Cozinha independente: Rosilene Pereira da Costa transforma biscoitos de nata em alicerces para sua casa e família
Alessandro Júnior, Mariana Vidal e Matheus Aldyr
O cheiro de biscoito assando no forno a lenha anuncia mais do que uma receita caseira em Afonso Cláudio, região serrana do Espírito Santo. Para Rosilene Pereira da Costa, de 52 anos, cada fornada representa independência, reencontro familiar e a realização de um sonho acalentado por décadas: viver perto dos filhos e netos.

Com uma trajetória forjada no serviço doméstico, Rosilene trabalhou durante anos em casas de famílias tradicionais do estado. Ali, ela realizava de tudo: lavava, passava e, principalmente, cozinhava. Foi nesse período, enquanto cuidava do lar de terceiros, que ela começou a colecionar o seu maior tesouro: o conhecimento.
“Comecei fazendo as coisas para os outros. Uma patroa me dava uma receita aqui, outra me dava uma receita ali”, relembra. No entanto, o preço do sustento era o distanciamento. Privada do convívio diário com os três filhos, ela guardava o desejo de um dia ser dona do próprio destino.
Após retornar para Afonso Cláudio, Rosilene decidiu deixar o emprego fixo para apostar no que suas mãos faziam de melhor: biscoitos, roscas, bolos e comida caseira. O começo foi tímido, mas o sabor afetivo dos produtos rapidamente conquistou a cidade.
Hoje, ela é requisitada pelos tradicionais biscoitos de nata com goiabada, além do delicado “brinco de moça”, casadinhos e roscas que remetem às mesas das avós. A produção chama atenção pela autenticidade do processo: Rosilene é quem cuida de tudo. Ela carrega a lenha seca, mantém o forno que ela mesma construiu e prepara as formas para as fornadas diárias.

O sucesso é tanto que a demanda superou a capacidade de produção. “Eu não vendo mais porque não dou conta de fazer”, afirma. O negócio tornou-se um empreendimento familiar: sua filha é a responsável pelas entregas, levando os sabores da mãe para os locais onde trabalha e garantindo que o produto chegue sempre fresco ao cliente.
Mais do que estabilidade financeira, o trabalho devolveu a Rosilene algo precioso: o tempo. Se antes a rotina era ditada pela ausência, hoje ela celebra a presença constante da família. “Agora estou mais perto dos netos. O que eu não dei para os meus filhos, eu dou para os meus netos”, diz, emocionada.
A renda das vendas, somada ao seu trabalho como manicure, está sendo investida em um objetivo concreto: a construção da casa própria. Cada parede levantada é uma recompensa física pelos anos de esforço intenso.
Com os pés no chão e as mãos na massa, Rosilene já visualiza um futuro de conforto. O plano é concluir a obra, alugar parte das construções e, finalmente, desacelerar.
“Quero trabalhar um pouquinho mais e curtir minha vida. Se Deus me der saúde, não vou trabalhar tanto mais não. Depois que eu alugar minha casa, você vai ver só”
projeta a empreendedora. Aos 52 anos, Rosilene prova que, com coragem e uma boa receita, é possível transformar farinha e nata em liberdade.

