Autor: ruthreis

  • Muito além do samba e da feijoada: o legado atemporal do bar Calipe

    Muito além do samba e da feijoada: o legado atemporal do bar Calipe


    Entre a passagem do tempo e do espaço, uma coisa permanece: a amizade que o estabelecimento construiu com sua clientela.

    Em frente a uma escola de música, sob a sombra de uma grande castanheira-da-praia, localizam-se as quatro paredes de um dos bares mais famosos de Vitória: Calipe. Com uma placa amarelo vibrante, as seis letras coloridas que nomeiam o estabelecimento permanecem desde a década de 90 no bairro de Jardim da Penha, famoso pelas suas pracinhas idênticas e moradores divididos entre juventude e melhor idade. 

    Ali, no bar Calipe, muitas histórias começaram, terminaram e atravessaram gerações. Se engana quem pensa que foi apenas um cliente transitando em uma O Calipe nasceu da união do nome dos filhos do seu criador, Paulinho. Ana Carolina e Luiz Felipe foram as inspirações para que o bar começasse a engatinhar, no bairro Praia do Canto dos anos 80. Por questões financeiras, Paulinho decidiu passar o bastão pnoite aleatória. Quem senta naquelas cadeiras de plástico azuis assina permanentemente seu nome no livro da vida do bar. 

    Para seu amigo, o empresário Carlos Alberto Colli, o “Alemão”. Gerente de uma grande padaria na época, ele sabia como administrar um estabelecimento. Agora, localizado em duas tímidas portinhas na rua Eugênio Ramos, Calipe mal sabia que ocuparia bem mais que apenas um número em uma calçada. Ele estava em boas mãos. E não apenas boas mãos, mas também em um bom coração.

    O bar e restaurante logo ficou conhecido por ser um lugar de encontros, graças ao Alemão. Quem frequentava, sabia: é o homem dos caldos e da feijoada. Todo fim de semana o cheiro na cozinha viajava pelas paredes e encantava pelo olfato: logo os fregueses se animavam com a expectativa de que Alemão estava cozinhando. 

    Com um sorriso, ele convidava os grupos a curtir um samba e conversar sobre a vida, abrigados sob os toldos amarelinhos. A culinária afetiva abraçava universitários que iam celebrar o fim do período, ou casais que tinham seu primeiro encontro sentados nas cadeiras de plástico azuis. 

    Time do Flamengo, frei do Convento, recém casados ou “terminados”, todos iam confessar suas alegrias e tristezas para Alemão, que com gentileza escutava e cuidava de seus clientes com amor, através de pratos deliciosos e marmitinhas de comida doadas a quem precisasse.

    Em casa, a saudade apertava. Mas os filhos sabiam da vida corrida que quem tem um bar leva, ape sar de não compreenderem inteiramente. Em troca, o Calipe abrigava as três crianças em tardes de brincadeiras sem fim. Quando presente, o pai estava de corpo e alma, garantindo o sustento para a casa.

    Os anos se passaram, a clientela se renovou mas o bar continuava ali, observando os pedestres apressados de manhã darem lugar aos jovens tranquilos e risonhos da noite.

    Depois do dia 20 de outubro de 2022, as coisas mudaram no Calipe. Não era mais Alemão que limpava as mesas, servia as pessoas e fazia a feijoada. Era Carla, sua filha. O coração bondoso do patriarca parou de bater nessa data, enchendo a atmosfera do Calipe de tristezas e saudades. Sem hesitar, o novo “Ca” do nome do bar assumiu a direção. Seguindo os passos do pai, Carla logo percebeu o que tinha de diferente naquelas mesas e naqueles clientes: o amor. Era um carinho tão grande que ela se admirava: “como meu pai fez a diferença na vida de tantas pessoas!” 

