O IMPACTO DA MOBILIDADE URBANA NA VIDA ACADÊMICA

Com tarifas altas, horas em ônibus lotados, insegurança e atrasos constantes, a dificuldade de transporte público ameaça a permanência de jovens nas universidades

Para muitos estudantes universitários, o dia começa bem antes da primeira aula. Sair de casa ainda de madrugada, enfrentar ônibus lotados e passar horas no trânsito faz parte da rotina de quem precisa percorrer longas distâncias para chegar à universidade. Na Grande Vitória, onde muitos estudantes se deslocam diariamente entre municípios, o trajeto até a sala de aula pode comprometer não apenas o tempo de estudo, mas também o descanso, a alimentação e a conciliação com o trabalho. Em meio a essa rotina, surge uma questão: quando o deslocamento começa a prejudicar a vida acadêmica, quais condições esses estudantes têm para continuar na universidade?

Essa realidade evidencia problemas que vão além do transporte público e estão relacionados ao planejamento urbano, à infraestrutura viária e à distribuição das instituições de ensino e das moradias. As condições das vias, os congestionamentos, a integração entre os municípios e a eficiência dos transportes influenciam diretamente o tempo de deslocamento e a qualidade de vida dos estudantes. Diante disso, torna-se necessário pensar em soluções que facilitem o acesso à universidade, como a melhoria das vias de trânsito, a ampliação e a integração das linhas de transporte público e a possibilidade de implantação de ônibus expressos ou de linhas específicas para atender às necessidades dos estudantes. Essas alternativas poderiam contribuir para reduzir o tempo de viagem, os custos de deslocamento e as dificuldades enfrentadas por aqueles que dependem diariamente do transporte coletivo.

Além da mobilidade urbana, a moradia estudantil constitui um aspecto essencial dessa discussão. Estudantes que residem longe das instituições de ensino podem enfrentar dificuldades para conciliar as longas viagens com as atividades acadêmicas, profissionais e pessoais. Essa situação também merece atenção no caso daqueles que moram na capital, mas precisam percorrer trajetos demorados ou arcar com custos elevados para chegar à universidade. Nesse sentido, é importante avaliar a ampliação da oferta de moradias estudantis e a criação ou expansão de programas de auxílio-moradia, destinados àqueles que apresentam maiores dificuldades financeiras e de deslocamento. Para isso, seria necessário estabelecer critérios de seleção transparentes, considerando aspectos como renda familiar, distância entre a residência e a instituição, tempo de deslocamento e vulnerabilidade socioeconômica, garantindo que os benefícios atendam prioritariamente aos estudantes que mais necessitam desse suporte.

O doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Deivison Souza Cruz, ressalta a importância da implementação de moradias estudantis nas universidades. Segundo ele, “a universidade abre portas para estudantes de todas as regiões do estado e do país, e muitas vezes o deslocamento desses estudantes poderia ser minimizado com a disponibilização de moradias estudantis, que, além de beneficiá-los, reduziria os impactos dos longos trajetos realizados por meio do transporte público”.

O especialista também relatou que, durante sua trajetória acadêmica, precisou desistir da graduação em razão das dificuldades enfrentadas para conciliar a distância entre sua residência e a universidade com a jornada de trabalho. “Morei no bairro Feu Rosa, na Serra, e a distância significativa, somada à jornada de trabalho, contribuiu para a minha desistência da graduação”, afirmou.

A permanência estudantil depende, portanto, de políticas que considerem as condições concretas de vida dos alunos. A oferta de vagas na universidade, por si só, não elimina as barreiras enfrentadas por quem precisa atravessar municípios para frequentar as aulas. Quando o estudante passa várias horas por dia no deslocamento, sobra menos tempo para estudar, participar de projetos de pesquisa e extensão, frequentar bibliotecas, fazer refeições com tranquilidade ou construir vínculos com colegas e professores. A rotina também se torna mais difícil para quem precisa conciliar as aulas com um emprego.

A moradia estudantil pode reduzir parte dessas dificuldades, mas precisa ser acompanhada de critérios de acesso claros e de oferta compatível com a demanda. A distância entre a residência e o campus é um fator importante, assim como a renda familiar, os custos de transporte e a situação de vulnerabilidade. Para estudantes que não conseguem uma vaga em residência universitária, o auxílio-moradia pode representar uma alternativa, desde que o valor seja suficiente para contribuir com os gastos reais de aluguel e que os processos de seleção sejam transparentes.

