O impacto de “Ainda Estou Aqui” destaca a necessidade de preservar a memória e buscar justiça em meio às tentativas de reescrever a história. Hannah Queiroz O sucesso do filme “Ainda estou aqui” transcende o cinema. É um reflexo de algo muito maior: a busca por reconhecimento, por identidade e por justiça histórica. Mesmo após quatro meses de seu lançamento, o impacto desse filme ainda está presente e marcante na memória dos brasileiros. No Brasil, o longa já arrecadou mais de R$ 25 milhões, e no exterior, atingiu US$ 8 milhões, o que demonstra a ressonância que sua mensagem teve em diferentes públicos. Não há indicação a Oscar que tenha mais valor do que o sentimento despertado ao assistir essa obra. Ela é sobre memória, cidadania e o dever de lembrar. E, mais do que isso, é sobre o direito de contar a nossa própria história, do nosso jeito. Nos últimos anos, o revisionismo histórico — processo em que eventos do passado são reinterpretados, muitas vezes com o objetivo de modificar a percepção coletiva sobre eles — tem ganhado força no país. Algumas lideranças políticas, por exemplo, passaram a defender a ditadura militar como um período de ordem e progresso, ignorando ou relativizando casos documentados de censura, tortura e perseguição a opositores. Discursos que exaltam o regime como uma “revolução” necessária ou que negam a existência de crimes cometidos pelo Estado ilustram essa tentativa de ressignificação da história. Assim que a obra estreou, redes sociais foram tomadas por reflexões, relatos e memórias da época. No TikTok, uma trend viralizou: filhos e netos de vítimas da ditadura compartilharam fotos, cartas e histórias de seus familiares que foram torturados e perseguidos. É como se o filme tivesse reacendido o debate sobre um passado que, apesar de não totalmente esquecido, vinha sendo pouco discutido. Outro reflexo inesperado foi a presença massiva de pessoas mais velhas nas salas de cinema. Com o crescimento das plataformas de streaming, muitos filmes nacionais enfrentam dificuldades para atrair o público às telonas, o que torna essa mobilização ainda mais significativa. Mas faz sentido. Para essa geração, a ditadura não é apenas um capítulo nos livros de história — é uma memória vivida. O filme se tornou um espaço de reencontro com o passado, uma forma de ressignificar experiências e reafirmar que aquilo que viveram, de fato, aconteceu. No fundo, Ainda Estou Aqui é um grito coletivo de um Brasil que se recusa a ser esquecido. Mais do que um evento isolado, essa movimentação sugere que há uma sede por histórias reais, por narrativas que não apenas entretenham, mas provoquem reflexões. A forma do cinema brasileiro, muitas vezes subestimado dentro do próprio país, se manifesta com potência quando histórias como essa encontram um público disposto a ouvir. O sucesso da obra nos lembra que o cinema nacional tem uma função que vai além do entretenimento: ele documenta, questiona e, acima de tudo, resiste. A comoção causada por Ainda Estou Aqui lembra o que aconteceu com Marighella, de Wagner Moura. Assim como o filme sobre o guerrilheiro sofreu boicotes e ataques antes mesmo de sua estreia, Ainda Estou Aqui também enfrentou críticas de figuras políticas que tentam reescrever a história. Assim como no passado houve tentativas de distorcer ou justificar os crimes cometidos durante a Ditadura, hoje esse revisionismo histórico se repete, mas, como no caso de Marighella, a reação do público tem sido uma poderosa forma de resistência. O que essas obras têm em comum, além do tema histórico, é a capacidade de transformar a experiência cinematográfica em um ato político. Não no sentido partidário, mas no sentido mais essencial da política: o direito à memória, à justiça e à verdade. O apagamento da história Se há algo que o sucesso desse filme escancara, é a dificuldade da sociedade brasileira de confrontar seu próprio passado. Quando uma nação não se esforça para compreender sua história, ela se torna mais suscetível a distorções, manipulações e até retrocessos. Mesmo após iniciativas como a Comissão da Verdade, sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2011, o debate sobre a Ditadura Militar segue fragmentado, e, nas redes sociais, é possível ver que muitos ainda preferem ignorar as marcas que esse período deixou. Essa falta de reconhecimento do passado se reflete não apenas na educação, mas também no cotidiano da sociedade brasileira, onde muitas vezes a memória da Ditadura Militar é apagada ou distorcida. Quando figuras públicas minimizam ou rejeitam filmes e produções que abordam esse período, como foi o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro, (que disse: “Nem vou perder meu tempo, tenho o que fazer. Conheço a história melhor do que eles”, elas) contribuem para manter essa negação. Além disso, o ex-ministro da Cultura do governo Bolsonaro, Mario Frias , também seguiu a mesma linha, classificando a obra como “manipulação comunista”. Esse tipo de discurso não é novo. Durante anos, figuras políticas alinhadas à extrema direita tentam transformar a Ditadura em um período “ordeiro”, em que “não houve corrupção” e “não se matou ninguém”. Mas “Ainda estou aqui” não precisa de ideologias para ter impacto. A vwwerdade, por si só, já é forte o suficiente. O revisionismo histórico, além de ofensivo às vítimas e seus familiares, tem