Como a discriminação responsável por tantas tragédias no mundo dos adultos encontra nas redes sociais o ambiente ideal para predar jovens sem sair de casa
Melissa Passos
Uma das manifestações do sentimento misógino na sociedade é o “movimento redpill”, cujo significado muitos desconhecem. Baseado no filme Matrix, onde o protagonista toma uma pílula vermelha para despertar e conseguir enxergar o estado verdadeiro do mundo em que está, o movimento redpill adota essa alegoria para afirmar o seu propósito de enxergar a sociedade como eles acreditam que realmente seja, onde mulheres são vagabundas, fúteis e possuem um valor que pode ser atribuído baseado no quão “rodada” é, se tem tatuagens, é religiosa, ou se enxerga como um ser humano com as mesmas capacidades e merecedor do mesmo patamar social de um homem.
O movimento redpill
Não é difícil achar absurdo, mas isso pode levar à tentação de enxergar isso como um problema mais alheio do que realmente é, desde que não leve isso à terceiros. O pedagogo Antônio de Castro adverte sobre como isso pode estar mais próximo do que se imagina.
“Quando se pensa em misoginia, a nossa cabeça pode acabar indo direto para o comportamento antissocial que alguns escolhem internalizar, mas, com as plataformas digitais, você tem todo um sistema que está ali para aliciar pessoas vulneráveis com essas ideias, dentre elas, claro, crianças. Claro que muitas vezes esses comportamentos vêm de casa por influência de pais ou irmãos, mas não dá pra ignorar o quanto isso se alastra muitas vezes sem o conhecimento dos responsáveis.”, diz Antonio.
Como o próprio nome indica, o “movimento” vai muito além dos preconceitos que compõem o sistema de crenças de qualquer um destes indivíduos. Através dos algoritmos de redes sociais que promovem conteúdos inflamatórios buscando o maior número possível de tráfego através da indignação alheia, contando com a conivência da falta de moderação e até com incentivos explícitos de plataformização, como no caso do X, antigo twitter, cujo atual dono é um supremacista branco cujos valores se alinham com os principais propagadores dessa ideologia, como o influenciador digital condenado por tráfico humano, Andrew Tate, essas crenças bombardeam as timelines dos usuários, vindas de pessoas que expõem a própria cara e o nome completo, convictos da impunidade. A minissérie “Adolescência”, lançada em 2025 pela Netflix, ilustra como a influência deste movimento acontece na prática, demonstrando como indivíduos podem ser alvos da influência ideológica e da propaganda dentro de plataformas digitais e o quão catastróficas elas podem ser.
Linguagem própria
Esta comunidade possui uma série de códigos internos usados pelos participantes para se comunicar e disseminar ideias de forma implícita nas redes sociais. Os termos foram tirados do seu significado original e passaram a ter outros sentidos para definir status social, explicar conceitos ideológicos e caracterizar pessoas ou grupos sociais. Em fóruns redpill, é possível se deparar facilmente com palavras como “alfa”, “beta”, “incels”, “chads”, “sigma” e até nomes de como “Stacy”, “Chad”, “Becky” foram apropriados pelo movimento. Confira o glossário abaixo e saiba identificar esse discurso nas redes sociais

Impacto nas salas de aula
A professora de ensino fundamental da rede pública, Thaís Nogueira, relata como essas influências chegam às salas de aula. Segundo ela, além de piadas de baixo calão e de cunho discriminatório, já ouviu relatos de colegas de profissão dizendo terem sido perguntadas coisas como o motivo de terem alguma tatuagem, pois aquilo seria “coisa de piranha”. Diz ela que quando algo assim chega ao ouvido dos pais, dizem não saber onde aprenderam, ou que viram em algum vídeo, e assim ninguém continua a ser responsabilizado por transformar a própria ignorância no problema de quem é pago para educar.
Quando a internet vira tutora e essas consequências chegam a ser relatadas, tanto in loco, quanto em produções cinematográficas que ganham projeção internacional, soa o alerta de que a necessidade de mecanismos legislativos para que empresas de tecnologia responsáveis pelas plataformas onde a maioria esmagadora da circulação comunicação de informação acontece na contemporaneidade zelem pelo bem estar da sociedade onde estão inseridas é mais que gritante. Compreender que exigir que esses agentes não tenham passe livre para lavar as mãos enquanto propagam a erosão da dignidade dos usuários é um exercício de cidadania fundamental num mundo onde eles exercem o monopólio dessas comunicações.

