Mãos que transformam a dor em arte: oficina de joias resgata autoestima de mulheres em tratamento de câncer

Em parceria com a Ufes, Unimed Sul Capixaba reúne pacientes oncologistas em um projeto de superação e criação que culminará em exposição e desfile em Vitória.

Por Mirella Nunes Dias

Assim como o metal bruto e as pedras naturais precisam passar pelo fogo e pela lapidação até revelarem sua melhor versão, dezenas de mulheres têm transformado a dolorosa jornada contra o câncer de mama em um processo de redescoberta e fortalecimento, mostrando que enfrentar o tratamento exige coragem para encarar transformações profundas e resgatar o brilho e a essência que sempre estiveram nelas.

É com base nesse propósito de superação que a oficina terapêutica “Toda mulher é uma joia rara” ganha vida. Realizada entre os meses de setembro e outubro pela Unimed Sul Capixaba, em parceria com o curso de Gemologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a iniciativa reúne dez mulheres em tratamento contra o câncer de mama. Por meio de encontros focados no aprendizado da criação de joias, o projeto oferece um espaço de acolhimento, autocuidado e reconstrução da autoestima para enfrentar o processo contra a doença.

De acordo com a idealizadora e professora do curso de Gemologia, Kelly Christiny da Costa, a oficina começou a partir de sua pesquisa de doutorado. “O projeto teve início a partir das investigações desenvolvidas em meu doutorado, cujo foco recai sobre mulheres em situação de vulnerabilidade em diferentes contextos […]. A parceria surgiu diretamente desse percurso acadêmico. Uma pessoa que conhecia minha pesquisa identificou a relevância do estudo e encaminhou o contato, possibilitando a construção da iniciativa”, afirma a professora.

Da força do metal ao resgate da própria existência

“Eu acho que, acima de tudo, a gente recupera a atividade criativa e a certeza de que a vida está em transformação. Você transforma o metal duro em algo que vai te adornar, a crescer, valorizar a sua existência e a sua permanência, seja lá quanto tempo dure”, destaca Jussara Luzia Leite, uma das participantes da oficina. Para ela, o impacto de manusear as peças vai muito além do aprendizado técnico, tornando-se uma metáfora sobre a própria existência durante o tratamento.

Essa perspectiva de cuidado integral encontra respaldo direto na medicina oncológica. De acordo com a médica oncologista Julia Pastorello, o acompanhamento do câncer precisa enxergar o indivíduo em sua totalidade: “Uma oficina de produção de joias cria um espaço de convivência, criatividade e expressão, permitindo que, por algumas horas, essas mulheres se encontrem não apenas como pacientes, mas como pessoas produzindo algo bonito. Existe também algo muito simbólico em produzir uma joia com as próprias mãos: a mulher volta a ocupar um espaço de criação e de escolha”, informa a médica.

O resgate da autonomia e da rotina também é visível no dia a dia dos encontros. A terapeuta ocupacional da Unimed, Maira Passabom, ressalta como o trabalho manual mobiliza forças internas no enfrentamento da rotina de cuidados: “A gente percebe que as pacientes em tratamento oncológico perdem esse brilho e essa energia. Quando trazemos projetos dessa magnitude, de construção e empoderamento, acontece essa energia de sair da cama e viver novamente, ao perceberem que o processo da joia é o próprio processo da vida e do tratamento: às vezes não dá certo de primeira e é preciso polir mais um pouco”, relata Maira.

Superação no laboratório e um novo olhar para o futuro

“Tem alguns equipamentos que dão medo e eu já tive que refazer algumas peças três vezes, mas quando vejo uma peça pronta eu fico muito feliz e vejo que tudo valeu a pena”, afirma Maria Zuleide Leal, participante do projeto. Vencer o receio do laboratório vale cada segundo: ainda que o processo exija persistência e paciência no manuseio do maçarico e das ferramentas, o resultado traz uma sensação única de conquista.

Esse sentimento de superação coletiva e individual ajuda a ressignificar o peso do diagnóstico. Como explica a psicóloga da Unimed, Thaís Peres, o convívio e a criação artística abrem espaço para que essas mulheres voltem a planejar o amanhã: “Quando uma pessoa recebe um diagnóstico oncológico, muitas vezes vivencia um processo de luto por um futuro planejado. Ao fazerem parte desse grupo e realizarem a oficina, percebemos justamente essa saída do lugar de luto, pois elas conseguem se enxergar em outros lugares, continuar a fazer planos, nutrir expectativas e manter a esperança em uma vida boa e com dignidade”, declara a psicóloga.

Um legado permanente celebrado em desfile

Integrante da campanha Outubro Rosa 2026 da cooperativa, a oficina encerrou a etapa de produção no dia 7 de outubro, data do último encontro prático. Como a Unimed promove iniciativas diferentes a cada ano no mês de conscientização, a oficina terapêutica de criação de joias foi planejada como uma ação pontual e não tem previsão de continuidade. No entanto, os frutos do projeto e o impacto no resgate da autoestima já se tornaram um legado permanente na vida de cada participante.

Para celebrar essa trajetória, o projeto culminará em um evento de encerramento no dia 22 de outubro, com uma exposição das peças na Sede Administrativa da Unimed Vitória, em Bento Ferreira. Na ocasião, as participantes protagonizarão um desfile especial ao lado de seus familiares, apresentando com orgulho as joias criadas por elas.