A história da mulher que adorna os jardins do Palácio Anchieta imortalizada pelo artista plástico italiano Carlos Crepaz
Acordar cedo, levantar e sair pelas ruas em busca de papelão: essa era a rotina de Dona Domingas, embaixo de chuva ou de sol, de olhares enojados ou de pena. Será que essa senhora tímida, que mal levantava a cabeça e olhava apenas para o chão se imaginaria representada numa escultura em frente ao palácio Anchieta?
Tudo começou quando o artista italiano Carlos Crepaz veio para o Brasil, em 1951, e foi morar em Santo Antônio, bairro em que Dona Domingas residia. Com o tempo, começou a se aproximar da senhora cabisbaixa que passava por sua casa em busca de papelão. Alguns anos depois, o primeiro busto que representava essa figura criou forma e desde 1956 o escultor fez mais três obras com o mesmo título: “Dominga”.
Além da intrigante imagem que ocupa uma das laterais da escadaria Bárbara Lindemberg, no centro de Vitória, uma outra, em escala menor, preenche os salões do acervo do Museu Nacional no Rio de Janeiro. As outras duas esculturas estão no país natal do autor, para o qual voltou no final de sua vida.
Embora o artista tenha intitulado a obra como “Dominga”, a escultura localizada na subida do Palácio não possui identificação. Por isso, ficou conhecida como “A Pietà do Lixo”. A Pietà é a famosa obra de Michelangelo, em que Maria segura o corpo de Cristo. Dona Domingas também segura algo nas mãos: um saco cheio de papéis e papelão, que, dia após dia, se transforma no pão que ela coloca na mesa. Assim como a Pietà de Michelangelo, a Pietà do Lixo não só representa a dor, mas também a transcendência — a beleza na tragédia.
Essa história, que por muito tempo foi esquecida na memória capixaba, ressurgiu com a biografia escrita pelo advogado e autor Estêvão Zizzi. Há décadas, ele tem se dedicado a investigar vestígios da vida dessa “Dona” desconhecida. Ao chegar em Vitória, em 1980, o escritor começou a explorar diversos monumentos históricos, mas um, em particular, chamou sua atenção: “Uma estátua de uma senhora negra, corcunda, descalça, comum saco nas costas e um cajado na mão direita, vestida com uma roupa preta e pesada. Seu aspecto era o de uma pessoa marcada pelo sofrimento, visível nas rugas das mãos, nos olhos caídos e nas feições envelhecidas. Ela estava localizada numa das ruas laterais do Palácio Anchieta”, contou Estêvão.
Em sua ampla pesquisa por documentos, certidões e depoimentos da época, o escritor conseguiu chegar ao verdadeiro nome da senhora: Domingas Felipe. Vinda de uma família escravizada, Domingas carregava a mesma expressão registrada na escultura: olhos pesados que não viam mais que o chão à sua frente e mãos calejadas que trabalhavam dia a dia para continuar existindo.
Relembrando toda a trajetória do Brasil e de sua raiz escravocrata, vem a pergunta: como essa obra de uma mulher preta, catadora de papelão está em frente ao palácio mais importante do estado? Segundo informações da Prefeitura de Vitória o, então, prefeito da época de 1970, Chrisógono Teixeira da Cruz, tinha a intenção de homenagear os trabalhadores negros.
Após ter contato com a escultura de Dona Domingas, no próprio ateliê de Carlos Crepaz, o prefeito decidiu que esse seria o tributo. Já o lugar escolhido para ser ocupado se dá pelo fato de que Domingas passava por ali todos os dias na sua árdua função de subsistência.
De acordo com a mestre em artes, Fabíola Fraga: “Um monumento público, para além de sua concepção estética e imagética, precisa, de alguma forma, sinalizar a história de sua época, a realidade em que ocorreu, uma espécie de memória transportada para além do tempo”. Acima de uma homenagem prestada, a representação de uma catadora de papel, faz refletir sobre o tratamento dado à população pobre, negra e desamparada de um século atrás, que ainda se registra nos dias atuais. Seu sustento, muita das vezes romantizado, era, na realidade, a face mais brutal de um período ainda colonial, escravocrata e marcado pela desigualdade social. Viva Dona Domingas. Viva as Donas Domingas.
Estudantes enfrentam desafios com a falta de moradia estudantil. Ufes busca alternativas
Com a aproximação do fim do ano, os campi de Goiabeiras e Maruípe, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), começam a se esvaziar. Mais um ano se encerra, e o problema persiste: a ausência de alojamentos e a insuficiência dos auxílios estudantis. Assim, muitos alunos retornam às suas cidades de origem ou enfrentam jornadas de trabalho mais longas durante o recesso para reduzir ou cobrir os custos com moradia.