A alta dos aluguéis na capital amplia a complexidade desse cenário. Mesmo quando o estudante consegue uma oportunidade acadêmica na Ufes, morar próximo ao campus pode estar fora de seu orçamento. A escolha por bairros ou municípios mais distantes reduz o custo da moradia em alguns casos, mas pode elevar as despesas com passagens e o tempo gasto no percurso. A decisão entre morar perto, pagar mais caro ou viajar diariamente revela como habitação e transporte não podem ser tratados como problemas separados.

A universidade, os gestores municipais e o governo estadual têm responsabilidades diferentes, mas complementares. Às instituições de ensino cabe conhecer melhor os deslocamentos dos estudantes e avaliar como eles afetam a permanência; aos gestores do transporte, planejar linhas, frequência, integração e capacidade de atendimento a partir da demanda real; e aos responsáveis pela política urbana, aproximar moradia, trabalho, educação e serviços. Sem diálogo entre essas áreas, soluções isoladas correm o risco de transferir o problema de um ponto da cidade para outro.

Dados da Pró-Reitoria de Políticas de Assistência Estudantil (Proaeci/Ufes) e de editais de auxílio indicam a dimensão da demanda por apoio habitacional e deslocamento por parte dos alunos. Aproximadamente 68% a 70% dos estudantes assistidos pelo Proaes-Ufes precisam de auxílio-transporte para o deslocamento diário até a universidade. O InfoUfes aponta que a Ufes atende mais de 5,7 mil estudantes por meio de diferentes ações de assistência estudantil, incluindo alimentação, moradia, transporte e material. O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) abre portas para que estudantes de outras cidades e até mesmo estados ingressem na universidade. Segundo o Índice FipeZAP de Locação Residencial, os preços anunciados de aluguel em Vitória acumularam alta de 15,46% ao longo de 2025. O encarecimento da moradia pode levar estudantes a buscar imóveis mais distantes dos campi, ampliando o tempo e o custo dos deslocamentos.

Os estudantes também sentem o peso das tarifas do transporte público. Segundo os valores informados pela Ceturb-ES, a passagem comum em 2026 custa R$ 5,10 de segunda-feira a sábado, enquanto a tarifa promocional de domingos e feriados é de R$ 4,50. O serviço Bike GV custa R$ 2,55.

A superlotação nos principais horários de circulação é uma das maiores queixas por parte dos usuários. A estudante de Direito Ana Karolina relata que, por mais cedo que acorde e pegue o ônibus, isso não garante que conseguirá embarcar em um transporte mais vazio, enfrentando ônibus cheios todos os dias: “Acordo às 05h todos os dias e pego o ônibus no meu bairro às 05h40. Por mais cedo que eu saia, raramente consigo ir sentada. Os ônibus sempre estão muito cheios; não acredito que seja feita uma distribuição correta da frota para as linhas de maior fluxo de passageiros”.

Ao ser questionada sobre como essa questão afeta o seu dia a dia, ela afirma: “Chego na universidade cansada. A mistura de superlotação e muito tempo no trânsito gera um desgaste muito grande. Muitas vezes saio de casa sem tomar café da manhã e não consigo chegar a tempo para o café ofertado pela universidade, porque já chego em cima do horário de início da aula. Sinto que isso afeta o meu rendimento acadêmico”.

O relato mostra que estudantes que precisam sair de casa muito cedo para chegar às aulas podem encontrar dificuldades para realizar suas refeições adequadamente. Por esse motivo, a ampliação do horário de funcionamento do café da manhã nas instituições de ensino também pode representar uma medida importante de assistência estudantil, contribuindo para o bem-estar e o melhor aproveitamento acadêmico. Assim, as políticas de permanência não devem se limitar ao transporte e à moradia, mas contemplar as diferentes necessidades que influenciam a experiência universitária.

Atualmente, a Grande Vitória passa por diversas obras que têm como objetivo reduzir o congestionamento que afeta a rotina de estudantes e trabalhadores. A fim de gerar mais fluidez ao fluxo viário rumo à capital, a intervenção iniciada no segundo semestre de 2026 está implantando a quinta faixa na Segunda Ponte, que liga Cariacica e Vila Velha a Vitória. Dados da Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi) apontam que a ponte recebe diariamente cerca de 39 mil veículos no sentido Cariacica/Vila Velha–Vitória, contra 31 mil no sentido inverso. Com o término previsto para dezembro de 2026, o objetivo é que, em 2027, os capixabas enfrentem menos transtornos em seus trajetos. Na capital, obras como a do Mergulhão de Camburi buscam reduzir o tempo de retenção no cruzamento de 88 segundos para apenas 10 segundos.

