O crescimento das apostas online levanta questões sobre a capacidade da rede de saúde da universidade de identificar, acolher e encaminhar pessoas afetadas pelo transtorno do jogo
Carla Dias e Pedro Neves com edição de Emilly Rodrigues
O crescimento das plataformas de apostas online, as chamadas bets, trouxe novos desafios para a saúde mental. Embora muitas pessoas utilizem essas plataformas como forma de entretenimento, o comportamento pode se tornar problemático e provocar consequências financeiras, familiares, profissionais e emocionais. No Espírito Santo, o Projeto de Lei nº 456/2026 propõe proibir a publicidade de apostas de quota fixa, jogos de azar e atividades correlatas em espaços e eventos públicos ou financiados com recursos públicos, colocando a prevenção no centro do debate.
Na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), porém, a questão também passa pela capacidade de acolher quem já enfrenta problemas relacionados às apostas. Segundo o Departamento de Atenção à Saúde (DAS), o serviço já recebeu algumas demandas pontuais de servidores relacionadas ao uso de bets. Não existe, entretanto, um levantamento ou rastreamento específico sobre esses casos.

As demandas atendidas partiram de servidores que procuraram ajuda apresentando sofrimento psíquico e relatando prejuízos pessoais, familiares e profissionais. O DAS informa que oferece acolhimento e orientação e, quando necessário, realiza encaminhamentos de acordo com as necessidades apresentadas e as limitações do serviço. O departamento também afirma que pretende promover uma ação psicoeducativa sobre o tema dentro da programação da Pausa Consciente em 2027.
Para o psicólogo clínico Daniel Santana, um dos obstáculos para identificar a dependência está na própria percepção do apostador. Segundo ele, justificar as apostas dizendo que utiliza apenas “o dinheiro que sobra” pode funcionar como um mecanismo de defesa e criar uma falsa sensação de controle. O problema, explica, não está somente no valor apostado, mas na relação emocional e cognitiva estabelecida com o jogo.
A experiência do jovem apostador Adrian Magnoni, de 18 anos, mostra essa percepção. Ele conta que conheceu as plataformas por meio de influenciadores e conteúdos na internet e afirma não ter enfrentado problemas financeiros porque utiliza apenas um dinheiro que não lhe faria falta. Apesar disso, reconhece que as apostas já lhe causaram estresse. Para quem nunca apostou, seu conselho é direto: “Eu recomendo que nem comece”.
Segundo Daniel, a tentativa de estabelecer limites também pode se tornar insuficiente quando a pessoa desenvolve dependência. A expectativa de ganhar e a tentativa de recuperar o dinheiro perdido podem alimentar um ciclo no qual a aposta passa a ser utilizada novamente mesmo depois de provocar estresse e prejuízos.
No caso da Ufes, portanto, existe uma estrutura de acolhimento, mas ainda há aspectos que permanecem sem mapeamento. O próprio DAS afirma não possuir dados que permitam dimensionar a quantidade de servidores afetados ou determinar quais fatores estão relacionados às demandas recebidas. Para o serviço, o transtorno do jogo é multifatorial, e tanto o ambiente de trabalho quanto o estresse financeiro podem contribuir para o problema ou funcionar como fatores de proteção.
A questão, então, vai além de impedir a publicidade das apostas. Enquanto as bets continuam acessíveis pelo celular, a prevenção também depende da capacidade dos serviços de saúde de reconhecer os sinais, acolher quem procura ajuda e encaminhar os casos que necessitam de acompanhamento. Entre a facilidade de apostar e a dificuldade de parar, permanece o desafio de garantir que quem precisa de ajuda saiba onde encontrá-la.

Expediente: reportagem produzida neste semestre letivo dentro da disciplina Laboratório de Jornalismo. Estudantes: Ana Caroline de Moraes Fagundes (repórter), Carla Eduarda Dias do Carmo (repórter), Emilly Rodrigues Gonçalves (pauteira), Kauã Henrique Rocha Cunha (mídias sociais), Marina Monteiro Marques Bressane (fotógrafo), Pedro Neves (edição). Professor e jornalista responsável: Maria Lucia da Silva (MTB 0563 ES).

