Com mais de 281 mil casos em menos de dois meses e R$ 1,5 bi investidos em medidas de controle, a arbovirose mais temida do país não parece ceder
Alice Raimondi
Em 2024, o Brasil registrou um aumento de 400% nos casos de dengue em comparação ao ano anterior, totalizando 6,6 milhões de casos prováveis e mais de 6 mil mortes. Apesar da gravidade, 2025 não trouxe campanhas de vacinação em massa, deixando o país vulnerável a novas crises. A vacina do Instituto Butantan, prometida para ampla distribuição, só chega em 2026. Enquanto isso, os primeiros meses de 2025 já somam 281 mil casos e 98 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde.
O custo econômico também é preocupante. O estudo conduzido pela pesquisadora Josely Marchi Chiarella do Instituto Butantan estimou que a dengue custe ao país mais de US$ 1,2 bilhão anualmente, considerando gastos médicos e despesas indiretas relacionadas ao tratamento de complicações graves. Para o ciclo de 2024 e 2025, o Governo Federal destinou R$ 1,5 bi para ações de controle da dengue e outras arboviroses. Além disso, foram distribuídos 6,5 milhões de testes rápidos inéditos para o diagnóstico em todos os estados do país. Embora essencial para o monitoramento da disseminação da doença, os testes não são amplamente solicitados nos serviços públicos de saúde. A professora Isabela Piva, que contraiu a doença em abril de 2023, testemunha que os testes rápidos são pouco usados nos postos de saúde: “Não sei exatamente qual tipo de dengue eu peguei […], não me foi pedido o exame”.
Atualmente, apenas o imunizante Qdenga, do laboratório Takeda, está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), restrito a adolescentes entre 10 e 14 anos. Mesmo assim, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) anunciou que somente metade das doses distribuídas pelo Ministério da Saúde para estados e municípios foi aplicada. O retorno para a tomada da segunda dose também é baixo, prejudicando o desempenho da vacina. Segundo levantamento feito pelo Correio Braziliense, o Espírito Santo ficou no terceiro lugar das unidades federativas com maior número de faltantes da segunda dose. Das 174 mil pessoas da faixa etária de 10 a 14 anos, apenas 72 mil tomaram a primeira dose e pouco mais de 20% desses jovens completaram o esquema vacinal.
Para a bióloga do Centro de Vigilância em Saúde Ambiental de Vitória (CVSA), Lívia Marini, o baixo interesse pela vacinação é uma das sequelas deixadas pela pandemia de Covid-19. “O movimento antivacina, que se fortaleceu nos últimos anos, colaborou negativamente para a baixa adesão das vacinas contra a dengue […] Por conta disso, algumas pessoas acreditam que as vacinas não funcionam ou que causam efeitos adversos”, aponta Marini.
A desinformação é a maior culpada pela hesitação vacinal. Segundo o Massachusetts Institute of Technology, o potencial de viralização de fake news é 70% maior do que o de notícias verdadeiras. Enquanto uma postagem verdadeira alcança em média 1 mil pessoas, uma falsa pode atingir entre 1 mil a 100 mil usuários. Atrelada ao movimento antivacina, as fake news sobre os imunizantes intensificam a queda na cobertura vacinal do país.

A dificuldade nacional de realizar campanhas de vacinação bem-sucedidas reflete desafios estruturais. Entretanto, a hesitação vacinal não é uma realidade só do Brasil. De acordo com dados publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a cobertura mundial de imunização infantil estagnou em 2023, causando surtos de sarampo e de outras doenças de fácil combate a partir das vacinas. Mais de 2,7 milhões de crianças foram deixadas sem vacinação ou com vacinação insuficiente em comparação com os níveis pré-pandêmicos em 2019.
Na ausência de vacinas para toda a população, o governo prioriza campanhas educativas e o combate ao mosquito causador da dengue. Ações como o “Dia D” de eliminação de focos e parcerias com escolas para conscientização infantil são as estratégias favoritas para engajar a população. Embora válidas, essas medidas são paliativas e estão cada vez mais insuficientes: “As pessoas acreditam que os criadouros estão na casa do vizinho, e deixam de fazer a vistoria em suas casas […] As campanhas de conscientização precisam se reinventar: precisamos de uma comunicação que envolva as comunidades”, argumenta a bióloga do CVSA.
Países como Uruguai e Singapura trouxeram soluções inovadoras como a criação de um aplicativo de monitoramento de criadouros de mosquito e multas rigorosas aos cidadãos que tiverem em suas casas água parada com ovos do mosquito. Em contrapartida, o Brasil repete as mesmas táticas das décadas de 1960 e 1970. A dengue se torna, assim, um teste de resiliência para o país. Seu combate eficaz demanda não apenas ciência, mas também cooperação social e reinvenção política — elementos que, hoje, parecem tão escassos quanto as doses de vacina.
O que são arboviroses?
As arboviroses são doenças causadas por vírus transmitidos por artrópodes como mosquitos e carrapatos. Estas patologias incluem a febre-amarela, zika, chikungunya, dengue e oropouche, todas com potencial para causar surtos epidêmicos. A oropouche, por sua vez, está avançando no Espírito Santo, que concentra 99% dos casos no país.
As arboviroses e as mudanças climáticas:
O aquecimento global e fenômenos climáticos como o El Niño são catalisadores dos surtos de arboviroses. Temperaturas elevadas e chuvas irregulares criam ambientes ideais para a reprodução de vetores como o Aedes aegypti. Entre 2022 e 2024, o Brasil enfrentou três epidemias consecutivas, correlacionadas a padrões climáticos extremos. A urbanização desordenada também contribui. O acúmulo de lixo nas cidades e a falta de saneamento básico multiplicam os criadouros.
Dengue chegou até o Japão:
Mesmo sendo doenças de países tropicais e subtropicais, as arboviroses estão expandindo seu alcance geográfico. Com o aumento global das temperaturas, mosquitos como o Aedes aegypti podem se estabelecer em regiões que antes eram consideradas seguras por serem mais frias e, assim, menos favoráveis à reprodução do vetor da dengue. Em 2014, o Japão sofreu um surto de dengue, com mais de 150 casos suspeitos de serem infecções domésticas em Tóquio e em outras áreas, segundo a prefeitura de Sendai. A propagação da doença foi feita pelo Aedes albopictus, parente do Aedes aegypti e responsável pela transmissão da dengue na Ásia e Oceania. Diante disso, as autoridades sanitárias identificaram o local de contaminação e conseguiram eliminar a doença no país, que só aparece agora em casos importados.

