“Enquanto o Sol Não Nasce” retrata a ocupação cultural do Centro de Vitória
Produção será lançada no dia 9 de julho, no Cine Metrópolis, e convida o público a enxergar a região para além dos estigmas
Isabella Oliveira
O documentário Enquanto o Sol Não Nasce será lançado no dia 9 de julho, em sessão aberta ao público no Cine Metrópolis, a partir das 18h30. Produzido por estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o filme retrata a vida noturna do Centro Histórico de Vitória e acompanha trabalhadores, artistas, produtores culturais e frequentadores que transformam a região em um espaço de convivência, expressão cultural e sociabilidade, propondo uma reflexão sobre o direito à cidade e as diferentes formas de ocupação do território.
A produção acompanha a dinâmica do Centro entre o cair da noite e o amanhecer, registrando experiências que desafiam a visão de abandono frequentemente associada à região. A proposta da obra surgiu a partir do interesse da equipe em olhar para o Centro Histórico sob uma perspectiva diferente daquela normalmente retratada. Durante o processo de pesquisa e gravação, o grupo percebeu que um dos discursos mais recorrentes sobre a região está relacionado à sua “revitalização”. Essa constatação motivou uma reflexão que atravessa toda a narrativa do documentário.
Para a diretora Rachel Machado, o documentário procura evidenciar que o Centro já é um espaço vivo, ocupado e construído diariamente por diferentes grupos sociais.
“O Centro de Vitória é um território vivo. É um território presente, ocupado por pessoas pretas, por pessoas periféricas, e que não precisa ser revitalizado. O que ele precisa é de um novo olhar da Prefeitura e do poder público para que seja cuidado com mais carinho”. Rachel Machado
Ao longo da narrativa, o documentário percorre diferentes espaços que ajudam a compreender as múltiplas formas de relação com a região. O Disco Voador, o Bar da Zilda e o Projeto Subúrbio aparecem como iniciativas que fortalecem a cena cultural capixaba e demonstram como a ocupação cotidiana transforma a região em um território de convivência, pertencimento e produção artística.
Disco Voador
Criado pelo DJ Fabrício Bravim, o Disco Voador nasceu no Centro de Vitória como um baile dedicado à música, 100% em vinil. O evento ganhou projeção nas redes sociais e, após viralizar, passou a realizar edições em outras cidades.
Para o idealizador, a escolha do Centro não foi por acaso. “Quando pensei em fazer o Disco Voador, quis fazer no Centro porque sabia que estaria entre os nossos”, afirma Fabrício. Para ele, a forte presença de músicos, artistas e produtores culturais na região contribuiu para a grande adesão do público desde as primeiras edições.
Bar da Zilda
Bar da Zilda, ventro de Vitória
Outro espaço retratado pelo documentário é o Bar da Zilda, considerado um dos principais redutos do samba de raiz no Espírito Santo. Há anos, o estabelecimento é comandado por Zilda Aquino, que se tornou uma referência para frequentadores e artistas da cena cultural capixaba.
Para Brendo Soares, cliente do bar, a relação com o Centro vai além do lazer. Criado em uma família de sambistas, ele conta que encontra no espaço um sentimento de pertencimento. “Eu cresci num lar de sambistas e o Bar da Zilda me traz esse aconchego.”
“Eu acho que o Centro de Vitória, principalmente por ser um arquétipo de localização muito negra e periférica, me faz querer estar aqui. Brendo Soares
Subúrbio
O Projeto Subúrbio também integra esse percurso. Criado em 2020, o movimento cultural e de ativismo atua na valorização da população negra, periférica e LGBT+, promovendo festas, oficinas e atividades culturais no Centro Histórico de Vitória. A iniciativa surgiu a partir da percepção de um grupo de jovens sobre a ausência de espaços que acolhessem, de forma ampla, pessoas negras e LGBT+.
Antes da chegada do projeto, a rua Senador Atílio Vivácqua, onde funciona a Subúrbio, era marcada pelo abandono, sem comércio e com pouca circulação de pessoas. Um dos idealizadores, Átila Alves Costa, afirma que a ocupação do espaço contribuiu para transformar essa realidade.
“As pessoas tinham medo de passar aqui à noite, mas quando viemos para cá elas passaram a se sentir mais seguras de estarem aqui.” Átila Alves
Muito além da vida noturna
Mais do que registrar eventos ou personagens, o filme evidencia como esses espaços funcionam como pontos de encontro, preservam memórias, fortalecem vínculos comunitários e estimulam a produção artística local. Ao reunir diferentes histórias, a obra revela um Centro Histórico pulsante, ocupado e em permanente transformação.
O documentário também convida o público a refletir sobre quem tem o direito de ocupar a cidade e de que maneira os espaços urbanos são constantemente ressignificados por aqueles que os vivenciam. Mesmo diante de desafios relacionados à infraestrutura, à segurança e às políticas urbanas, o filme mostra que o Centro permanece como um território de encontros, resistência e produção cultural.