um impacto real na sociedade. Quando um governo relativiza crimes do passado, ele abre caminho para que novas violações aconteçam no presente. Se o Estado não reconhece os erros cometidos contra seu próprio povo, como garantir que eles não se repitam? O caso de Rubens Paiva, embora sem esclarecimentos completos, tem mostrado avanços. A abertura de arquivos secretos e o reconhecimento de torturas e mortes são passos importantes, embora ainda insuficientes. Esses avanços, embora lentos, são essenciais para confrontar o passado e garantir que a justiça seja feita. A memória histórica não pode ser apagada por decreto, por discurso ou por revisionismo. Se há algo que esse filme prova, é que a história do Brasil não pode ser ignorada. E se ainda há quem tente fazer isso, o cinema, a arte e a cultura continuarão
Reflexo nas telas
Como as redes sociais afetam a autoestima de mulheres negras Ao rolar o feed de uma rede social, mulheres negras se deparam diariamente com imagens que perpetuam um padrão de beleza eurocêntrico. Cabelos lisos e peles claras continuam dominando as telas, enquanto traços afrodescendentes são apagados ou marginalizados. Apesar de avanços na representatividade, a sensação de não pertencimento ainda persiste. “Ver que as maiores influenciadoras raramente são negras faz com que eu me pergunte se existe espaço para nós”, reflete Ana Beatriz Nascimento, uma mulher negra. A falta de diversidade nas redes reflete estruturas históricas de exclusão, nas quais o padrão eurocêntrico continua a dominar não apenas os ideais estéticos, mas também a distribuição de voz e destaque, silenciando populações marginalizadas nesses espaços. Segundo um estudo da agência de influência digital BRUNCH, influenciadores brancos fecham 30% mais projetos do que influenciadores não brancos. Sendo assim, como as mulheres negras irão se sentir representadas na internet se as figuras públicas às quais elas deveriam se identificar não estão sendo postas em evidência? Para a psiquiatra e especialista em neurociência e relações étnico-raciais, Indira Pinto, a falta de representatividade faz com que mulheres tentem mudar características próprias para se aproximarem do padrão estético popular. “É muito comum a queixa de que ‘ainda não foi suficiente’ e ‘não tenho ainda o cabelo com a textura que eu imaginei que fosse ficar’, pontua. A estudante Vitória dos Reis, que também é uma mulher negra, teve a mesma experiência. Quando era criança, alisou o cabelo pela primeira vez para ir a um evento e percebeu uma mudança no comportamento das pessoas à sua volta. “Notei como as pessoas me achavam mais bonita”, lembra. Essa experiência, comum a muitas mulheres negras, demonstra como a busca por aceitação social pode levar à rejeição de traços naturais. Antigamente a falta de representatividade na relação das mulheres com a internet ocorria em um contexto onde o acesso às plataformas digitais era mais limitado e a interação com esses espaços, menos intensa. Essa exclusão da mulher negra, ainda que profundamente enraizada no racismo estrutural e nos padrões eurocêntricos de beleza, era mais fácil de evitar devido à menor imersão digital e à ausência de redes sociais capazes de amplificar discursos e imagens de maneira tão invasiva. “O racismo estava presente, sempre esteve, mas não era nomeado como tal”, ressalta Indira. Contudo, o avanço da tecnologia e a popularização das redes sociais tornaram quase impossível se manter afastada desse ambiente. A internet transformou-se em um espaço onde a luta por representatividade é inevitável, mas também repleto de desafios, já que discursos excludentes continuam em predominância mesmo em um cenário de maior conscientização e questionamento social. Uma pesquisa da UFRJ, realizada em 2023 por estudantes de Publicidade e Propaganda, revela que 90% de 519 mulheres entrevistadas se sentem desconfortáveis com as imagens perfeitas que veem no Instagram. O estudo expõe um problema que atravessa questões raciais e afeta mulheres de todas as cores. Isso sugere que o impacto dos padrões irreais de beleza promovidos pelas redes sociais é universal, criando um ambiente digital onde a pressão pela perfeição afeta a autoestima de forma ampla. No entanto, esse dado também levanta um questionamento: se mulheres de diferentes origens já se sentem desconfortáveis, como esse impacto pode ser ainda mais profundo para aquelas que enfrentam não apenas os padrões inatingíveis, mas também a exclusão representativa, como é o caso de mulheres negras? Essa reflexão ressalta a necessidade de se pensar em estratégias que promovam uma representatividade mais diversa e genuína, desafiando as narrativas de perfeição homogênea que dominam as plataformas digitais. As redes sociais, por terem a capacidade de amplificar discursos e criar comunidades, têm um papel ambivalente: ao mesmo tempo que perpetuam padrões de beleza excludentes, também podem ser um espaço de luta e afirmação identitária. “A valorização da beleza negra está em crescimento, mas ainda privilegia traços mais brancos. Estamos em processo, mas a luta é longa”, conclui Indira. Entre o scroll e o espelho, mulheres negras seguem refletindo sobre quem são e quem desejam ser. As redes, com todo o seu poder, ainda têm muito a caminhar para se tornarem espelhos reais da diversidade que existe fora das telas.