O cientista político Deivison Souza Cruz, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e mestre e doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), propõe um questionamento central sobre o planejamento das melhorias urbanas na Região Metropolitana. Ele afirma que é indispensável realizar estudos sobre as mudanças na rotina da população capixaba: “Precisamos entender que os problemas de mobilidade urbana não são uma questão atual; é um problema que vem de anos. É preciso levantar dados que mostrem essas mudanças, para que as obras sejam feitas com eficácia futura e não como algo que resolva por um curto período”.

A análise histórica também é necessária para compreender o crescimento da frota de veículos na Grande Vitória, impulsionado pela expansão urbana e pelo maior acesso ao crédito. Dados reunidos por instituições como o ObservaVIX e o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), com base em levantamentos do IBGE e do Detran-ES, permitem acompanhar essa evolução ao longo das últimas décadas.

Para Isabella Mamedi, formada em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Brasília (UnB) e com experiência de três anos em consultoria de políticas públicas no governo federal, a mobilidade deve ser compreendida dentro de uma discussão mais ampla: o direito à cidade.O conceito, explica Mamedi, considera a cidade não apenas como mercadoria ou como conjunto de prédios, mas como o espaço onde as pessoas vivem, circulam e acessam direitos. Moradia e transporte são pilares dessa discussão, que também abrange cultura, esporte, saúde e outras dimensões da vida cotidiana. Quando a localização da moradia determina quem consegue chegar ao trabalho, à escola, ao lazer ou aos serviços públicos, a organização urbana pode naturalizar desigualdades.

A relação de Isa com o tema começou antes da trajetória acadêmica. Criada em Feu Rosa, na Serra, ela precisou se deslocar ainda adolescente para estudar em uma escola pública de referência localizada em Jardim Camburi, na capital. Aos 12 ou 13 anos, passou a observar o contraste entre a qualidade do serviço oferecido e as dificuldades para chegar até ele. Os ônibus que saíam da Serra transportavam muitos estudantes, mas nem sempre paravam perto da escola. A experiência despertou questionamentos sobre a distribuição das linhas, a lotação, a localização dos equipamentos públicos e a desigualdade entre bairros.

“Eu comecei a entender ali que existia mesmo uma escolha de quem tinha acesso aos melhores serviços que o próprio Estado oferecia”, relata. Para ela, as oportunidades também acabam distribuídas conforme o endereço de cada pessoa. O CEP, nesse contexto, pode influenciar o acesso à educação, ao trabalho e a outros serviços, mesmo quando são oferecidos pelo poder público.

Na universidade, Isa participou do movimento estudantil e da luta pelas políticas de cotas. Foi presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Ufes e integrou o Conselho Gestor de Transporte da Grande Vitória, espaço no qual acompanhou debates sobre o sistema de transporte coletivo. Como usuária do serviço, também participou das mobilizações de 2016 contra o aumento das passagens. A vivência pessoal, a atuação estudantil e a pesquisa acadêmica se encontraram em seu trabalho de conclusão de curso, dedicado à implementação e aos impactos do Estatuto da Cidade nos municípios brasileiros.

Para Isa, o transporte é decisivo porque permite acessar outros direitos. Ela recorda que, quando era adolescente, deixou de participar de festivais gratuitos na praia, de atividades ligadas ao movimento hip-hop em Vitória e de sessões de cinema porque não tinha como pagar ou garantir o retorno para Feu Rosa. A ausência de uma opção acessível para voltar para casa limitava a possibilidade de aproveitar atividades que, em tese, estavam abertas ao público.

“Eu acho que, no Espírito Santo, o transporte é um marcador de desigualdade social muito forte”, afirma. Na avaliação da entrevistada, a desconexão entre a Grande Vitória e o interior também reduz as oportunidades de circulação pelo estado. O deslocamento pode ser caro para quem vive fora da região metropolitana e precisa chegar à capital para acessar serviços, cultura ou lazer. Por isso, ela defende que o transporte coletivo seja tratado como setor estratégico de desenvolvimento, e não como um serviço destinado apenas a quem não tem carro.

