Fiscalização é intensificada, mas pacientes correm risco
A professora Adriana Maria Liberato, de 51 anos, iniciou há alguns meses o uso do Mounjaro (tirzepatida), sob prescrição médica, para tratar níveis elevados de glicose. No início, chegou a investir cerca de R$1.800,00 em uma caixa com seis doses. “O custo era bastante alto e pesava no meu orçamento”, relata a usuária, que admite ter cogitado outras formas de obter a medicação por causa do valor. “Pensei em buscar meios mais baratos, porém tive medo de adquirir um produto falsificado, armazenado de qualquer forma, ou que pudesse colocar a minha saúde em risco”, conta.
A diferença desproporcional de preços entre o mercado de drogarias autorizadas e as opções clandestinas impulsionam o contrabando, o que leva a polícia a ações mais especializadas. O Espírito Santo foi palco de uma grande operação nesse sentido: foi no dia 7 de abril, a Operação Heavy Pen, promovida pela Polícia Federal com a Anvisa.
Realizada em conjunto em 12 estados brasileiros, a operação apreendeu 3,5kg de tirzepatida, capaz de produzir mais de 1 milhão de canetas emagrecedoras. A Anvisa também identificou mais de 17 mil frascos manipulados irregularmente.
No Brasil, o tratamento mensal com Mounjaro original, fabricado pela Eli Lilly, varia de R$ 1,4 mil a R$ 4 mil. Já em no Paraguai, ampolas de tirzepatida custam entre R$ 400,00 e R$ 500,00.
Incerteza da procedência
A ameaça de remédios sem registro na Anvisa é grave, segundo a farmacêutica Géssica de Andrade, de Vila Velha, que esclarece que o maior risco é a incerteza da procedência. “Você não sabe se ela está totalmente estéril e livre de microrganismos”, alerta, apontando o perigo de contaminação bacteriana direta por ser uma medicação injetável. Ela também reforça que a tirzepatida exige cadeia de frio.
“Indicamos que deve ser conservada abaixo de 19ºC, temperatura ideal para manter a estabilidade e garantir que o princípio ativo tenha o efeito correto”, recomenda. Para se proteger, Géssica orienta verificar lote, validade e o selo 3D. Caso o paciente use um produto clandestino e note reações incomuns, a farmacêutica aconselha que suspenda o uso do medicamento imediatamente e busque auxílio médico.
Análises da Unicamp revelaram marcas paraguaias com dosagem 60% superior à descrita no rótulo, o que pode causar arritmia cardíaca, hipoglicemia severa e falência renal, além de flagrantes de lotes falsificados contendo apenas soro fisiológico.
SUS é a solução
O fornecimento gratuito da tirzepatida pelo SUS, para combater o mercado ilegal e a automedicação (que são provocados pelo alto custo do remédio), garantindo a segurança do paciente: esta é a estratégia proposta pelo nutricionista Caíque Covre, também de Vila Velha, ressaltando que a disponibilizção no SUS deve ser realizada em paralelo ao acompanhamento nutricional, como uma etapa importante de todo esse tratamento.
“Independentemente do mecanismo da ferramenta, seja caneta, sibutramina ou cirurgia bariátrica, o objetivo é o déficit calórico. Se o paciente não aprende a reeducar o comportamento, a medicação sozinha não vai resolver a longo prazo”, destaca Gabriel.
Expediente: reportagem produzida neste semestre letivo dentro da disciplina Laboratório de Jornalismo – Turma 1. Estudantes: Aline Silva de Sousa (mídias sociais), Guilherme Piont Kovsky Tinoco (fotógrafo), Karen Ellen Soares Silva (edição), Maria Jullia Santos de Souza (repórter), Rychard Rodrigues de Freitas (repórter), Vanessa Nascimento Pereira (pauteira) e Vinícius Corrêa Castro (mídias sociais). Professor e jornalista responsável: Ademar Possebom Pessini Junior (ES01474/JP).