    Em um desses papos corriqueiros, a nova dona do Calipe descobriu a famosa sopa do Alemão: cumprindo uma promessa, toda segunda seu pai fazia um caldo e distribuía para os amigos e transeuntes. Vinha juiz, advogado, estudante, todo tipo de gente garantir o seu pratinho. “Tem gente que me pede até hoje essa sopa. Eu pergunVinha juiz, advogado, estudante, todo tipo de gente garantir o seu pratinho. “Tem gente que me pede até hoje essa sopa. Eu perguntei à nossa cozinheira, mas só meu pai que sabia fazer”, ela conta. Carla mantém a tradição até hoje: sempre que sobra, ela que faz a marmita para distribuir. Assim, o pai continua vivo com ela.  

    Como tudo na vida, Calipe passou por altos e baixos. Ainda não sabe seu futuro – se é hora de encerrar os quarenta anos de tradição em Vitória ou se deve se aventurar em outros bairros, outras cidades. Por atrasos burocráticos (ou sorte do destino) o fim do contrato de locação ainda está parado na justiça. Mas, uma coisa é certa: o bar é sinônimo de união para muitos. Graças a ele, laços foram fortalecidos, ciclos encerrados ou recomeçados… tudo em uma conversa ou em várias saideiras. Um verdadeiro amigo presente, ainda que silencioso. E, como bem diz o quadrinho perto da estufa de salgados e da pintura da Última Ceia, “A amizade, nem mesmo a força do tempo irá destruir.”

    E é assim que Calipe vê a sua história. 

  • Mobilidade urbana ou preservação histórica

    Mobilidade urbana ou preservação histórica

    Obra no Centro de Vitória levanta debate sobre preservação do patrimônio histórico e funcionalidade urbana


    A música “Gentileza”, de Marisa Monte, lançada nos anos 2000, reflete sobre o apagamento cultural, inspirado no profeta Gentileza e nos escritos apagados do viaduto do Caju, no Rio de Janeiro, nos anos 1990. Os versos “Apagaram tudo / Pintaram tudo de cinza” traduzem a perda da memória histórica em prol da modernização. A história e a discussão, 24 anos depois, se repetem em Vitória, Espírito Santo, com a concretagem de pedras centenárias no Centro, desconsiderando o valor histórico em nome da urbanização.

    A recente concretagem das pedras que compõem o calçamento do Centro de Vitória, realizada pela Prefeitura em outubro, despertou o debate sobre como equilibrar avanços em mobilidade urbana e a preservação do patrimônio histórico.  A intervenção, que inclui áreas como a Praça Costa Pereira, um dos principais marcos da região, foi criticada por moradores, comerciantes e especialistas. A Prefeitura Municipal de Vitória, quando contatada, não se pronunciou sobre o assunto. Não houveram justificativas sobre o porquê esse serviço foi feito e tão pouco foram pensadas alternativas que atendessem as necessidades de locomoção e ainda sim preservassem as características tradicionais do Centro.  

    João Martini, comerciante e morador das proximidades da Praça Costa Pereira, reconhece que o nivelamento do terreno pode facilitar a locomoção, mas considera o impacto histórico negativo: “o Centro é parte da história de Vitória e do Espírito Santo e se liga, principalmente, a nós que vivemos diretamente com a cultura daqui todos os dias. Por mais que talvez ajude na locomoção, um terreno mais plano, acredito na preservação da história e isso mesmo com o avanço da urbanização”.


    A Praça Costa Pereira, tradicional palco de manifestações culturais e eventos sociais, foi apenas uma das áreas afetadas por intervenções na tentativa de “revitalizar” o Centro. Para o arquiteto e urbanista, Hugo Mariani Frossard, mestre em Arquitetura e Cidade, ações desse tipo precisam ser melhor planejadas. “Políticas de pavimentação e requalificação dos calçamentos podem trazer benefícios, sobretudo do ponto de vista da acessibilidade. Contudo, em centros históricos, é fundamental priorizar a manutenção das características originais em diálogo com os órgãos responsáveis, o que vem sendo desconsiderado.” 