Entrevista Isabella Mamedi

Com o aumento do combustível e do preço das passagens, muitos estudantes optam pela bicicleta elétrica como meio de transporte. No entanto, a falta de ciclofaixas, calçadas regulares e sinalização adequada impõe desafios no trajeto até a universidade. A estudante de Psicologia Sara Ronip relata que comprou a bicicleta elétrica para facilitar a rotina: “Quando comprei a bike elétrica, comprei com o pensamento de estar investindo em algo que me traria mais facilidade na locomoção da minha casa para a universidade e da universidade para o trabalho”.

Ela afirma que logo no começo identificou dificuldades: “A falta de sinalização me prejudicava. Muitos pedestres nas ciclofaixas, o que aumenta significativamente o risco de acidentes”. Sara informa que as calçadas irregulares também geraram problemas: “Constantemente preciso fazer manutenção nos pneus da bike. Sou moradora de… e me desloco até Goiabeiras todos os dias. No trajeto, encontro muitas calçadas irregulares, esburacadas e, muitas vezes, o calçamento termina de forma irregular, o que já me trouxe muitas dores de cabeça”.

A falta de infraestrutura adequada não é a única preocupação dos usuários. Dados atribuídos ao Observatório de Segurança Pública do Espírito Santo (Sesp-ES) apontam que, entre janeiro e agosto de 2026, o Estado registrou 679 ocorrências de furtos e roubos de bicicletas elétricas. No mesmo período do ano anterior, foram 177 casos, um aumento de 283,6%. O crescimento das ocorrências levanta questionamentos sobre a segurança de quem utiliza esse meio de transporte para chegar à universidade e ao trabalho.

A estudante de Psicologia conta que seu esposo teve a bicicleta elétrica roubada quando estava a caminho do trabalho. “Dois adolescentes, armados com uma faca, o abordaram na saída da Cinco Pontes, que liga Vila Velha a Vitória”, relatou. O episódio também alterou a forma como ela própria se desloca. “Ele sente muito medo quando vou para a universidade com a bicicleta. Eu tento tomar todos os cuidados. Sei que, por ser mulher, pareço ser uma vítima mais vulnerável. Por isso, sempre vou acompanhada de outros amigos que fiz no trajeto. Sempre combinamos de ir todos juntos, o que, para mim, gera uma sensação maior de segurança”.

Sara afirma que a preocupação com o percurso começa antes mesmo de sair de casa. “Essa preocupação diária de como vou chegar à universidade é desgastante. O transporte público não oferece segurança, conforto nem a garantia de que conseguirei chegar no horário. Comprei a bicicleta elétrica para facilitar o dia a dia, mas também enfrento muitas dores de cabeça. Sinto que não existem alternativas seguras e econômicas que possam facilitar esse trajeto diário”.

A experiência mostra que a adoção de meios alternativos não resolve, por si só, os problemas de mobilidade. Sem ciclovias e ciclofaixas conectadas, calçadas acessíveis e segurança nos trajetos, a bicicleta elétrica pode representar uma opção mais rápida para alguns estudantes, mas também acrescentar riscos e custos de manutenção. A escolha do meio de transporte depende não apenas da vontade individual, mas das condições que a cidade oferece.

Entre as medidas que Isa Mamedi defende está a ampliação do transporte coletivo, que pode combinar diferentes modais, como ônibus, trens e transporte aquaviário. Para ela, a discussão sobre a tarifa zero precisa começar pela pergunta de como o sistema será financiado. A proposta busca reduzir a barreira econômica que impede parte da população de se deslocar, mas depende de planejamento, definição de responsabilidades e fontes estáveis de recursos.

Isa questiona a ideia de que a passagem paga diretamente pelo passageiro seja a única forma de custear o serviço. Segundo ela, o debate sobre subsídios públicos e remuneração das empresas precisa ser transparente para que a população compreenda como os recursos são aplicados. A entrevistada afirma que, em sua avaliação, os subsídios já cobrem a operação do sistema da Grande Vitória. Essa afirmação depende da análise dos contratos, dos custos e dos dados oficiais de financiamento, mas reforça a necessidade de tornar essas informações acessíveis ao público.

