Motivadas pela independência, mulheres representam um terço dos empreendedores capixabas 

De acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), no Espírito Santo (ES), uma a cada três empreendedoras são mulheres, fator que destaca a busca feminina cada vez maior por independência social e financeira.  Cada uma com sua própria história, Talita Barcelos, apelidada como Trixie, e Viviane Teobaldo, conhecida como Vivis, decidiram traçar o mesmo caminho ao escolherem empreender.

Moradoras da Serra, jovens e sem medo de errar e começar novamente, a nail designer Trixie e a trancista Vivis viram, no ramo da beleza, a chance de investirem em seus negócios próprios. De acordo com as empreendedoras, o principal desafio ao iniciar um projeto do zero é permanecer confiante de que a iniciativa dará certo, mesmo diante das dificuldades.

Vivis afirma que ter resiliência é o ponto-chave para um futuro empreendedor. “Tem momentos do seu negócio que vai parecer que tudo está dando errado e você quer desistir. Suportar esse processo é muito difícil”, relatou.

Para ela, o machismo é também um ponto crítico no processo de emancipação feminina. “Eu tenho que reforçar muito meu posicionamento, falar de dinheiro, falar de ganho. Eu não quero ficar ostentando, mas é necessário para eu ser validada no mercado. Muitas pessoas tentam me invalidar, é muito difícil quando você é mulher e nova”, explica.

Apesar do cenário desigual para as empreendedoras, a gestora do Sebrae Delas do ES, Lisandra Carneiro, reforçou que, de 2015 à 2025, o número de mulheres à frente de negócios aumentou em mais de dois milhões. “Esse crescimento mostra uma tendência muito relevante: o empreendedorismo feminino avançou em ritmo superior ao masculino no mesmo período, reforçando que as mulheres têm ocupado cada vez mais espaço na economia e na liderança de pequenos negócios”, afirmou.

Ser nova não só na idade, mas também no mercado de trabalho, cria mais um desafio a ser vencido. Trixie conta que muitas vezes foi vista como amadora e inexperiente.

“Eu tive que trabalhar a forma como eu me enxergava enquanto mulher, a forma como eu me enxergava enquanto profissional e aprender a me impor”.

O medo de não conseguir clientes, as contas não fecharem no fim do mês e a dor de ter seu trabalho ignorado e desvalorizado: nada disso foi empecilho suficiente para fazer as jovens desistirem de suas metas. “Nada para mim é sonho. Tudo é meta”, relatou Trixie sobre a determinação que a fez permanecer em seu negócio.

Sendo o ramo de serviços o que mais destaca mulheres no empreendedorismo, a área da beleza cresce, ressaltando a busca de mulheres por se sentirem mais bonitas e, consequentemente, mais confiantes. O contato entre mulheres que buscam autonomia e aquelas que procuram se sentir melhores consigo mesmas reforçam uma parceria que, para Vivis, fomenta o amor por seu trabalho. 

“Eu sei que eu consegui trazer uma transformação  para as pessoas, para elas se olharem com mais amor. Com autoestima, você consegue sair de um casamento ruim, de um emprego ruim. Você consegue colocar limites, porque, se amando mais, uma pessoa enxerga que ela merece mais”, diz Vivis sobre o poder dos diversos serviços na àrea da beleza. 

Essa é a beleza em meio aos desafios de viver conforme seu próprio ritmo.

Trance com Vivis

@vivianeteobaldobeauty e @justmaricortez

Com 18 anos, Viviane Teobaldo, a Vivis, começou a trilhar caminhos para sua independência. Cursando Serviço Social na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), decidiu abandonar o curso para trabalhar como trancista.

Vivis conta que, na época, ela já trabalhava fazendo tranças e que seu objetivo era abrir um estúdio após a faculdade, até que decidiu não esperar mais. Ainda na graduação, ingressou na jornada de abertura de seu estúdio e, com apenas 21 anos, Viviane se tornou proprietária do espaço Trance Com Vivis.

Após estabelecida, ela trancou o curso de Serviço Social e saiu do trabalho que tinha na época para investir na profissão escolhida. Mas, mesmo deixando a faculdade, a empresária permaneceu estudando e se aprimorando.

“Eu estudei, planejei, me organizei. Até hoje eu estudo. Eu comecei fazendo tranças, mas hoje eu faço corte e tratamento em cabelos cacheados, eu coloco entrelace, vendo e aplico lace. Além disso, eu me especializei para ser social media. Hoje em dia eu sou estrategista de comunicação”. 