    Frossard também destaca o risco de descaracterização do Centro: “a concretagem das paginações em pedras portuguesas aponta para um processo de transformação da cidade a partir de sua imagem, que pode resultar na desterritorialização do espaço e no apagamento de símbolos históricos e culturais”. Segundo ele, a revitalização da área central, que promete recuperar a relevância histórica do Centro, contrasta com ações como as restrições a eventos culturais tradicionais impostas pela atual gestão. 


    O debate em torno da concretagem reflete um dilema que ultrapassa as fronteiras da capital: como repensar as cidades sem apagar suas raízes? 


    Embora a transformação do calçamento atenda a demandas por acessibilidade, questiona-se o custo sociocultural dessa mudança. Para Frossard, a discussão deve ser ampliada: “a transformação da cidade nos diz muito sobre nossa relação com a história. Intervenções como essas devem ser o pontapé para repensar a preservação da área enquanto centro histórico”.

    Enquanto isso, a ausência de diálogo da gestão municipal com a população e especialistas sobre mudanças na paisagem urbana expõe lacunas na abordagem política e técnica da revitalização do Centro. Para João Martini e outros cidadãos da região, o que está em jogo não é apenas um calçamento, mas a memória coletiva de Vitória, que precisa ser valorizada mesmo em meio às demandas modernas. 

  • Meu lugar ao sol

    Meu lugar ao sol

    Superlotação, atrasos, conflitos e barulho em excesso: as dificuldades de quem utiliza o transporte público para ir à praia na Grande Vitória

    O pé na areia, a caipirinha, a água de coco, a cervejinha… Quem não gosta de praia? Para muitos, ela é um dos espaços mais democráticos, onde pessoas de diferentes classes sociais podem se reunir. No entanto, essa ‘democracia’ esbarra na realidade de quem depende do transporte público para chegar até lá. O mar e a areia ainda não conseguem atravessar as barreiras das desigualdades sociais. 

    Enquanto é difícil encontrar alguém que não goste de praia, é fácil encontrar quem tenha dificuldade para desfrutar desse espaço. Cenas de ônibus entupidos e pontos lotados se tornaram rotina na vida de quem depende do transporte público. 

    Luciana, nail designer, explica os desafios que enfrenta nos domingos. “Falta muito ônibus, principalmente nos finais de semana. Só passa de hora em hora. E é o dia que o povo tira para se divertir, depois de trabalhar a semana inteira. A gente passa mais tempo no terminal e esperando no ponto do que realmente se divertindo”, desabafa.

    Na realidade, a matemática é simples. No Brasil, cerca de 32 milhões de pessoas trabalham em regime de 6×1 (segundo dados do Ministério do Trabalho – RAIS). Considerando que o dia de folga da maioria dessas pessoas será tradicionalmente o domingo, é exatamente nesse dia que a frota de ônibus é reduzida ao máximo. Ou seja, problemas como superlotação, brigas, excesso de barulho e atrasos são resultados de uma alta demanda e de uma oferta baixíssima. 

    Além da redução na quantidade de ônibus disponíveis, algumas linhas simplesmente deixam de operar aos domingos. É o caso da linha 505 (Terminal de Itacibá – Terminal de Laranjeiras), que passa por pontos próximos das praias mais frequentadas de Vitória, como Ilha do Frade, Ilha do Boi, Camburi e Curva da Jurema. No lugar dessa linha, entra o chamado “linhão”, como o 502, que sai do Terminal de Itacibá, passa pelo Terminal de Jardim América, depois pelo Terminal de São Torquato, e só então segue um trajeto semelhante ao 505. Isso significa que, de segunda a sábado, existe um ônibus que faz um trajeto mais direto até a praia, mas aos domingos pessoas de diferentes regiões são concentradas em uma única linha, gerando problemas previsíveis: superlotação, maior tempo de deslocamento e estresse coletivo, que frequentemente resulta em conflitos.

    Segundo Zedequias Inácio, diretor do Sindirodoviários, a superlotação também representa um desafio de segurança pública para os motoristas.“Com a superlotação, há uma disputa muito grande por espaço entre os passageiros, o que gera brigas e confusões, deixando os motoristas inseguros. Esses conflitos são mais comuns em dias de sol, quando o fluxo de pessoas aumenta. Durante o inverno, essas situações são menos frequentes”, explica.