A implantação de uma política de tarifa zero em todo o Espírito Santo, porém, enfrenta diferenças na organização do transporte. Na Grande Vitória, o sistema Transcol envolve o governo estadual e os municípios atendidos. Em outras cidades, a gestão do transporte urbano é principalmente municipal, com decisões próprias sobre linhas, operação e contratação. Sem integração entre os sistemas, uma política estadual precisaria estabelecer mecanismos de cooperação para evitar que a gratuidade ou a ampliação do serviço ficasse restrita a determinadas regiões.

Como caminho, Isa propõe a criação de um Sistema Estadual de Mobilidade, estruturado em três instrumentos: um plano, um fundo e um conselho. O plano definiria diretrizes, princípios, responsabilidades e indicadores; o fundo organizaria o financiamento; e o conselho garantiria participação social nas decisões. A proposta busca aproximar as 78 cidades capixabas de uma política coordenada, com responsabilidades compartilhadas entre municípios e governo estadual.

A entrevistada também relaciona essa proposta ao debate nacional sobre a criação de um sistema de mobilidade com responsabilidades divididas entre os entes federativos, à semelhança de políticas públicas como saúde e educação. A integração, na avaliação dela, permitiria discutir tarifas, ampliar conexões entre regiões e planejar o transporte de forma contínua, em vez de limitar as decisões às fronteiras de cada município.

“Hoje a gente precisa definir que o Estado, o Executivo e o Legislativo vão também se responsabilizar pela dinâmica do transporte nas 78 cidades capixabas”, defende. A ideia de um sistema estadual, afirma, poderia viabilizar planejamento de longo prazo e conectar o norte e o sul do Espírito Santo, além de fortalecer a participação da sociedade na definição das prioridades.

A proposta coloca em evidência um desafio central: reduzir o custo e o tempo de deslocamento exige mais do que uma intervenção isolada em uma avenida ou uma linha de ônibus. É necessário integrar os serviços, distribuir recursos de acordo com as necessidades de cada região e acompanhar os resultados para saber se as mudanças ampliam de fato o acesso à cidade e à universidade.

Mobilidade, tempo e saúde mental

A estudante de Engenharia Civil Isabela Nunes, que cursa o primeiro período, relata que a rotina de deslocamento até a universidade já a fez questionar se terá forças para chegar ao fim da graduação. “Já pensei isso várias vezes. Principalmente porque, à medida que o tempo vai passando, as minhas matérias vão ficar mais complicadas”, afirma. O receio de que o cansaço acumulado se torne ainda mais difícil de conciliar com as exigências do curso evidencia como a mobilidade pode afetar a permanência estudantil.

Entrevista Isabela Nunes

Doutor e mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Dalton Demoner Figueiredo chama atenção para os efeitos que a rotina urbana pode ter sobre o bem-estar. Para ele, a sobrecarga de estímulos, a pressão por produtividade e o tempo gasto no trânsito dificultam a desaceleração necessária ao descanso e à concentração. A experiência de deslocamento não termina quando o estudante chega à universidade: o cansaço acumulado pode acompanhar as aulas, as leituras e as atividades avaliativas.

Demoner relaciona esse desgaste às exigências da vida contemporânea, em que estudo, trabalho e produtividade ocupam grande parte do cotidiano. Ele também observa que o uso constante das redes sociais pode consumir períodos de descanso sem necessariamente oferecer recuperação. “Às vezes, por algumas condições, o sujeito consome um tempo digital nas redes, rolando telas, sem sair do lugar”, afirma.

A reflexão do especialista aponta para a importância de reconhecer o tempo de deslocamento como parte da rotina que afeta a disposição dos estudantes. Embora práticas individuais de relaxamento possam ajudar no bem-estar, elas não substituem mudanças estruturais no transporte e no planejamento das cidades. A responsabilidade por uma mobilidade mais eficiente não pode recair apenas sobre o estudante, que já precisa organizar o próprio tempo para dar conta das aulas, do trabalho e das demais atividades.

A discussão sobre mobilidade, portanto, não se resume a chegar mais rápido ao campus. Envolve garantir condições para que o estudante consiga estudar, alimentar-se, descansar e participar da vida universitária sem que o trajeto se torne mais um obstáculo à permanência no ensino superior.

Reportagem: Carla Dias, Emilleny Ferreira, Emilly Rodrigues e Natalia de Souza.
Materiais Gráficos: Maria Vitoria Gomes de Melo dos Santos, Ana Clara Vieira Herzog, Nicole Contao Santiago, Sofia Pimentel Rodrigues e Lorenzo Camargo Bazoni