A preocupação sobre sustentabilidade na moda tem feito com que empreendedores e consumidores adotem práticas mais conscientes na hora de produzir e/ou consumir um produto.
Ana Piontkowski e Giulia Pin
De acordo com dados do Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas (ONU), o setor de moda e têxtil é responsável por 2 a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa e 9% da poluição de microplásticos que chegam aos oceanos anualmente.
O mesmo setor consome 215 trilhões de litros de água e utiliza em seus processos de fabricação cerca de 15 mil produtos químicos. Com todo o impacto ambiental, os empreendedores têm buscado alternativas que vêm conquistando as vitrines e os guarda-roupas.
Upcycling, slow fashion, brechós e peças em crochê são alguns exemplos de práticas atreladas à moda sustentável que, além da pegada ecológica, têm viralizado e atraído cada vez mais compradores.
Grande parte desse alcance tem sido responsabilidade de mulheres, que, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), são donas de 180 mil negócios no Espírito Santo e ocupam, majoritariamente, os setores de Serviços (57,21%) e de Comércio (23,11%), os quais se integram o setor de moda.


Upcycling e slow fashion: ressignificar peças
A crocheteira Fernanda Ferreira, proprietária da loja Aloha Crocheteria, explica que produz roupas do zero e também recria peças usando jeans, jaquetas e calças que seriam descartadas.
O crochê tradicionalmente já está atrelado à sustentabilidade devido à valorização de produção artesanal, de uso de linhas ecológicas, e de slow fashion – moda lenta, que valoriza a qualidade, durabilidade e uso consciente da peça. Porém com a entrada do upcycling, ou seja, transformar roupas indesejadas em novas, a produção tende a ficar ainda mais verde.
“Hoje o crochê também está vindo de forma sustentável. É possível customizar com o crochê aquela roupa, um jeans, por exemplo, que você tem guardado no seu guarda-roupa. Assim, você agrega o crochê ao jeans e também está ajudando o meio ambiente”, ressalta Fernanda.
A doutora em educação, professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e pós-graduada em Moda: Arte, Tecnologia e suas Expressões, Maria Nazareth Bis Pirola, destaca que práticas como as já citadas são exemplos de moda circular, ou seja, reutilizar produtos.
“A moda circular como o próprio termo indica, significa fazer circular os produtos de moda a partir do reuso, reformas, upcycling, aluguel de roupas. Ou seja, significa prolongar o ciclo de vida dos produtos em vez de simplesmente descartá-los.”
Ela ressalta que essa forma de economia verde tem virado tendência por vários fatores, como crise econômica, educação voltada para a sustentabilidade e geração de renda para pequenos e médios empreendedores.
“No Brasil, em especial, percebemos um aumento expressivo nos brechós a partir de 2022. Com a pandemia, vimos também crescer as práticas de consumo online. Além disso, o próprio segmento da moda, influencers, marcas e semanas de moda têm apostado em práticas sustentáveis, divulgando-as cada vez mais.”
A aposentada Marlene Campos Fontes também faz de práticas sustentáveis uma fonte extra de renda. Ela une várias técnicas para ressignificar peças, como o macramê, o crochê e o bordado livre. Para esse trabalho, Marlene pede roupas velhas e não mais usadas para amigas e familiares e cria um vestuário completamente diferente.
“Uma bolsa que eu fiz, por exemplo, eu usei forro com material de reaproveitamento, peguei jeans velho de amigas, cortei em quadradinhos e fiz o bordado. O meio ambiente agradece. Imagina se a gente fosse comprar todos esses jeans para poder cortar, para poder fazer. Não dá.”
Além de trabalhar individualmente, Marlene também participa do MC Moda e Sustentabilidade, um bazar que vende peças customizadas, como a bolsa já citada por ela.









Brechó e bazar: reutilizar e reciclar
É com a mesma ideia de sustentabilidade que o EcoBrexó 101 nasceu. O projeto é uma extensão da Associação de Coletores Materiais Recicláveis do município de Ibiraçu (Aascomçu).
A presidente dessa iniciativa, Ana Paula Imberti, relatou que, inicialmente, a associação levaria o nome de Força Feminina, por suas participantes serem mulheres, mas devido a impedimentos impostos pela prefeitura da cidade não pode ser registrado dessa forma.