    Em nota, a Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo (Ceturb), empresa responsável pelos coletivos, informou que, a partir do dia 8 de dezembro, algumas linhas que atendem balneários receberão reforço. São elas:

    • 211 (Santo André / Jardim Camburi)
    • 331 (Ilha das Caieiras / Praia do Suá)
    • 513 (Terminal Carapina / Terminal Campo Grande, via Terminal Jardim América e Terminal São Torquato, pela Beira-Mar)
    • 611 (Terminal Itaparica / Praia da Costa, via Itapoã e CREFES – Circular)
    • 672 (Trevo de Setiba / Terminal Itaparica)
    • 854 (Praia Grande / Terminal Jacaraípe, via Nova Almeida).


    “Além do reforço, haverá ainda 23 veículos de reserva nos terminais para qualquer eventualidade de concentração de demanda além do previsto (…) os veículos de reserva vão atender aos terminais Jacaraípe, Vila Velha, Itaparica, São Torquato e Campo Grande.”

    Para usuários do sistema ouvidos pela reportagem, uma solução é unanimidade: aumentar a frota de ônibus. “Muito mais ônibus, muito mais linha. Tipo, a linha que a gente pega pra vir, ela dá muita volta, e a maioria do pessoal vem direto pra praia, então, se um ônibus que pegasse da ponta da praia até aqui direto seria melhor, acho que quanto mais ônibus e a rota mais rápida, melhor”, explica o estudante João Henrique, que faz o trajeto de Cariacica a Vila Velha.

    De acordo com Paula Roberta e João Henrique, uma boa dica para evitar transtornos é sair de casa cedo e voltar antes do horário de pico. “Eu costumo vir mais cedo, como minha mãe gosta de pegar o sol do meio-dia na praia. Por isso, geralmente chegamos entre cinco e meia e seis horas da manhã e vamos embora ao meio-dia. Hoje acabamos passando do horário. Normalmente, devido à lotação, viemos de ônibus e voltamos de Uber.”, explica Paula Roberta.

  • Chuvas: o desafio da mobilidade na grande Vitória

    Chuvas: o desafio da mobilidade na grande Vitória

    Alagamentos, atrasos e trânsito caótico expõem as dificuldades enfrentadas pelos capixabas que dependem do transporte público nos dias chuvosos.

    No Espírito Santo, as chuvas são uma presença constante, e seu impacto vai além das enchentes e danos estruturais. Para milhares de capixabas, a dificuldade de locomoção é uma consequência direta desse fenômeno climático, alterando rotinas e gerando frustrações. Combinando precariedade no transporte público e condições urbanas insuficientes, a mobilidade urbana em dias chuvosos se transforma em um verdadeiro desafio, em especial na Grande Vitória.

    Amanda Kfuri, 21, estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo, mora em Vila Velha e depende de dois ônibus para chegar à universidade em Goiabeiras, Vitória. Ela conta que a chuva é sempre motivo de preocupação. “Já perdi provas importantes porque os ônibus não passaram ou estavam muito atrasados. Quando chove, é um caos. Às vezes o ponto de ônibus está tão alagado que a gente não sabe nem onde ficar.”

    Para quem trabalha, os desafios não são menores. Vilma de Souza, 64, diarista que mora na Serra, também sente o peso das chuvas em sua rotina. Ela depende de ônibus para chegar ao seu trabalho em bairros nobres de Vitória e já contabiliza prejuízos causados pelos atrasos. “Quando começa a chover, já sei que vou me atrasar. O trânsito piora muito, e os ônibus não conseguem cumprir o horário. Muitas vezes, o motorista muda a rota para evitar ruas alagadas, e ninguém avisa nada.” Segundo ela, o maior impacto é na volta para casa. “Depois de um dia inteiro de trabalho, tudo que quero é chegar logo, mas demora o dobro do tempo. É cansativo.”