Desde o segundo semestre de 2022, a Resolução n.º 19/2022 – CUn/Ufes instituiu o Auxílio Permanência Unificado, reestruturando os auxílios anteriores com valores mais elevados, definidos a partir de indicadores sociais. O programa integra modalidades de apoio que incluem auxílio pecuniário direto para despesas como moradia, transporte e material didático, além de auxílio indireto, como o acesso gratuito ao Restaurante Universitário (RU), e benefícios não pecuniários, como o empréstimo estendido de livros. O auxílio pecuniário direto é o valor em dinheiro pago ao aluno, enquanto o indireto oferece benefícios e serviços sem repasse de dinheiro.
Os valores são organizados em quatro faixas, conforme a Resolução nº 20/2022, do Conselho Universitário. Na faixa um, o estudante recebe 550 reais, acesso ao RU e o empréstimo estendido de livros. A faixa dois oferece 375 reais com os mesmos benefícios adicionais. Já a faixa três garante 200 reais, acesso ao RU e empréstimo estendido de livros, enquanto a faixa quatro contempla apenas o auxílio-alimentação (RU gratuito) e o empréstimo estendido de livros.
Recentemente, um relatório da Diretoria de Assistência Estudantil, com base em informações do Portal da Assistência Estudantil (ae.ufes.br), coletadas entre 7 de agosto de 2023 e 1º de março de 2024, apresentou o perfil dos cadastrados no Programa de Assistência Estudantil. Os dados indicaram que 9% dos inscritos no campus de Goiabeiras são oriundos de outros estados. No campus de Maruípe, esse percentual é de 10%, enquanto em São Mateus chega a 17% e em Alegre, a 22%.
A estudante de psicologia, Donia Correus, que deixou Manaus para estudar na Ufes, chegou à universidade acreditando que receberia um auxílio estudantil de 550 reais. No entanto, após análise, foi aprovada apenas para a faixa dois do benefício unificado, recebendo 375 reais mensais. Essa situação a levou a dividir um quarto alugado em Maruípe, no valor de 600 reais, consumindo todo o seu auxílio e obrigando-a a caminhar diariamente entre os campi por falta de recursos para transporte.
Com carga horária integral, das 8h às 18h, e disciplinas distribuídas entre os campi, Donia enfrentou obstáculos constantes com os deslocamentos. A distância entre o campus de Maruípe e o campus de Goiabeiras, ambos em Vitória, é de quase quatro quilômetros. “No primeiro período, eu realmente pensei em desistir. Não tinha muito dinheiro, minha família também não, e sobreviver com 375 reais foi muito difícil para mim”, desabafou.
Por não ter tempo para realizar os trabalhos acadêmicos e precisar enfrentar jornadas exaustivas de trabalho, Donia adoeceu mentalmente ao longo do curso. Para ela, tudo está diretamente relacionado às altas despesas com moradia. O constante reajuste dos aluguéis, uma realidade comum para estudantes que alugam quartos ou kitnets próximos à universidade, já a desesperou em diversas ocasiões.
A realidade de Donia não é isolada. A aluna de artes visuais, Ana Júlia Frochlich Montemor, enfrentou dificuldades semelhantes. Residente em Guarapari, a mais de 50 quilômetros do campus de Goiabeiras, ela precisou trancar o curso devido às dificuldades de deslocamento e aos altos custos com transporte. “Chegava em casa à meia-noite, pagava uma van caríssima para estudar, então acabava sendo muito fora da realidade de quem tem que trabalhar e pagar contas. Por isso, pela falta de um lugar para ficar em Vitória, eu acabei trancando o meu curso. Só voltei agora porque estou fazendo estágio e as horas são menores”, explicou.
Ana Júlia acredita que deveria ser uma obrigação da Ufes fornecer moradia estudantil. Ela diz conhecer vários estudantes que vêm de lugares ainda mais distantes do que ela. Por fim, argumenta que há diversos prédios vazios que poderiam ser convertidos em moradia. Porém, infelizmente, pensa que essa questão ainda não está madura e que não há uma verdadeira preocupação com a permanência estudantil dos alunos intermunicipais.
De acordo com os dados da Diretoria de Assistência Estudantil, quase 71% dos estudantes atendidos pelo programa no campus de Goiabeiras são residentes de municípios da região metropolitana, como Vitória, Viana, Guarapari, Serra, Fundão, Cariacica e Vila Velha. Enquanto isso, no campus de Maruípe, 63% dos estudantes são moradores da Região Metropolitana.
O morador de Maria Ortiz, Valdeir Bichi Junior, afirma que, desde 2012, percebe um aumento constante nos custos com aluguel na região próxima à universidade. Para ele, o fato de a área atrair muitos estudantes universitários também encarece o custo de vida da população local. Quando precisa se mudar, já que também paga aluguel, ele enfrenta altos custos, o que impacta diretamente sua renda familiar.
