Praia do futuro ⭐⭐⭐⭐⭐ O novo álbum do Baianasystem vem carregado de ritmo, com uma pegada de Olodum, e conta com participações incríveis, como Anitta e Seu Jorge. Mas a música que se destaca, para mim, é “Praia do Futuro”, uma homenagem à famosa praia de Fortaleza. Envolvente, ela convida o ouvinte a cantar junto, e é difícil resistir a esse convite. Em alguns momentos, parece que a canção vai chegar ao fim, mas é aí que ela explode, trazendo ainda mais alegria. Sorte de quem tiver a chance de dançar e cantar ao som dessa música no Navio Pirata, em Salvador. Isadora Lima A jornada – águas mais profundas Gênero: romance ⭐⭐⭐⭐⭐ É difícil imaginar que um padre ousaria escrever um livro de romance. A obra retrata histórias plurais e pensamentos diversos que conduzem humanidade ao longo da vida. O enredo apresenta um grupo formado por diferentes jovens que, por algum motivo, acabam aceitando participar da Jornada Mundial da Juventude que ocorre em um lugar sensível do mundo. Os dilemas que surgem ao longo da viagem intimam o leitor a refletir sobre suas próprias escolhas em uma sociedade que oferta tantos caminhos: crer ou não crer? Ler ou não ler? A escolha é sua! O autor do livro, Padre Anderson Gomes, que atua na Arquidiocese de Vitória, propõe uma jornada diferente aos que se arriscam a trilhar os caminhos da fé. História sensacional! Ghenis Carlos Conclave (2024) Gênero: Thriller/Mistério⭐⭐⭐⭐⭐ A indicação de “Melhor Filme” ao Oscar não foi à toa. Conclave é aquele tipo de filme que te prende, com uma trama cheia de surpresas. A fotografia de Edward Berger é impecável, com enquadramentos que fazem a gente se sentir dentro da história. Mas o grande destaque é, sem dúvidas, os discursos feitos pelo cardeal Lawrence, interpretado por Ralph Fiennes. São os momentos mais intensos e impactantes do filme, trazendo uma carga emocional incrível. Sem dúvida, uma das melhores obras do ano. Hannah Queiroz
Dengue avança apesar da distribuição de vacinas
Com mais de 281 mil casos em menos de dois meses e R$ 1,5 bi investidos em medidas de controle, a arbovirose mais temida do país não parece ceder Alice Raimondi Em 2024, o Brasil registrou um aumento de 400% nos casos de dengue em comparação ao ano anterior, totalizando 6,6 milhões de casos prováveis e mais de 6 mil mortes. Apesar da gravidade, 2025 não trouxe campanhas de vacinação em massa, deixando o país vulnerável a novas crises. A vacina do Instituto Butantan, prometida para ampla distribuição, só chega em 2026. Enquanto isso, os primeiros meses de 2025 já somam 281 mil casos e 98 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde. O custo econômico também é preocupante. O estudo conduzido pela pesquisadora Josely Marchi Chiarella do Instituto Butantan estimou que a dengue custe ao país mais de US$ 1,2 bilhão anualmente, considerando gastos médicos e despesas indiretas relacionadas ao tratamento de complicações graves. Para o ciclo de 2024 e 2025, o Governo Federal destinou R$ 1,5 bi para ações de controle da dengue e outras arboviroses. Além disso, foram distribuídos 6,5 milhões de testes rápidos inéditos para o diagnóstico em todos os estados do país. Embora essencial para o monitoramento da disseminação da doença, os testes não são amplamente solicitados nos serviços públicos de saúde. A professora Isabela Piva, que contraiu a doença em abril de 2023, testemunha que os testes rápidos são pouco usados nos postos de saúde: “Não sei exatamente qual tipo de dengue eu peguei […], não me foi pedido o exame”. Atualmente, apenas o imunizante Qdenga, do laboratório Takeda, está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), restrito a adolescentes entre 10 e 14 anos. Mesmo assim, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) anunciou que somente metade das doses distribuídas pelo Ministério da Saúde para estados e municípios foi aplicada. O retorno para a tomada da segunda dose também é baixo, prejudicando o desempenho da vacina. Segundo levantamento feito pelo Correio Braziliense, o Espírito Santo ficou no terceiro lugar das unidades federativas com maior número de faltantes da segunda dose. Das 174 mil pessoas da faixa etária de 10 a 14 anos, apenas 72 mil tomaram a primeira dose e pouco mais de 20% desses jovens completaram o esquema vacinal. Para a bióloga do Centro de Vigilância em Saúde Ambiental de Vitória (CVSA), Lívia Marini, o baixo interesse pela vacinação é uma das sequelas deixadas pela pandemia de Covid-19. “O movimento antivacina, que se fortaleceu nos últimos anos, colaborou negativamente para a baixa adesão das vacinas contra a dengue […] Por conta disso, algumas pessoas acreditam que as vacinas não funcionam ou que causam efeitos adversos”, aponta Marini. A desinformação é a maior culpada pela hesitação vacinal. Segundo o Massachusetts Institute of Technology, o potencial de viralização de fake news é 