    Os alagamentos são um fator crítico. Sem sistemas de drenagem eficientes, muitas ruas se tornam intransitáveis, o que paralisa o tráfego e dificulta ainda mais a locomoção. Áreas como o entorno da Terceira Ponte, um dos principais acessos entre Vila Velha e Vitória, frequentemente enfrentam congestionamentos que podem triplicar o tempo de deslocamento.

    O impacto dessa realidade vai muito além do tempo perdido. Trabalhadores e estudantes enfrentam atrasos frequentes, perda de compromissos importantes e o estresse causado pela incerteza. A frustração de sair cedo de casa e ainda assim não conseguir cumprir horários é um reflexo de uma infraestrutura que não atende às demandas da população, especialmente em períodos de maior incidência de chuvas.

    Com a chuva como uma constante no estado, é essencial que as cidades priorizem ações para mitigar os impactos nos dias chuvosos. Melhorar a mobilidade não é apenas uma questão de conforto, mas uma necessidade que afeta diretamente a qualidade de vida de milhares de capixabas. Enquanto isso, a previsão de chuva continua a ser, para muitos, um sinal de alerta para mais um dia de desafios e imprevisibilidade.

  • Como a base da internet desafia a sustentabilidade global

    Como a base da internet desafia a sustentabilidade global

    O preço ambiental das gigantescas estruturas que sustentam a era digital

    Nos dias de hoje, é possível fazer quase tudo por meios digitais: marcar consultas, emitir documentos, armazenar arquivos entre outras coisas. Contudo, essas operações dependem de uma estrutura gigantesca operando nos bastidores: os centros de processamento de dados (CDPs) ou data centers.

    Só no Brasil o número de data centers saltou de 65 para 181 em apenas quatro anos, segundo o Data Center Map. Ainda que existam desde a década de 1960, eles se tornaram essenciais nos últimos anos para apoiar mercados emergentes como o de inteligência artificial e criptomoedas. No Espírito Santo, existem pelo menos quatro instalações, incluindo o Data Center do Estado, que sustenta sistemas da esfera estadual. Enquanto alimentam a transformação digital, eles trazem desafios para a sustentabilidade, principalmente devido à alta demanda energética.


    O que são data centers e como funcionam

    Os data centers são estruturas físicas que abrigam enormes e potentes computadores que ficam ligados 24 horas por dia, sete dias por semana. São como grandes bibliotecas digitais que armazenam e processam os dados, garantindo o funcionamento de sistemas como os de e-mails, redes sociais, serviços de streaming e outros. 

    A internet precisa de duas etapas básicas para executar funções: acessar informações e processá-las para transformar em ações. Pense no cérebro humano: para falar, ele busca na memória as informações necessárias e as processa para transformar em fala. Quando fazemos uma pesquisa no Google, algo semelhante ocorre. A pergunta que enviamos é processada em uma máquina dentro de um data center, que busca as informações relevantes, organiza os dados e entrega a resposta de volta. Operações como essa exigem alta capacidade computacional, por isso, é necessário um conjunto de grandes computadores que sejam capazes de efetivá-las.

    Infográfico: Isadora Eleutério



    Impactos ao meio ambiente 

    Para operar ininterruptamente, os data centers exigem altos níveis de energia e constante atualização de equipamentos. Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos, as maiores estruturas consomem aproximadamente 100 megawatts de energia, o suficiente para abastecer em torno de 80 mil residências. O alto consumo ocorre porque, além de manter os servidores funcionando, cerca de 40% dessa energia é usada para resfriá-los e evitar superaquecimento, conforme a empresa de equipamentos de refrigeração Danfoss.

     A demanda energética tem crescido exponencialmente devido ao avanço de tecnologias como inteligências artificiais e criptomoedas, que consomem muito mais energia que sistemas convencionais. Apenas uma pergunta para o ChatGPT pode consumir energia equivalente a manter uma lâmpada de LED acesa por 20 minutos, de acordo com pesquisador do Allen Institute for AI, Jesse Dodgers.

