Entre a promessa de dinheiro fácil e o ciclo de perdas, mulheres enfrentam endividamento, sofrimento psicológico e entraves até buscarem tratamento para a dependência em apostas on-line.
Elas possuem suas interfaces coloridas, músicas agradáveis e mascotes destinados a agradar quem consome (como um pequeno tigre responsável até por dar nome ao jogo). As bets passaram a ocupar espaço nos celulares e na rotina de muitos brasileiros, tornando-se cada vez mais presentes no cotidiano digital. De acordo com uma pesquisa realizada pela Genial/Quaest e publicada em abril de 2026, quase 30% da população brasileira acima dos 16 anos faziam apostas on-line naquele período.
Essa é uma prática que começa, muitas vezes, por curiosidade e costuma ser interpretada pelos apostadores como um passatempo inofensivo, uma forma aparentemente simples de entretenimento que nem sempre dá sinais imediatos dos riscos envolvidos. As ameaças reais e os perigos que podem ficar escondidos por trás dessa atividade só costumam ser percebidos de maneira mais clara quando as consequências negativas começam a se acumular e alcançam proporções verdadeiramente devastadoras, como relata Ingrid Cristina.
A capixaba é uma apostadora de Cariacica, e que já teve a saúde mental e a rotina afetadas devido à ludopatia (termo técnico que se refere ao vício relacionado a jogos, principalmente os de azar). “É uma montanha-russa terrível e uma ilusão enorme. Quando a gente ganha um pouco, acha que vai continuar ganhando; mas quando perde, a gente fica cega pelo desejo de recuperar aquele dinheiro que foi perdido”, relata.
Ingrid começou a se aproximar do universo das bets por meio das apostas esportivas, sem imaginar que aquela experiência inicial, motivada apenas pela curiosidade, poderia ganhar outra dimensão com o passar do tempo. De início, ela arriscava o próprio dinheiro, em valores baixos, no placar de jogos de futebol, escanteios, etc. Os jogos de slots, conhecidos pela dinâmica de máquinas caça-níqueis, como acontece no famoso aplicativo Tigrinho, só despertaram o interesse de Ingrid algum tempo depois. Porém, foi nesse formato de jogo que ela acabou permanecendo durante um período prolongado.
A armadilha visual
“Eu via esses jogos como diversão simples ou um desafio bobo. A gente acha que tem o real controle sobre a situação, que é só um passatempo, e que se perder um pouquinho não faz mal”, conta Ingrid. Nesses jogos, o usuário coloca dinheiro em rodadas rápidas e sucessivas, nas quais símbolos aparecem na tela em diferentes combinações, com resultados que podem representar tanto a conquista de algum prêmio quanto a perda do valor apostado.
Para uma breve contextualização, a expansão das bets e casas de apostas esportivas no Brasil teve início em 2018, com a legalização das apostas de quota fixa. Desde então, fatores como desenvolvimento das plataformas digitais, popularização dos smartphones e praticidade oferecida pelos métodos de pagamento contribuíram para impulsionar o crescimento dessa atividade entre os brasileiros, facilitando o acesso aos aplicativos e tornando possível apostar em diferentes momentos do dia. Em 25 de setembro deste ano, foi assinada uma medida que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em todo o território nacional, abrangendo tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line.
Segundo dados da Fecomércio na pesquisa “Bets, Consumo e Saúde Mental no Espírito Santo”, só no ano de 2024, período de sua apuração sobre o tema, cerca de 24 milhões de brasileiros fizeram algum tipo de empréstimo para aplicativos de apostas, sendo 380 mil desses capixabas. E no último levantamento sobre as porcentagens relativas aos gêneros dos apostadores no Brasil, os homens representam 64%, enquanto o público feminino consta por 35,2%.
A expansão do mercado e perfis
E embora quando se analisam apenas os números, a impressão seja de que esse grupo, feminino, seja pouco afetado quando comparado ao geral, uma análise qualitativa seria mais apropriada do que quantitativa. O percurso da entrevistada se aproxima de um comportamento identificado pelo estudo Mulheres & Bets, do Estúdio Clarice: 49% das mulheres que apostam atualmente jogam em cassinos on-line. Esse formato apresenta uma lógica mais diretamente ligada à gamificação, com estímulos visuais e rodadas rápidas que mantêm a pessoa envolvida na dinâmica do jogo, diferentemente do que costuma ocorrer nas apostas esportivas.