70% maior do que o de notícias verdadeiras. Enquanto uma postagem verdadeira alcança em média 1 mil pessoas, uma falsa pode atingir entre 1 mil a 100 mil usuários. Atrelada ao movimento antivacina, as fake news sobre os imunizantes intensificam a queda na cobertura vacinal do país. A dificuldade nacional de realizar campanhas de vacinação bem-sucedidas reflete desafios estruturais. Entretanto, a hesitação vacinal não é uma realidade só do Brasil. De acordo com dados publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a cobertura mundial de imunização infantil estagnou em 2023, causando surtos de sarampo e de outras doenças de fácil combate a partir das vacinas. Mais de 2,7 milhões de crianças foram deixadas sem vacinação ou com vacinação insuficiente em comparação com os níveis pré-pandêmicos em 2019. Na ausência de vacinas para toda a população, o governo prioriza campanhas educativas e o combate ao mosquito causador da dengue. Ações como o “Dia D” de eliminação de focos e parcerias com escolas para conscientização infantil são as estratégias favoritas para engajar a população. Embora válidas, essas medidas são paliativas e estão cada vez mais insuficientes: “As pessoas acreditam que os criadouros estão na casa do vizinho, e deixam de fazer a vistoria em suas casas […] As campanhas de conscientização precisam se reinventar: precisamos de uma comunicação que envolva as comunidades”, argumenta a bióloga do CVSA. Países como Uruguai e Singapura trouxeram soluções inovadoras como a criação de um aplicativo de monitoramento de criadouros de mosquito e multas rigorosas aos cidadãos que tiverem em suas casas água parada com ovos do mosquito. Em contrapartida, o Brasil repete as mesmas táticas das décadas de 1960 e 1970. A dengue se torna, assim, um teste de resiliência para o país. Seu combate eficaz demanda não apenas ciência, mas também cooperação social e reinvenção política — elementos que, hoje, parecem tão escassos quanto as doses de vacina. O que são arboviroses? As arboviroses são doenças causadas por vírus transmitidos por artrópodes como mosquitos e carrapatos. Estas patologias incluem a febre-amarela, zika, chikungunya, dengue e oropouche, todas com potencial para causar surtos epidêmicos. A oropouche, por sua vez, está avançando no Espírito Santo, que concentra 99% dos casos no país. As arboviroses e as mudanças climáticas: O aquecimento global e fenômenos climáticos como o El Niño são catalisadores dos surtos de arboviroses. Temperaturas elevadas e chuvas irregulares criam ambientes ideais para a reprodução de vetores como o Aedes aegypti. Entre 2022 e 2024, o Brasil enfrentou três epidemias consecutivas, correlacionadas a padrões climáticos extremos. A urbanização desordenada também contribui. O acúmulo de lixo nas cidades e a falta de saneamento básico multiplicam os criadouros. Dengue chegou até o Japão: Mesmo sendo doenças de países tropicais e subtropicais, as arboviroses estão expandindo seu alcance geográfico. Com o aumento global das temperaturas, mosquitos como o Aedes aegypti podem se estabelecer em regiões que antes eram consideradas seguras por serem mais frias e, assim, menos favoráveis à reprodução do vetor da dengue. Em 2014, o Japão sofreu um surto de dengue, com mais de 150 casos suspeitos de serem infecções domésticas em Tóquio e em outras áreas, segundo a prefeitura de Sendai. A propagação da doença foi feita pelo Aedes
O primeiro país nas nuvens
A luta contra o tempo para preservar a identidade e soberania de Tuvalu diante do avanço do mar O que acontece com um país sem terra? O que parece ser uma pergunta sobre uma realidade distante é, na verdade, um dilema que o Estado de Tuvalu enfrenta atualmente. Localizado no meio do Oceano Pacífico, o arquipélago de nove ilhas e pouco mais de 11 mil habitantes e menos de 26 km² de território, está entre os países mais ameaçados pelo aumento do nível do mar causado pelas mudanças climáticas. A previsão é de que em menos de 25 anos metade de Funafuti, a capital que concentra a maior parte da população, ficará submersa. Com uma elevação média de apenas dois metros acima do nível do mar, Tuvalu busca uma solução inovadora para preservar sua identidade, cultura e soberania: a migração para o metaverso. A proposta de migração digital faz parte do “Future Now Project”, que prepara os tuvaluanos para o pior cenário dos efeitos da crise climática. O slogan do projeto “Preparar-se hoje para garantir o amanhã” resume a mensagem que o país busca passar para os líderes globais – em especial aos países com maior pegada de carbono – de que é preciso um maior comprometimento com a redução da emissão dos gases do efeito estufa. O governo de Tuvalu entende que embora as consequências do aquecimento global afetem todos os países, seus efeitos são desiguais. Por conta disso, o projeto tuvaluano consiste em três frentes. A