prato de feijão gordo servido sobre uma mesa com toalha xadrez azul e branca. A refeição inclui arroz, carnes, linguiça, banana frita, couve fatiada e vinagrete. Ao lado do prato, aparecem um copo de cerveja e um pão.

O Bar do Beco e a tradição que resiste no Centro

Por Isabella Oliveira

O Bar do Beco e a tradição da comida de boteco capixaba

No Centro de Vitória, onde as construções históricas convivem com o fluxo acelerado do comércio, o Bar do Beco se consolidou como um dos pontos de encontro mais movimentados da região. À frente do balcão, Luciano Comper da Cruz, conhecido como “Bigode”, e sua esposa Cláudia, conduzem o estabelecimento. Apesar da experiência da família no comércio e na alimentação, o boteco foi o primeiro empreendimento do casal no segmento. O espaço, que antes abrigava outro bar, ficou fechado por anos, antes de ser reocupado por eles.

Para Luciano, a intenção do bar ultrapassa a lógica comercial: “A gente quer resgatar a verdadeira comida de buteco, queremos nos tornar uma referência”, afirma.

Localizado na rua Antônio Aguirre, em um beco discreto próximo ao relógio da Praça Oito, o Bar do Beco se apresenta quase como um achado. Sem divisão clara entre interior e exterior, o bar se expande para o próprio beco, incorporando a rua como extensão do atendimento. O movimento é constante ao longo do dia, mas se intensifica no fim da tarde e à noite, quando reúne trabalhadores da região, moradores e frequentadores habituais. 

A imagem mostra uma roda de samba ao ar livre, com músicos tocando instrumentos de corda e sopro cercados por mesas e pessoas sentadas na calçada. O ambiente é movimentado e informal, típico de um encontro de boteco no Centro de Vitória.

Nos fins de semana, rodas de samba ocupam o beco e transformam o bar em palco improvisado. O beco se transforma em ponto de encontro mais amplo, atraindo não apenas os frequentadores habituais, mas também novos públicos. Mesmo com a música, o consumo de comida continua sendo central, funcionando como complemento à experiência gastronômica.

A comida que virou a marca do Bar do Beco 

Entre os pratos mais procurados está o “feijão gordo”, apontado pelo proprietário como carro-chefe da casa. Mas, o prato não é o único protagonista. A estufa de dois metros também chama atenção na hora de fazer o pedido. Com dois andares e reposição contínua ao longo do dia, a estufa virou marca registrada do Bar do Beco. Coxinhas recém-fritas, bolinhos, torresmo, caldos e petiscos quentes aparecem aos poucos, criando um consumo sem pressa, típico dos bares em que a permanência importa tanto quanto o pedido. “O cara que frequenta o boteco, quer isso”, resume Luciano.

Vínculo além do consumo

Mais do que qualquer prato específico, o que fideliza o consumidor é a sensação de pertencimento. Luciano e Cláudia operam o bar como uma extensão da própria casa, estabelecendo uma relação direta com os clientes. Eles circulam entre as mesas, conversam com quem está ali e acompanham pessoalmente o movimento. A informalidade do atendimento e a proximidade ao público contribuem para a sensação de familiaridade.

O episódio de arrombamento ocorrido na madrugada do dia 23 de julho de 2025 evidenciou o vínculo entre o bar e seus frequentadores. Durante a invasão, foram levados uma televisão de 65 polegadas — posteriormente recuperada —, uma caixa de som, maços de cigarro e os bolinhos de carne guardados na geladeira. No dia seguinte, o vídeo do proprietário chorando na calçada em frente ao estabelecimento viralizou nas redes sociais, mobilizando clientes e moradores da região.

O aumento do movimento nos dias seguintes foi impulsionado principalmente por clientes já conhecidos, que retornaram ao bar como forma de apoio. Luciano afirma que a reconstrução do bar também mobilizou comerciantes e outros donos de botecos do Centro. A relação entre os estabelecimentos da região, segundo ele, é mais de cooperação do que de concorrência, fortalecendo a ocupação da área e mantendo viva a circulação noturna no Centro Histórico de Vitória.

Ao se manter fiel a uma estrutura simples e aos pratos saborosos, o Bar do Beco traduz a essência da comida de boteco como prática cotidiana, com estufa cheia, conversas longas e portas abertas para a rua. Mais do que reinventar o boteco, o bar aposta justamente na permanência dessa tradição.