UFES estuda alternativas, mas faltam recursos
Essas dificuldades evidenciam o descompasso entre o valor dos auxílios estudantis e os custos reais de moradia e transporte nas proximidades da universidade. Segundo o Pró-reitor de Assistência Estudantil da Ufes, Antonio Moraes, os programas atuais permitem que os estudantes utilizem os auxílios conforme suas necessidades, seja para aluguel ou formação de repúblicas. No entanto, ele admite que os valores oferecidos estão abaixo do necessário, uma disparidade que agrava a precariedade enfrentada por muitos alunos e gera constantes reclamações.
Em meio a essas adversidades, a universidade montou uma equipe de trabalho para dialogar com a Superintendência do Patrimônio da União (SPU), órgão do governo federal responsável pelos imóveis da União. Esse diálogo com a SPU, visando à troca e cessão de imóveis para a implementação de moradias estudantis em todos os campi, tem sido importante, embora essas negociações ainda devam levar tempo.
O reitor da Ufes, Eustáquio de Castro, participou recentemente de reuniões com o superintendente da Polícia Rodoviária Federal no Espírito Santo, inspetor Wermeson Pestana, e o chefe da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), Philipe Pupo.
A pauta foi a cessão de uma área no centro de Vitória, atualmente usada pela PRF como estacionamento para servidores e visitantes da superintendência. O terreno, de propriedade da Ufes, seria formalmente solicitado pela PRF, enquanto a SPU buscaria um novo imóvel a ser transferido para a universidade, com potencial para abrigar moradia estudantil.
Na ocasião, o reitor destacou a ligação entre a negociação e a demanda histórica por moradia estudantil, já que envolve espaços que a universidade poderá utilizar para atender ao interesse público.
Segundo Antonio Moraes, há várias alternativas para implementar moradias: “Existe o modelo de auxílio direto na conta dos estudantes para alugar ou montar repúblicas; a possibilidade de a universidade alugar moradias prontas; reformas de imóveis cedidos pela SPU; e a construção de novos imóveis”. No entanto, ele ressalta que todas essas opções dependem de recursos.
Além disso, Moraes menciona que, paralelamente a essas discussões, a Propaes trabalha em diversas alternativas, desenvolvidas por uma equipe interna que organiza soluções por prioridade, conforme os recursos disponíveis.
Outra possibilidade de apoio aos estudantes da Ufes, citada pelo pró-reitor de assistência estudantil, é a criação de um programa de moradia estudantil nos moldes do “Minha Casa, Minha Vida”, com apoio do Governo Federal. Em parceria com o Governo Estadual, também poderiam ser implementadas iniciativas de cessão de imóveis.
Moraes ainda lamenta a forma como as prefeituras têm considerado os estudantes universitários, esquecendo que são consumidores das cidades, pagam aluguéis e utilizam seus serviços. Por isso, em sua visão, as prefeituras deveriam facilitar a locação de imóveis, por meio de incentivos fiscais e acordos com as imobiliárias.
No início da gestão, a Reitoria se reuniu com a Superintendência de Patrimônio da União (SPU) para discutir a possibilidade de cessão de imóveis do Governo Federal para adequação e uso como moradia estudantil.
O videoclipe “Poetas no Topo 4” foi lançado no dia 11 de novembro, com uma melodia diferente das anteriores, surpreendendo o público. Os “Poetas no topo” anteriores eram marcados por beats duros, e intensos. Já esta sequência traz uma melodia mais leve, com poucos artistas e que, verdadeiramente, gritam as revoltas que há no povo. Nessa canção, os artistas que se destacaram foram Major RD, Júlia Costa, Froid, Dk47 e Jotapê, que trouxeram à luz a cena do hip hop atual. O verso do rapper Froid denuncia as atuais músicas de cunho sexual. A rima de Julia Costa expõe o problema da invisibilização de MC´s femininas. E, por fim, a parte do Major RD culpabiliza as batalhas de rima que perderam o real estilo de vida do rap. Em contrapartida, alguns outros MCs trazem rimas vazias que são egocêntricas e não acrescentam versos relevantes para a canção. Nota 8/10
Bruna Pereira
“Um dia ainda vamos rir de tudo isso”, de Ruth Manus
O livro “Um dia ainda vamos rir de tudo isso”, de Ruth Manus, é cheio de histórias da vida. Nessa coletânea de crônicas publicadas no blog do Estadão, e em sua coluna no jornal impresso O Estado de S. Paulo e no jornal Observador, de Lisboa, além de outras inéditas fica evidente o talento da escritora em trabalhar diferentes temas com fluidez é admirável As palavras apresentadas em cada página falam de temas ora leves, ora densos, de coisas corriqueiras e de coisas intrinsecamente ligadas ao nosso eu. Para quem deseja uma leitura fácil e enriquecedora, recomendo esse livro. Nota 10/10