Voltando aos dados coletados pela Fecomércio, se for analisado o recorte de gênero quando o assunto é o valor gasto em bets, se identifica que mulheres são as que mais disponibilizam dinheiro em uma única aposta no Espírito Santo. Isso porque, entre os usuários que apostam R$500 reais ou mais em um lance, as mulheres representam 50,6%. Elas também aparecem na frente em estatísticas monetárias como apostas de menos de R$50 reais e de R$50 a R$99,99.
Mas se considerarmos o número de mulheres que recorrem a ajuda especializada, esse número cai drasticamente. A pesquisa ainda revelou que, segundo dados de 2026, apenas 27% das pessoas que procurava grupos de apoio ou serviços que atendessem demandas de vício ludopaticos após percebem seus quadros eram do sexo feminino. Uma grande diferença em comparação aos quase 73% que se identificam com gênero masculino.
A diferença entre a presença das mulheres nas apostas e sua participação nos serviços de acolhimento também levanta questionamentos sobre os fatores que dificultam o reconhecimento da dependência e a procura por ajuda. Embora os dados apontem para uma participação feminina expressiva em determinadas modalidades de jogos e faixas de valores apostados, a vergonha, o medo de julgamentos e a dificuldade de conciliar o tratamento com as responsabilidades cotidianas podem contribuir para que parte dessas mulheres permaneça sem acompanhamento especializado.
No Espírito Santo, esse cenário reforça a importância de compreender a dependência em jogos de azar para além dos prejuízos financeiros. A identificação dos comportamentos que são avaliados como de risco para a compulsão e a divulgação dos serviços disponíveis são etapas importantes para que as mulheres reconheçam os sinais de perda de controle e encontrem caminhos para buscar atendimento. Nesse processo, considerar as particularidades da experiência feminina é fundamental para entender não apenas quem aposta, mas também quem consegue receber apoio quando o jogo deixa de ser entretenimento e passa a comprometer a própria vida.
O comportamento financeiro feminino
Esses dados reforçam a importância de ampliar o debate sobre a presença das mulheres nas discussões a respeito dos jogos de azar e sobre as consequências que essa prática pode trazer para elas. Afinal, aquilo que começa com valores baixos e parece fácil de controlar pode ganhar proporções muito maiores em um intervalo de tempo relativamente curto.
Na trajetória de Ingrid, as apostas que no início não passavam de dois reais, se transformaram-se, aos poucos, passando a envolver quantias cada vez mais altas. “Percebi que tinha perdido o controle quando comecei a usar o meu salário e a ver que o dinheiro sumia rápido” conta Ingrid, “O desespero de tentar resolver problemas financeiros acabou me puxando para um buraco, onde o jogo deixou de ser divertido e virou uma obrigação obsessiva”.
A psicóloga Francielle Ribetti, que atua na Rede Abraço, centro de acolhimento em Vitória voltado a pessoas com dependência de álcool, outras drogas e jogos de apostas, explica quais mecanismos podem estar por trás da passagem de uma atividade vista como diversão para um comportamento obsessivo: “O circuito cerebral de uma pessoa que tem um tipo de dependência não funciona da mesma forma que o de uma pessoa que não tem”, explica.
A espiral do endividamento e do controle

A dopamina (neurotransmissor popularmente conhecido como o “hormônio do prazer” e envolvido nos mecanismos de motivação e recompensa) não é liberada somente com o ganho. Na verdade, esse mecanismo biológico pode ser acionado antes mesmo de qualquer resultado aparecer na tela: basta existir a expectativa de conquistar alguma quantia financeira por meio dos jogos. “Só de pensar que se está em um horário bom para poder jogar ou que vai conseguir mil reais em cima de uma jogada de cem, já há muita liberação de dopamina no organismo de uma pessoa. Então, ela fica o tempo inteiro em busca daquilo”, afirma a psicóloga.
Quando os primeiros ganhos aparecem, a pessoa pode experimentar a sensação de que descobriu uma maneira de continuar lucrando e de que é possível ganhar ainda mais, porém “quando perde, você fica cega pelo desejo de recuperar o que foi perdido”, compartilhou Ingrid. Sentimentos como culpa e vergonha também podem passar a fazer parte da rotina de quem enfrenta problemas com as apostas. Além de aumentarem o sofrimento individual, essas emoções podem afastar a pessoa da possibilidade de procurar ajuda profissional ou de conversar com franqueza sobre a situação com os próprios familiares.
