Cooperativa incentiva autocuidado e acolhe mulheres 50+

A cooperativa Manualidadeterapia integra psicanálise e arte para reconstruir vínculos humanos e resgatar a autoestima de mulheres que encontraram no cooperativismo um antídoto contra a invisibilidade. 

“Elas vieram para um fazer manual, mas encontraram a alma delas. Foi uma descoberta de si mesmas. É uma autopermissão, é um autoamor, é um autoacolhimento. Descobrir que pode, sim”. Com essa frase, a psicanalista Ruth Santos resume a essência da Manualidadeterapia, uma iniciativa que nasceu em 2024 para oferecer um espaço de autocuidado e autoconhecimento para mulheres acima de 50 anos. 

O projeto foi idealizado por Ruth e Henriqueta Virginia Hosken Correa, também psicanalista e presidente da cooperativa, que buscavam expandir os limites dos atendimentos psicoterapêuticos tradicionais por meio de vivências artísticas, começando com um encontro focado em pintura que revelou a demanda dessas mulheres pela reconexão consigo mesmas. 

Henriqueta Hosken, presidente da Cooperativa

“Quando foi em 2024, nós fizemos um evento. Convidamos algumas queridas conhecidas para participar, convidamos outras pessoas e fizemos um trabalho com pintura”, conta Henriqueta.

A partir disso, novos caminhos se abriram. As fundadoras perceberam que atividades envolvendo pintura, crochê, cerâmica e outros trabalhos manuais conseguiam atrair mulheres acima dos 50 anos, público que, frequentemente, negligencia o autocuidado por passar a vida inteira cuidando de outras pessoas. 

Foi em um dos eventos abertos à comunidade que Maria Tereza Dias Gonçalves, 73 anos, se encontrou. A professora aposentada relata que a transição do interior para Vitória, ocorrida há 25 anos, impactou profundamente a saúde mental. “Eu me senti muito só e procurei uma psiquiatra. No interior todo mundo se conhece, todo mundo vê, todo mundo para, pergunta, carrega bolsa, te ajuda… Aqui, eu parava no ponto de ônibus e ninguém me olhava, ninguém me via, ninguém me conhecia”, relata Maria Tereza.

Maria Tereza Dias, 73 anos

Ela também confessa que, antes dos encontros da cooperativa, não praticava o autocuidado e que, por ser idosa, achava que já não havia mais necessidade de se conhecer melhor. Depois que passou a frequentar os encontros coletivos, tudo mudou. “Eu aprendi que na vida a gente aprende toda hora. O outro também me ensina, então eu saio daqui outra pessoa e acredito que houve mudança”, conclui.

Essa conexão com o grupo, frequentemente citada pelas cooperadas, revela o sucesso de um método inusitado aplicado por Henriqueta e Ruth: a contoterapia. O convite despretensioso para oficinas de trabalhos manuais se transforma, ao longo do encontro, em um processo íntimo de identificação por meio da leitura de contos. Os textos trabalham temas diversos, mas o resultado é sempre a interpretação de como aquelas histórias ressoam na vida das participantes e o poder que a intimidade tem no processo de cura. 

Da direita para a esquerda: Maria Tereza Dias, Tânea Santos, Eliane Souza, Ruth Santos e Henriqueta Hosken

Cooperar para cuidar: criatividade e saúde mental como inovação

O modelo cooperativista surgiu como uma oportunidade por possibilitar integrar múltiplos profissionais visando construir um espaço coletivo de acolhimento, escuta e pertencimento. “A cooperativa agrega. Diferente de associações, por exemplo, que só permitem os mesmos profissionais, aqui nós temos psicanalistas, psicólogos, médicos e professores”, declara a presidente. A partir dessa cooperação, a Manualidadeterapia conseguiu transformar encontros de trabalhos manuais em uma rede de cuidado capaz de combater o isolamento e fortalecer a saúde mental de mulheres acima dos 50 anos. 

Para Ruth Santos, o diferencial da cooperativa está justamente na maneira delicada como o cuidado é conduzido. “Nós temos a solução para a saúde mental, sem abordar diretamente o tema, porque quando você fala de saúde mental, assusta. E alguns estão aproveitando essa onda da saúde mental para vender soluções milagrosas, que não existem”, afirma.

Na prática, a proposta vai muito além do artesanato. O crochê, a pintura, a cerâmica e as leituras de contos funcionam como instrumentos de aproximação, permitindo que as participantes criem vínculos e expressem emoções de forma espontânea. “Não é artesanato pelo artesanato. A oficina não é a solução para saúde mental. O que é a proposta é a vivência, a experiência, estar, conversar, dialogar sobre, sem pretensão”, completa Ruth.

A construção desse ambiente acolhedor passa diretamente pela ética e pela confiança cultivadas dentro dos grupos. A terapeuta Ivana Silveira de Castro explica que os encontros são planejados para que cada mulher se sinta segura para falar, ouvir e se permitir viver uma terapia coletiva. “O processo terapêutico se dá em forma de cooperação. E quando a gente abre o primeiro grupo, nós sempre nos certificamos de que esse espaço é um espaço de segurança e ético”, destaca.

A mudança aparece aos poucos, nos gestos e na forma como cada integrante passa a se enxergar. Mulheres que chegaram procurando apenas aprender crochê ou pintura terminaram os encontros mais conectadas consigo mesmas e com as outras integrantes do grupo.

Ivana relembra com emoção o encerramento de uma das turmas. “À medida que esse processo foi acontecendo, a entrega foi se dando de uma forma tão natural que, no último dia, a gente tirou uma foto belíssima. Cada uma veio no seu melhor glamour. Cada dia, uma vinha mais bonita. A gente percebe que teve a mudança, o despertar da emoção e do autocuidado”.

A cooperativa como instrumento

O relato revela como o cooperativismo pode atuar também como meio de combate ao isolamento e à solidão, especialmente entre mulheres idosas. Em uma realidade marcada pelo ritmo acelerado das grandes cidades e pela invisibilidade do envelhecimento feminino, a Manualidadeterapia oferece pertencimento, convivência e acolhimento, transformando o cuidado coletivo em um instrumento real de reconstrução de vínculos humanos.

Em apenas um ano de registro oficial no Sistema OCB/ES, sindicato das cooperativas brasileiras no estado do Espirito Santo, formalizado em março de 2025, a Manualidadeterapia já demonstra capacidade de inovar na promoção da saúde mental de forma profissional e ética. A cooperativa reúne 14 cooperados-fundadores que encontraram no cooperativismo a estrutura ideal para viabilizar um espaço de escuta, arte e cuidado. Entre fios, tintas, contos e conversas, mulheres redescobrem a autoestima, a autonomia e a capacidade de olhar para si mesmas com carinho, evidenciando o impacto profundo e duradouro dessa experiência coletiva. 

Durante a apuração, os repórteres Camila e João foram convidados a participar da sessão de Contoterapia para entender a metodologia na prática.