5 símbolos da cultura capixaba que têm ligação com o mangue

Presente na história de Vitória desde a formação da cidade, o mangue ajudou a moldar tradições, ofícios e sabores que seguem marcando a identidade capixaba 

A panela de barro, a torta capixaba, o caranguejo e algumas das tradições populares mais conhecidas de Vitória têm algo em comum: a relação histórica com o mangue. De acordo com a Prefeitura Municipal de Vitória, a capital abriga cerca de 11 quilômetros quadrados de manguezais, uma das maiores áreas desse tipo em ambiente urbano no Brasil. Ao longo da formação da cidade, bairros como Goiabeiras, Ilha das Caieiras e São Pedro desenvolveram atividades ligadas à pesca, à coleta de mariscos e à produção artesanal, dando origem a ofícios e tradições que se tornaram marcas da identidade capixaba. 

Confira cinco símbolos culturais que ajudam a contar essa história:

Ilha das Caieiras e a culinária tradicional

Um dos destinos gastronômicos mais conhecidos de Vitória, a Ilha das Caieiras construiu sua identidade a partir da pesca artesanal e da coleta de mariscos.

A tradição passada entre gerações ajudou a consolidar pratos que hoje fazem parte da culinária capixaba. Famílias que viviam da pesca transformaram ingredientes encontrados na Baía de Vitória em receitas que se tornaram conhecidas em todo o Estado. A tradicional torta capixaba, por exemplo, depende historicamente de ingredientes obtidos nesse ambiente, como siri e mariscos.

As paneleiras de Goiabeiras

Paneleiras de Goiabeiras

A panela de barro é um dos maiores símbolos da identidade capixaba e seu modo de produção carrega uma ligação direta com o mangue.

Após serem moldadas e queimadas, as peças recebem uma tintura feita a partir da casca do mangue-vermelho. O processo é utilizado há gerações e faz parte da técnica tradicional mantida pelas paneleiras de Goiabeiras.

Reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural e  Imaterial do Brasil, o ofício é considerado um dos principais símbolos da cultura capixaba, cuja tradição sustenta mais de 120 famílias do Espírito Santo e mantém viva uma técnica transmitida entre gerações há mais de quatro séculos.

O caranguejo-uçá

Poucos alimentos representam tanto a relação entre cultura e natureza quanto o caranguejo-uçá. Espécie típica dos manguezais brasileiros, ele se tornou um dos principais símbolos gastronômicos do Espírito Santo.

Durante décadas, a captura do caranguejo garantiu renda para famílias inteiras que viviam próximas ao mangue. O conhecimento sobre os períodos de reprodução, técnicas de captura e manejo sustentável nasceu das comunidades tradicionais e segue sendo parte da cultura e da economia local.

Para o catador de caranguejo Marcos, que há mais de seis décadas mantém uma relação direta com o manguezal, esse ecossistema representa muito mais do que uma fonte de alimento. “Aprendi a dar valor à pesca. Não é só o peixe no mar, porque o mar também sustenta o manguezal. É tudo um ciclo”, afirma.

As desfiadeiras de siri

O trabalho das desfiadeiras de siri é outro patrimônio cultural ligado ao manguezal. A atividade consiste em retirar manualmente a carne do siri após o cozimento, um processo artesanal que exige técnica, paciência e conhecimento transmitido entre famílias.

Historicamente, muitas mulheres encontraram nessa atividade uma importante fonte de renda. O ofício ajudou a consolidar pratos tradicionais da culinária capixaba e tornou-se parte da memória afetiva de diversas comunidades da Grande Vitória.

A permanência dessa tradição depende diretamente da conservação dos ambientes que garantem a reprodução e a captura sustentável do siri, pescados na área manguezal.

Escola de Samba Chegou o Que Faltava

Chegou o que Faltava

Fundada em Goiabeiras, região de Vitória cercada por áreas de manguezal, a escola de samba Chegou o Que Faltava carrega em sua trajetória referências ligadas à cultura popular construída no entorno desse ecossistema.

Ao longo de sua história, a agremiação já levou para a avenida enredos que dialogam com a identidade capixaba, os trabalhadores do mangue e os territórios tradicionais da capital. Em 2025, a escola desfilou no Sambão do Povo com o enredo “Da lama sai muito barulho”, retratando o manguezal como espaço de memória coletiva da região e dos ofícios sustentados pela área, reunindo histórias, personagens e saberes que nasceram da convivência entre cidade e natureza.