O ciclo de culpa e vício
A história de Ingrid não é um caso isolado. A dimensão das consequências que a expansão das bets pode provocar na vida das mulheres brasileiras aparece na pesquisa ‘Mulheres & Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias’, do Estúdio de inteligência Clarice. A amostragem coletada revela que 42% das mulheres entrevistadas afirmaram apostar ou já terem apostado, enquanto 12% nunca apostaram, mas sofreram os impactos de apostadores ao seu redor.
Essa vulnerabilidade indireta também aparece de forma mais aprofundada nas investigações realizadas pelo antropólogo David Nemer no Território do Bem. Este corresponde a região periférica de Vitória que engloba várias comunidades como as dos Bairros da Penha, Bonfim, São Benedito, Consolação, Gurigica, Itararé, Jaburu, Engenharia e Floresta.
Nemer chama a atenção para uma dupla penalização enfrentada por mulheres que convivem com quadros de dependência em jogos de azar: para além das que apostam nos jogos on-line, muitas sofrem com maridos ou companheiros que se apropriam do dinheiro delas para jogarem nos mesmos aplicativos. Quando eles vencem, o dinheiro ganho não costuma ser compartilhado com suas cônjuges, mas já quando perdem, a conta do endividamento cai exclusivamente para as mulheres.
Outro dado apresentado pelo Estúdio Clarice chama a atenção para a procura por tratamento e, principalmente, para a ausência desta entre uma parcela expressiva das mulheres afetadas pelas apostas. Apenas 13% das apostadoras e ex-apostadoras admitiram ter pedido ajuda, e 9% cogitaram pedir, mas desistiu, uma situação que se acentua principalmente ao observar as mulheres sem filhos. “A vergonha é uma das piores partes”, relata Ingrid. “A gente se culpa muito por ter chegado a esse ponto, por prometer parar e não conseguir cumprir, e por esconder isso de quem a gente ama para não decepcioná-los”.
A vulnerabilidade indireta e a penalização dupla
A psicóloga Francielle aponta a vergonha como um dos fatores que mais dificultam a procura por ajuda. A ela se somam o receio de ser julgada, a falta de informação sobre os caminhos de tratamento disponíveis e o medo de ter que abrir mão das bets, que podem ter passado a ocupar um espaço significativo na rotina da pessoa.
Além disso, ela menciona a banalização que ainda existe sobre o tópico que envolve o que as pessoas sabem sobre os jogos de aposta, uma vez que os debates sobre os malefícios causados por esses aplicativos e os vícios que eles geram só começaram a ser identificados como um problema e debatido recentemente. Sobre essa falta de tato persistente sobre a temática do vício, Ingrid afirma que talvez se não fosse por essa banalização, talvez pudesse ter recorrido às redes de apoio mais cedo, antes que sua situação piorasse.
Em sua visão, a moradora de Cariacica afirma “gostaria que as pessoas entendessem que o vício é uma doença silenciosa e devastadora, não que seria caso de falta de caráter. Quem está preso nisso perde o controle da própria vontade, e às vezes da própria vida.”
O estigma da doença silenciosa
Na experiência da psicóloga Francielle Ribetti, entretanto, quando as mulheres vão pedir algum tipo de ajuda, elas costumam estar passando por comprometimentos financeiros menores e “nem tão devastadores quanto os do público masculino”.
Mesmo que a maioria do público feminino busque ajuda ( muitas vezes sozinhas) um outro fator que a psicóloga aponta sobre a realidade das mulheres envolvidas pelo vício em jogos de azar é em relação aos seus cônjuges. Diferentes de tratamentos clínicos, como por exemplo em casos oncológicos, nos quais é comum a incidência de abandono masculino durante os exames e a rotina, com as bets é inverso o cenário.
Existe um companheirismo significativamente maior por parte de seus maridos/namorados quando a mulher busca ajuda profissional contra o hábito de apostar pela internet. Além disso, os psicólogos costumam direcionar o cônjuge a uma equipe de auxílio a família, para que não ocorra nenhuma fissura em seu núcleo afetivo durante o tratamento.