Isabela Bueno
“Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles
O filme “Ainda Estou Aqui” revive um grande arcabouço de memórias. Dirigido por Walter Salles, a obra conta a história da família de Rubens Paiva, ex-deputado federal brasileiro que foi torturado e assassinado nas dependências de um quartel militar entre 20 e 22 de janeiro de 1971, durante o período da ditadura militar. Inicialmente, o enredo acolhe o público em um cenário extremamente alegre, sociável e familiar. A dinâmica dos Paivas, contada a partir da trajetória de Eunice Paiva, mulher do ex- deputado, e seus 5 filhos, cativa quem assiste e gera um choque emocional diante dos acontecimentos que se sucederam, e uma compreensão mais efetiva do impacto de um contexto político antidemocrático sobre a vida das pessoas. O elenco de peso conta com Selton Mello, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. O filme gera uma grande expectativa para o Oscar de 2025, nas categorias melhor filme internacional e melhor atriz. Nota 10/10
Por meio de uma enquete no Instagram, o Primeira Mão perguntou aos internautas os momentos em que eles precisavam de uma certa música e não tinham. Anote as cinco dicas:
Sábado à tarde. Dia chuvoso. O ônibus que vai para o estádio, lotado de camisas estampando o verde-amarelo. Um gosto diferente: clima de orgulho. Expectativa. “Quem vem jogar hoje?”, pergunta o moço. “As meninas”, minha amiga responde e sorri. As meninas. As mulheres! A Seleção Feminina de Futebol veio jogar no Espírito Santo. Elas e todas nós estávamos lá.
Chegamos no Kléber Andrade com quase uma hora de antecedência. No primeiro olhar, o impacto. Era a minha primeira vez num estádio. Após anos e anos acompanhando as partidas no sofá, do lado do meu pai, eu estava lá, presenciando a história a poucos metros de distância. E eu estava completamente maravilhada. Aos poucos as cadeiras foram sendo ocupadas por mulheres e crianças, em maioria. O presente e o passado visando um futuro melhor.
Os cânticos começaram. E nesse momento, todos nós no estádio estávamos envoltos na mesma vibração. Poucos minutos para a bola rolar. Ansiedade. “Eu quero ver a Lorena, ela é muito boa”, disse o menino. Eu já não via a hora daquele meu primeiro jogo começar, até que elas apareceram. As nossas meninas, nossas mulheres entraram em campo. Foi uma comoção geral. As guerreiras das Olimpíadas de Paris 2024 estavam bem diante de nós. Tudo isso em mais um sábado no Espírito Santo. Mas esse não foi um dia qualquer. Nesse sábado, elas e todas nós assumimos o nosso protagonismo num jogo de futebol.
E que jogo! Sofremos logo no início com o gol das adversárias. Reclamamos de cada bola perdida. Mas vibramos a cada investida rumo ao ataque. As grandes protagonistas fizeram seus papéis e não desistiram em nenhum momento. Até que quando menos se esperava, o empate aconteceu. E o grito pode ser gritado. O grito libertou muita coisa e comemorou um gol lindo. O grito celebrou cada uma daquelas mulheres. E o empate, às vezes tão menosprezado, coroou o momento: dois times corajosos e guerreiros escreveram novos capítulos dessa história.
Elas e todas nós estávamos reunidas lá, num encontro que celebrou as mulheres protagonistas de histórias vitoriosas. Nos gramados do estádio ou da vida, todas passamos por confrontos desafiadores. O placar, muitas vezes, não é favorável. O fair play nem sempre acontece. Mas nós não perderemos nosso campeonato. Nossa temporada está só começando e nossa torcida não nos abandona. É melhor ir se acostumando com nossa presença. Elas e todas nós estaremos sempre lá
A história do judoca capixaba de 17 anos que já é campeão brasileiro
Rayssa Leal, Gabriel Medina, Cesar Cielo, Felipe Kitadai, Rebeca Andrade e Déborah Medrado são alguns dos nomes que marcaram a memória esportiva do Brasil nos últimos tempos, especialmente quando o assunto é Olimpíadas.
Mas por onde andam esses atletas até se tornarem estrelas mundiais e ídolos de todo um país? As duas semanas de Jogos Olímpicos não traduzem uma vida inteira de dedicação, treinos e sacrifícios de jogadores, lutadores ou ginastas. Desde cedo, eles voltam suas energias e expectativas a um sonho único: tornarem-se campeões e darem orgulho para uma nação. Esse é o propósito de Gabriel Francisco.