Canoagem inspira jovens e comunidades
Projeto oferece aulas gratuitas para jovens em situação de vulnerabilidade social Em um mundo onde oportunidades nem sempre são igualmente distribuídas, iniciativas que unem esporte e inclusão social ganham ainda mais relevância. O acesso às atividades esportivas vai além do lazer, promovendo disciplina, trabalho em equipe e esperança para crianças em situação de vulnerabilidade. É nesse contexto que surge o projeto Canoa Viva Vitória, que oferece aulas gratuitas de canoagem havaiana para crianças e adolescentes, transformando a vida de jovens ao introduzi-los a um esporte que carrega tradição e valores culturais. A ideia pôde se tornar realidade a partir da Lei de Incentivo ao Esporte (LIE), do Governo Federal, por intermédio do Instituto Maratonas. As aulas acontecem semanalmente na Praia da Guarderia, em Vitória, para a faixa etária de 11 a 16 anos. “Procuramos um nicho para projeto social que ainda não existia para crianças e adolescentes”, diz Marcio Junqueira, coordenador do Canoa Viva Vitória. Das vagas ofertadas, 75% são para jovens em situação de vulnerabilidade social, que podem se inscrever pelo Instituto João XXIII (no Bairro de Lourdes), pelo Secri (na comunidade São Benedito), e pela Obra Nossa Senhora das Graças (na Avenida Vitória). Os outros 25% das vagas ficam abertas para o público geral, com inscrição através de um formulário online. O programa busca oferecer às comunidades em situação de vulnerabilidade social acesso a um esporte que é tradicionalmente caro e praticado, em sua maioria, por adultos. De acordo com Marcio, isso amplia os horizontes das crianças. “Muitas delas nunca tinham saído das comunidades onde vivem, como jovens de São Benedito e Jaburu”, conta. O coordenador do projeto afirma que os benefícios da canoa havaiana para os jovens são inúmeros. Além da disciplina para não perder aulas e para aprender, o esporte estimula o trabalho em equipe. “A canoa tem 12 lugares e cada um deles representa uma função. Ninguém rema sozinho, tudo é feito em equipe e isso é muito importante”, comenta. Segundo os professores Martin Sousa e Luciene Siccherino, do curso de pós-graduação em Educação Infantil da Universidade Cruzeiro do Sul, “as interações promovidas pelas experiências sociais, permitem a aprendizagem de habilidades e conteúdos, bem como a formação de valores éticos necessários no desenvolvimento moral do ser humano”. Nesse sentido, o esporte inspira compromisso e amadurecimento aos jovens, dando aos mesmos experiências que os ajudarão na vida adulta. Por outro lado, os desafios vão além do financeiro. “A gente teve algumas aulas canceladas devido ao tráfico de drogas em algumas comunidades. Por exemplo, a polícia subiu para matar o traficante e fechou a comunidade. Isso gera um impacto de dois dias de aula na semana”, comenta Marcio. Com isso, a equipe percebeu a necessidade de um amadurecimento para lidar com as questões sociais, passando assim a ser considerada a entrada de assistentes sociais no projeto. Mesmo com dificuldades, o Canoa Viva Vitória continua crescendo e conquistando reconhecimento. Recentemente, foi indicado na categoria de ‘Melhor Projeto Socioesportivo do Ano’ pelo Instituto Américo Buaiz. Além disso, já estão sendo estruturadas novas iniciativas, como aulas de natação na piscina, capoeira, judô, natação no mar e beach tennis. Para sustentar a iniciativa, foram firmadas parcerias com fabricantes de equipamentos e lojas de esportes, além da Federação de Va’a do Espírito Santo e das Associações de Moradores das Comunidades.