Vendida como revolucionária, a nova “tecnologia do futuro” encontra dificuldade para se provar útil na mesma proporção em que torna o futuro nebuloso
Melissa Passos
A década de 2020 não para de ser dura com a humanidade. Novas guerras, uma pandemia global e Inteligência artificial generativa formam o tripé de preocupações que afligem, dentre vários outros grupos sociais, os jovens que vão adentrando a vida adulta nos últimos anos.
Estudante de artes plásticas da UFES e ilustradora digital profissional há oito anos, Will Ribeiro, fala sobre como conviver com a IA generativa tem sido. “Um inferno”, ela diz, afirmando que o mundo anterior à existência da IA generativa parece quase como um sonho distante quando comparada à situação presente. Sendo uma tecnologia que funciona a partir de mineração de dados para criar um banco de dados tão vasto quanto irregulável e potencialmente ilícito, a nova grande empreitada do vale do silício encabeçada por Sam Altman, criador do ChatGPT, é perseguida como o novo santo graal tecnológico pelas grandes empresas de tecnologia, como Google e Meta. Desde os já tradicionais anúncios anuais de celulares, até as propagandas do Gemini com caricaturas dos jogadores durante os intervalos da copa do mundo, a tecnologia de geração de imagens através de modelos de linguagem está sendo empurrada para o público geral a todo momento e parece cada vez mais inescapável.
Mas a pergunta que não quer calar quando este fenômeno vem à tona é: qual é a utilidade disso, afinal? Pergunta inevitável, considerando todo o esforço para que essa tecnologia continue crescendo, mesmo com os bilhões em prejuízos anuais com o qual operam no momento.
As propagandas não parecem saber bem o que dizer. “Você pode gerar uma caricatura com um prompt”, elas dizem, mostrando imagens geradas com estilos que variam das artes de Yoichi Takahashi à Alex Ross no mesmo comercial. Esses artistas, porém, não recebem um centavo pela presença de seus estilos icônicos na salada visual da propaganda do Gemini, e a julgar pelo que diz o criador do ChatGPT quando afirma que a operação desses aplicativos seria inviável sem o uso indevido dessas obras, pode se dizer que isso é totalmente proposital.
Mas enquanto governos pelo mundo inteiro avançam à passos de tartaruga para uma regulamentação, artistas digitais e designers profissionais que vem lidando com esse incômodo pelos últimos anos ficam a mercê do sucateamento mercadológico causado pelos geradores de imagens, que para agentes do mundo profissional aparentam ser oportunidades de cortar custos excluindo o valor da mão de obra de um humano responsável pela expressão visual. É do que se queixa Raquel Granai, designer formada pela USP, que se demonstra preocupada com a situação do mercado de trabalho.
“Eu sou formada há quatro anos, e de uns tempos para cá parece que a quantidade de serviços vem diminuindo muito. Muitos trabalhos freelancer que apareciam de empresa pedindo logo, pra fazer um banner ou coisa do tipo, vem sumindo porque preferem gerar uma imagem genérica com um ChatGPT da vida.” Diz ela.
Esse fenômeno não passa despercebido pelo público. Em especial entre pessoas mais jovens, há uma grande porcentagem do público que, além de ser capaz de identificar imagens geradas por inteligência artificial, explicitamente rejeitam engajar com produtos e serviços que usem a estética da IA para propaganda, algo que caminha na mesma linha que a tendência observada nos últimos meses de estudantes prestes a adentrar o mercado de trabalho direcionando vaias à discursos pró-IA generativa em cerimônias de graduação nos Estados Unidos.
“Ser artista nunca foi fácil. Não dá pra dizer que antes era um mar de rosas, mas ao menos a gente não tinha que conviver com o nosso trabalho sendo banalizado e usurpado o tempo todo. Comunidades que eram para ser compostas por pessoas criativas, sejam pintores, desenhistas ou até artistas de tricô, estão infestadas por, para não usar termo mais chulo, pessoas ignorantes que acham que digitar um prompt para gerar uma imagem é equivalente à um processo criativo e técnico de execução estética. Você reclama e sempre tem um abobalhado para chamar você de “ludista”, ou fazer uma comparação boba dizendo algo como “na época que só tinha retrato pintado, diziam a mesma coisa da fotografia”, o que deixa claro que essas pessoas não só tem noções de estética questionáveis, como não entendem ou respeitam a fotografia como processo artístico humano”, diz Will.
Quando perguntada sobre suas expectativas para o futuro, a ilustradora pareceu cautelosa. Disse torcer para que legislações que protejam o trabalho destes profissionais não demorem para serem pensadas e colocadas em prática, mas não adota grande otimismo, considerando o quanto o atual governo Lula ignorou a questão durante seu mandato, chegando até a usar material gerado por IA em diversas peças publicitárias, e evidenciando que a oposição ao governo faz ainda pior, apontando para os vídeos gerados por IA na campanha do candidato Flávio Bolsonaro.
Isso tudo não leva em conta o altíssimo custo social dos data centers necessários para o funcionamento dessa tecnologia ou do quanto a propagação dela aumenta o preço de eletrônicos de forma geral graças à sua demanda descomunal por componentes que paga o mercado de pessoas físicas, mas é importante não ignorarmos o problema até que apenas tapar os olhos não seja mais suficiente. A crise também é estética.