Aos 17 anos, ele já sonha em se tornar atleta profissional de judô, dedicando-se integralmente ao esporte. Ele começou a treinar aos sete anos, influenciado por seus pais, e decidiu seguir esse caminho após a vitória da judoca Rafaela Silva nas Olimpíadas do Rio 2016. Desde então, Gabriel, que iniciou sua trajetória na arte marcial aos nove anos, vem colecionando medalhas nas competições em que participa.
Francisco iniciou suas primeiras aulas de judô em uma academia, no bairro Presidente Médice, em Cariacica. Desde então, mantém uma rotina intensa de treinos de segunda a sexta-feira, e enfrenta o desafio de conciliar os estudos com a vida de atleta. “No início do ensino médio foi difícil conciliar os estudos com os treinos, principalmente por perder horas de sono, por ter aumentado o número de matérias e a pressão sobre o futuro, mas hoje eu já me acostumei”, conta o judoca.
Resiliência
O atleta reconhece o quão difícil é abrir mão de alguns momentos memoráveis, como, por exemplo, aniversários de amigos íntimos, momentos especiais com a família e eventos da escola, para estar nos treinos e viagens. Mas acredita que estes sacrifícios são necessários para construir um futuro de sucesso no esporte.
E com um plano de carreira já definido, o jovem planeja ingressar na seleção de base do judô. Além disso, ele também trabalha para concorrer a medalhas internacionais e conquistar uma vaga nas Olimpíadas. Em 2023, Gabriel Francisco foi campeão nacional, no Campeonato Brasileiro de Judô, e viveu esse momento dentro de casa, no Ginásio Tancredão, em Vitória.
O atleta acredita que para vencer é preciso compreender as dores do presente e permanecer firme, acreditando nos seus sonhos, independente das circunstâncias. Assim como diz a música “Resiliência”, que escuta para concentrar antes das lutas: “Ninguém nasceu no topo da montanha e a escalada sempre vai ser árdua, só aquele que resistir o processo vai ter direito a vista mais fantástica”.
Projeto oferece aulas gratuitas para jovens em situação de vulnerabilidade social
Em um mundo onde oportunidades nem sempre são igualmente distribuídas, iniciativas que unem esporte e inclusão social ganham ainda mais relevância. O acesso às atividades esportivas vai além do lazer, promovendo disciplina, trabalho em equipe e esperança para crianças em situação de vulnerabilidade. É nesse contexto que surge o projeto Canoa Viva Vitória, que oferece aulas gratuitas de canoagem havaiana para crianças e adolescentes, transformando a vida de jovens ao introduzi-los a um esporte que carrega tradição e valores culturais.
A ideia pôde se tornar realidade a partir da Lei de Incentivo ao Esporte (LIE), do Governo Federal, por intermédio do Instituto Maratonas. As aulas acontecem semanalmente na Praia da Guarderia, em Vitória, para a faixa etária de 11 a 16 anos. “Procuramos um nicho para projeto social que ainda não existia para crianças e adolescentes”, diz Marcio Junqueira, coordenador do Canoa Viva Vitória.
Das vagas ofertadas, 75% são para jovens em situação de vulnerabilidade social, que podem se inscrever pelo Instituto João XXIII (no Bairro de Lourdes), pelo Secri (na comunidade São Benedito), e pela Obra Nossa Senhora das Graças (na Avenida Vitória). Os outros 25% das vagas ficam abertas para o público geral, com inscrição através de um formulário online.
O programa busca oferecer às comunidades em situação de vulnerabilidade social acesso a um esporte que é tradicionalmente caro e praticado, em sua maioria, por adultos. De acordo com Marcio, isso amplia os horizontes das crianças. “Muitas delas nunca tinham saído das comunidades onde vivem, como jovens de São Benedito e Jaburu”, conta.
O coordenador do projeto afirma que os benefícios da canoa havaiana para os jovens são inúmeros. Além da disciplina para não perder aulas e para aprender, o esporte estimula o trabalho em equipe. “A canoa tem 12 lugares e cada um deles representa uma função. Ninguém rema sozinho, tudo é feito em equipe e isso é muito importante”, comenta.
Segundo os professores Martin Sousa e Luciene Siccherino, do curso de pós-graduação em Educação Infantil da Universidade Cruzeiro do Sul, “as interações promovidas pelas experiências sociais, permitem a aprendizagem de habilidades e conteúdos, bem como a formação de valores éticos necessários no desenvolvimento moral do ser humano”. Nesse sentido, o esporte inspira compromisso e amadurecimento aos jovens, dando aos mesmos experiências que os ajudarão na vida adulta.