O suporte de uma nova rede

A Rede Abraço é uma iniciativa do Governo do Espírito Santo, vinculada á Subsecretaria de Políticas sobre Drogas (Sesd). Criada em 2013, com atuação voltada ao acolhimento e ao tratamento de pessoas com compulsão relacionado ao uso de álcool e outras drogas. Em 2026, o programa ampliou sua atuação com uma linha específica de atendimento para pessoas que enfrentam dependência relacionada a apostas on-line e jogos digitais. O serviço é gratuito, 100% presencial e não exige agendamento inicial.
O atendimento é realizado em três unidades distribuídas pelo Estado: o Centro de Acolhimento e Atenção Integral sobre Drogas (CAAD) Vitória, na Região Metropolitana na capital; o CAAD Cachoeiro de Itapemirim, na Região Sul; e o CAAD Linhares, na Região Norte. A iniciativa recebe pessoas que já apresentam dependência quanto aquelas que demonstram sinais iniciais de comportamento compulsivo. Sobre o tratamento relacionado à ludopatia, o método usado pela instituição é a psicoterapia com os seus pacientes que buscam ajuda profissional.
Segundo a psicóloga Francielle Ribetti, que atua na Rede Abraço em Vitória, o reconhecimento de que existe um problema nem sempre acontece por iniciativa da própria pessoa que aposta, especialmente quando ela já está acostumada a esconder as perdas e a tentar resolver as dívidas sozinha. “Geralmente, a família percebe”, afirma. De acordo com a profissional, quem está próximo costuma identificar mudanças de comportamento, e alerta para alguns sinais que podem indicar que o que um dia começou como uma “diversão”, hoje em dia se tornou algo que precisa de tratamento e acolhimento.
A atuação da Rede Abraço permite observar como a dependência em jogos de azar exige um acompanhamento que vai além da interrupção das apostas. O processo terapêutico envolve compreender os fatores que contribuíram para o desenvolvimento do comportamento compulsivo e trabalhar as situações que podem favorecer a retomada do hábito. Nesse percurso, o atendimento psicológico pode ajudar o paciente a reconhecer os gatilhos associados ao jogo e a desenvolver estratégias para lidar com a vontade de apostar sem recorrer novamente às plataformas.
Outro aspecto importante é o envolvimento da rede de apoio durante o tratamento. Familiares e pessoas próximas podem contribuir para a identificação de mudanças de comportamento e para a construção de um ambiente mais favorável à recuperação. Ao mesmo tempo, a orientação oferecida a esse grupo ajuda a compreender que a dependência não deve ser tratada apenas como uma questão de falta de controle individual. O acolhimento também passa por reconhecer os impactos que o problema provoca nas relações e por estabelecer formas de apoio que não reforcem a culpa ou o estigma enfrentado por quem busca ajuda.
Sinais que não devem ser ignorados
Entre os sinais que merecem atenção estão as oscilações de humor, o uso excessivo do celular, o aumento da irritabilidade e da ansiedade, o comprometimento das relações sociais, o afastamento da família e a queda no desempenho profissional. As dificuldades financeiras também podem surgir nesse processo, por vezes antes mesmo de a própria pessoa reconhecer a dimensão que o problema assumiu. “As pessoas tentam, a princípio, esconder um pouco, tentam dar um jeitinho ali na questão das dívidas, pegam emprestado com um, pegam emprestado com outro, vão tentando negociar isso até um determinado ponto”, explica a psicóloga.
Em uma sociedade na qual ainda existe uma distribuição desigual das responsabilidades cotidianas, com uma carga expressiva de tarefas atribuídas às mulheres, especialmente no campo doméstico, essas obrigações também podem se transformar em obstáculos no momento de buscar ajuda profissional. Cuidados com a própria casa e criação dos filhos são alguns desses fatores, sendo que esse último esteve presente na vida de Ingrid.
Ela conta que no início do processo que entendeu que sua situação com os jogos de azar evoluiu, ela não tinha disponibilidade para buscar ajuda no tratamento, pois sua rotina integral era totalmente dedicada aos cuidados de sua filha pequena. Mesmo com a dificuldade inicial, a moradora de Cariacica admite já estar se informando sobre grupos de atendimento e redes de apoio para melhorar seu quadro clínico.