    A necessidade de constante atualização dos equipamentos eletrônicos nos centros de processamento emerge outra questão: a vasta produção de lixo eletrônico. O professor de engenharia elétrica da Ufes, Patrick Ciarelli, aponta a dificuldade de reciclar esse tipo de resíduo. Ele explica que os equipamentos mesclam diferentes materiais, como plástico, cerâmica e metal, o que dificulta o processo de separação e reciclagem das peças que acabam em grandes aterros. Essa visão é corroborada pelo também professor e membro titular do Conselho Nacional do Meio Ambiente, Luiz Fernando Schettino, que salienta o impacto da mineração de metais pesados para produzir baterias e peças da mesma natureza.

    O uso de água para resfriamento também é alarmante. De acordo com o Datacenterdynamics, os centros de processamento de dados normalmente utilizam água potável para resfriar os servidores e, devido ao tratamento para retirar minerais, essa água se torna imprópria para consumo após sair das instalações. O consumo médio de água por data center é de aproximadamente 1,5 a 2 litros de água para cada quilowatt-hora de energia, segundo Fabrício Costa, diretor técnico da empresa especialista em data centers, Zeittec.


    Como alinhar o desenvolvimento tecnológico às questões ambientais?

    Segundo Schettino, a conscientização é essencial para enfrentar os impactos ambientais do data centers. Ele enfatiza que a sociedade deve entender o custo ambiental, energético e material da tecnologia. A diversificação da matriz energética é apontada como uma solução prioritária. Schettino e Ciarelli defendem o uso de energias renováveis e investimentos em pesquisa para viabilizar sua aplicação em data centers. “Mesmo que essas empresas não as utilizem diretamente, elas têm que incentivar e investir em pesquisas para ajudar o desenvolvimento da área de energia limpa.”, reitera Luiz Fernando Schettino.

    Projetos inovadores como o Project Natick da Microsoft, exploraram soluções sustentáveis como data centers subaquáticos que utilizam a água para resfriar equipamentos e gerar energia. No Brasil, iniciativas como a da Energix Global, que planeja construir um data center que opera com 96% de energia limpa, demonstram o desenvolvimento de opções acessíveis. O especialista em data centers, Fabrício Costa, também aponta estudos sobre a utilização de alternativas para o resfriamento, como líquidos menos voláteis, e a tendência de construir data centers em climas amenos, visando a refrigeração natural.

    No Espírito Santo, essas estruturas adotam práticas de eficiência energética, mas ainda não utilizam fontes de energia renováveis nem medidas sustentáveis específicas. Algumas soluções, segundo o Instituto de Tecnologia da Informação e Comunicação do Espírito Santo (Prodest) são a aquisição de equipamentos com melhor desempenho energético e sistemas especializados no monitoramento da infraestrutura crítica de data centers. 

    Para Ciarelli a otimização energética é fundamental. Ele menciona o uso de algoritmos que comprimem arquivos e placas de vídeo mais eficientes como caminhos para diminuir o consumo de energia. No entanto, o avanço da inteligência artificial desafia a eficiência energética, arriscando o colapso do setor se não forem desenvolvidas fontes de energia alternativas e estratégias para limitar o armazenamento de dados desnecessários. 

    Infográfico: Isadora Eleutério



    Sob o ponto de vista jurídico, apesar de regulamentos mais gerais como o Manifesto de Transporte de Resíduos, o Brasil carece de regras específicas para data centers. Atualmente, a Associação Brasileira de Data Centers, ABDC, está à frente na busca pela regulamentação do setor. Entretanto, o mais próximo de uma lei mais direcionada é o projeto de lei 3018/2024, que foca em data centers de inteligência artificial. Ainda em tramitação, ele prevê a garantia da eficiência energética e a responsabilidade no uso dessas tecnologias. Países como Chile e Holanda já exigem licenciamento ambiental e avaliações de impacto para a construção dessas estruturas.