Por outro lado, os desafios vão além do financeiro. “A gente teve algumas aulas canceladas devido ao tráfico de drogas em algumas comunidades. Por exemplo, a polícia subiu para matar o traficante e fechou a comunidade. Isso gera um impacto de dois dias de aula na semana”, comenta Marcio. Com isso, a equipe percebeu a necessidade de um amadurecimento para lidar com as questões sociais, passando assim a ser considerada a entrada de assistentes sociais no projeto.
Mesmo com dificuldades, o Canoa Viva Vitória continua crescendo e conquistando reconhecimento. Recentemente, foi indicado na categoria de ‘Melhor Projeto Socioesportivo do Ano’ pelo Instituto Américo Buaiz. Além disso, já estão sendo estruturadas novas iniciativas, como aulas de natação na piscina, capoeira, judô, natação no mar e beach tennis. Para sustentar a iniciativa, foram firmadas parcerias com fabricantes de equipamentos e lojas de esportes, além da Federação de Va’a do Espírito Santo e das Associações de Moradores das Comunidades.
Caju conta a Primeira Mão um pouco sobre sua história de amor com a música
Claudia Zanetti nasceu em Vitória, no dia 25 de outubro de 2002. Filha de Rozimeires Zanetti e Cláudio da Silva, Claudia se apaixonou pela música desde muito nova. Esse amor permaneceu, e hoje ela cursa Música na Ufes. Claudia adotou o nome artístico de Caju, apelido dado a ela por seus amigos. Com 22 anos, ela já ganhou relevância no cenário musical capixaba. Recentemente, foi campeã nas categorias Melhor Música e Artista Revelação do 3º Prêmio da Música Capixaba.
Quando você decidiu cursar Música? Sempre foi sua opção? Em que período do curso você está?
“Eu decidi fazer música quando estava no 9º ano do fundamental e já cogitava formas de estudá-la. Como eu não tinha idade pra fazer um curso de canto do CFM (Curso de Formação Musical) da Fames, eu continuei fazendo aulas de música, coisa que eu já fazia desde bem nova. Antigamente, bem antes de ver a música como opção, eu pensava em fazer arqueologia, porque eu sempre gostei muito de história. Pesquisei onde poderia estudar, mas acabou que a música falou mais forte e agora estou no meu 9º período de Música na Ufes.
Qual a importância da música na sua vida?
A música pra mim é tudo. Ela foi o local que encontrei para me expressar. Gosto muito de escrever histórias e poesia. Antes de começar a escrever, eu já as criava e os meus pais escreviam. Às vezes, só escrevo o que estou sentindo, de forma literal ou subjetiva. Mas eu sinto que quando canto as palavras ou só reproduzo sons, existe algo subjetivo muito forte. É uma subjetividade que não consigo expressar na literalidade das palavras. A música é além da canção, acho que ela de alguma forma materializa os sentimentos que eu não consigo expressar e aqueles que não deveriam ser expressos de nenhuma forma diferente.
Qual o tipo de música que você mais costuma ouvir? É do mesmo gênero da que você canta?
Eu escuto um pouco de tudo.Tento não me prender a nenhum gênero. Por isso, não sei definir o meu estilo musical. Por muito tempo tentei me encaixar numa caixinha, porém não funcionou. Porque gosto de muitos estilos musicais e escuto variados artistas e então acaba que essas referências respingam na minha arte. O que faz sentido pra mim é não me prender a um estilo e um estereótipo, tento estar aberta ao novo e a mistura dos gêneros. Dessa forma, vou compondo quem eu sou. Já sei que as pessoas vão me colocar em alguma caixinha e deixo que elas coloquem.
Como é o seu processo de composição? De onde vêm as inspirações?
As minhas inspirações vêm de tudo da vida. Gosto de observar o meu entorno, de ouvir as pessoas, de ler, escutar músicas, filmes, e estar em contato com outras artes. Então, as minhas referências vêm muito das coisas que atravessam a vida. A mistura dos fatos com invenções em uma coisa só vem desse lugar. E sempre que componho penso em um determinado ambiente, logo, elas são muito visuais. Eu me insiro em um espaço imaginário de contexto que muitas vezes foi inventado.
Como foi feita a música Sinestesia, sua composição de letra e acordes?
Sinestesia foi uma música que compus na casa da minha avó. Fiquei algumas semanas com ela e na época estava pensando muito sobre misturas de referências. De como que a gente vai coletando coisas de vários lugares diversos, né? E ao mesmo tempo pensando no meu próprio processo de composição que é com situações, momentos e principalmente com cores. Então, eu pensei em uma situação e fui criando a história, lembrando de coisas que me aconteceram, ou que eu gostaria que tivessem acontecido e aí foi surgindo (a música) aos poucos.
