Símbolo da gastronomia capixaba, a espécie garante renda para comunidades pesqueiras e mantém vivo um conhecimento transmitido entre gerações
Letícia Tonon
“O manguezal é o meio de sustento de vida para a gente. Tenho 62 anos, criei meus filhos e agora minhas netas com o que o mangue oferece. É de onde tiro meu sustento”, afirma Marcos Cesar Gomes Horeto. Sua fala resume a importância do caranguejo-uçá para as comunidades pesqueiras da Grande Vitória. Caranguejeiro desde a infância, ele aprendeu o ofício com o pai e passou décadas pescando no manguezal a principal fonte de renda da família.
Vitória abriga cerca de 1.100 hectares de manguezal, uma das maiores áreas contínuas desse ecossistema em ambiente urbano do Brasil, segundo a Prefeitura de Vitória. Ao longo da história, esse território sustentou comunidades pesqueiras e atividades como a captura do caranguejo, que ajudaram a formar a identidade cultural do Espírito Santo.

Além de movimentar a pesca artesanal, o caranguejo-uçá ocupa um lugar de destaque na gastronomia capixaba. A espécie abastece restaurantes, mercados e feiras da região, especialmente em bairros como a Ilha das Caieiras e Jesus de Nazareth, onde a culinária tradicional foi construída a partir da relação entre as comunidades, a baía de Vitória e o manguezal.


Para garantir a continuidade da atividade pesqueira, a captura da espécie segue um calendário de proteção conhecido como período de defeso. De acordo com o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), durante a muda do casco, fase em que o animal fica mais vulnerável, são proibidos a captura, o transporte e a comercialização do caranguejo-uçá. Além disso, há restrições durante a andada, período reprodutivo da espécie.
Marcos cresceu acompanhando esse ritmo. O conhecimento sobre os períodos de captura, os ciclos do caranguejo e o funcionamento do manguezal foi aprendido ainda criança, durante as pescarias com o pai. “Eu comecei a pescar com meu pai, que era pescador de rede, lá da Praia de Camburi. Aí eu comecei e aprendi como é que passava a dar valor à pesca”, afirma.
Ao longo dos anos, ele viu novas medidas de proteção serem incorporadas à rotina dos pescadores. E lembra que os próprios caranguejeiros participaram das discussões sobre a necessidade de ampliar a proteção da espécie durante a muda do casco: “antes, só tinha a proibição das andadas, que é de janeiro, fevereiro, março e abril. Depois, como o caranguejo estava ficando muito escasso nessa época de outubro e novembro, nós fizemos essa defesa junto com o presidente da associação dos caranguejeiros.”
Um ecossistema que sustenta gerações
Além de garantir o sustento de comunidades pesqueiras e dar origem a tradições que marcaram a cultura capixaba, o manguezal também enfrenta desafios provocados pela poluição e pelo descarte irregular de resíduos e esgoto. A degradação desse ecossistema ameaça não apenas a biodiversidade, mas também atividades que dependem diretamente dele, como a pesca artesanal, a coleta de mariscos e a captura do caranguejo.

Marcos destaca que preservar o mangue é garantir a continuidade de um modo de vida construído ao longo de gerações. “O manguezal é o meio de vida. Já me aposentei como pescador e catador de caranguejo, mas continuo ajudando a cuidar desse lugar”, diz.
Hoje, ele participa de ações de educação ambiental e mutirões de limpeza. “A gente vai com as equipes da Prefeitura até o manguezal e também às escolas para mostrar às crianças a importância de preservar esse ambiente. Se o mangue acabar, não perde só a natureza. Perde também a história e o sustento de muita gente”.
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