Mercado de plantas raras transforma paixão em oportunidade de negócio

Criada durante a pandemia, a Folharum transformou o cultivo de espécies ornamentais em um empreendimento online que atende colecionadores de todo o Brasil e ajuda a financiar pesquisas científicas

Um negócio especializado em plantas raras, que financia descobertas científicas, nasceu por meio de um hobby durante a pandemia. O empresário e pesquisador Alexandre Magno (28) criou a loja online Folharum a partir de uma foto que viralizou nas redes sociais, chamando a atenção de colecionadores por conter uma espécie botânica rara e originária do Espírito Santo.

Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Alexandre começou a cultivar plantas ornamentais durante a pandemia, inicialmente com o objetivo de decoração. Enquanto buscava opções para deixar o ambiente mais “acolhedor”, o interesse pelas plantas cresceu rapidamente o aproximou das aráceas—família botânica com mais de 4 mil espécies conhecidas pela folhagem exuberante e pela fácil adaptação em ambientes internos. A curiosidade o levou a ter contato com produtores e colecionadores desse nicho.

As redes sociais foram a porta de entrada dele para os negócios. Após a repercussão de uma publicação com a espécie capixaba, pessoas de diferentes estados passaram a ver em Alexandre uma forma de adquirir os exemplares raros dessas plantas.

“Era um processo de curadoria de espécies por meio desses pequenos produtores no estado. Eu comprava elas e revendia para pessoas de fora [do Espírito Santo] que não tinham acesso a essas espécies. Comecei de maneira informal, apenas buscando essas plantas e revendendo, só que foi tomando uma escala tão grande que eu precisei formalizar isso através da criação do MEI”, explica o vendedor.

A nova demanda revelou um nicho de mercado pouco explorado especializada na comercialização de espécies raras para colecionadores e horticultores.

A estrutura da loja é centralizada em Alexandre, responsável por todas as etapas do negócio. Ele seleciona e fotografa as espécies que serão adicionadas ao catálogo online, mantém contato direto com produtores (a maioria localizada na região serrana do Espírito Santo) e conduz a captação de clientes, o atendimento e o envio das plantas para compradores de todo o Brasil.

Mercado raro em expansão

Segundo o empreendedor, o diferencial da Folharum está justamente na especialização. “As plantas que estão na minha loja, normalmente, não são encontradas em floriculturas comuns. Muitas vezes eu trabalho com um único exemplar de determinada espécie. É um mercado muito específico, voltado para pessoas que valorizam a raridade”, explica.

O modelo de atuação de Magno acompanha uma transformação maior no mercado ornamental brasileiro. Dados do Polo Sebrae Agro apontam que o setor de flores e plantas ornamentais cresceu cerca de 15% entre 2020 e 2021, alcançando o faturamento de R$10,9 bilhões. O avanço foi impulsionado, principalmente, pela expansão das vendas digitais e pelo aumento do consumo doméstico durante a pandemia.

Fontes: Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor) e Polo Sebrae Agro.
*Infográfico gerado pela IA NotebookLM

Nesse cenário, a internet se tornou peça central para a expansão da Folharum. O Instagram funciona como principal vitrine da empresa e concentra tanto a divulgação das espécies quanto o relacionamento com clientes. Segundo o analista de negócios do Sebrae ES, Jarbas da Vitória Junior, as redes sociais transformaram a forma de vender ao aproximar produtos e consumidores por meio dos algoritmos das plataformas. “Hoje, o produto encontra o consumidor antes mesmo de ele saber que precisa”, destaca. Segundo ele, curtidas, comentários e avaliações funcionam como provas sociais que fortalecem a confiança do público e ajudam a impulsionar as vendas online.

Sob a ótica do consumidor, de acordo com o analista, as vendas online oferecem mais comodidade e autonomia no processo de compra, já que permitem adquirir produtos de qualquer lugar e a qualquer momento, sem depender de deslocamentos ou horários comerciais. O ambiente digital também facilita a comparação de preços, o acesso a uma ampla variedade de opções e a consulta de avaliações feitas por outros consumidores, tornando a experiência mais prática e segura.

