TCC transforma artistas capixabas em protagonistas de suas próprias histórias

A arte e a cultura produzidas no Espírito Santo são diversas, plurais e estão presentes em diferentes territórios, linguagens e gerações. Ainda assim, muitos artistas capixabas enfrentam desafios para tornar seus trabalhos conhecidos pelo grande público. Foi justamente com o objetivo de ampliar essa visibilidade e registrar parte dessa produção que nasceu a Revista Cores.

Criada pelo publicitário Robert Bizi e pelo diretor de arte Edgar Barbosa, a Revista Cores reúne 50 entrevistas de artistas capixabas de diferentes linguagens, nas quais relatam experiências profissionais e apresentam suas trajetórias.

“Sempre que a gente fala de oportunidade ou de arte, os maiores polos são Rio e São Paulo. O nosso estado tem muita sede de arte, tem muita cultura, tem muita gente que produz e faz muita coisa aqui, porém, não temos tanta visibilidade”. Robert Bizi

A recepção do público logo após o lançamento, em fevereiro deste ano, deixou claro que o Espírito Santo precisava de um espaço assim, dedicado a contar as histórias de quem realmente faz a cena cultural capixaba acontecer.

O projeto ganhou tanta força que rompeu os muros da faculdade Faesa: a Revista Cores circulou por vários congressos de comunicação e chegou a ser finalista do Intercom, um dos prêmios acadêmicos mais importantes do país na área. “Funciona meio como uma vitrine, uma forma de novos artistas se verem e se inspirarem”, destaca Robert

A ideia da revista

Revista Cores. Foto: Robert Bizi

O projeto foi desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Robert e apresenta nomes ligados à música, ao teatro, à moda, à produção cultural e à fotografia, formando um panorama da diversidade artística produzida no estado. A ideia surgiu durante a graduação em Publicidade e Propaganda, a partir da percepção dos desafios enfrentados para conquistar visibilidade dentro e fora do Espírito Santo, em especial pela comunidade de artistas LGBTQIAPN+.

Esse compromisso é tão forte que toda a estrutura da publicação foi inspirada nas seis cores da bandeira do movimento de 1979. “Desenvolvendo esse projeto, a gente queria que fosse algo diferente, e que a gente conseguisse conversar com quase todas as disciplinas que a gente teve ao longo do curso”, explica Robert.

O próprio nome da revista carrega elementos que dialogam com a proposta do projeto. Na identidade visual, a sílaba “CO” faz referência a algo em movimento, “RES” à resistência e “ES” ao Espírito Santo, conectando o conceito da publicação à valorização da arte produzida no estado.

As cores que retratam diferentes expressões artísticas

A revista foi estruturada em seis editorias. Cada seção referencia uma cor da bandeira e reúne artistas e histórias sob diferentes perspectivas e propõe reflexões sobre identidade, criação e pertencimento.

A editoria vermelha, intitulada Vida, é dedicada à memória e às trajetórias de artistas e ativistas. Nela estão presentes artistas como Chica Chiclete, ícone da cena cultural e direitos LGBTQIAP+ capixabas, e o Associação Gold, organização fundada em 2005 que atua na defesa da cidadania e na promoção dos direitos humanos no Espírito Santo.

Já a seção Visuais, representada pela cor laranja e por trás das câmeras de José Vagner Souza Rezende Júnior, retrata a cena noturna capixaba e os profissionais que atuam na produção desses eventos por meio de registros fotográficos, transformando o instante em arte. Djs como CyberTrans, Madson e Phi fazem parte desta editoria.

A editoria amarela, Criação, traz discussões sobre processos criativos, inovação e fomento da arte capixaba. Nela, Léo Alves, fundador do Movimento Cidade, um dos principais festivais de cultura urbana do Espírito Santo, contou como foi o processo de criação do projeto.

Em Território, representada pela cor verde, a revista aborda pertencimento, identidade e os desafios de produzir arte no Espírito Santo. Nessa seção, além de destacar manifestações como a cultura ballroom da Casa de Bonequetes, a publicação também apresenta a tradição do Congo.

A seção azul, chamada Olhares, reúne relatos de familiares e amigos dos artistas retratados. Paola Hoffmann Van Cartier, primeira drag capixaba a brilhar no Drag Race Brasil foi uma das homenageadas. Já a editoria roxa, Experimentação, abre espaço para diferentes linguagens artísticas e também para os próprios criadores da revista.

A seleção dos participantes foi um dos processos mais desafiadores da produção. As entrevistas foram realizadas tanto presencialmente quanto de forma online, respeitando a disponibilidade dos artistas e buscando contemplar diferentes áreas da cena cultural capixaba.

“Eu queria abraçar o mundo, queria colocar todos os artistas capixabas na revista, mas a gente não conseguiria por questão de tempo. Tivemos o cuidado de unir artistas emergentes e de outros tempos. A gente queria alguém do Congo, da dança, do teatro, da música, da produção cultural, fotógrafo, alguém da moda. Todas essas linguagens para integrar a revista.”

Da infância à arte drag: a trajetória de Robert

A relação de Robert com a arte começou ainda na infância. Ex-aluno de escola pública, ele participou de projetos culturais desde cedo e integrou a banda de congo Tambor Jacaranema, na Barra do Jucu. Ao longo dos anos, também desenvolveu experiências no teatro e na dança. “Eu costumo falar que a arte me salvou e ela é muito inevitável na minha vida. De todos os jeitos ela acabou me encontrando, seja na criação, seja no meu olhar ou no pensamento”, conta.

Segundo Robert, sua trajetória artística também contribuiu para o surgimento de Lakina, sua persona drag, criada há cerca de três anos e que teve papel importante na construção da revista.

“O impacto da Lakina nesse projeto foi o olhar. Foi me entender também como artista, entender quais são as dores, me colocar no lugar deles e olhar o que falta aqui, mas com o olhar sensível para as coisas boas que já acontecem. A Lakina me ajudou muito na curadoria, em tentar colocar as maiores diversidades das linguagens de arte na revista.” Robert Bizi

Para ele, a publicação representa mais do que um projeto acadêmico. A Revista Cores surge como um registro da produção cultural capixaba e uma ferramenta de valorização de trajetórias que muitas vezes permanecem à margem dos espaços tradicionais de visibilidade.