De mãe para filha: o sexo para além do tabu

São vastas as opiniões e os debates quanto à importância da educação sexual nas escolas, mas e em casa? Será que meninas aprendem sobre sexo e sobre o corpo ou essa realidade ainda é um tabu?

De acordo com a psicóloga e sexóloga Marcele Paganini, são perceptíveis as mães cada vez mais preocupadas com a saúde sexual e psicológica das filhas, mesmo considerando que o assunto ainda seja visto como delicado.

Marcele, que também é mãe, relata a importância de os pais conversarem sobre sexo com as filhas e afirma que o assunto não incentiva o ato sexual, como muitos acreditam, ao contrário, promove um efeito reverso. 

“Quando o sexo é um tabu dentro de casa, a chance de a menina se expor a um perigo ou a algo que a faixa etária dela ainda não está pronta para viver é muito maior. Isso porque ela terá curiosidade. Quando esse é um assunto abordado dentro de casa, ele não vai gerar tanta curiosidade”, afirmou a especialista.

E não só a curiosidade; a convivência social também faz com que as meninas tenham, mais cedo ou mais tarde, contato com o assunto. Esse foi o caso de Kássia Matteini, empreendedora, de 21 anos, que aprendeu sobre sexualidade com as próprias amigas. “A conversa com meus pais era muito restrita, principalmente sobre sentimentos, namoro e corpo. Isso me causava ansiedade e medo. Na adolescência, eu acabava conversando com pessoas fora de casa”, explica.

Ela também relata que a falta de comunicação sobre sexo, sexualidade e, principalmente, sobre seu corpo gerou dificuldade na compreensão das mudanças que ela vivenciou na adolescência. “Durante a puberdade, o corpo muda muito. Se eu tivesse tido uma orientação mais clara dentro de casa, seria mais fácil passar por esse processo”.

Hoje, já casada, Kássia quer dar aos filhos liberdade para conversar não só sobre sexo, mas sobre qualquer assunto e diz que a segurança deles vai ser sua prioridade. “Eu quero ensinar meus filhos a se protegerem, a saberem o que pode e o que não pode”, afirma.

Essa perspectiva já é realidade para Dayani Galvão, mãe de 35 anos que também não teve oportunidade de aprender sobre seu corpo com os pais, mas que faz diferente com a filha adolescente, de 12 anos. Ela destaca que desenvolve uma relação de amizade com a filha e tenta mostrar  que a casa é um local seguro, onde se pode dialogar abertamente, inclusive para explicar que alguns temas não são apropriados para determinados estágios de desenvolvimento. “É importante que nossos filhos entendam o cuidado que você está tendo, porque às vezes a gente erra em querer impor alguma restrição sem explicar por que e quais as consequências disso. É aí que entra a  revolta”, comentou.

Dayana ainda afirma que preza por essa liberdade de contato também pensando na segurança da filha. “Eu quero que ela não sinta medo, e que sinta que pode me contar se algo diferente acontecer, como um assédio, por exemplo”.

A psicóloga e sexóloga Marcele também falou sobre a segurança das meninas. “As meninas que não recebem educação sexual estão expostas ao abuso sexual e, possivelmente, se tornarão adultas que não vão viver a plenitude da sua vida sexual”, relatou.

A professora Larissa Côrrea, de 27 anos, que teve em casa todas as informações necessárias para viver com mais liberdade, diz que o apoio da mãe sempre foi essencial para que ela se tornasse uma mulher segura. “Minha mãe me fez ter autoconhecimento. Ela me ensinou sobre as partes do meu corpo e me ensinou como cuidar delas. O fato de ter tido acolhimento em casa e minha mãe tratar esse assunto de forma leve me fez ter mais confiança”, afirmou.

Além da segurança, falar sobre sexo é, também, falar sobre prazer. Marcele afirma que ver o sexo como “assunto proibido” na infância, constrói mulheres que muitas vezes não conseguem viver uma vida sexual prazerosa. “Uma das bases da sexualidade é a seguinte: o corpo sabe fazer sexo, mas ele precisa que o cérebro desligue um pouco o controle para que ele consiga relaxar, e isso é muito difícil quando a mulher traz uma carga de crenças erradas sobre o ato”, afirmou a especialista.

A busca das mães por criarem filhas mais preparadas para o mundo e para viverem os processos da vida de forma mais natural faz parte de um movimento crescente, rompendo com uma mentalidade de preconceitos acerca da educação e do prazer feminino. A sexóloga ainda destaca que não basta querer conversar, é preciso se preparar. A conversa deve ser feita de forma guiada e obedecendo à faixa etária de cada criança e adolescente. Para isso, a profissional afirma que o primeiro passo para falar sobre sexo com os filhos é se informar e romper com seus próprios preconceitos.

Quer se informar? Acesse esses portais:

Portal Drauzio Varella
Cátia Damasceno
Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)
Cartilha Vamos Falar sobre Sexualidade
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

Ouça o Pod Falar +