    Dado o potencial brasileiro para hospedar data centers e as tendências internacionais, a inclusão do setor no licenciamento ambiental nacional e a elaboração de uma regulamentação que abranja os impactos ambientais dessas estruturas são essenciais. “Sem sustentabilidade, não há futuro, clima regulado ou equilíbrio ecológico. Então, as coisas devem ser bem feitas, eficientes e com responsabilidade”, conclui Schettino.

  • O primeiro país nas nuvens

    O primeiro país nas nuvens

    A luta contra o tempo para preservar a identidade e soberania de Tuvalu diante do avanço do mar

    O que acontece com um país sem terra? O que parece ser uma pergunta sobre uma realidade distante é, na verdade, um dilema que o Estado de Tuvalu enfrenta atualmente. Localizado no meio do Oceano Pacífico, o arquipélago de nove ilhas e pouco mais de 11 mil habitantes e menos de 26 km² de território, está entre os países mais ameaçados pelo aumento do nível do mar causado pelas mudanças climáticas. A previsão é de que em menos de 25 anos metade de Funafuti, a capital que concentra a maior parte da população, ficará submersa. Com uma elevação média de apenas dois metros acima do nível do mar, Tuvalu busca uma solução inovadora para preservar sua identidade, cultura e soberania: a migração para o metaverso.


    A proposta de migração digital faz parte do “Future Now Project”, que prepara os tuvaluanos para o pior cenário dos efeitos da crise climática. O slogan do projeto “Preparar-se hoje para garantir o amanhã” resume a mensagem que o país busca passar para os líderes globais – em especial aos países com maior pegada de carbono – de que é preciso um maior comprometimento com a redução da emissão dos gases do efeito estufa.

    O governo de Tuvalu entende que embora as consequências do aquecimento global afetem todos os países, seus efeitos são desiguais. Por conta disso, o projeto tuvaluano consiste em três frentes. A primeira é a promoção dos valores culturais tuvaluanos, com o objetivo de engajar outras nações na luta contra as mudanças climáticas. As outras duas frentes são mais pragmáticas, focadas, respectivamente, na definição de medidas jurídicas que assegurem a soberania de Tuvalu; e a criação de uma nação virtual a partir de um sistema administrativo digital. Esta última também abrange a preservação de documentos históricos, registros culturais e outros materiais valiosos, como textos, imagens e conteúdos multimídia, garantindo sua proteção contra desastres induzidos pelo clima. 

    Hoje, praticamente todas as nações já têm serviços digitais. Para o professor de segurança da informação Gilberto Sudré, a migração digital não é uma questão completamente surpreendente: “Se a gente pensar, por exemplo, no próprio Brasil, praticamente tudo do governo federal é através do Gov.br. Os próprios cidadãos exigem isso, para ter uma resposta rápida dos serviços governamentais. Não é uma questão nova, nesse caso.” Embora a ideia de “tornar-se digital” não seja exclusividade de Tuvalu, já representa um marco significativo, uma vez que vincula essa estratégia diretamente à mobilidade climática, tornando sua experiência pioneira em um contexto de adaptação e sobrevivência. O conceito de mobilidade climática diz sobre o deslocamento de pessoas e cargas causado por eventos climáticos extremos, como o aumento do nível do mar, ondas de calor, queimadas ou inundações. Segundo o ESG Insights, empresa de informação e análises ambientais, sociais e de governança, nas últimas duas décadas, pelo menos 8 milhões de brasileiros migraram por causa de enchentes, incêndios florestais, secas ou o aumento do nível do mar.


    Não há leis que impeçam

    De acordo com a coordenadora de relações internacionais da Faculdade de Direito de Vitória, Elda Bussinguer, não há nada, do ponto de vista normativo, que delimite a constituição de Estado como indissociável à existência de um território físico: “Tudo (a jurisdição) está por se constituir”. No entanto, a professora reconhece que seria necessário uma grande força política para movimentar as resoluções internacionais: “Se o contexto de Tuvalu estivesse acontecendo com alguns países maiores, de maior influência política, isso certamente já estaria resolvido”. A constituição de Tuvalu já foi alterada para se adaptar à situação extrema que enfrentam. A emenda declara que o Estado de Tuvalu, dentro de seu marco histórico, cultural e legal, permanecerá no futuro, mesmo que os impactos das mudanças climáticas ou outras causas resultem na perda de seu território físico.

