Diariamente, pacientes dependem de transfusões sanguíneas e como o sangue não pode ser fabricado artificialmente, a doação voluntária é a única forma de manter os estoques abastecidos
Júlia de Almeida
O Centro Estadual de Hemoterapia e Hematologia Marcos Daniel Santos (Hemoes) alerta para o estoque crítico de sangue nos últimos dias. Isso significa que há risco de faltar sangue para cirurgias, tratamentos de câncer e atendimentos de urgência e emergência, podendo levar à suspensão de procedimentos eletivos. A situação representa um desafio para as autoridades sanitárias justamente em junho, mês da campanha nacional Junho Vermelho, que busca conscientizar a população sobre a importância da doação voluntária de sangue.
Os dados mais recentes do Hemoes mostram que alguns dos tipos sanguíneos mais utilizados estão com estoque muito abaixo do ideal. O sangue B negativo apresenta o cenário mais preocupante, com apenas uma bolsa disponível, quando o recomendado é manter pelo menos oito. Já o O negativo, considerado doador universal e fundamental em situações de emergência, possui apenas sete bolsas em estoque, diante de uma necessidade mínima de 24. O tipo A negativo também preocupa, com sete bolsas disponíveis para um estoque ideal de 24.

Segundo o Hemoes, se cada pessoa saudável doasse sangue espontaneamente pelo menos duas vezes ao ano, os hemocentros teriam hemocomponentes suficientes para atender toda a população. Além de ser um gesto de solidariedade, a doação é considerada segura e não provoca prejuízos à saúde do doador.

Para a hematologista e hemoterapeuta do grupo Pulsa Espírito Santo, Claudia Stein, a baixa adesão dos doadores tem consequências diretas para quem depende de transfusões. “O banco de sangue está com estoque crítico. Cirurgias estão sendo suspensas e pessoas em tratamento oncológico ou que sofreram acidentes estão sendo afetadas pelo estoque baixo”, alerta.
Segundo a especialista, uma única doação pode fazer a diferença para vários pacientes. Isso porque, após a coleta, o sangue é fracionado em diferentes componentes, como hemácias, plasma, plaquetas e crioprecipitado, utilizados em tratamentos distintos. “Uma única doação de sangue pode ajudar até quatro pessoas diferentes”, explica.
Além da necessidade de ampliar o número de doadores, Claudia destaca que ainda existe muita desinformação sobre quem pode doar sangue. “Nem todas as doenças impedem a doação. Por isso realizamos uma triagem clínica. Todo doador passa por uma entrevista sobre suas condições de saúde para que seja avaliado se está apto ou não para doar”, afirma.
Ela ressalta que os requisitos básicos são simples: estar em boas condições de saúde, pesar mais de 50 quilos e não apresentar condições clínicas ou fazer uso de medicamentos que impeçam temporária ou definitivamente a doação.
Outro obstáculo, segundo a médica, são os mitos que cercam o procedimento. “Os mitos causam desinformação e muitos doadores são perdidos por causa deles. O mais importante hoje é levar informação verdadeira e de qualidade para a população. A doação de sangue salva vidas”, destaca.
A especialista lembra ainda que a doação pode se tornar um hábito regular. Homens podem doar a cada dois meses, respeitando o limite de quatro doações por ano. Já as mulheres podem doar até três vezes por ano, com intervalo mínimo de 90 dias entre as doações.
“O nosso sonho neste Junho Vermelho é evitar que os estoques cheguem a níveis críticos. Se todos ajudassem um pouco, nunca passaríamos por situações tão difíceis”, afirma Claudia.
Conscientização nem sempre vira ação

Apesar das campanhas anuais de incentivo, a mobilização da população continua sendo um desafio. Para o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e especialista em Comunicação e Saúde, Rafael Paes, a relação entre conscientização e mudança de comportamento é mais complexa do que parece.
“Tudo o que diz respeito à dimensão humana é mais complexo. As campanhas podem ser muito bem feitas, mas existem outras mediações que influenciam a decisão das pessoas, como familiares, líderes religiosos, convicções pessoais e fatores emocionais”, explica.
Segundo ele, a pandemia de Covid-19 evidenciou o impacto da desinformação sobre temas relacionados à saúde pública. “A desinformação gerou hesitação vacinal, baixa adesão à doação de órgãos e outros problemas já identificados por pesquisas. A pandemia foi um divisor de águas para o campo da comunicação e saúde”, afirma.
Paes observa que as redes sociais ampliaram esse cenário ao aproximar o público de influenciadores que muitas vezes são percebidos como fontes mais confiáveis do que instituições tradicionais. “As redes sociais criaram uma sensação de comunicação horizontal, feita por pessoas comuns. Isso faz com que muitas pessoas confiem mais em influenciadores do que em fontes técnicas ou científicas”, analisa.
Para o pesquisador, o combate à desinformação e o fortalecimento da confiança nas informações científicas são fundamentais para aumentar a adesão da população a práticas que beneficiam toda a sociedade, como a doação de sangue.
Serviço: como funciona a doação de sangue?
Na doação convencional, são coletados entre 400 e 470 mililitros de sangue por meio da inserção de uma agulha em um dos braços do doador.

Todo o procedimento é realizado por profissionais capacitados, em ambiente limpo, confortável e com utilização de materiais estéreis e descartáveis, garantindo a segurança de quem doa.
O processo completo, que inclui cadastro, pré-triagem, triagem clínica e coleta, dura cerca de 60 minutos.
Importante saber:
- O sangue não pode ser produzido artificialmente;
- A quantidade coletada não ultrapassa 10% do volume de sangue em circulação no corpo;
- O organismo repõe rapidamente o volume doado;
- A doação não vicia e não engrossa o sangue;
- O doador só volta a doar se desejar;
- Uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas.

