturas contribuíram para a redução da quantidade e da qualidade da produção, o desequilíbrio de pragas na plantação e a necessidade de maior irrigação. Dessa maneira, a produção cai e os custos com a manutenção da lavoura aumentam, causando a chamada inflação climática.

    Maior valor de produção 

    Levando em consideração os motivos que causaram a redução da produção e a expansão da exportação, os produtores foram forçados a elevar o valor da safra, para que não houvesse prejuízo nas vendas no mercado interno brasileiro. Dados do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) indicam o preço que os produtores do Espírito Santo receberam a cada saca de 60kg de café vendidos em 2024: pelo Café Arábica T6, receberam em dezembro 197% a mais do que em janeiro; pelo Arábica T7, 208%; e pelo Conilon T7, 225%. Se os produtores cobram mais, esse aumento é repassado para os consumidores.

    Fonte: Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper)

    Elaboração: Luisa Andrade Ferreira

    Queda da qualidade

    Além da elevação do preço do café em todo o Brasil, especialistas apontam para uma redução qualitativa em uma escala mundial, causada pelo aquecimento global. Os cafés de maior qualidade, chamados cafés especiais, estão ficando mais raros no mercado, já que eles são geralmente plantados em regiões mais amenas e de maior altitude. Contudo, com o aumento das temperaturas em regiões serranas e montanhosas, a produção cafeeira está sendo prejudicada. “Se a gente tinha 100 microlotes muito bons no Espírito Santo, agora a gente está tendo 60”, compara Guizellini.

    Com a atenuação da qualidade, foi criada uma categoria nova de café, chamada especial de entrada, que busca  aproximar o café especial do café tradicional consumido em supermercados, com um valor reduzido em comparação ao especial. A partir disso, Guizellini reitera que a tendência é que o público geral busque um café de ainda menor qualidade nos mercados. “No supermercado, a disputa é pelo preço, e o consumidor não está disposto a pagar mais de R$ 50 em um café”, explica. Se o cliente não paga um valor maior, o que resta aos produtores é baixar a qualidade do produto.

    Em contrapartida, tal cenário gera uma oportunidade maior para empresas que focam em qualidade destacarem-se no mercado. O especialista é um exemplo disso: enquanto o café especial de sua cafeteria, Terrafé, passou de R$ 40 para R$ 60, ele introduziu uma linha de especiais de entrada, com o valor aproximado de R$ 45. O intuito de Guizellini é tornar acessível o consumo do produto de qualidade, buscando atender ao público.

    Impacto na população

    Os aspectos que levaram ao aumento do preço do café impactaram fortemente a  população brasileira, principalmente o segmento mais pobre. Na internet,  é possível encontrar vídeos passando o mesmo pó de café duas vezes, colocando mais água para aproveitar mais a bebida ou simplesmente começando a beber chá. “Essas pessoas, por terem uma renda bem pequena, dificilmente vão continuar consumindo café na mesma intensidade”, relata o economista Ricardo Paixão. 

    Entretanto, a população de menor condição financeira não é a única afetada por essa mudança de valor. A tendência da classe média é continuar comprando, mas com menos frequência. Paixão reforça que, como o produto faz parte da cultura do Brasil, é difícil ficar sem consumi-lo. A classe alta, em contrapartida, não é tão impactada pelo crescimento do preço, e tende a não renunciar ao consumo do café diário. O máximo que pode acontecer, segundo Raul Guizellini, é essa parcela deixar de tomar o especial e passar a comprar cafés de menor qualidade, ou comprar o mais básico em supermercados e tomar o especial em cafeterias.

    Guizellini destaca que, em momentos de inflação como esse, a desigualdade social é intensificada, e quem sofre mais com isso são as pessoas mais carentes. “Vai continuar havendo dois mundos. A classe média sofre e o rico continua rico”, critica. Da mesma forma, Paixão não acredita que o café irá desaparecer da mesa da população, e que a tendência é de  trocas por produtos de preço mais baixos. “O café não é um produto único que atende a todas as classes. Ele tem vários tipos e tem várias especificações que atendem públicos diferentes”, conclui.

