Má gestão e dívidas contribuíram para o hiato do Capa-Preta longe da elite
Bernardo Mont’Mor e Igor Dadalto
Quatro décadas longe da elite nacional não foram resultado de um único fracasso. Dívidas, má gestão, crises financeiras e decisões políticas contribuíram para o enfraquecimento não apenas do Rio Branco Atlético Clube, mas também de outros clubes do futebol capixaba.
Mesmo após a histórica campanha de 1986, quando o Capa-Preta esteve entre os principais times do país, a crise financeira que atingiu os clubes do Espírito Santo marcou o início do declínio do futebol capixaba no cenário nacional.
O jornalista e locutor esportivo, Jair Oliveira, relembra o período vivido pelo Rio Branco e analisa os fatores que afastaram o clube da elite brasileira por quatro décadas.
“A histórica campanha de 1986 colocou o Rio Branco Atlético Clube entre os seis melhores times do futebol brasileiro e marcou o último grande momento do clube em nível nacional. O elenco montado com jogadores e comissão técnica vindos da Ferroviária-SP transformou o clube em uma potência momentânea, mas também abriu caminho para uma crise financeira”
Jair Oliveira, jornalista esportivo

“Tivemos dois grandes problemas no nosso futebol. Primeiro, depois daquele super time montado pelo Rio Branco, os dirigentes acabaram se endividando demais, e o clube praticamente foi à falência. Precisou vender estádio, sede social, se desfazer de patrimônio, vendeu o Kleber Andrade para pagar dívidas e até hoje tenta se reerguer, sem uma praça esportiva própria para chamar de sua”, completou.
Crise financeira, vergonha nacional e perda de espaço
Com o passar dos anos, o futebol capixaba passou a enfrentar dificuldades para acompanhar a evolução financeira e estrutural do esporte no país. Segundo Oliveira, o Rio Branco Atlético Clube viveu episódios que simbolizaram a crise enfrentada pelos clubes do Espírito Santo.
“Com o passar do tempo, o futebol foi ficando muito caro, e o Espírito Santo não conseguiu acompanhar essa evolução. O Rio Branco, por exemplo, enfrentou problemas muito sérios. Para se ter uma ideia, em uma época em que o presidente era Enivaldo dos Anjos, o clube chegou ao ponto de sortear jegue, porco e cabrito para torcedores no estádio. Isso apareceu no Fantástico e ganhou repercussão nacional, virando motivo de vergonha para o futebol capixaba”, relembrou.
Ainda de acordo com ele, a falta de organização e de planejamento contribuiu para o enfraquecimento do futebol local ao longo dos anos.
Enquanto o futebol capixaba enfrentava crises financeiras e estruturais, outros estados passaram a crescer no cenário nacional.
Segundo o jornalista, o baixo posicionamento do Espírito Santo no ranking nacional das federações também afasta investidores e dificulta a retomada dos clubes capixabas.
“Os empresários procuram mercados maiores, com milhões de torcedores e clubes estruturados. O futebol capixaba, por sua vez, ainda sofre com falta de estrutura e planejamento”, disse.

Mesmo com a transformação do status jurídico do Rio Branco em SAF (Sociedade Anônima do Futebol), Jair Oliveira acredita que a mudança, sozinha, não é suficiente para recolocar o clube no protagonismo nacional.
“Existe o modelo SAF no Rio Branco, mas apenas virar SAF não transforma um clube em potência da noite para o dia. É necessário rever o modelo, atrair investimentos, profissionalizar a gestão e criar uma estrutura sólida para que o futebol capixaba volte a crescer”, completou.
Falta de referências no futebol capixaba
Jair Oliveira também alerta para a falta de grandes referências no futebol capixaba e critica o modelo de contratações adotado por muitos clubes do Estado.
Segundo ele, o cenário atual é marcado pela chegada de jogadores renomados nacionalmente, mas que já estão em fim de carreira ou sem condições de manter o mesmo nível físico e técnico de épocas anteriores.
“Hoje falta identificação, falta referência. Quem é o grande ídolo atual do futebol capixaba? Essa é justamente a dificuldade: o futebol perdeu personagens, perdeu talentos locais e, consequentemente, perdeu parte da paixão do torcedor.”
Evandro França Barreto, morador da região de Campo Grande e ex-jogador do juniores da equipe, relembra jogadores que marcaram sua trajetória como torcedor do Rio Branco e demonstra preocupação com a falta de referências para as novas gerações do futebol capixaba.
“Quando penso no Rio Branco, lembro logo dos grandes jogadores que passaram pelo clube, como Mazolinha, Eli e tantos outros nomes que marcaram a história do futebol capixaba”, afirmou.
Entre esses destaques, Mazolinha atuou pela equipe entre 86 e 87, último grande período do Capa- Preta, fazendo 36 jogos e marcando 10 gols.
Já Eli atuou pela equipe em 75, ano ativo do clube, que foi campeão capixaba e atuou em competições como o Torneio de Verão-ES, Torneio Incentivo Capixaba e outros amistosos.

O que falta para o futebol capixaba voltar a crescer
Para Jair Oliveira, a recuperação do futebol capixaba depende de uma reestruturação ampla, que passa por calendário, profissionalização, fortalecimento institucional dos clubes e maior participação da Federação na organização do esporte estadual. Segundo ele, o Espírito Santo perdeu espaço ao longo das últimas décadas por falta de planejamento e continuidade.
“O futebol foi ficando cada vez mais caro, e o Espírito Santo não conseguiu acompanhar essa evolução. Hoje, para voltar a crescer, é preciso organização, profissionalismo, estrutura, comunicação e investimento”, afirmou.

Além da questão esportiva, ele acredita que os clubes perderam identidade e conexão com os torcedores ao longo do tempo. “Antigamente os clubes tinham sede social, convivência entre as famílias, sala de troféus e uma cultura muito forte ligada ao futebol. Isso foi se perdendo aos poucos”, relembrou.
O torcedor Evandro França Barreto também acredita que a falta de estrutura afasta o público dos estádios e impede uma maior aproximação dos capixabas com os clubes locais.
“Acho que o que falta para os capixabas abraçarem mais o futebol local é organização, divulgação e investimento. E isso vale para todos os clubes, não apenas para o Rio Branco. O futebol precisa de estádios melhores, gramados melhores e mais infraestrutura. Muitas vezes o torcedor chega ao estádio e encontra cadeiras sujas, banheiros ruins e pouca estrutura. Esses detalhes fazem diferença para aproximar o público”, afirmou.
Segundo Jair, o enfraquecimento do futebol capixaba também afetou diretamente a imprensa esportiva local.
“Nós chegamos a ficar mais de 10 anos sem Globo Esporte local no ar. As rádios diminuíram, os jornais perderam espaço e hoje existem poucos programas incentivando o esporte capixaba”, disse.
Mesmo com as dificuldades, o jornalista acredita que ainda existe possibilidade de recuperação, desde que os clubes adotem modelos mais profissionais de gestão e invistam em estrutura e categorias de base.
“O torcedor capixaba sempre apoiou quando viu organização e competitividade. Ainda existe esperança, mas o futebol capixaba vai precisar de muito planejamento, investimento e profissionalismo para voltar a sonhar com a elite nacional”, completou.

