Dois anos de pandemia: os efeitos do distanciamento em crianças e jovens

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“Meu filho começou a apresentar algumas dificuldades de administrar seus medos e a ansiedade aumentou bastante, sendo necessário colocá-lo na terapia”, conta a empresária Suelem Tesch, mãe de Pedro, de oito anos. 

A pandemia chegou causando mudanças na vida. Com as privações e perdas, a saúde mental se tornou prioridade e fonte de debates ao longo dos últimos dois anos. Entre os que mais sofreram com o distanciamento e as medidas de proteção recomendadas durante esse período estão as crianças, os adolescentes e os jovens, que tiveram suas rotinas mudadas drasticamente em uma fase em que a socialização é imprescindível. 

Para a criança, a pandemia o fez se sentir entediado. Com a redução das restrições e a chegada da vacina para as crianças, o retorno à sala de aula foi considerado um alívio e ajudou na melhora do seu aprendizado. 

“Eu fiquei com tédio e um pouco triste porque fiquei longe dos meus amigos. Mas agora quando vou pra escola é bem melhor e presto mais atenção na professora”, relembra Pedro, aliviado com a volta à rotina.

Queixas

Além das dificuldades envolvendo ansiedade e tédio, a mãe de Pedro percebeu que essas queixas trouxeram uma mudança na alimentação e no sono do filho, que começou a ter dificuldade para dormir e passou a usar os alimentos como distração, tendo um ganho considerável de peso.

“Houveram mudanças devido ao nível de ansiedade e ele começou a comer uma maior variedade de alimentos, mas como uma forma de distração. Quanto ao sono, o horário de dormir foi de 22h para 00h e ele passou a apresentar algumas perturbações noturnas, como pesadelos e medo da morte”, relembra a mãe de Pedro. 

Sobre os terrores noturnos e medo da morte, a psicóloga Beatriz Miled acredita que possa ter relação direta com a pandemia. “Devido ao cenário de muitas mortes, as crianças começaram a ter mais proximidade com o assunto e isso pode ter despertado a sensação de medo nelas”, conta.

Devido às grandes mudanças e adaptações feitas na pandemia, a psicóloga conta que a procura por terapia para crianças aumentou durante esse período. Entre os pais, as queixas eram quase sempre as mesmas. O tédio por ficar em casa longe dos amigos, maior irritabilidade por ficar em um ambiente por tanto tempo e introversão, causada pelo distanciamento da vida social são algumas delas

“Não surgiram relatos de medo de contrair o vírus ou algo do tipo, mas sim questões mais comuns que poderiam passar despercebidas antes”, observa Beatriz. 

Bateria Social

Mesmo sendo considerado um grupo mais maduro emocionalmente, os impactos do período de reclusão também abalaram consideravelmente os jovens. “Eu era muito mais social antes do que sou agora. Mesmo depois da flexibilização das medidas de segurança, minha “bateria social” acaba muito mais rápido. Socializar parece custoso”, desabafa a estudante de jornalismo Maeli Rhayra, de 22 anos. 

A universitária, assim como Pedro, passou pela experiência do ensino remoto e se engana quem acha que para os mais adultos foi fácil se adaptar às novas experiências. “Eu sinto que os últimos dois anos, academicamente falando, foram um borrão. Os debates em sala de aula não ocorriam da melhor forma. A perda de experiência com os laboratórios feitos de forma remota fez muita diferença”, conta Maeli, prestes a apresentar o trabalho de conclusão de curso remotamente. 

Com 84,7% da população vacinada pelo menos com a primeira dose, segundo pesquisa da Our World In Data,  Maeli argumenta que, ainda não é o momento de deixar as medidas de prevenção de lado e, por isso, toma todos os cuidados necessários ao sair de casa. “Eu ainda uso máscara pff2 bem ajustada ao rosto em todos os lugares que vou, mesmo os abertos. Não socializo com pessoas que sei que estão com sintomas e evito ir a lugares cheios e com aglomeração”, conta. 

A volta

Aos poucos, a vida também tem voltado ao normal na família de Suelem, principalmente por conta de seus filhos. “Hoje frequentamos parques e restaurantes com amigos. Após a vacina sentimos mais segurança e avaliamos que os prejuízos afetivos e emocionais seriam maiores caso continuássemos com tantas restrições. Em especial para o desenvolvimento das crianças”, afirma. 

Para ela, a preocupação com a ressocialização é em dobro, já que seu filho mais novo, de três anos, praticamente nasceu na pandemia. 

“Por conta das medidas de distanciamento, o Benício não teve festa de aniversário, não foi para a creche e não tem contato com muitas crianças da idade dele. Isso me preocupa, mas estamos caminhando para melhorar essas condições”, desabafa a mãe. 

Crianças da pandemia

Benício não é o único caso de “crianças da pandemia”. Existe uma diferença entre as queixas dos pequenos que nasceram antes e durante a pandemia. “Muitas crianças que nasceram na pandemia não passaram por experiências sociais em meio à família e outras crianças. Por não ter tido essas experiências, ela terá que aprender a viver no mundo como conhecíamos antes, pois até agora o mundo dela era sua casa”, enfatiza a psicóloga.

Para Miled, as queixas apresentadas por crianças que nasceram antes da pandemia, criadas para sair são diferentes das queixas vindas de crianças que desde o nascimento não foram inseridas na sociedade. “[Não ter tido contato com o ‘mundo exterior’] É uma situação diferente de uma criança que está irritada porque agora não pode sair de casa, nem brincar lá fora com os amigos”, conta Beatriz. 

O cenário pandêmico revelou a necessidade de um cuidado maior com a saúde mental desses grupos, que podem sofrer consequências a longo prazo. Para Beatriz, a terapia é um ponto de apoio em meio a tantas transformações. 

“A terapia é uma esperança de melhora, tanto para nós adultos como para as crianças. E ela pode ajudar as pessoas a lidarem melhor com todos os tipos de consequências trazidas pela pandemia e se torna uma oportunidade de convivência”, acrescenta. 

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