Marcado pelo beat fininho, o funk produzido no Espírito Santo transformou uma identidade local em um movimento cultural que ecoa para além dos bailes
Beatriz Paoliello e André Lucca
As luzes piscam, os graves tomam conta do ambiente e bastam poucos segundos para que o público reconheça a sonoridade. Entre batidas aceleradas, timbres metálicos e uma energia característica das periferias capixabas, o chamado beat fininho anuncia que aquela música não veio do Rio de Janeiro nem de São Paulo, mas nasceu no Espírito Santo.
Presente em bailes, festas universitárias e eventos culturais, o funk capixaba conquistou espaço muito além das comunidades onde surgiu e, atualmente, movimenta milhares de ouvintes, consolidando-se como uma das principais expressões culturais urbanas do estado.
A história do gênero se inicia nos anos 1990, quando o funk carioca passou a influenciar artistas das periferias da Grande Vitória e inspirou produções que retratam o cotidiano das comunidades, abordando temas como desigualdade social, violência e resistência. Um dos nomes pioneiros dessa fase foi Jefinho Faraó, morador do Morro do Bonfim, que ajudou a consolidar a cena local e abriu caminho para as gerações seguintes.
Com o passar dos anos, o gênero se transformou e passou a dialogar com outras referências da música urbana até desenvolver uma identidade própria. Foi nesse contexto, entre os anos 2000 e 2010, que surgiu o beat fininho, uma sonoridade marcada por batidas mais agudas e aceleradas que se tornaria a principal característica do funk capixaba.
Segundo o DJ 2M, a sonoridade ganhou forma a partir das experimentações realizadas por produtores locais. “Beat fino quem puxou na época foi o DJ Jean do PCB, em 2013, 2014. Antes disso já existia algo parecido, mas não era aquele beat fininho que a gente conhece hoje. O Jean modificou a batida, deixou ela mais fina. Até hoje, quando você vai ao Rio de Janeiro ou a São Paulo, o pessoal reconhece o funk do Espírito Santo pelo beat fino”, explica.
A singularidade da batida ajudou o gênero a conquistar novos espaços e ampliar seu alcance. O que antes estava concentrado principalmente nos bailes de comunidade passou a circular por diferentes ambientes da vida urbana capixaba.
Para o DJ ML da Vila, essa expansão representa uma conquista importante para o movimento. “Eu sempre fui uma pessoa que se adaptou aos momentos da música. Acho incrível que o funk tenha saído também da periferia e dos bairros e se popularizado em outras regiões do estado. Espero que a gente consiga cada vez mais reconhecimento nacional com o beat fininho, porque é um beat diferente e único”, afirma.

O crescimento da cena também permitiu que artistas capixabas atinjam projeção nacional. Entre os exemplos estão o produtor WC no Beat, responsável por sucessos ao lado de nomes como MC Hariel e MC Cabelinho, e MC Neguinho do ITR, que já acumula milhões de visualizações nas plataformas digitais.
Apesar dos avanços, o funk ainda enfrenta desafios relacionados ao preconceito e à valorização cultural. Para Thamires Amon, idealizadora do projeto “Treme u Baile”, o gênero continua sendo alvo de estigmas que dificultam seu reconhecimento como manifestação cultural legítima.
“Eu acho que o funk ainda vai ter um longo caminho de embates. No final do ano passado, passamos pela discussão da chamada Lei Anti-Oruam, que assustou e revoltou muita gente. Foi uma proposta extremamente racista e preconceituosa contra artistas e produtores de funk. A gente precisa conversar de forma séria sobre o que é a cultura do funk e aceitar que essa também é uma cultura brasileira”, defende.

Para quem vive o funk desde cedo, porém, sua importância vai muito além da música. A estudante de Ciências Sociais da Ufes Leslie Morim, de 22 anos, frequentadora de bailes desde a adolescência, vê o gênero como parte fundamental de sua identidade.
“Eu acho que o funk é uma conduta de comportamento. É por onde eu costumo me guiar, na forma como me visto, como penso minhas pesquisas e como observo questões raciais, de violência, de periferia e de estrutura de poder. O funk me ajuda a enxergar essas questões e a entender o lugar de onde eu venho”, relata.
Mais do que um ritmo musical, o funk capixaba se consolidou como um espaço de produção cultural, pertencimento e afirmação identitária. Entre bailes, estúdios improvisados e novas plataformas de divulgação, o beat fininho continua ecoando pelas ruas da Grande Vitória e reafirmando uma identidade construída a partir das periferias do Espírito Santo.

