Manguezais de Vitória diminuíram, mas esse é o principal problema do ecossistema?

Pesquisadores apontam ineficiência de gestão pública no acompanhamento do manguezal urbano

Em 2023, uma pesquisa realizada pelo Iema (Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos) apontou que 26% do território ocupado pelo ecossistema de manguezal na Grande Vitória foi reduzido ao longo dos anos. No relatório técnico divulgado, os motivos se dão pela supressão da vegetação e pelo aumento exponencial urbano. No entanto, pesquisadores discordam desse número, e pontuam outras questões mais alarmantes para um dos ecossistemas mais ricos do planeta.

No Laboratório de Ecologia Bêntica, que pesquisa sobre fundos de ambientes aquáticos, localizado no Departamento de Oceanografia da UFES, conversamos com pesquisadores especialistas em biomas de mangue com enfoque no Espírito Santo. Na conversa, Vitor Amaral, mestre em oceanografia, Layla Tunala e Anderson Batista, todos doutores em ecologia e todos contribuintes do laboratório, nos esclareceram esse dado e os motivos para a discordância.

Inicialmente, foi estabelecido o porquê do mangue ser considerado vital para o meio em que vivemos, principalmente no território capixaba. Os benefícios entregues por esse ecossistema para o ambiente em geral são relacionados à sua biodiversidade, com uma vegetação densa e muitas raízes, realizando a proteção costeira contra a erosão, e um solo rico em matéria orgânica que contribui para um alto potencial de armazenamento de carbono no espaço do mangue, em troncos, folhas, raízes e até na própria lama. 

Além dos fatores biológicos, a floresta de manguezal no Espírito Santo ajudou a construir a cultura local em que vivemos hoje. Por ser uma “zona de berçário” para diversos organismos, como crustáceos, peixes e moluscos, a comunidade pesqueira se tornou muito forte nas regiões rodeadas por mangues no estado. Portanto, catadores, marisqueiras e até mesmo as paneleiras de Goiabeiras são profissões provenientes do que o manguezal pode proporcionar e personagens característicos da formação social e cultural capixaba.

Posta essa importância, adentramos no dado principal fornecido pelo IEMA de forma mais profunda. Para os pesquisadores, a porcentagem pode ser imprecisa: “É verdade que ocorreram perdas de espaço do mangue em anos anteriores em Vitória, com os aterros como o da região da Grande São Pedro. Mas isso foi na década de 70, são impactos mais antigos. Hoje em dia, a perda desse território não é mais expoente e usar esse dado de forma crua pode ser perigoso”, explica Vitor. Ele ainda esclareceu que, atualmente, o apicum está mais ameaçado pela expansão urbana, sendo um tipo de vegetação costeira típica do solo de planície e que se encontra nos arredores dos manguezais, conhecida também como “área de transição” para o mangue.

Before
After

A equipe, no entanto, apontou para outras questões que podem ser mais urgentes à preocupação do que a perda de espaço do mangue pelo avanço urbano, acreditando que a degradação da biodiversidade e o aumento da poluição nesse ecossistema, por exemplo, podem ser aspectos mais nocivos ao bioma. Segundo Layla, “É inadmissível que não existam políticas de acompanhamento e gestão desse ecossistema em um estado como esse, rodeado por mangue. Deve-se ter controle do solo, que é a força do bioma, e da qualidade da água, se há presença de metais pesados ou de efluentes químicos provenientes do esgoto urbano e se esses compostos têm influenciado na qualidade do pescado”.

“Tudo isso, se vistoriado, pode ser a chave para um tratamento adequado ao ecossistema de manguezal, muito mais do que alguma política de restauração do espaço perdido.”

Por fim, eles nos apresentaram um artigo recente da Science que destaca a capacidade da floresta de manguezal em se multiplicar: “Aqui, em Vitória, encontramos um dos mangues mais puros e potentes do mundo, mais do que a Austrália, Indonésia. A vegetação tem força para se multiplicar por conta própria, assim como apontam estudos recentes”, diz Anderson, ao reforçar que políticas públicas com viés de reflorestamento podem não ser as mais eficazes para a resolução dos problemas atuais do ecossistema de manguezal em Vitória.

Com essa fala final, entende-se que o espaço do mangue pode até possuir problemas, mas está longe de sumir. As leis de preservação já existem, a noção da importância do bioma para a cultura do estado ou para o equilíbrio ambiental do planeta como um todo também, falta apenas o interesse governamental no investimento e atuação nos campos que realmente trarão impacto positivo para os manguezais de Vitória.