Caminhos de acolhimento depois do alerta
Segundo a psicóloga de rede de Vitória, chega um momento em que essas tentativas de administrar as perdas financeiras (e às vezes perdas sociais e físicas) deixam de ser suficientes, e a situação passa a ser percebida por familiares e pessoas próximas, que desaprovam o comportamento de seus entes queridos e os aconselham a buscar ajuda. Esse processo, ressalta a profissional, pode acontecer tanto com homens quanto com mulheres, independentemente do perfil de quem enfrenta dificuldades para controlar o hábito de apostar.
Embora a Rede Abraço receba pessoas de diferentes idades e perfis socioeconômicos (atendendo pacientes de 16 anos a 65 anos na rede), a psicóloga observa uma presença maior de homens entre os pacientes e uma quantidade reduzida de mulheres que procuram atendimento por problemas com jogos. Entre as pacientes que acompanha, algumas relatam recorrer às apostas em meio à sobrecarga da rotina, que pode reunir trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidados com os filhos.
Na experiência clínica da profissional, os jogos de cassino on-line, como o Tigrinho, também aparecem com frequência entre as mulheres atendidas, enquanto as apostas esportivas são mais comuns entre os homens. Essa diferença corresponde à observação de Francielle no serviço e não deve ser generalizada para todas as pessoas que apostam.
Entre as pacientes que acompanha, algumas relatam recorrer às apostas em meio à sobrecarga da rotina, que pode ser o somatório do trabalho remunerado, tarefas domésticas e a maternidade. Esse cenário também aparece na pesquisa “Mulheres & Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias”, do Estúdio Clarice, que aponta que 72% das mulheres que apostam atualmente têm filhos.
As consequências das bets
O levantamento indica ainda que mulheres que são mães apostam cerca de 1,6 vez mais do que aquelas sem filhos. Em relação às modalidades, 49% das apostadoras afirmaram jogar em cassinos on-line, como o Tigrinho, enquanto 26% apostam em futebol. Na experiência clínica de Francielle, os jogos de azar virtuais também aparecem com frequência entre as mulheres atendidas, enquanto as apostas esportivas são mais comuns entre os homens. Essa percepção, baseada nos atendimentos realizados pela psicóloga, não deve ser entendida como regra e generalizada para todas as pessoas que apostam.
Para além das consequências financeiras mais evidentes, como o acúmulo de dívidas e a dificuldade para manter os compromissos em dia, as bets também deixam marcas na saúde mental e física das pessoas que apostam. Esse vício é frequentemente associado ao surgimento ou agravamento de transtornos psicológicos, como relata a psicóloga da Rede Abraço. “Quando você tem o comprometimento da sua saúde financeira vai vir o comprometimento da sua saúde mental”, explica Francielle, “aí vem a ansiedade, aí vem a depressão. Então está interligado”.
A preocupação constante com as dívidas acumuladas e com a falta de dinheiro pode colocar o paciente em um ciclo contínuo de sofrimento. Esse estado de tensão também pode prejudicar a qualidade do sono e provocar oscilações de humor, incluindo episódios de irritabilidade mais intensa.
O que se ganha no final?
Os sintomas da dependência nos jogos chegam a se comparar aos de uma dependência química, visto que a produção desregulada de dopamina pode gerar crises de abstinência muito fortes. Alguns desses sintomas físicos apontados pela psicóloga são batimentos cardíacos acelerados, sudorese, inquietação, pupilas dilatadas e respiração ofegante, podem surgir durante o pico ou não da fissura.
Um outro lado dos aspectos físicos está relacionado à alimentação, que também recebe auxílio no instituto Rede Abraço. Pessoas com um transtorno de ansiedade, por exemplo, podem comer demais ou de menos (como bulimia ou anorexia), o que impacta diretamente no corpo desse paciente. “Tem pacientes que quando cessam o jogo, precisam ter uma recompensa por algo, e acabam indo mais na alimentação”, revela, “e tem pessoas que, em quadros de depressão ou ansiedade, não comem. Não sentem fome”.
Além desses sintomas, outras consequências físicas sofridas devido às bets são mencionadas no estudo Mulheres & Bets, entre elas estão tremedeira, insônia, automutilação, crises de choro e aumento no uso de medicação e automedicação para dormir.