  • Dengue avança apesar da distribuição de vacinas

    Dengue avança apesar da distribuição de vacinas

    Com mais de 281 mil casos em menos de dois meses e R$ 1,5 bi investidos em medidas de controle, a arbovirose mais temida do país não parece ceder


    Alice Raimondi

    Em 2024, o Brasil registrou um aumento de 400% nos casos de dengue em comparação ao ano anterior, totalizando 6,6 milhões de casos prováveis e mais de 6 mil mortes. Apesar da gravidade, 2025 não trouxe campanhas de vacinação em massa, deixando o país vulnerável a novas crises. A vacina do Instituto Butantan, prometida para ampla distribuição, só chega em 2026. Enquanto isso, os primeiros meses de 2025 já somam 281 mil casos e 98 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde.

    O custo econômico também é preocupante. O estudo conduzido pela pesquisadora Josely Marchi Chiarella do Instituto Butantan estimou que a dengue custe ao país mais de US$ 1,2 bilhão anualmente, considerando gastos médicos e despesas indiretas relacionadas ao tratamento de complicações graves. Para o ciclo de 2024 e 2025, o Governo Federal destinou R$ 1,5 bi para ações de controle da dengue e outras arboviroses. Além disso, foram distribuídos 6,5 milhões de testes rápidos inéditos para o diagnóstico em todos os estados do país. Embora essencial para o monitoramento da disseminação da doença, os testes não são amplamente solicitados nos serviços públicos de saúde. A professora Isabela Piva, que contraiu a doença em abril de 2023, testemunha que os testes rápidos são pouco usados nos postos de saúde: “Não sei exatamente qual tipo de dengue eu peguei […], não me foi pedido o exame”. 

    Atualmente, apenas o imunizante Qdenga, do laboratório Takeda, está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), restrito a adolescentes entre 10 e 14 anos. Mesmo assim, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) anunciou que somente metade das doses distribuídas pelo Ministério da Saúde para estados e municípios foi aplicada. O retorno para a tomada da segunda dose também é baixo, prejudicando o desempenho da vacina. Segundo levantamento feito pelo Correio Braziliense, o Espírito Santo ficou no terceiro lugar das unidades federativas com maior número de faltantes da segunda dose. Das 174 mil pessoas da faixa etária de 10 a 14 anos, apenas 72 mil tomaram a primeira dose e pouco mais de 20% desses jovens completaram o esquema vacinal.

    Para a bióloga do Centro de Vigilância em Saúde Ambiental de Vitória (CVSA), Lívia Marini, o baixo interesse pela vacinação é uma das sequelas deixadas pela pandemia de Covid-19. “O movimento antivacina, que se fortaleceu nos últimos anos, colaborou negativamente para a baixa adesão das vacinas contra a dengue […] Por conta disso, algumas pessoas acreditam que as vacinas não funcionam ou que causam efeitos adversos”, aponta Marini. 

    A desinformação é a maior culpada pela hesitação vacinal. Segundo o Massachusetts Institute of Technology, o potencial de viralização de fake news é 70% maior do que o de notícias verdadeiras. Enquanto uma postagem verdadeira alcança em média 1 mil pessoas, uma falsa pode atingir entre 1 mil a 100 mil usuários. Atrelada ao movimento antivacina, as fake news sobre os imunizantes intensificam a queda na cobertura vacinal do país.


    A dificuldade nacional de realizar campanhas de vacinação bem-sucedidas reflete desafios estruturais. Entretanto, a hesitação vacinal não é uma realidade só do Brasil. De acordo com dados publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a cobertura mundial de imunização infantil estagnou em 2023, causando surtos de sarampo e de outras doenças de fácil combate a partir das vacinas. Mais de 2,7 milhões de crianças foram deixadas sem vacinação ou com vacinação insuficiente em comparação com os níveis pré-pandêmicos em 2019.