primeira é a promoção dos valores culturais tuvaluanos, com o objetivo de engajar outras nações na luta contra as mudanças climáticas. As outras duas frentes são mais pragmáticas, focadas, respectivamente, na definição de medidas jurídicas que assegurem a soberania de Tuvalu; e a criação de uma nação virtual a partir de um sistema administrativo digital. Esta última também abrange a preservação de documentos históricos, registros culturais e outros materiais valiosos, como textos, imagens e conteúdos multimídia, garantindo sua proteção contra desastres induzidos pelo clima. Hoje, praticamente todas as nações já têm serviços digitais. Para o professor de segurança da informação Gilberto Sudré, a migração digital não é uma questão completamente surpreendente: “Se a gente pensar, por exemplo, no próprio Brasil, praticamente tudo do governo federal é através do Gov.br. Os próprios cidadãos exigem isso, para ter uma resposta rápida dos serviços governamentais. Não é uma questão nova, nesse caso.” Embora a ideia de “tornar-se digital” não seja exclusividade de Tuvalu, já representa um marco significativo, uma vez que vincula essa estratégia diretamente à mobilidade climática, tornando sua experiência pioneira em um contexto de adaptação e sobrevivência. O conceito de mobilidade climática diz sobre o deslocamento de pessoas e cargas causado por eventos climáticos extremos, como o aumento do nível do mar, ondas de calor, queimadas ou inundações. Segundo o ESG Insights, empresa de informação e análises ambientais, sociais e de governança, nas últimas duas décadas, pelo menos 8 milhões de brasileiros migraram por causa de enchentes, incêndios florestais, secas ou o aumento do nível do mar. Não há leis que impeçam De acordo com a coordenadora de relações internacionais da Faculdade de Direito de Vitória, Elda Bussinguer, não há nada, do ponto de vista normativo, que delimite a constituição de Estado como indissociável à existência de um território físico: “Tudo (a jurisdição) está por se constituir”. No entanto, a professora reconhece que seria necessário uma grande força política para movimentar as resoluções internacionais: “Se o contexto de Tuvalu estivesse acontecendo com alguns países maiores, de maior influência política, isso certamente já estaria resolvido”. A constituição de Tuvalu já foi alterada para se adaptar à situação extrema que enfrentam. A emenda declara que o Estado de Tuvalu, dentro de seu marco histórico, cultural e legal, permanecerá no futuro, mesmo que os impactos das mudanças climáticas ou outras causas resultem na perda de seu território físico. Seguindo a segunda frente do “Future Now Project”, Tuvalu também formalizou sua soberania digital em acordos com outros países, tendo assinado agora 12 comunicados conjuntos com as Bahamas, Ilhas Cook, Gabão, República do Kosovo, Ilhas Marshall, Niue, Palau, São Cristóvão e Nevis, Santa Lúcia, Taiwan, Vanuatu e Venezuela. Além disso, as 18 nações do Fórum das Ilhas do Pacífico pronunciaram coletivamente que sua soberania e independência continuarão apesar do avanço do nível do mar, elevando o total atual de países que reconhecem legalmente a soberania digital de Tuvalu para 25. Desse modo, a nação insular encontra um cenário jurídico internacional mais flexível, que começa a questionar a necessidade de um território físico como fundamento de soberania. Contudo, essa mesma abertura não se aplica a outras situações, como as lutas pela soberania de povos como os palestinos e os curdos. Apesar de reivindicarem identidade cultural, histórica e política próprias, esses povos enfrentam barreiras geopolíticas no reconhecimento de seus Estados. Se o conceito de soberania está se desvinculando da existência de um território fixo, as possibilidades de reconhecimento deveriam ser também ampliadas para esses grupos. Luta contra o negacionismo Na visão de Luiz Fernando Schettino, membro titular do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), para além da proporcionalidade das forças políticas, a questão de Tuvalu é uma luta contra o negacionismo: “Não se quer acreditar que isso é um fato e não se está trabalhando na velocidade que deveria. (…) Tuvalu é apenas a ponta do iceberg daquilo que virá”. Sua visão vai ao encontro da opinião da pós-doutora em oceanografia ambiental Kyssyane Oliveira, que acredita que a comunidade científica está “pegando leve” na hora de divulgar o que realmente está acontecendo. Atualmente, a taxa média global do aumento do nível do mar é de 4,5 milímetros por ano, segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). No Oceano Pacífico, as taxas de elevação estão acima da média global, com cerca de 5 milímetros por ano, embora variem em algumas áreas devido a fatores locais. O fato de Tuvalu ser uma ilha com menos de 26 km² torna mais perceptível a perda de território pelo avanço marinho do que