Para o colecionador, Thiago Sotero, o modelo digital viabiliza o acesso a plantas de nicho, que as floriculturas não comercializam. “Os envios, por correios ou por avião, tornam a experiência muito prática e fácil de pedir. Como é um nicho pequeno, você não consegue encontrar essas plantas com facilidade. Além disso, as entregas dele [Alexandre] são bem cuidadosas, já pude acompanhar a forma como ele as prepara e realiza o envio e chega sempre bem bacana, muito bem condicionado”, relata.

O colecionador e cliente frequente da Folharum, Thiago Sotero, prioriza as espécies Anthurium e Philodendron em sua coleção. Foto: Acervo pessoal

Além da seleção das plantas, Alexandre desenvolveu um processo logístico específico para garantir a qualidade das entregas. As espécies passam por limpeza completa das raízes, cuidado com as folhas e são embaladas cuidadosamente para suportar viagens de até sete dias sem comprometer sua integridade.

Ciência impulsionada pelo mercado

O conhecimento técnico adquirido no mercado também despertou um novo caminho profissional. O amor pela área foi responsável por trazer Alexandre de volta ao mundo acadêmico, dessa vez, com pesquisas sobre taxonomia botânica. Atualmente, é mestrando na Escola Nacional de Botânica Tropical vinculada ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Segundo ele, a experiência no empreendedorismo revelou um problema recorrente no setor. Enquanto pesquisadores normalmente concentram estudos em unidades de conservação, produtores e colecionadores frequentemente têm acesso a propriedades privadas onde espécies ainda desconhecidas pela ciência podem ser encontradas.

Minha intenção sempre foi aproximar esses dois universos. Muitas vezes colecionadores trabalham com plantas que ainda não foram descritas cientificamente. Quando existe diálogo entre pesquisa e mercado, as possibilidades de descoberta aumentam muito”, afirma Alexandre Magno.

Com o crescimento da empresa, a própria Folharum passou a financiar grande parte das expedições e pesquisas de campo do mestrado. O lucro obtido com a venda ajuda a custear viagens, visitas técnicas, coleta de material botânico e estudos voltados à flora brasileira, fortalecendo a conexão entre empreendedorismo e a pesquisa.

Em 2024, durante expedições na região serrana do Espírito Santo, Alexandre participou da identificação de uma nova espécie, a Philodendron quartziticola. A descoberta reforça o potencial científico das suas vendas e a necessidade de preservação ambiental.

Philodendron quartziticola Magno & Sakur. sp. nov.
A Philodendron spiritus-sancti está ameaçada de extinção, nativa da região serrana do Espírito Santo

A espécie já é considerada ameaçada devido ao avanço de monoculturas e à abertura de estradas na região onde foi encontrada. Para o pesquisador e empreendedor, o crescimento do mercado de plantas raras precisa caminhar junto com responsabilidade ambiental. “Retirar espécies endêmicas da mata é crime ambiental. A conservação precisa vir antes da exploração comercial. É isso que impede que o interesse por plantas raras estimule a coleta ilegal”, ressalta.

A trajetória da Folharum mostra como nichos altamente especializados podem se transformar em oportunidades sustentáveis de negócio. Em vez de competir em escala com grandes varejistas, a empresa apostou em curadoria, conhecimento técnico e conexão direta com um público específico.

Ao unir empreendedorismo e ciência, Alexandre construiu um modelo de negócio que vai além da comercialização de plantas. A empresa se tornou também uma ferramenta de incentivo à pesquisa e valorização da biodiversidade brasileira, gerando inovação e impacto econômico ao mesmo tempo.

Assista à reportagem completa:

Paixão por plantas raras gera negócio e financia pesquisa científica