    Na ausência de vacinas para toda a população, o governo prioriza campanhas educativas e o combate ao mosquito causador da dengue. Ações como o “Dia D” de eliminação de focos e parcerias com escolas para conscientização infantil são as estratégias favoritas para engajar a população. Embora válidas, essas medidas são paliativas e estão cada vez mais insuficientes: “As pessoas acreditam que os criadouros estão na casa do vizinho, e deixam de fazer a vistoria em suas casas […] As campanhas de conscientização precisam se reinventar: precisamos de uma comunicação que envolva as comunidades”, argumenta a bióloga do CVSA.

    Países como Uruguai e Singapura trouxeram soluções inovadoras como a criação de um aplicativo de monitoramento de criadouros de mosquito e multas rigorosas aos cidadãos que tiverem em suas casas água parada com ovos do mosquito. Em contrapartida, o Brasil repete as mesmas táticas das décadas de 1960 e 1970. A dengue se torna, assim, um teste de resiliência para o país. Seu combate eficaz demanda não apenas ciência, mas também cooperação social e reinvenção política — elementos que, hoje, parecem tão escassos quanto as doses de vacina.

    O que são arboviroses?

    As arboviroses são doenças causadas por vírus transmitidos por artrópodes como mosquitos e carrapatos. Estas patologias incluem a febre-amarela, zika, chikungunya, dengue e oropouche, todas com potencial para causar surtos epidêmicos. A oropouche, por sua vez, está avançando no Espírito Santo, que concentra 99% dos casos no país.

    As arboviroses e as mudanças climáticas:

    O aquecimento global e fenômenos climáticos como o El Niño são catalisadores dos surtos de arboviroses. Temperaturas elevadas e chuvas irregulares criam ambientes ideais para a reprodução de vetores como o Aedes aegypti. Entre 2022 e 2024, o Brasil enfrentou três epidemias consecutivas, correlacionadas a padrões climáticos extremos. A urbanização desordenada também contribui. O acúmulo de lixo nas cidades e a falta de saneamento básico multiplicam os criadouros. 

    Dengue chegou até o Japão:

    Mesmo sendo doenças de países tropicais e subtropicais, as arboviroses estão expandindo seu alcance geográfico. Com o aumento global das temperaturas, mosquitos como o Aedes aegypti podem se estabelecer em regiões que antes eram consideradas seguras por serem mais frias e, assim, menos favoráveis à reprodução do vetor da dengue. Em 2014, o Japão sofreu um surto de dengue, com mais de 150 casos suspeitos de serem infecções domésticas em Tóquio e em outras áreas, segundo a prefeitura de Sendai. A propagação da doença foi feita pelo Aedes albopictus, parente do Aedes aegypti e responsável pela transmissão da dengue na Ásia e Oceania. Diante disso, as autoridades sanitárias identificaram o local de contaminação e conseguiram eliminar a doença no país, que só aparece agora em casos importados.

  • QUIZ: Que estudante eu sou?

    QUIZ: Que estudante eu sou?

    1. Na hora da atividade avaliativa:

    a) Estudo com antecedência, porque tirar nota baixa é o fim para mim.
    b) Já começo a sofrer se for prova, mas só estudo um dia antes.
    c) Dou aquela passadinha de olho no conteúdo dentro do ônibus e bora.
    d) Tinha atividade avaliativa hoje?

    2. Quando tem trabalho em grupo:
    a) Organizo tudo e quero o trabalho pronto o mais rápido possível para ficar estudando.
    b) Dou meu máximo para o grupo se sair bem, mas em ficar preocupado.
    c) Faço minha parte enquanto o outro grupo apresenta, porque dá tempo.
    d) Vou para a universidade e elaboro minha fala na hora da apresentação.

    3. Na sala de aula:

    a) Sento na frente, anoto tudo e respondo cada pergunta do professor.
    b) Até sento mais na frente e anoto algumas coisas.
    c) To no meio da galera, mas presto atenção no professor.
    d) Quando eu vou, vejo o lugar que sobrou e participo o mínimo que dá.

