O Jogo da Paz: Brasil e Haiti se reencontram 22 anos depois

Com o objetivo de restaurar a democracia no Haiti, a ONU sob comando do Brasil trouxe a principal arma do campeão mundial de 2002 à América Central, o futebol.

Brasil e Haiti irão se enfrentar pela 4ª vez na história, desta vez pela fase de grupos da Copa do Mundo. O confronto reacende a memória de um dos episódios mais emblemáticos do futebol brasileiro fora das quatro linhas: o chamado “Jogo da Paz”, realizado em 2004, em meio à crise política e humanitária haitiana.

Há 22 anos, a Seleção Brasileira desembarcava em Porto Príncipe para uma partida amistosa marcada por forte simbolismo político. O Haiti vivia um período de intensa instabilidade após a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide e o início da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), coordenada pelo Brasil.

Professor e Historiador Guilherme Gouveia. Foto: Igor Dadalto

Segundo o historiador Guilherme Gouveia Soares Torres, pesquisador da relação entre militares e política brasileira, a missão da ONU foi também um reflexo do papel atribuído às Forças Armadas latino-americanas no período pós-ditaduras.

“Essas missões das Nações Unidas apontam para uma possibilidade de ação, ou seja, de uma participação desses militares junto a oficiais de nações que teriam um regime democrático mais consolidado”, explica.

A presença brasileira no Haiti ocorreu no contexto do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, momento em que o Brasil buscava ampliar sua influência internacional por meio do chamado soft power, estratégia de projeção diplomática baseada em cooperação e liderança política.

O jogo que parou um país

Em 18 de agosto de 2004, a Seleção Brasileira entrou em campo no estádio Sylvio Cator diante de milhares de haitianos que tomaram ruas, telhados e árvores para ver de perto ídolos como Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos.

Brasil e Haiti fazem o “Jogo da Paz” em Porto Príncipe – efemérides do  éfemello
Foto: Reprodução/ efemeridesdoefemello

Por questões de segurança, a delegação brasileira chegou ao Haiti apenas duas horas antes da partida, escoltada por veículos blindados da ONU. Dentro de campo, o Brasil venceu por 6 a 0. Fora dele, a imagem que ganhou o mundo foi a de um país temporariamente unido pelo futebol.

O historiador avalia, porém, que a narrativa de que o jogo “parou a guerra” também teve um forte caráter simbólico e propagandístico.

“Vejo ali essa questão da guerra como um elemento de propaganda a respeito dessa missão, de vender a intervenção como algo pacífico”, afirma.

Ele lembra que a atuação brasileira na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) também foi alvo de críticas e polêmicas, especialmente após operações militares em comunidades haitianas, como o massacre de Cité Soleil, frequentemente apontado por organizações de direitos humanos.


Haiti segue marcado pela instabilidade

O Haiti volta a uma Copa do Mundo após 52 anos, mas o cenário ainda não é dos melhores. O país enfrenta uma crise humanitária agravada pelo domínio de facções armadas, violência extrema e colapso institucional, sobretudo na capital, Porto Príncipe.

Mesmo classificado,  o Haiti sequer conseguiu mandar jogos em casa durante o ciclo para o mundial de forma regular devido à insegurança.

Para Guilherme Gouveia , o reencontro entre Brasil e Haiti em 2026  mostra que, na prática, pouco mudou, as desigualdades históricas ainda permanecem.

“Houve  uma intervenção que teve o seu papel naquele momento, mas essas estruturas de desigualdade permanecem, principalmente em relação aos Estados Unidos”, analisa.

Copa sem torcida?

Além dos desafios internos, muitos haitianos enfrentam outra barreira para acompanhar a seleção na Copa do Mundo: a entrada nos Estados Unidos. Um decreto do presidente Donald Trump voltou a restringir o ingresso de cidadãos haitianos no país, com exceção de atletas e participantes de grandes eventos esportivos. Este decreto pode impedir parte significativa da torcida haitiana de acompanhar a equipe de perto durante o Mundial. O reencontro entre Brasil e Haiti em 2026 revela como os problemas que marcaram o país em 2004 ainda continuam presentes neste novo contexto.

Confira a entrevista completa do professor e historiador Guilherme Gouveia