IA e Soberania Tecnológica: Ufes se prepara para novos desafios

Ufes avança em IA, mas desafios estruturais ainda freiam a soberania tecnológica do país.

Pedro Altafim

A Universidade Federal do Espírito Santo se consolida como um dos principais centros de pesquisa em Inteligência Artificial (IA) no Brasil, figurando entre as 20 instituições que mais publicaram estudos na área. Segundo a Clarivate Analytics, empresa especializada em análise científica, pesquisadores da Ufes produziram 132 trabalhos entre 2019 e 2023, com destaque para pesquisas voltadas a veículos autônomos.

O reconhecimento internacional foi ressaltado pelo diretor de pesquisa da Ufes, Sérgio Lins, que, em entrevista ao site da instituição, enfatizou a importância da IA como uma das áreas estratégicas definidas pela Administração Central. “A Universidade pretende fortalecer ainda mais essa potencialidade que temos”, afirmou. 

A superintendente de projetos e inovação, professora Miriam de Magdala Pinto, destaca o papel da Superintendência de Projetos e Inovação (SPIN), conhecida como Inova Ufes, na promoção de iniciativas voltadas ao fortalecimento da inovação dentro da Universidade, entre as quais está compreendida a inteligência artificial. 

Miriam ressalta que não cabe à Inova Ufes o fomento direto à pesquisa em Inteligência Artificial ou em qualquer outra área específica. Seu papel é articular parcerias estratégicas e buscar diferentes fontes de apoio, não apenas financeiras, para que os avanços científicos desenvolvidos na universidade sejam aplicados em benefício da sociedade.

“Para que os resultados de uma pesquisa se tornem inovação, é fundamental investir recursos na identificação do público beneficiado pela nova tecnologia, na conversão desse conhecimento em produtos ou serviços e na definição do modelo de funcionamento do empreendimento”, explica.

A consolidação da pesquisa em IA na Ufes enfrenta desafios estruturais e financeiros significativos. Para aprofundar essa questão, a superintendente ouviu os pesquisadores Anselmo Frizera Neto e Alberto Ferreira de Souza, referências globais na área, que apontaram como um dos principais entraves para o desenvolvimento dessa área, a necessidade de financiamento sustentável.

A pesquisa em IA exige investimentos contínuos e elevados, enquanto muitas universidades, incluindo a Ufes, dependem de fundos governamentais ou privados, que nem sempre são estáveis. Pela sua relevância na pesquisa em inteligência artificial, a Ufes tem papel ativo na formulação da política estadual de IA. A Inova Ufes colabora nesse processo em parceria com o Ifes e órgãos públicos estaduais, visando estabelecer diretrizes que impulsionam o avanço estruturado da área no Espírito Santo, garantindo um crescimento consistente nos próximos anos.

No segundo semestre de 2024, a Inova Ufes esteve à frente do processo de formulação de uma proposta para a política capixaba de IA, promovendo diálogos com docentes de diferentes departamentos impactados pelas novas tecnologias. Além dessas discussões, um levantamento mapeou os projetos em andamento na universidade, identificando pelo menos 97 iniciativas distribuídas por todos os centros acadêmicos.

Entre os projetos, destacam-se: o uso de IA no diagnóstico de doenças periodontais no Centro de Ciências da Saúde (em Maruípe); o mapeamento das áreas com commodities agrícolas (café, cacau e florestas plantadas) para implantação da plataforma selo verde Espírito Santo (na Região Sul do Espírito Santo, no Campus de Alegre); o desenvolvimento de “tutorias inteligentes” – sistemas de IA que oferecem instruções personalizadas e feedbacks em tempo real aos alunos (no Centro de Educação); o programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática – Baixo Rio Doce, na Região Costeira e Marinha do Espírito Santo (no Centro de Ciências Humanas e Naturais); o painel de informações e desinformações climáticas e socioambientais em redes sociais (no Centro de Artes); e a re-identificação de pessoas baseada em visão computacional e aprendizado de máquina em um espaço inteligente multi-câmeras (no Centro Tecnológico).

Em 2025, a Inova Ufes continuará promovendo diálogos internos e externos sobre IA, com foco na interação multidisciplinar, visando potencializar não apenas a inteligência artificial, mas também a inteligência e a criatividade humanas.

Caminhos para Avançar na Inteligência Artificial na Ufes

O professor da Ufes no campus de Alegre, especialista em Aprendizado de Máquina e Segurança e doutorando em Ciência da Computação, Jacson Silva, acredita que a Universidade vem atuando ativamente para capacitar seus alunos a atuar em diversos setores da sociedade, ampliando suas oportunidades profissionais. Para isso, a universidade mantém objetivos contínuos, como: oferecer programas de formação para atualizar docentes e discentes com as mais recentes tendências e tecnologias em IA; incentivar a pesquisa interdisciplinar, promovendo projetos que integrem diferentes áreas do conhecimento e ampliem o impacto social das inovações; e fortalecer parcerias público-privadas, colaborando com empresas e órgãos governamentais no desenvolvimento de soluções para as demandas da sociedade.