Ao registrar personagens, práticas culturais e experiências que marcam a vida noturna da região, Enquanto o Sol Não Nasce contribui para preservar um recorte da história recente do Centro Histórico de Vitória. Mais do que retratar a noite na capital capixaba, a produção propõe um novo olhar sobre um território frequentemente associado a estigmas, revelando uma cidade viva, diversa e construída diariamente por quem faz de suas ruas um espaço de convivência e cultura.
Os bastidores de Enquanto o sol não nãsce
Produzir um documentário envolve uma série de etapas que vão muito além das gravações. O curta Enquanto o Sol Não Nasce é desenvolvido a partir da articulação do fazer jornalístico e audiovisual na construção de uma obra documental, por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) como atividade da disciplina Realização em Documentário, incorporada à nova matriz curricular do curso. O projeto exigiu meses de planejamento e uma série de decisões sobre os caminhos narrativos que dariam forma à produção. Ao longo da disciplina, os estudantes assumiram diferentes funções na equipe, participando de todas as etapas da produção e desenvolvendo competências técnicas e jornalísticas de forma integrada.
Segundo a diretora Rachel Machado, a realização do documentário representou uma oportunidade de ampliar a experiência prática adquirida durante a graduação. “Já tenho uma breve experiência com criação documental, já fiz alguns documentários antes e alguns videoclipes, mas esse é um pouco mais especial por se tratar do Centro Histórico de Vitória”, afirma.
O documentário acompanha as vivências, os eventos culturais e as múltiplas formas de ocupação do Centro de Vitória, buscando apresentar um olhar sensível sobre o território e tensionar discursos que frequentemente marcam a região apenas por estigmas. Para a produtora Júlia Novais, a obra também reflete uma experiência pessoal de descoberta desse espaço.
“Eu descobri o Centro e os eventos culturais que acontecem lá depois que eu entrei na Ufes. Então poder fazer esse documentário estando na universidade e também tendo uma vivência diária na região foi bem legal.” (Júlia Novais)
Antes mesmo do início das gravações, a equipe precisou definir o recorte da produção, identificar os personagens e compreender a realidade que seria retratada. Essa etapa de pesquisa foi fundamental para orientar as entrevistas e estabelecer os temas centrais do documentário. A partir desse processo surgiram as primeiras escolhas narrativas sobre quais histórias contar e de que maneira elas seriam apresentadas ao público.
Além da pesquisa, outro desafio foi conciliar a disponibilidade dos participantes envolvidos na produção. Júlia destaca que a organização das agendas exigiu planejamento e paciência, principalmente para conciliar a rotina dos entrevistados com a equipe. “Como havia um prazo para concluir o documentário, essa foi uma das partes mais complicadas. Fora isso, existem também as questões de equipe e de bastidores que só quem participa da produção conhece.”
Foto: Larissa Monteiro
As gravações também exigiram capacidade de adaptação. Registrar acontecimentos em ambientes externos, acompanhar a rotina dos personagens e lidar com situações imprevistas faz parte da natureza do documentário, em que nem sempre é possível prever o que acontecerá diante das câmeras. Uma das diárias mais desafiadoras ocorreu durante uma gravação realizada ao longo da madrugada. Rachel relembra que, além do frio intenso, a equipe precisou improvisar soluções para garantir a continuidade do trabalho.
“Tivemos que ficar na casa de um colega para guardar os equipamentos e descansar algumas horas antes de voltar a gravar pela manhã. Foi tudo muito cansativo, caminhando de um lado para o outro, sem carro, porque somos uma produção independente.” (Rachel Machado)
Foto: Larissa Monteiro
Para a assistente de direção Larissa Monteiro, a experiência foi marcada pelo envolvimento coletivo da equipe e pelo compromisso em construir uma narrativa fiel às vivências retratadas.
“Todo mundo se dedicou ao máximo para mostrar uma visão de afeto sobre o Centro de Vitória, mas também de tensionamento das questões que existem ali. Nossa maior preocupação foi retratar esses espaços como eles realmente são, sem criar uma narrativa artificial.” (Larissa Monteiro)
Mais do que resultar em um produto audiovisual, Enquanto o Sol Não Nasce evidencia o papel das produções universitárias como espaços de formação profissional. A produção também reafirma o potencial do documentário como ferramenta de investigação, memória e registro da realidade. Ao acompanhar histórias reais e transformá-las em narrativa audiovisual, as realizadoras ampliam o alcance de debates sociais e culturais, ao mesmo tempo em que constroem um registro que poderá ser acessado por diferentes públicos.
Cine Metrópolis Mostra de documentários dos estudantes de Jornalismo e de Cinema e Audiovisual
Sessão aberta ao público Data: 9 de julho Horário: A partir das 18:30