Estudos apontam dificuldades impostas durante o homeoffice

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A pandemia do COVID-19 forçou diversos setores produtivos a se adaptarem a uma nova conjuntura. Trabalhadores, que antes tinham suas rotinas produtivas em formato presencial, se viram forçados a trabalharem de maneira remota durante a quarentena. Um estudo realizado pelo Grupo Estudo Trabalho e Sociedade (GETS) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em parceria com a Rede de Monitoramento Interdisciplinar da Reforma Trabalhista (Remir), apontou um aumento significativo na carga horária dos trabalhadores e home office, bem como a dificuldade de conciliar o tempo de trabalho com as tarefas domésticas.

A pesquisa, publicada em julho de 2020, mostra que 34% dos respondentes trabalham mais de oito horas diárias, e para 49% o ritmo do trabalho em condições remotas está mais acelerado. A falta de ergonomia – ciência que estuda as relações do homem com as condições de trabalho – durante a jornada de trabalho  também foi algo expresso no estudo, 57,06% citaram não ter um local de trabalho confortável para realização da rotina remota

Para Luci Praun, professora da Universidade Federal do Acre (UFAC) e pesquisadora do Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e Suas Metamorfoses (Unicamp), os dados expressam uma realidade que já era comum para alguns setores de trabalho. “Executar atividades laborais de casa não é uma novidade, é algo antigo e feito por setores mais pauperizados da classe trabalhadora, é comum encontrar em regiões fabris, por exemplo, famílias inteiras que trabalham na costura de peças ou tirando rebarba de peças, é um tipo de trabalho muito precarizado”, explica.

Mudanças no mundo do trabalho

Praun ressalta que a pandemia exacerba um processo que já vinha acontecendo anteriormente e inclui no formato trabalho a distância uma nova leva de trabalhadores. “É importante lembrar que a regularização do teletrabalho ocorre na chamada reforma trabalhista de 2017. O trabalho realizado em ambientes domiciliares é engrossado pela pandemia. As políticas de distanciamento social criaram uma condição favorável à expansão do trabalho remoto, também viabilizado pelo avanço das tecnologias digitais. Um segmento de trabalhadores com algum acesso à infraestrutura passou a conseguir desenvolver o trabalho por meio digital. Esse movimento é anterior a pandemia, a exemplo da expansão da educação a distância, mas intensificou-se nos últimos dois anos”, exemplifica a professora.

José Luiz (nome fictício) tem 45 anos e é analista de dados. A empresa em que trabalha, durante a pandemia adotou o teletrabalho como forma de contornar o isolamento social e garantir o funcionamento das atividades laborais. Luiz, depois de um ano trabalhando a distância e sem contato físico com os demais colegas, conta que adoeceu. “A carga de trabalho aumentou. Eu passei a receber demandas não só pelo email oficial que eu usava, mas também por aplicativos de mensagens, como Whatsapp e Telegram”. 

Luiz diz que se sentia intimidado em não responder as mensagens que chegavam pelo telefone durante os momentos de folga. “Comecei a perder momentos de lazer. O telefone tocava ou chegava alguma mensagem e eu me sentia na obrigação de atender ou responder na hora. A pressão para bater as metas aumentaram e isso me fez ter muito medo de ser demitido”, lamenta Luiz. O profissional contou para a reportagem que hoje faz acompanhamento com uma psicóloga e se consultou com um psiquiatra durante a pandemia. “Foi difícil lidar com os problemas de casa e o estresse do trabalho ao mesmo tempo. Acabei desenvolvendo um quadro de depressão e ainda estou aprendendo como lidar com tudo isso”.

O relato de Luiz vai ao encontro do que afirma a pesquisadora Luci Praun. “Os danos que essa rotina pode causar são muitos. A possibilidade de separação entre descanso e trabalho foi rompida. Além da sobrecarga de trabalho e o desgaste físico e mental, temos questões materiais como a própria falta de condições ergonômicas adequadas, como uma mesa e uma cadeira que sejam confortáveis.

Mulheres são mais impactadas

A pesquisa divulgada pelo GETS ressalta também a particularidade que o trabalho remoto teve na vida das mulheres, sendo elas as mais impactadas pela sobrecarga da rotina laboral.

Cláudia Maria (nome fictício) é mãe de dois filhos, um 10 e outro de 15 anos, e trabalha como assessora de comunicação de uma multinacional instalada na região metropolitana de Vitória. A profissional conta que durante o home office teve que aprender a lidar com a divisão de tempo entre a vida profissional e a vida familiar. “Foi difícil lidar com essa relação de exercer meu trabalho de casa e ao mesmo tempo ter que dar conta de tarefas domésticas. Eu estava trabalhando no computador, mas ao mesmo tempo meus filhos estavam em casa e eu tinha que fazer a comida e deixar tudo pronto”, diz Maria.

Para a professora Praun, a casa era concebida como um lugar que não se misturava com trabalho e essa nova realidade sobrepõe atividade remunerada e trabalho doméstico. “Para mulheres então temos uma questão particular que é o trabalho doméstico e reprodutivo não remunerado. Você está no computador mas tem seus filhos em volta correndo. Tinha que dar conta do almoço e diversas outras atividades domésticas, tudo no mesmo momento e na mesma hora”, explica Praun.

Cláudia Maria, que já voltou ao trabalho de forma presencial, diz que não se adaptou ao trabalho remoto. “Não quero jamais ter que repetir a experiência. A sobrecarga de trabalho aumentou muito durante o período do isolamento e eu passei a ver minha casa como um escritório, não mais como um local que eu poderia descansar e conviver com minha família.

Praun destaca ainda o impacto do isolamento social no sentido do não convívio entre os profissionais de uma empresa. “O trabalho é uma atividade que se faz na relação com o outro. O isolamento não recompõe essa parte, o convívio no local de trabalho, almoçar junto, criar pausas nesse intermédio”. 

Para a pesquisadora, o deslocamento do trabalho remunerado para o ambiente domiciliar afeta tanto a relação com o tempo de dedicação ao trabalho como incide nos processos de socialização necessários à preservação da  saúde mental. “A socialização no ambiente de trabalho é fonte de laços solidários e coletivos, que são fundamentais inclusive para resistir à exploração do trabalho”, ressalta.

Veio pra ficar?

Ainda que seja comum encontrar reportagens que afirmam que o home office veio para ficar, Praun não acredita que a tendência das empresas seja manter os profissionais em sua totalidade trabalhando de casa. “Jogar toda a atividade laboral dentro de casa também gera problemas para o funcionamento do capitalismo, interferindo em atividades diferentes econômicas, a exemplo de restaurantes localizados em áreas com muitas empresas. Além disso, interfere nas formas de controle e pressão sobre o trabalho

A professora acredita que a tendência será o formato híbrido. “Parte da equipe fica nos locais de trabalho e outro setor realiza o trabalho de forma remota, ainda que a gente enxergue que uma parcela importante vai passar a ser feita a distância, não acredito numa migração completa do trabalho”.

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