Por fim, os dados e os relatos apresentados ao longo desta reportagem mostram que, mesmo quando o contato com os jogos de azar acontece por meio de plataformas digitais e de uma dinâmica que pode parecer lúdica, as consequências estão longe de permanecer restritas às telas. Nesse cenário, as mulheres também enfrentam estigmas indevidos e dificuldades para buscar ajuda quando percebem que precisam de apoio.
O caminho para pedir ajuda
Por trás das telas coloridas, dos estímulos constantes e das promessas de ganhos fáceis, as apostas on-line podem deixar consequências profundas, que vão muito além do prejuízo financeiro e afetam diferentes áreas da vida de quem aposta. Para muitas mulheres, o endividamento vem acompanhado da culpa, da vergonha e da dificuldade de encontrar tempo para cuidar de si mesmas. Romper esse ciclo, portanto, também passa por reconhecer a dependência como um problema de saúde e garantir que a busca por ajuda não seja mais um motivo de julgamento.
A procura por tratamento, no entanto, nem sempre acontece de forma imediata. Em 2022, 28% das mulheres chefes de família no Espírito Santo eram mães solo, segundo levantamento do IBGE. Para essas mulheres, reconhecer a necessidade de ajuda representa também o desafio de reorganizar a rotina e encontrar espaço para cuidar da própria saúde. O processo pode envolver admitir perdas, reconstruir relações afetadas pelo jogo e aprender a lidar com situações que antes despertavam a vontade de apostar. Por isso, o acolhimento precisa considerar não apenas a interrupção do comportamento compulsivo, mas também as condições emocionais e sociais que acompanham a recuperação.
No Brasil, a maternidade solo frequentemente vem acompanhada da concentração das responsabilidades financeiras e domésticas em uma única pessoa. Sem a divisão cotidiana dos cuidados com os filhos, muitas mulheres precisam conciliar trabalho remunerado, tarefas de casa e criação das crianças, o que pode limitar o tempo disponível para consultas, terapias e outras formas de acompanhamento. Quando a renda também é restrita, despesas com transporte e a necessidade de encontrar alguém que cuide dos filhos durante o atendimento podem se tornar obstáculos adicionais.
No caso das mulheres que enfrentam problemas com apostas on-line, essas dificuldades podem se somar ao sofrimento emocional e às consequências financeiras da dependência. A tentativa de administrar as dívidas, o receio de expor a situação à família e a falta de tempo para procurar ajuda podem prolongar o período entre o reconhecimento do problema e a busca por tratamento. Assim, embora o atendimento gratuito seja um recurso importante, sua existência não elimina todas as barreiras que impedem essas mulheres de acessá-lo.
A história de Ingrid e o caminho que ela vem percorrendo para enfrentar os desafios provocados pela dependência mostram que, embora a relação obsessiva com os jogos possa transformar uma atividade inicialmente vista como entretenimento em uma fonte de sofrimento, reconhecer a perda de controle representa um passo importante para começar a retomar a própria vida. “Eu diria para quem está passando pela mesma situação que um dia estive: para enquanto há tempo. E se você já está preso nessa infeliz situação, por favor, não tenha medo ou vergonha de pedir ajuda. Procure tratamento antes que seja tarde demais” relata Ingrid.
Onde procurar ajuda?
A Rede Abraço é um serviço que oferece atendimento público e gratuito para pessoas com problemas relacionados a apostas on-line e jogos digitais, além de acolhimento e orientação aos familiares do paciente que busca ajuda. O serviço é destinado a pessoas a partir de 14 anos, não sendo necessário encaminhamento ou agendamento prévio. O atendimento é realizado presencialmente nos Centros de Acolhimento e Atenção Integral sobre Drogas (CAADs), de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h.


Expediente: reportagem produzida neste semestre letivo dentro da disciplina Jornalismo Online. Estudantes: João Guimarães (editor), Luisa Aires Leal Arêas (repórter e mídias sociais), Raíssa Cruz Barbosa (repórter e mídias sociais), Felipe Pinheiro Oliveira (repórter e cinegrafista). Professora e jornalista responsável: Maria Lúcia Silva. Materiais gráficos: Samilli Sarah dos Anjos de Oliveira, Maria Eduarda Lira Moreira, Kezia Franca Vieira, Jamille Araujo Costa e Rachel de Oliveira Machado.