Esse não é um som que fala necessariamente sobre amor, ele é sobre afeto. Busquei trazer dessa forma, porque eu me forçava a escrever canções de amor. E, naquele momento, eu não sentia que fazia sentido pra mim. Eu queria falar sobre coisas que eu sentia, mas que muitas vezes não é permitido falar. Eu queria tirar essa coisa do “bonitinho”, do “belo” e tudo mais. De alguma forma acaba atravessando um pouco a questão da feminilidade, então fui pensando nessa personagem que está confusa com os sentimentos e tem essa dualidade.
Gosto muito do cíclico, da repetição e quando fui compor, fiquei pensando em uma basezinha. Então, eu comecei com o acorde e depois fui mudando o violão e deixando a repetição das outras notas, queria um looping mesmo. Não fiquei preocupada em pensar na harmonia que eu estava fazendo, minha preocupação realmente estava na sonoridade.
Você tem sido um expoente da música aqui no estado. A que você deve essa sua relevância?
Acho que porque eu falo o que eu sinto e eu sou uma pessoa contemporânea. Sou uma pessoa que está neste momento histórico geracional que reflete as questões dessa geração. Talvez pelo que eu cante, pelo que eu fale, pela forma como eu me expresso,algumas pessoas se sentem contempladas com esses sentimentos, com essas músicas, com essas letras e eu acho que seja isso.
Como foi para você ser indicada a 2 categorias do 3º Prêmio de Música Capixaba e vencê-las?
Foi chocante! Sinceramente, não sei como falar. Não sei se chocada seria a melhor palavra. Ao mesmo tempo, fico muito feliz. Foi uma grande surpresa ter sido indicada nessas categorias e ter ganhado, porque “Sinestesia” foi a primeira música que eu lancei. Não foi a primeira música que eu fiz, mas foi a primeira música que eu lancei. Não vou dizer que foi lançada despretensiosamente. Ela foi lançada com muita expectativa, porém não esperava que logo de cara, eu seria indicada e ganharia dois prêmios. A música chega às pessoas e as atravessa e as faz sentir. Eu acho que esse é o motivo principal de fazer música, além de amar. Saber o que as pessoas estão sentindo me motiva, me dá alegria e ganhar um prêmio por isso é o que motiva ainda mais. Saber que vocês gostaram tanto da minha música, que a premiaram, achei isso sensacional e muito fantástico.
O que podemos esperar para as próximas músicas?
Nas próximas músicas dá pra esperar bastante experimentação, uma junção das referências e uma amostra do que eu pretendo seguir a partir daqui. Com o tempo eu vou mudando, vou tendo novas referências e, consequentemente, a sonoridade vai mudando. Mas, para as próximas músicas, eu pretendo explorar muito tudo o que eu puder explorar e mostrar o que eu gosto, sinto e, assim, me expressar da forma mais intensa. Eu me considero uma pessoa intensa, e não tem como fugir disso tudo.
Estou partindo a pé novamente para casa. Atravesso a passarela da Ponte da Passagem enquanto cai a tarde de verão sob o céu da Grande Vitória. Os últimos raios batem nas águas e destacam as hastes da ponte em meio ao azul do céu. Esse fragmento de tempo, o crepúsculo, conquista olhares e pensamentos, despertando as mentes da monotonia para vislumbrar o fim do dia. Eis que um jovem, correndo, se aproxima da passarela. Ele diminui o ritmo e agora caminha lentamente com o celular nas mãos. O fim de tarde é rapidamente enquadrado em uma foto e ele logo volta a correr. Uma pena, pois capturar o que há de melhor da vida exige contemplação e uma boa dose de paciência.
O olhar se lança para além dos limites da ponte. O horizonte é diverso e abrange altos prédios; pequenos imóveis às margens do canal; bares; morros e comunidades; pescadores empoleirados em um deque improvisado; um barco escondido entre as estruturas da ponte; ratos que correm em meios as pedras do leito do rio; jet skis deslizando pelas águas; o vai e vem dos veículos na ponte ao lado; os ciclistas e pedestres que cruzam o meu caminho e o Mestre Álvaro ao fundo, mas nunca despercebido.
Há algo de errado na conduta efêmera da minha geração, que nada conserva. Tudo se perde e se esquece: as palavras, os olhares, o sentido único da vida; e guarda-se o vazio individualista da própria autorrealização. Já passei por muitas histórias e pessoas com esse mesmo espírito ansioso. O pouco que capturei desses dias são recordações sem contextos, sem enredos ou diálogos. Mas eu desejo permanecer. Escolho ficar e criar memórias. Quero ter o que guardar dessa minha breve passagem.
