Cansadas da rotina e do estresse, profissionais capixabas usam o exercício para tratar dores e ter mais qualidade de vida
Maylana Santana e Gabriela Maia
A sobrecarga de trabalho e a dupla jornada pessoal contribuem diretamente para exaustão crônica entre o público feminino. No Espírito Santo, o reflexo prático dessa estatística é observado na mudança de perfil e de motivação de quem pratica esportes coletivos. Diferente de outras épocas, a busca de exercícios não é mais focada em atingir padrões de beleza, mas sim em uma forma de manter a saúde e o bem-estar mental e físico entre mulheres maduras.
O esgotamento profissional entre mulheres é resultado de um mercado que exige produtividade e performance sem levar em consideração a realidade delas. De acordo com o levantamento Move Her Mind, que entrevistou 24.959 pessoas, há uma correlação positiva entre os níveis de exercícios no público feminino e seu bem-estar mental, apontando que as mulheres se sentem 52% mais felizes, 50% mais energizadas, 48% mais confiantes, 67% menos estressadas e 80% menos frustradas quando se exercitam regularmente.
O impacto dessa rotina caracterizada pelo excesso de trabalho foi o que impulsionou a transição de carreira da turismóloga Renata Oliveira. Com 20 anos de atuação no mercado de viagens, ela vivenciou um colapso em sua estrutura profissional durante a pandemia de Covid-19, em 2020. A resposta para a crise não veio do meio corporativo, mas de um antigo hobby. “Na pandemia, quando o turismo parou e tudo fechou, eu me vi perdida. Foi ali que o esporte deixou de ser lazer para ser minha válvula de escape e, logo depois, o meu jeito de ganhar a vida”, explica a empreendedora.
A transição do turismo para o tatame deu origem à Ladies Combat, um estúdio de kickboxing e defesa pessoal localizado no Jardim da Penha. Atualmente, o espaço atende 110 alunas, com uma faixa etária ampla, dos 12 aos 74 anos. O formato de turmas exclusivas para mulheres responde a uma demanda direta pela redução da vulnerabilidade e do julgamento estético presentes em academias tradicionais.
A academia se reinventou ao criar um espaço dedicado exclusivamente às mulheres. O local conta com alunas de diferentes faixas etárias, mas recebe principalmente mulheres com mais de 40 anos. Para esse público, o esporte funciona como prevenção ao esgotamento mental para profissionais que já estão há décadas inseridos no mercado de trabalho.
De acordo com o estudo “Composição Corporal em Mulheres Praticantes de Exercícios Físicos”, desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz e que reuniu dados sobre mulheres que praticam atividades físicas, os movimentos de impacto, como os golpes desferidos no kickboxing, ativam a produção de osteócitos, células vitais na preservação da densidade óssea e fundamentais no combate à osteoporose. Segundo a empreendedora, o foco na prática esportiva transcende a estética, consolidando-se como pilar de saúde, cuidado preventivo e independência feminina.
Esportes ao ar livre
Para a enfermeira e advogada aposentada, Leila Pereira, de 59 anos, foi no mar onde ela encontrou a solução para combater os prejuízos físicos deixados por anos de jornada dupla. Foi trocando as cadeiras de escritório pelos bancos da canoa havaiana e a natação em águas abertas, que a capixaba eliminou um quadro crônico de inflamação. “Eu vinha de uma dor crônica por conta do trabalho, muito tempo sentada e muita tensão acumulada”, atesta a ex-advogada.
Para conciliar a prática com as demandas do dia a dia, a estratégia de Leila exige disciplina. Ela inicia suas atividades às 3h45 da manhã. O contato direto com a baía de Vitória funciona como um regulador de humor e de ansiedade. “Você já começa o dia de bem com a vida. Não tem como chegar às 8h da manhã de mau humor vendo golfinhos e tartarugas”, relata. A constância gerou resultados que ultrapassam a saúde básica. Hoje, aos 59 anos, Leila cumpre uma planilha de treinos de alta performance e se prepara para disputar um campeonato mundial de canoagem em Singapura, competindo na categoria 40+.

