Violência política contra mulheres persiste e ganha novos contornos no ambiente digital

Pesquisa de doutorado da Ufes analisa relatos de deputadas federais capixabas entre 1980 e 2025 e revela como o gênero continua sendo um fator de exclusão e silenciamento nos espaços de poder

Apesar dos avanços na participação feminina na política brasileira, a violência política de gênero continua sendo um dos principais obstáculos para a atuação das mulheres nos espaços de poder. É o que revela a pesquisa de doutorado desenvolvida por Stéphane Figueiredo Ferreira, doutoranda em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), no Grupo de Pesquisa Estudos críticos de discurso, que investiga a percepção sobre violência política contra mulheres a partir dos relatos de deputadas federais capixabas que exerceram mandato entre 1980 e 2025.

A pesquisa busca compreender como os dispositivos de gênero atravessam as trajetórias das parlamentares e influenciam seu protagonismo político. Até o momento, cinco das nove deputadas e ex-deputadas federais do Espírito Santo foram entrevistadas. Segundo Stéphane, embora as formas de violência tenham mudado ao longo das décadas, muitos dos mecanismos de exclusão permanecem presentes.

“Nas décadas de 1980 e 1990, a discriminação, o silenciamento e determinadas piadas eram muito naturalizados. Muitas vezes nem eram reconhecidos como violência”, explica. Atualmente, a pesquisadora observa que o cenário político passou a conviver com novas dinâmicas impulsionadas pelo ambiente digital, ampliando tanto a visibilidade das mulheres, quanto os ataques direcionados a elas.

Invisibilidade institucional

Ao longo da história política capixaba, apenas dez mulheres ocuparam uma cadeira na Câmara dos Deputados. A primeira delas foi Myrthes Bevilacqua, pioneira da representação feminina no estado, que faleceu em 2025. Os relatos coletados pela pesquisadora revelam que a exclusão das mulheres nem sempre ocorre por meio de ataques explícitos. Muitas vezes ela está presente nas
estruturas institucionais e nos símbolos que organizam o poder político.

Uma das entrevistadas, que também exerceu mandato como senadora, relatou que, durante seu período no Congresso Nacional, não existia banheiro feminino no plenário, fato que revela uma realidade muito mais desafiadora do que o público imagina. “O que significa não haver um banheiro feminino naquele local? Significa dizer que aquele espaço é pensado historicamente para os homens”, observa Stéphane.

Outra parlamentar relatou ter vivenciado ofensas veladas durante sua trajetória política e presenciado situações em que colegas mulheres foram publicamente desqualificadas e ofendidas em função do gênero. Para a pesquisadora, episódios como esses configuram formas de violência simbólica e psicológica, pois reforçam a ideia de que as mulheres seriam ocupantes “impróprias” ou “temporárias” de espaços tradicionalmente masculinos.

A exigência de provar competência

Entre os relatos coletados, um aspecto aparece de forma recorrente: a necessidade de provar constantemente que têm capacidade e legitimidade para exercer funções políticas. As entrevistadas recordam situações vividas principalmente no início dos mandatos, quando enfrentaram tentativas de silenciamento em comissões, questionamentos sobre suas competências e resistência à sua
participação em debates importantes.

Além dos desafios institucionais, muitas delas relatam o peso da dupla ou tripla jornada. Equilibrar a atuação parlamentar com responsabilidades familiares e domésticas foi apontado como uma dificuldade constante, especialmente em períodos históricos nos quais essas questões sequer eram discutidas publicamente. “Ser esposa, mãe e parlamentar ao mesmo tempo era um desafio enorme, mas isso não era tematizado como acontece hoje”, destaca a pesquisadora.

Mesmo diante das dificuldades, as parlamentares desenvolveram estratégias de enfrentamento que passam pelo posicionamento firme, pela construção de redes de apoio e pelo trabalho contínuo. “Todas elas relatam uma postura de luta, de debate e de muito trabalho. Elas não se paralisaram diante da violência nem desistiram da política”, afirma.