As participantes recebiam e faziam doações de muitos produtos, por isso, em 2024, decidiram criar um espaço específico para a ação, o Ecobrexó 101.
“Roupas, brinquedos, livros, peças, bijuterias, objetos de decoração vão para a Aascomçu. Lá é feita uma pré-triagem desse material: observamos o que realmente está em bom estado, realizamos uma higienização desses resíduos e peças, e levamos para esse espaço que é o EcoBrexó 101. Então, de tudo o que é juntado lá, parte nós comercializamos para trazer mais renda para os associados e a outra parte a gente coloca para doação.”
Dentre as pessoas que recebem os materiais para reuso estão as em condição de vulnerabilidade social, equipes de assistência social, orfanatos, asilos e clínicas para dependentes químicos.
“O resíduo deixa um grande problema, então nós pensamos em poder reutilizá-lo. Muitas famílias não têm roupa, por exemplo. Nós também vendemos as peças a preços acessíveis, fazemos campanhas como trocas sociais sustentáveis, em que o morador pode levar 20 garrafas PETs ou 20 caixinhas de leite e trocar por produtos, caso ele não consiga comprar. Além disso, o Ecobrexó 101 ensina às pessoas como funciona a coleta seletiva e a reciclagem”, completou Ana Paula.
Segundo Nazareth, roupas descartadas impactam diretamente o meio ambiente e a saúde das pessoas, por isso, brechós e projetos comunitários contribuem arduamente para o consumo consciente e para a moda circular.
“Sabemos que o consumo acelerado, com fast fashions vendendo roupas com preços e qualidades baixas, aumenta também o descarte de roupas no meio ambiente. Infelizmente, essas peças descartadas são levadas para aterros ou lixões, provocando sérios danos ao meio ambiente e à saúde das pessoas. Nesse sentido, os brechós contribuem significativamente para a sustentabilidade na moda.”
Cursos para empreendedoras
Empreender nesse setor de moda circular pode não ser tão simples e exige qualificação profissional. De acordo com o diretor-geral da Agência de Desenvolvimento de Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo do Espírito Santo (Aderes), Alberto Gavini, a autarquia oferece cursos e feiras para comercialização, em parceria com o Sebrae, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).
Há qualificações para mulheres em diversas áreas, como Marketing, Costura Industrial, Empreendedorismo, Gestão Financeira, Estética e Gastronomia. Ele destaca que a preferência do público feminino é por áreas mais práticas e aplicáveis, mas não descarta outras opções que também podem gerar uma boa renda.
“Na comunidade mais singela, fazer um curso de costura dá mais aplicabilidade na prática. Fazer um curso de cabelo, de beleza, também é mais fácil para a empreendedora ganhar dinheiro mais rápido. Mas, por exemplo, se a mulher fizer mecânica de moto no interior, ela vai ganhar dinheiro. Se fizer um curso de mecânica de bicicleta na comunidade, vai ter bicicleta para consertar”, destaca Gavini.
O Senac, Sebrae e Senai também oferecem cursos ligados à moda, como o de Costura Criativa e o de Moda, em que são ensinadas técnicas de reutilização e reaproveitamento de materiais.
O diretor-geral da Aderes frisa que as mulheres formam a maioria dos catadores de materiais recicláveis registrados no ES (59%) e dos artesãos que fazem parte do cadastramento único (70%), áreas em que Ana Paula, Fernanda e Marlene se orgulham de fazer parte.
É inegável o impacto gerado por essas microempreendedoras que fomentam práticas como às de upcycling, slow fashion, brechós e técnicas artesanais. No entanto, a professora da Ufes Nazareth Pirola afirma que o consumo exacerbado não irá diminuir apenas com práticas verdes desses grupos.
“Essa questão passa pela sociedade como um todo: empresas repensando seus modelos de produção para evitar desperdício e descarte; consumidores entendendo os benefícios do consumo consciente; governos criando leis para impedir a poluição e destruição do meio ambiente; as escolas promovendo uma educação para a sustentabilidade etc. Ou seja, é um movimento amplo e que envolve toda a sociedade”, completa.