Ainda em cima da ponte, vejo uma menina curiosa pedindo colo com muita persuasão. Ela interrompe os passos do pai e implora com certo ar de barganha. O pai para e percebe, na necessidade da filha, a oportunidade de tornar o trajeto pela ponte mais feliz. Ele sorri e ergue a filha sobre os ombros, que logo aponta para um avião que cruza o céu em direção ao aeroporto. O rosto da menina se ilumina e esboça um sorriso genuíno de satisfação. Tem um aspecto belo no ato de parar e esperar, olhar ao redor e notar a própria pequenez diante do mundo. As crianças se encantam com essa proporção que é tão clara e evidente para elas.
Meu percurso já está se prolongando por muito tempo. É preciso me despedir desse cenário e preservar os seus vestígios no coração. Espero que alguém também tenha me guardado na memória. Mas quem realmente sabe que está por aqui temporariamente para se preocupar com isso? Mais difícil ainda é perceber que as vias que percorremos conduzem nossas histórias a um final definitivo, pois estamos apenas de passagem.
Proposta de Emenda Constitucional mobiliza trabalhadores e começa a tramitar na Câmara Federal
Acordar cedo, levar os filhos para a escola, arrumar a casa, ir trabalhar, voltar para casa, cuidar das crianças e preparar tudo novamente para o dia seguinte, até que chegue o seu único dia de folga semanal. Essa é a rotina de Pâmela Silva, de 31 anos, que trabalha em uma padaria há um ano, em jornada 6×1 (seis dias de trabalho e um de folga), alternando o dia de folga entre sábado e domingo.
“A rotina é bastante corrida, e como só tem folga no final de semana a gente fica sem conseguir fazer as coisas. Consulta mesmo é ao longo da semana. Fico aqui até às 21h e quando chego em casa já são 23h”, detalha Pâmela.
A realidade de Pâmela e de mais de dois terços dos trabalhadores brasileiros têm ganhado destaque nas redes sociais e nas ruas do país, após a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). Ela propõe uma escala de 36 horas semanais, sendo quatro dias de trabalho e três dias de folga (4 x 3).
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) prevê 44 horas semanais aos trabalhadores formais, o que corresponde a seis dias de trabalho para um dia de folga. O movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que desencadeou a iniciativa da deputada Erika Hilton, mobilizou a classe trabalhadora em uma sequência de protestos no Brasil pelo fim da escala. O movimento sindical, que há anos defende a redução da jornada de trabalho, também manifestou apoio à medida, destacando que a redução da jornada deve ser acompanhada da garantia de não redução dos salários.
A trajetória da PEC
O percurso político de uma PEC no Brasil é complexo e envolve várias etapas e instituições, podendo ser apresentada por cidadãos desde que tenham assinaturas de, no mínimo, 1% do eleitorado nacional.
Para que a proposta de lei seja debatida pelo poder legislativo é necessário que 171 deputados federais assinem o projeto. Até então, foram coletadas 233 assinaturas ao projeto apresentado por Érika Hilton . Dessas, apenas duas foram de deputados capixabas: Jack Rocha e Helder Salomão, ambos vinculados ao Partido dos Trabalhadores (PT).
No dia 04 de dezembro, a PEC foi discutida em audiência pública na Câmara dos Deputados, através da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, visando ampliar a visibilidade do tema.
Antes de ser aprovada, a PEC deve ser analisada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), verificando se não viola cláusulas pétreas da Constituição. Passando por essa etapa, a proposta é analisada por uma comissão especial, que pode alterar o texto original.
A partir disso ela será votada em dois turnos no Plenário da Câmara dos Deputados, precisando de 308 votos favoráveis (3/5 dos deputados) para ser aprovada. Se aprovada na Câmara, a PEC é enviada para o Senado, onde segue o mesmo processo de análise e votação. Se aprovada nas duas Casas sem alterações, a PEC é promulgada.
Capixabas também se mobilizaram pelo fim da jornada 6×1
Os trabalhadores capixabas também se mobilizam pela aprovação da redução da jornada de trabalho. No dia 15 de novembro, um grupo promoveu manifestação em frente à Câmara Legislativa do ES. O deputado estadual do ES, João Coser (PT), que esteve presente, acredita que a PEC é capaz de mobilizar a população para pressionar o Congresso Nacional. Para ele, o Congresso é elitista, formado, em sua maioria, por representantes do setor empresarial conservador, o que pode resultar em barreiras para a aprovação do texto.
“Se a causa for assumida, é preciso analisar essa questão conforme a categoria de trabalhadores. Mas particularmente eu acho que o 5×2 é a melhor. Do ponto de vista da qualidade de vida, para fazer a organização do tempo, aparenta ser melhor. Mas eu considero esse tema passível de debate com as categorias, com as centrais, os sindicatos, e o Congresso para chegarmos à melhor posição”, pondera Coser.
Deputados federais do ES que assinaram a PEC de redução da jornada de trabalho