Além disso, a criação de iniciativas de formação continuada e o fortalecimento de laboratórios de pesquisa são estratégias que podem impulsionar significativamente esse avanço, como ressalta o especialista. Na sua visão, é essencial expandir e consolidar as colaborações entre departamentos e instituições, bem como intensificar parcerias com os setores público e privado. Isso inclui a busca por patrocínio e investimentos governamentais, uma vez que os equipamentos necessários para trabalhar com tecnologias de ponta em IA têm custos elevados.

Silva considera que a universidade exerce um papel fundamental na capacitação contínua de alunos e na articulação de parcerias que impulsionam a IA em áreas como agronegócio, saúde e educação. “Pesquisas e desenvolvimentos importantes já ocorrem em Vitória e vêm se expandindo significativamente para o sul do estado. Também buscamos equilibrar a formação dos alunos com a promoção de projetos inovadores que atendam às demandas sociais”, afirma. Porém, como também aponta, desafios estruturais, como a necessidade de maiores investimentos em infraestrutura computacional, especialmente no interior, ainda limitam o potencial do Estado e do país na área.

Principais desafios:
Os pesquisadores apresentaram à superintendente quatro frentes estratégicas para fortalecer o desenvolvimento da inteligência artificial na Ufes, considerando os desafios e oportunidades da área:
1. Aquisição e manutenção de equipamentos de alto desempenho, como Unidades de Processamento Gráfico (GPUs – Graphics Processing Units) e Unidades de Processamento de Tensores (TPUs – Tensor Processing Units), fundamentais para o processamento de dados;
2. Infraestrutura física adequada para abrigar pesquisadores e servidores de alto desempenho, além de redes de internet ultrarrápidas;
3. Contratação e retenção de talentos, um desafio acentuado pela concorrência com o setor privado;
4. Participação em eventos científicos e de inovação, essenciais para a atualização constante dos pesquisadores.

Aplicações da IA no Brasil e Desafios para seu Avanço

No Brasil, a IA pode ser aplicada em diversas áreas, como o setor agrícola, a saúde, a segurança pública e o mercado financeiro. Na produção rural, por exemplo, a tecnologia pode otimizar processos, auxiliar na previsão climática e aprimorar a gestão de recursos. No setor de saúde, a IA tem o potencial de melhorar diagnósticos, prever surtos de doenças e tornar a administração hospitalar mais eficiente. Além disso, áreas como educação e administração pública podem se beneficiar significativamente da inteligência artificial e da análise preditiva. Essas ferramentas podem ser valiosas para automatizar revisões científicas, realizar modelagem computacional avançada, personalizar o aprendizado e até mesmo ajudar alunos que, muitas vezes, hesitam em fazer perguntas diretamente aos seus tutores.

Para que o Brasil se estabeleça como uma referência global em IA, é essencial superar desafios técnicos, estruturais e políticos. Um exemplo concreto está na infraestrutura, que exige investimentos expressivos para ampliar a capacidade computacional voltada à pesquisa e ao desenvolvimento. O professor Jacson Silva destaca que a aquisição de equipamentos capazes de operar ferramentas de IA de última geração ainda é uma meta a ser atingida pela universidade. Nesse contexto, o incentivo à pesquisa se torna um aspecto central: políticas públicas que promovam a colaboração entre universidades e empresas podem acelerar a inovação e fortalecer um ecossistema mais dinâmico e competitivo.

Lições da China e desafios locais

Casos como o do DeepSeek, um modelo de IA desenvolvido na China com custos relativamente baixos, exemplificam como soluções avançadas podem ser alcançadas por meio de investimentos estratégicos. A estratégia estatal chinesa para dominar a inteligência artificial, centrada no incentivo à pesquisa e no fortalecimento da infraestrutura, demonstra claramente como a soberania tecnológica pode ser conquistada com um planejamento governamental bem estruturado e parcerias eficazes.

Nesse contexto, o professor Silva observa que é fundamental que o Brasil amplie o número de profissionais qualificados na área de IA, desde o ensino básico até a pós-graduação. Ele apontou que, embora já existam grupos de pesquisa focados nos avanços tecnológicos, ainda é necessário expandir essas iniciativas e promover colaborações entre elas para acelerar o desenvolvimento da tecnologia no país.

Além da infraestrutura e da formação de pessoas, ele também defende que a criação de uma cultura de inovação é essencial para impulsionar o desenvolvimento da IA no Brasil. Um ambiente que favoreça a criação e o crescimento de startups pode acelerar a adoção de IA em diferentes setores, contribuindo para a soberania tecnológica. No entanto, ele também destaca a importância de garantir uma regulação equilibrada, que assegure o uso ético das tecnologias, sem criar barreiras que possam dificultar seu avanço e possam frear o progresso científico e tecnológico. Com esforços coordenados e uma estratégia de longo prazo, o Brasil pode se destacar no cenário global.

A Primeira Mão é uma revista-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo, totalmente desenvolvida por estudantes, sob orientação de professores. Além de sua versão em PDF, a partir de 2024, a revista também conta com uma versão digital, ampliando seu alcance e acessibilidade. Em 2013, a Primeira Mão foi uma das cinco finalistas da região Sudeste para o prêmio Expocom de melhor revista-laboratório impresso.

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