Número de eleitores de até 17 anos cai 27% no Espírito Santo

Enquanto participação eleitoral diminui, sentimentos como cansaço, medo e tristeza entre jovens diante da polarização política e dados de saúde mental apontam alta prevalência de ansiedade e depressão nessa faixa etária

O número de eleitoras e eleitores capixabas com 16 e 17 anos caiu 27% entre 2022 e 2026, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em quatro anos, o número passou de 27.730 para 20.302 jovens aptos a votar no Espírito Santo. 

A redução chama atenção, mas o número não explica sozinho por que parte dos jovens está se afastando da política. Uma pesquisa da Ipsos-Ipec, realizada em 2025, sobre sentimentos e saúde mental ajuda a entender o contexto em que essa geração está inserida.

Os efeitos da polarização
O levantamento da Ipsos-Ipec ouviu pessoas a partir dos 16 anos e, entre os entrevistados de 16 a 24 anos, 22% apontaram o cansaço como o sentimento que mais representa o que sentem em relação à polarização política. O índice é cinco pontos percentuais maior que o registrado na população geral, de 17%.

O medo aparece em 17% das respostas dos jovens, enquanto 12% mencionam tristeza quando questionados sobre o cenário polarizado da política nacional.

A estudante Amanda Cesar tem ansiedade e depressão e evita discussões políticas para não se desgastar emocionalmente.

“Eu tenho tentado evitar pautas políticas, tento ao máximo evitar conflitos, discursos que sejam ofensivos ou opressivos, porque isso me deixa, de fato, mal, são gatilhos para mim”, desabafa Amanda.

Amanda evita conversar sobre política para evitar conflitos.

Já a estudante Isabel Passamani relata outro sentimento presente nesse ambiente: o medo de se posicionar.

“Tenho medo do que os contrários a mim podem achar da minha posição política”, conta.

Para o psicólogo Gabriel Waicherrt, a dificuldade dos jovens de construírem a própria identidade e a pressão exercida pelo ambiente familiar e social também podem tornar situações de confronto político mais difíceis de administrar.

“Se eu estou dentro de casa e não consigo construir uma identidade minha, porque meus pais não me permitem, por exemplo em contexto de divergência política, a situação fica ainda mais grave. E isso vale para tudo, não só para política”, destaca Gabriel.

O psicólogo Gabriel aponta que os desafios atuais dos jovens valem para tudo, e não para a política.

Juventude em fuga
Para o cientista político e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), João Gualberto, existe hoje um desencaixe entre a juventude e a política. Segundo ele, o debate político passou a ocupar principalmente as redes sociais, ampliando a exposição dos jovens a conflitos e posições opostas.

“A política estranhamente está sendo produzida pelos mais velhos. São eles que têm dominado os embates políticos no âmbito digital. Isso é uma coisa que nunca ocorreu na história da humanidade, a revolução sempre foi feita pelos jovens, então há um desencaixe”, pontua.

Redução anormal
Outras pesquisas nacionais sobre o eleitorado jovem trazem resultados de quedas de percentuais, porém nada perto dos 27% observados pelo TSE.

O Instituto Jones dos Santos Neves, responsável por produzir pesquisas para subsidiar as políticas públicas capixabas, concluiu que o percentual de pessoas entre 10 e 19 anos caiu 15% entre 2010 e 2022: eram 301.529 em 2010 ante 256.029 em 2022. Os dados são do Censo 2022 realizado pelo IBGE.

A PNAD 2025, também do IBGE, observou redução de 6,1% na quantidade de pessoas com até 40 anos, entre os anos de 2012 e 2025.

Por sua vez, o portal EducaIBGE apresenta que o total de crianças com até 14 anos decresceu 12,6%, mudando de 45,9 milhões (24,1%) em 2010 para 40,1 milhões (19,8%) em 2022.

Expediente: reportagem produzida neste semestre letivo dentro da disciplina Laboratório de Jornalismo – Turma 1. Estudantes: Barbara Oliveira Chaves (editora), Débora Silva Machado (mídias sociais), Isabely Almeida da Silva (fotógrafa), Larissa Garcia Nali (repórter), Larissa Fiório Mazolli (pauteira) e Tarciso Jeanmonod Costa (repórter). Professor e jornalista responsável: Ademar Possebom Pessini Junior (ES01474/JP).