    Seguindo a segunda frente do “Future Now Project”, Tuvalu também formalizou sua soberania digital em acordos com outros países, tendo assinado agora 12 comunicados conjuntos com as Bahamas, Ilhas Cook, Gabão, República do Kosovo, Ilhas Marshall, Niue, Palau, São Cristóvão e Nevis, Santa Lúcia, Taiwan, Vanuatu e Venezuela. Além disso, as 18 nações do Fórum das Ilhas do Pacífico pronunciaram coletivamente que sua soberania e independência continuarão apesar do avanço do nível do mar, elevando o total atual de países que reconhecem legalmente a soberania digital de Tuvalu para 25. 

    Desse modo, a nação insular encontra um cenário jurídico internacional mais flexível, que começa a questionar a necessidade de um território físico como fundamento de soberania. Contudo, essa mesma abertura não se aplica a outras situações, como as lutas pela soberania de povos como os palestinos e os curdos. Apesar de reivindicarem identidade cultural, histórica e política próprias, esses povos enfrentam barreiras geopolíticas no reconhecimento de seus Estados. Se o conceito de soberania está se desvinculando da existência de um território fixo, as possibilidades de reconhecimento  deveriam ser também ampliadas para esses grupos. 


    Luta contra o negacionismo

    Na visão de Luiz Fernando Schettino, membro titular do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), para além da proporcionalidade das forças políticas, a questão de Tuvalu é uma luta contra o negacionismo: “Não se quer acreditar que isso é um fato e não se está trabalhando na velocidade que deveria. (…) Tuvalu é apenas a ponta do iceberg daquilo que virá”. Sua visão vai ao encontro da opinião da pós-doutora em oceanografia ambiental Kyssyane Oliveira, que acredita que a comunidade científica está “pegando leve” na hora de divulgar o que realmente está acontecendo. 

    Atualmente, a taxa média global do aumento do nível do mar é de 4,5 milímetros por ano, segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). No Oceano Pacífico, as taxas de elevação estão acima da média global, com cerca de 5 milímetros por ano, embora variem em algumas áreas devido a fatores locais. O fato de Tuvalu ser uma ilha com menos de 26 km² torna mais perceptível a perda de território pelo avanço marinho do que em países continentais como o Brasil. Ainda assim, os impactos já são visíveis em cidades como Aquiraz, no Ceará, e Atafona, no Rio de Janeiro.

    Os dois principais fatores que estão intensificando esse fenômeno são o derretimento das geleiras e a expansão das águas devido ao aquecimento global. Para a professora Kyssyane, a melhor estratégia que os países têm para reverter esse cenário é reduzir ao máximo as emissões de gases do efeito estufa. Conforme dados do IPCC, os países e territórios insulares do Pacífico contribuíram com 0,03% da emissão desses gases, embora estejam entre os mais vulneráveis às suas consequências. “Precisamos parar de nos comportar como se fôssemos todos ilhas”, afirmou Simon Kofe, membro do parlamento de Tuvalu e porta-voz de Tuvalu, em uma entrevista ao National Geographic. 

    “Vai ser como ter muitas atlântidas no fundo do mar”, reitera o membro do Conama, Luiz Schettino. Um estudo do Jornal de Transtornos de Ansiedade avaliou os impactos da crise climática na saúde mental da população tuvaluana e revelou que 62.24% dos participantes do estudo experienciam sofrimento psicológico em níveis que causam prejuízo em uma ou mais áreas de sua vida diária. Schettino adiciona: “Pelas próximas gerações vai existir um sentimento de perda de local, de identidade e de sonho”.



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