Trabalho e maternidade: a culpa que acompanha mulheres

A maternidade sempre foi vista como o ponto mais alto do amor, no qual uma mulher devia dedicar a sua vida completamente ao pequeno ser humano que colocou no mundo. Só que a dedicação completa é impossível quando as mães precisam, além de cuidar da família, sustentar o lar.

Para muitas mulheres, sobretudo aquelas que criam os filhos praticamente sozinhas, as expectativas em relação à maternidade desencadeiam um sentimento persistente de culpa. A promotora de vendas de supermercado Grazielle Silva teve sua primeira filha aos 23 anos e precisou conciliar trabalho e maternidade. Ela perdeu muitos momentos importantes da infância da filha, justamente porque tinha que levar sustento para casa, mas, quando teve sua segunda criança, quis aproveitar ao máximo os momentos com ela. “Eu perdi a infância da minha filha mais velha todinha. Com a mais nova foi diferente, eu consegui aproveitar mais”, afirmou Grazielle.

Ao refletir sobre o impacto da rotina profissional em sua maternidade, Grazielle resumiu a dor da ausência em poucas palavras: “O que o trabalho mais me tirou foi presença”. Ela também relatou que, quando teve sua segunda filha, precisou impedir a si mesma de assumir todos os cuidados para que a responsabilidade não ficasse apenas com ela.

“O pai da Yasmin (filha mais velha) foi muito ausente. Eu não tive o apoio dele. Já na minha segunda maternidade, o pai dela estava mais presente, então eu deixava muitas responsabilidades para ele. Eu pensava: eu tenho que me segurar para esse homem ser pai, porque eu estou pegando toda a responsabilidade para mim.”

Segundo a psicóloga da Apta Desenvolvimento Humano Fabiana Loreto, esse sentimento de culpa é exclusivo das mulheres. Esse fator acontece porque, socialmente, os homens não são culpados pela sociedade de não passarem tanto tempo com os filhos. “Ninguém pergunta a um pai quantas horas ele passou com os filhos hoje. As pessoas perguntam se ele “ajudou”. Como se cuidar dos próprios filhos fosse um favor. A culpa feminina na maternidade é menos sobre os filhos e mais sobre o esmagador pacto social que nos convenceu de que ser mãe é uma tarefa individual, silenciosa e sacrificial”, afirmou.

Mulheres são a base dos lares brasileiros

A realidade de Grazielle também é a realidade de muitas mulheres, que são a base dos lares brasileiros. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 52% das mulheres chefiam suas casas. As mães solos representam 30% do total da pesquisa.

Além disso, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), em 2022, o número de domicílios com mães solos era de 11,3 milhões, das quais 72,4% delas viviam em domicílios monoparentais (compostos apenas por mães e seus filhos). Isso mostra que, apesar da culpa por não participar de todos os momentos da vida dos filhos, muitas mulheres não podem parar de trabalhar, porque são elas que garantem comida, roupa, lazer, saúde e educação dentro de casa.

Foto: Imagem gerada no DALL·E 3 (Inteligência Artificial) com dados do IBGE e da FGV Ibre

A professora de ensino fundamental Selma Sancio, por exemplo, teve suas primeiras filhas aos 21 anos e relata que foi muito difícil perder momentos importantes da maternidade, enquanto precisava trabalhar. “Eu precisava trabalhar e não conseguia ficar o tempo inteiro com elas, por isso, elas ficavam com os avós. Mais velha, tive minha filha caçula, e ela ficava com babá e também com o pai, então também perdi várias etapas da vida dela”, lembrou.

Quando questionada sobre o que o trabalho lhe tirou, Selma afirma que a maior perda foi o tempo compartilhado com as filhas. “Sinto que foi principalmente o tempo de qualidade com minhas filhas, momentos simples do dia a dia que fazem muita diferença. Apesar disso, sei que o trabalho também foi necessário para garantir o sustento e o bem-estar da família.” Selma afirma que atualmente tenta compensar a ausência da infância aproveitando todos os momentos ao lado das filhas.

Por que as mulheres se culpam tanto?

Fabiana Loreto explica que a culpa materna tem relação direta com o ideal de maternidade perfeita, que cria uma ideia de que ser mãe é se doar completamente aos filhos. Segundo ela, a culpa vem do mito de que o amor materno exige anulação, e, apesar dessa visão não ser completamente verdadeira, ela cria raízes no imaginário das mulheres.

Ela também destaca que esse peso vem justamente de tentar atingir expectativas sociais e da ideia de que a maternidade deve ser de uma determinada forma, sem compreender que ser mãe não é uma receita pronta. “O olhar de julgamento sobre a mãe que trabalha, que estuda, que quer um tempo para si, que não amamentou, que contratou babá, que pede ajuda, que não dá conta esse olhar é real e pesa. E é a partir disso que surge nossa culpa… Talvez inclusive por nós mesmas acreditarmos que, de verdade, exista um padrão de exercício da maternidade que deve ser obedecido”.