Mais do que promover eventos, moradores, produtores culturais e coletivos independentes ajudam a construir diariamente um território de encontros, memória e pertencimento.
Beatriz Paoliello e André Lucca
Entre rodas de samba, blocos carnavalescos, feiras, casas culturais e pessoas que voltam a caminhar pelas ruas históricas, o Centro de Vitória tem recuperado parte do movimento que marcou sua trajetória. O que durante anos foi associado ao abandono e ao esvaziamento econômico hoje volta a reunir moradores, artistas, comerciantes e frequentadores em uma ocupação que vai além do lazer: transforma a cultura em uma forma de permanência e resistência urbana.
Para quem vive o Centro diariamente, esse movimento não representa o surgimento de uma nova identidade, mas o fortalecimento de uma história construída por pessoas que permaneceram na região mesmo durante os períodos de menor circulação. Foram esses moradores que mantiveram vivas as relações comunitárias, preservaram a memória e continuaram acreditando no potencial da região.

O presidente da Associação de Moradores e Moradoras do Centro de Vitória (Amacentro), Walace Bonicenha, avalia que “a cultura não chega de fora para transformar o Centro; ela já existe e se renova cotidianamente nas ruas, praças, mercados, igrejas e nas histórias de quem vive esse território.”
Nos últimos anos, iniciativas independentes têm multiplicado a programação cultural da região, atraindo novos públicos e incentivando a redescoberta de um território que nunca deixou de produzir cultura. Para o produtor cultural Marcus Pansera, responsável pela Casa Caipora-Centro Cultural, o momento atual é de reconhecimento e não de descoberta.
“O Centro é uma pérola não lapidada. O valor dele sempre esteve lá, com pessoas resistindo há anos, décadas, para que isso acontecesse. Hoje a gente vive um boom de reconhecimento. As pessoas estão redescobrindo o Centro e conseguindo enxergar a beleza que ele tem”, afirma. Pansera ressalta que essa retomada não aconteceu de forma espontânea. Ela é fruto de um trabalho acumulado por agentes culturais que mantiveram suas atividades mesmo nos períodos mais difíceis.
“O que a gente está colhendo hoje é fruto do trabalho de muita gente que veio antes da gente. Existe uma valorização novamente desse território e isso faz com que as pessoas voltem a frequentar o Centro”, Marcus Pansera.

A Amacentro reforça essa perspectiva. Para Walace, um Centro vivo não se constrói apenas por meio de investimentos ou da realização de eventos, mas principalmente pela presença de pessoas vivendo, circulando e criando vínculos com o território. “Nesse contexto, a cultura exerce um papel estratégico ao fortalecer o sentimento de pertencimento e ampliar a ocupação dos espaços públicos.”, diz.

Ao mesmo tempo em que cresce a circulação de pessoas, surgem novos desafios para quem promove atividades culturais na região. Mais público significa também mais tensões. Entre moradores antigos e novos frequentadores, entre eventos noturnos e o direito ao silêncio, entre a valorização do bairro e o risco de que ela empurre para fora quem sempre viveu ali.
Para Marcus Pansera, manter uma programação constante exige equilibrar interesses diversos, considerando moradores antigos, novos empreendimentos e frequentadores da região. “É um quebra-cabeça que envolve muitas pessoas. A gente precisa entender quem já ocupava esse território antes, quem está chegando agora e o que o Centro precisa para continuar sendo um espaço pulsante. Não é simplesmente ocupar o lugar; é preciso dialogar com quem sempre viveu ali”, afirma.

Esses conflitos têm dimensões práticas. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmam) informou, em nota, que o monitoramento da emissão de ruídos segue os limites estabelecidos pela legislação vigente: em áreas residenciais, o limite é de 50 decibéis no período noturno, entre 22h e 7h. A possibilidade de recorrer a esse canal mostra que a coexistência entre eventos culturais e moradia é uma equação ainda em construção.
A Amacentro defende que moradia e a vida cultural não devem ser encaradas como interesses opostos. Para a entidade, os centros históricos mais dinâmicos conciliam habitação, comércio, turismo e manifestações culturais e o planejamento participativo é o principal caminho para equilibrar essas diferentes formas de ocupação.
Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento da Cidade e Habitação (Sedec) destacou que o Centro passa por um processo de requalificação urbana, refletido, segundo dados do FipeZap (índice de preços de imóveis), na valorização imobiliária da região. A resposta institucional, centrada em dados de mercado, contrasta com as demandas concretas de quem organiza a vida cultural da região no dia a dia.
Enquanto diferentes agentes discutem formas de conciliar moradia, cultura e desenvolvimento urbano, uma percepção parece aproximar moradores e produtores culturais: a de que o Centro permanece vivo porque continua sendo ocupado diariamente por pessoas que trabalham, moram, circulam e produzem cultura.
Mais do que promover eventos, essas iniciativas ajudam a fortalecer vínculos, preservar memórias e reafirmar que a vida cultural do Centro faz parte da própria identidade da cidade. A pérola, como diz Pansera, sempre esteve lá. O que muda agora é o número de pessoas dispostas a enxergá-la.