    4. Ixi, o professor passou um trabalho individual para amanhã:
    a) To tranquilo, tenho tudo anotado.
    b) Vou ter que revisar antes, mas dá para fazer.
    c) Alguém me manda foto dos slides para eu concluir o trabalho?
    d) Alô, ChatGPT! Chegou sua hora de me ajudar!

    5. Hoje tem rock do curso:

    a) Não vou, preciso terminar um trabalho.
    b) Atraso para terminar um trabalho, mas vou.
    c) Já estou com a roupa de ir.
    d) Esse eu não perco por nada.

    6. A formatura está chegando:

    a) Estou feliz e tenho muito orgulho da minha trajetória!
    b) Valeu a pena me esforçar!
    c) Ainda bem que acabou!
    d) Liberdade!!!!

  • Editorial

    Editorial

    No jornalismo, dar uma informação em “primeira mão” significa sair na frente, noticiar o acontecimento primeiro. É o novo, aquele fato que pega o público de surpresa e que gera mais interesse.

    Mas aqui, caro leitor, você não vai encontrar

    temas inéditos, nem furos de reportagem. Aqui, o que é “em primeira mão” são as diferentes angulações de assuntos que já foram tratados pela mídia alguma vez.

    É a preocupação de trazer um tema de relevância social, mas com outras perspectivas. Essa é a intenção da 160ª edição da revista “Primeira Mão”.

    O processo de produção foi intenso e desafiador. Mas, no jornalismo, o que não é assim? A elaboração da revista começou com as pautas, que foram pensadas e desenvolvidas pelos estudantes. Depois, elas foram apresentadas para toda a turma e avaliadas coletivamente.

    O objetivo foi levantar questões que atravessassem o cotidiano da população, e mais especificamente, do estudante universitário, nosso público preferencial. Após a aprovação das pautas, iniciou-se a etapa de apuração, em que as informações foram coletadas e as entrevistas com as fontes marcadas.

    Foram três semanas de imersão nas reportagens, crônicas e artigos propostos.

      Um período de dificuldades, mas de muito aprendizado. Fontes que não respondiam, dados difíceis de encontrar, entender a melhor maneira de traduzir o que se deseja… Esses são somente alguns dos obstáculos que a equipe enfrentou. Porém, é um enfrentamento que, para quem ama o jornalismo e tem sede de noticiar a realidade, acaba sendo extremamente satisfatório.

    E foi com essa satisfação que a turma da disciplina “Gêneros, estilos e discursos em Jornalismo” produziu a 160ª edição da revista Primeira Mão. Durante o segundo semestre acadêmico de 2024, estão previstas mais duas edições da revista.

    É interesse da equipe, caro leitor, que você aproveite ao máximo. Não somente esta, mas todas as edições que estão por vir. Que você perceba, por meio de nossos textos, que existe muita coisa para além da notícia factual e do furo de reportagem.

    Os fatos não falam por si só, é preciso entendê-los, contextualizá-los e vislumbrar as perspectivas que existem. Contar as histórias a partir da realidade de quem, muitas vezes, é invisibilizado. Escutar quem, muitas vezes, é silenciado. Entrever aquilo que, muitas vezes, pode estar escondido.

    Esse é o nosso desejo. 

    Boa leitura!

  • Reflexo nas telas

    Reflexo nas telas

    Como as redes sociais afetam a autoestima de mulheres negras

    Ao rolar o feed de uma rede social, mulheres negras se deparam diariamente com imagens que perpetuam um padrão de beleza eurocêntrico. Cabelos lisos e peles claras continuam dominando as telas, enquanto traços afrodescendentes são apagados ou marginalizados. Apesar de avanços na representatividade, a sensação de não pertencimento ainda persiste.

    “Ver que as maiores influenciadoras raramente são negras faz com que eu me pergunte se existe espaço para nós”, reflete Ana Beatriz Nascimento, uma mulher negra. A falta de diversidade nas redes reflete estruturas históricas de exclusão, nas quais o padrão eurocêntrico continua a dominar não apenas os ideais estéticos, mas também a distribuição de voz e destaque, silenciando populações marginalizadas nesses espaços.

