Pintura de ruas para a Copa resgata tradição e fortalece laços comunitários
Moradores voltam a ocupar espaços públicos e transformam ruas em telas coletivas às vésperas do Mundial de 2026
Igor Dadalto, Bernardo Mont’Mor e Pedro Caetano
Com bandeiras, tintas e muita criatividade, moradores de diversos bairros da Grande Vitória estão retomando uma tradição que marcou gerações de brasileiros: a pintura das ruas para a Copa do Mundo. Mais do que uma demonstração de apoio à Seleção Brasileira, a iniciativa tem se transformado em um momento de convivência, ocupação dos espaços públicos e fortalecimento dos vínculos comunitários.
Em Vitória, a mobilização tem chamado a atenção pelo envolvimento de vizinhos de diferentes idades, que se reúnem para desenhar e pintar símbolos ligados ao futebol e à cultura brasileira. Para a desenhista e tatuadora Juno Coutinho, que participou pela primeira vez da pintura de uma rua, a experiência foi marcada pelo sentimento de união.
“A experiência foi incrível. Não só pelo resultado final, mas pela movimentação no dia. Toda a vizinhança se juntou com um só objetivo e a rua se tornou um local de comunhão”. Juno Coutinho
Foto: @hahfael
Retomada dos espaços urbanos
Além do clima festivo, a pintura das ruas também desperta reflexões sobre o uso dos espaços urbanos. Segundo Juno, a iniciativa permite que moradores se apropriem de áreas que normalmente são dominadas pelo trânsito de veículos.
“Ver a vizinhança se unindo para pintar a rua trouxe o sentimento de tomar posse do que é nosso”, destacou. Para ela, a ação transforma temporariamente a dinâmica da cidade e reforça a ideia de que as ruas também pertencem às pessoas.
A percepção é compartilhada por muitos participantes, que veem a atividade como uma oportunidade de convivência em tempos marcados pela rotina acelerada e pela permanência em ambientes fechados.
Copa além do futebol
Na avaliação da artista, a movimentação observada para a Copa de 2026 é mais intensa do que a registrada no Mundial de 2022. Ela acredita que o fenômeno está ligado não apenas à expectativa pelos jogos, mas também ao desejo das pessoas de voltarem a ocupar as ruas e celebrar coletivamente.
“Durante a pintura, muitos disseram que o entusiasmo não era somente sobre os jogos, mas sobre a fruição de estar comemorando em grupo”, relatou.
Após anos em que a pandemia limitou encontros e eventos públicos, ações como a pintura das ruas ganham um significado que vai além da competição esportiva. Elas representam a reconstrução de relações sociais e a valorização da convivência nos bairros.
Arte em grande escala
Acostumada a trabalhar com desenhos em papel e tatuagens, Juno encarou um desafio diferente ao transferir sua arte para o asfalto. Ela foi uma das responsáveis pelos esboços que serviram de base para as pinturas coletivas.
Segundo a artista, a principal dificuldade está em pensar a obra em uma escala muito maior do que a habitual. “O desenho na rua precisa ser pensado numa visão macro, para quem olha de diferentes pontos e perspectivas”, explicou.
Apesar do desafio, ela destaca que a experiência permitiu que sua arte ganhasse uma nova dimensão ao interagir diretamente com a comunidade. “Quando estão pintados na rua e não mais trancados numa gaveta, os desenhos têm um papel importante na dinâmica urbana e incitam a afetividade por parte dos transeuntes e da vizinhança.”