Trabalhos feitos por Vivis. Foto: @vivianeteobaldobeauty

Mesmo ainda tendo metas a alcançar, Vivis destaca que o sucesso é relativo e, hoje, já se considera uma mulher de sucesso. “Eu tenho 25 anos e não estou rica, mas segunda, às 9h da manhã, eu estava no pilates. Eu sou a diva do pilates”, relatou rindo.

Outro motivo de orgulho para Vivis foi a determinação de colocar sua liberdade como prioridade: “Eu fui a primeira filha a sair de casa por vontade própria e não porque casou. Eu vivo meus próprios sonhos”.

Trabalho feito por VIvis. Foto: @vivianeteobaldobeauty

Nails by Trixie 

@by.trixie.nails e @justmaricortez

Talita Barcelos, de apenas 23 anos, é conhecida como Trixie, nome artístico criativo e exclusivo, que acompanha a realidade de seu trabalho. A jovem Nail Designer teve uma verdadeira visão empresarial: se incomodou com aquilo que era falta no mercado. Quando ia em manicures para fazer suas unhas, sempre sentiu necessidade de decorações mais artísticas e ousadas. 

Após sentir que não estava feliz no antigo trabalho, o curso de Nail Designer surgiu como a oportunidade para ser mais livre.

“Eu lembro da época que bati o martelo e falei ‘não quero isso pra mim’. Foi no fim do ano. Eu trabalhei no dia 31 de dezembro e no dia primeiro de janeiro até 22h e eu trabalhava em frente à praia, via todo mundo indo para a praia e eu trabalhando”.

Trabalhos feitos por Trixie. Foto: @by.trixie.nails

Mas o curso foi apenas para aprender o básico das unhas. A arte que é entregue hoje às suas clientes foi aprendida em mesa, após muito esforço, muitos erros, e um toque de talento. 

Atualmente, a empresária não se enxerga fora do caminho artístico e afirma que foi através das unhas que alcançou a liberdade de fazer seus próprios horários e trabalhar com aquilo que realmente quer fazer: “Eu posso acordar a hora que eu quiser, vestir a roupa que eu quiser, ouvir as músicas que eu gosto”. 

Além disso, Trixie trabalha com suas próprias escolhas e não faz unhas que não estejam dentro do seu padrão estético.  “Eu tenho intimidade com minhas clientes, eu escolho o meu público. Eu não faço unhas básicas”, acrescentou.

Feliz com tudo que conquistou, as metas permanecem sempre em destaque. A próxima já está ganhando forma, com a construção de seu próprio estúdio.  

Trabalhos feitos por Trixie. Foto: @by.trixie.nails

Empreendedorismo feminino no ES

A jornada empreendedora exige preparo, estudo e determinação. Lisandra Carneiro, gestora do Sebrae Delas do ES, lembra que capacitação, acesso a crédito, apoio à gestão, fortalecimento de redes e visibilidade também são fatores fundamentais para alavancar a carreira empreendedora. “Muitas mulheres já empreendem, mas precisam de suporte para estruturar melhor seus negócios, vender mais, acessar mercados e se sentirem mais seguras na tomada de decisão. Também é essencial olhar para as desigualdades que ainda existem, especialmente em renda, tempo disponível e acesso a oportunidades”, concluiu.

No Espírito Santo, a cada três empreendedores um é mulher – FONTE: Retrato do Empreendedorismo Feminino Capixaba, do DataSebrae ES

De acordo com Vivis e Trixie, o empreendedorismo feminino ainda é tão cerceado, porque ainda é difícil, aos olhos de uma sociedade patriarcal, ver uma mulher autônoma, sem barreiras para lidar com seu próprio lucro, suas próprias condições e  forma de agir e reagir. 

Vivis lembra que é necessário ter um objetivo: “Lute pela sua independência, autonomia e liberdade e assim você só ficará em ambientes porque você se sente bem e não porque é obrigada”. 

Trixie acrescenta a importância de estudar e agir de forma estratégica: “É preciso lutar pelas nossas metas. Não existem caminhos abertos sem movimento”.

Entre as 195 mil capixabas empreendedoras contabilizadas pelo Sebrae, Trixie e Vivis permanecem firmes entre as belezas e dores do empreendedorismo feminino e se destacam como exemplos de mulheres jovens, fortes e visionárias, que vivem das suas próprias escolhas.