Quando a violência política migra para o ambiente digital

Se nas décadas passadas a violência ocorria principalmente dentro das instituições, hoje ela também encontra nas redes sociais, um espaço privilegiado de circulação. A pesquisa aponta que a expansão das plataformas digitais transformou a comunicação política, permitindo que campanhas, discursos e ações parlamentares alcancem milhares de pessoas em poucos segundos.

Entretanto, esse mesmo ambiente facilita a disseminação da desinformação, dos ataques pessoais e de discursos de ódio. Segundo Stéphane, as pesquisas sobre o tema indicam que as violências políticas contra mulheres nas plataformas digitais costumam assumir contornos marcados pela misoginia e pelo sexismo.

Um dos exemplos mais conhecidos ocorreu durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2015, quando adesivos que sexualizavam sua imagem foram amplamente distribuídos e compartilhados nas redes sociais.

“Hoje temos um ecossistema de comunicação sem limites geográficos, onde mensagens circulam rapidamente e podem ser reproduzidas por milhares de pessoas. Isso amplia também o alcance da violência”, explica.

Representatividade feminina ainda é desafio

Embora as mulheres representem a maioria do eleitorado brasileiro e existam mecanismos legais para incentivar candidaturas femininas desde a década de 1990, a participação delas nos espaços de poder continua aquém da representatividade populacional. Para a pesquisadora, a violência política desempenha papel importante nesse cenário. “O que a literatura mostra é que a violência política enfraquece e intimida as mulheres a atuarem nas esferas de poder”, afirma.

Ela defende que o enfrentamento do problema exige mais do que legislação, pois é necessário garantir condições efetivas para que mulheres possam disputar eleições, exercer mandatos e ocupar posições de liderança sem serem alvo de campanhas de desqualificação ou ataques relacionados à vida privada. Para Stéphane, a mudança passa também pela educação e pela construção da autonomia feminina.

“As mulheres precisam ser incentivadas a desenvolver independência financeira, emocional e psicológica para ocupar espaços de liderança e servir de referência para as próximas gerações”, avalia Stephane Figueiredo.

Espírito Santo reflete desafios nacionais

Embora a pesquisa tenha como foco o Espírito Santo, a pesquisadora acredita que muitos dos fenômenos observados dialogam com a realidade brasileira. Ela ressalta que o país vive um período de forte polarização política, intensificado principalmente a partir das eleições de 2018.

Para Stéphane, o confronto de ideias é fundamental para a democracia, mas a radicalização excessiva pode favorecer ambientes hostis e ampliar episódios de violência política. Ela destaca que o Espírito Santo possui características próprias, sendo frequentemente identificado por estudos políticos como um estado de perfil conservador, o que influencia as dinâmicas locais de participação e representação.

DEPUTADAS FEDERAIS CAPIXABAS

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O que diz a Lei nº 14.192/2021?

Sancionada em agosto de 2021, a Lei nº 14.192 representa um marco no combate à violência política contra as mulheres no Brasil. A legislação estabelece normas para prevenir, reprimir e combater práticas que impeçam ou dificultem a participação feminina na política, além de tipificar o crime de violência política de gênero.

A lei considera violência política toda ação, conduta ou omissão que tenha como objetivo impedir, restringir ou dificultar os direitos políticos das mulheres em razão de seu sexo, gênero ou raça. As punições incluem multa, detenção e outras sanções previstas na legislação eleitoral.

Segundo Stéphane, embora a norma seja recente, ela já apresenta resultados concretos. Um exemplo citado pela pesquisadora foi a condenação do deputado federal Gilvan da Federal (PL) por ofensas dirigidas à então vereadora de Vitória Camila Valadão (Psol), que foi chamada de ‘assassina de bebês’ e ‘satanista’, além de sofrer constrangimento público por usar uma blusa que deixava um dos ombros à mostra. Esse caso resultou em penalidades previstas pela legislação e repercutiu nacionalmente.

Para especialistas, a lei representa um avanço importante porque reconhece que ataques dirigidos às mulheres em razão do gênero não configuram apenas conflitos políticos comuns, mas formas específicas de violência que ameaçam a igualdade de participação e o próprio funcionamento da democracia.