    Segundo um estudo da agência de influência digital BRUNCH, influenciadores brancos fecham 30% mais projetos do que influenciadores não brancos. Sendo assim, como as mulheres negras irão se sentir representadas na internet se as figuras públicas às quais elas deveriam se identificar não estão sendo postas em evidência?

    Para a psiquiatra e especialista em neurociência e relações étnico-raciais, Indira Pinto, a falta de representatividade faz com que mulheres tentem mudar características próprias para se aproximarem do padrão estético popular. “É muito comum a queixa de que ‘ainda não foi suficiente’ e ‘não tenho ainda o cabelo com a textura que eu imaginei que fosse ficar’, pontua.

    A estudante Vitória dos Reis, que também é uma  mulher negra, teve a mesma experiência. Quando era criança, alisou o cabelo pela primeira vez para ir a um evento e percebeu uma mudança no comportamento das pessoas à sua volta. “Notei como as pessoas me achavam mais bonita”, lembra. Essa experiência, comum a muitas mulheres negras, demonstra como a busca por aceitação social pode levar à rejeição de traços naturais.

    Antigamente a falta de representatividade na relação das mulheres com a internet ocorria em um contexto onde o acesso às plataformas digitais era mais limitado e a interação com esses espaços, menos intensa. Essa exclusão da mulher negra, ainda que profundamente enraizada no racismo estrutural e nos padrões eurocêntricos de beleza, era mais fácil de evitar devido à menor imersão digital e à ausência de redes sociais capazes de amplificar discursos e imagens de maneira tão invasiva. “O racismo estava presente, sempre esteve, mas não era nomeado como tal”, ressalta Indira.

    Contudo, o avanço da tecnologia e a popularização das redes sociais tornaram quase impossível se manter afastada desse ambiente. A internet transformou-se em um espaço onde a luta por representatividade é inevitável, mas também repleto de desafios, já que discursos excludentes continuam em predominância mesmo em um cenário de maior conscientização e questionamento social.

    Uma pesquisa da UFRJ, realizada em 2023 por estudantes de Publicidade e Propaganda, revela que 90% de 519 mulheres entrevistadas se sentem desconfortáveis com as imagens perfeitas que veem no Instagram. O estudo expõe um problema que atravessa questões raciais e afeta mulheres de todas as cores. Isso sugere que o impacto dos padrões irreais de beleza promovidos pelas redes sociais é universal, criando um ambiente digital onde a pressão pela perfeição afeta a autoestima de forma ampla. No entanto, esse dado também levanta um questionamento: se mulheres de diferentes origens já se sentem desconfortáveis, como esse impacto pode ser ainda mais profundo para aquelas que enfrentam não apenas os padrões inatingíveis, mas também a exclusão representativa, como é o caso de mulheres negras? Essa reflexão ressalta a necessidade de se pensar em estratégias que promovam uma representatividade mais diversa e genuína, desafiando as narrativas de perfeição homogênea que dominam as plataformas digitais.

    As redes sociais, por terem a capacidade de amplificar discursos e criar comunidades, têm um papel ambivalente: ao mesmo tempo que perpetuam padrões de beleza excludentes, também podem ser um espaço de luta e afirmação identitária. “A valorização da beleza negra está em crescimento, mas ainda privilegia traços mais brancos. Estamos em processo, mas a luta é longa”, conclui Indira.

    Entre o scroll e o espelho, mulheres negras seguem refletindo sobre quem são e quem desejam ser. As redes, com todo o seu poder, ainda têm muito a caminhar para se tornarem espelhos reais da diversidade que existe fora das telas.


Warning: MongoDB\BSON\BinaryInterface::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\Decimal128Interface::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\JavascriptInterface::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\ObjectIdInterface::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\RegexInterface::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\TimestampInterface::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\UTCDateTimeInterface::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\Binary::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\DBPointer::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\Decimal128::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\Int64::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\Javascript::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\ObjectId::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\Regex::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\Symbol::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\Timestamp::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\Undefined::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\BSON\UTCDateTime::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0

Warning: MongoDB\Driver\CursorId::__toString() implemented without string return type in Unknown on line 0