O tempo certo do empreendedorismo

Quando o sol escaldante do verão chega, Cleudineia Barbosa já sabe: as vendas vão aumentar. Ela tem 39 anos e é dona da Super Geladinho, empresa com sede na casa dela e com um quadro total de três funcionários: ela, o marido e a filha. Ela produz chup chup, doce tipicamente brasileiro que se assemelha ao picolé, mas é consumido em um saquinho de plástico. 

O empreendedorismo sazonal é um modelo de negócio em que o produto vendido tem um pico de vendas maior em um momento do ano, como acontece na empresa de Cleudineia. Mas além da venda dos produtos, o ofício empreendedor também pode ser sazonal. Durante os meses em que as vendas são reduzidas ou suspensas por falta de demanda, muitos empreendedores assumem outros trabalhos.

Há 6 anos, Cleudineia Barbosa vende chup chup na região de Guarapari.

É assim que começa a história do negócio de Cleudineia. Em 2019, ela passou a fazer chup chup para o filho e, sabendo disso, os vizinhos passaram a fazer encomendas. Foi aí que nasceu a Super Geladinho.

No início, ela vendia chup chup somente no verão e, no resto do ano, trabalhava como revendedora de cosméticos. Porém, em 2023, ela ingressou na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e passou a vender seus “super geladinhos” na escola que frequentava, durante todo o ano.

Com a rotina dos estudos e do trabalho como revendedora, a dinâmica da produção se mostrou desafiadora. “Dependendo dos pedidos, havia dias em que eu amarrava chup chup à meia-noite, depois de chegar da escola, pois no outro dia precisava entregar para o cliente”

Em 2024, ela concluiu o ensino médio e tem planos de focar exclusivamente no seu negócio de chup chup. Apesar de ser um produto mais procurado durante o verão, isso não impediu Cleudineia de buscar ampliar os horizontes do seu negócio (em outros períodos do ano). As redes sociais e o “boca a boca” na cidade fizeram com que ela recebesse encomendas em diversos meses em 2024. Agora, o plano é abandonar gradativamente as revendas e direcionar todo o seu esforço para a sua empresa de geladinhos.

Folia que gera renda

Outro negócio sazonal que vem ganhando destaque é a confecção de artigos carnavalescos. E nesse ramo, a Ulalá, uma empresa capixaba voltada para a produção de arquinhos, ombreiras, presilhas e outras peças personalizadas para a folia, tem se destacado. 

A empresa foi criada em 2014 pelos amigos Diego Nunes e Mariana Lucas, quando os dois foram curtir o carnaval no Sambão do Povo e resolveram fazer alguns artigos para usar no dia da festa. Após muitos elogios dos amigos, eles resolveram transformar suas ideias em empreendedorismo e se dedicam a isso até hoje, mais de 10 anos depois.

Diego é diretor de arte e Mariana, artista visual. Ele conta que, devido à alta sazonalidade das vendas de seu negócio, após o carnaval eles deixam a produção de lado e se concentram em seus outros empregos. “Nos últimos anos, a produção da Ulalá tem ficado só no carnaval. Mas, às vezes, estamos andando na rua e vemos algo que gostamos, uma inspiração. Assim, vamos criando nosso acervo e observando as tendências, mesmo fora do período de produção.”

Cuidados e planejamentos

Para a analista do Sebrae-ES, Renata Bromonschenkel, o ideal é que o empreendedor sazonal amplie sua cartela de produtos para ter a possibilidade de vender em mais épocas do ano. Além disso, o planejamento é uma parte fundamental para quem tem um negócio sazonal.

Um dos produtos da Ulalá com alta demanda é o arquinho de carnaval.

“Sem o planejamento, não há direcionamento. O empreendedor tem que ter em mente onde ele quer vender, para quem ele quer vender e como ele quer vender”, destaca. 

Esse planejamento pode ser decisivo para os meses em que não há vendas ou quando elas diminuem drasticamente. Um empreendedor que se planeja tem menos chances de passar por dificuldades financeiras no resto do ano, ressalta a analista.

O economista Guilherme Dietze reitera a importância de se organizar antes do início da produção. “Se o empreendedor espera chegar à época do seu pico de vendas para começar a se estruturar, ele já perdeu muito tempo e pode ser prejudicado.”

De acordo com o profissional, quem tem um negócio sazonal deve ter metas de vendas e utilizar estratégias online para ampliar a rede de vendas. Ele ressalta ainda que, para o empreendedor informal, as dificuldades são maiores. “A informalidade talvez seja o cenário mais desafiador para empreender. A pessoa na informalidade está estruturalmente mal. O ganho que ela tem pode ser perdido devido à falta de planejamento, principalmente quando ela trabalha com um produto sazonal.”

Por mais periódicos que sejam, os negócios de Cleudineia, Diego e Mariana são pensados durante os 365 dias do ano. É o tempo do plantio, de preparar a terra para receber as sementes. Adubar e manejar aquele solo para que ele dê os frutos certos, nos momentos certos. 

O empreendedorismo sazonal é um desafio cotidiano para aqueles que o escolheram. Mas quem adota esse tipo de negócio sabe, melhor do que qualquer outra pessoa, que, apesar das dificuldades, o planejamento e as estratégias a longo prazo podem aumentar as chances de bons resultados.

VOCÊ SABIA?

A Primeira Mão é uma revista-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo, totalmente desenvolvida por estudantes, sob orientação de professores. Além de sua versão em PDF, a partir de 2024, a revista também conta com uma versão digital, ampliando seu alcance e acessibilidade. Em 2013, a Primeira Mão foi uma das cinco finalistas da região Sudeste para o prêmio Expocom de melhor revista-laboratório impresso.

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